Os Lestics e Os Folhetins da Vida

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Durante anos, tentei fazer com que a banda folk Lestics entrasse numa novela do Silvio de Abreu da Rede Globo. Ele pedia dicas para determinados personagens que criava para seus folhetins. Deve ter uns 3 discos dos Lestics de formações diferentes. Não tinha a intenção de vender a banda ao sucesso ou coisa assim, apenas gostaria que mais pessoas conhecessem as letras e melodias de uma banda que possui uma qualidade ímpar em sua obra. Que bom seria que mais pessoas a conhecessem…

Conheci a banda no meio da década passada quando era Olavo (voz), Umberto (violão e Piano), Patu (baixo), Felipe (batera) e o Lirinha (guitarra). Como amigo do Lirinha, fui apresentado à banda. Era um simples ensaio no Nimbus, mas as suas musicas já me chamaram a atenção, principalmente, Plano de Fuga, com seu baixo Mccartiano e sua letra que diz que nem tudo esteja perdido. Sim, eu também acho que nem tudo esta perdido.

Olavo e Patu ainda continuam na banda. Fui a um show, recentemente, onde tocaram as canções de seu sétimo álbum ainda não lançado. Eles tocaram em um lugar chamado Casa Do Elefante. Este lugar vende DVDs, LPS e alguns livros. Um tipo de lugar que está se tornando comum na cidade de São Paulo – lugar pequeno com boa musica e as pessoas interessada pela musica que é tocada pela banda. E o Lestics fez seu show, como sempre honesto e poeticamente singelo.

Uma vez em um festival de Folk nos anos 2000, organizado por meu amigo Pedro Gama, enchi a paciência do Olavo após o show para tocar minha musica da banda predileta O Rio. Ele e sua esposa estavam visivelmente irritados comigo e com toda razão, me presentearam cantando à capela a letra abaixo:

O rio me leva a Lisboa
O rio me leva a Paris
O rio me leva pro mar
mas antes me traz aqui

Ele corre escada acima
Ele inunda a casa inteira
Ele cai pela janela
e se faz de cachoeira

Cheguei a tocar com alguns membros do Lestics. O excelente baterista Pio Parts e o multi instrumentista Primo. Músicos de primeira e pessoas que passaram poucas e boas comigo. Pio Partes saiu recentemente da banda, gravou o álbum Seis da banda e partiu. O Primo teve rápida passagem na banda, mas de vez em quando conversamos sobre o assunto.

Seu álbum seis possui participação especial do grande Bocato em Entre Caracas e Paramaribo. Destaco a sublime Um jeito especial de dar errado, que foi até trilha de relacionamento deste que vos escreve. E acredite todo mundo se identifica com a frase que diz que a gente não foi feito para dar certo, mas encontrou um jeito especial de dar errado.

Quando os Beatles acabaram, perguntaram a para Mick Jagger qual era melhor banda que existe ( todos esperando que agora ele ia dizer que era os Stones) ele disse que era a banda que toca no bar da esquina de sua casa. Concordo com Mick Jagger por isso vi tantos shows de inúmeras bandas com um publico pequeno e às vezes desinteressado, mas vi a verdade, a beleza e o mistério que somente a musica pode transmitir. Mick Jagger os Lestics é uma dessas bandas, aquelas que são a melhor que existe.

Guilherme Inhesta é alguém que olha para a direita e para a esquerda do tempo, John Cale numa banda que só toca Velvet Underground e estudante de Arte Contemporânea.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espanha Em Mim e Em Toda Parte

São Paulo esta tendo seus dias de Espanha:  o filme Julieta de Almodóvar está em cartaz, a exposição Valise Mexicana com fotos de Robert Capa sobre a guerra civil Espanhola ocorre na Caixa Cultural e ainda a exposição de Pablo Picasso “Mão Erudita, Olho Selvagem” fica no Instituto Tomie Ohtake até 14 de agosto.

Impossível não querer ir ao cinema para assistir um dos mais importantes diretores da atualidade. Pedro Almodóvar possui uma obra cinematográfica importante e pessoal com altos e baixos. Julieta está no “alto”, com certeza, a historia de uma mãe lidando com o desaparecimento voluntario de sua filha é envolvente. Almodóvar é um dos mestres do drama, Douglas Sirk com certeza o chamaria de um excelente discípulo. Mas vale a pena citar que existe algo a mais que Sirk no cinema de Almodóvar e é a Espanha. Em suas ações e reações características de uma cultura com sangue latino. Ir ao cinema também é sentir um sonho em outro idioma.

Na exposição Valise Mexicana na Caixa cultural no centro de São Paulo, encontra-se um dos maiores fotógrafos de todos os tempos o Sr. Robert Capa, junto a ele temos fotos de Gerda Taro e David Seymour. A Guerra Civil na Espanha na década de 30 foi responsável por mais de 40.000 mortes. A raça humana às vezes me decepciona. Mas a coragem dos jovens fotógrafos é também um feito de nossos pares. As fotos em geral são feitas em batalhas nas cidades, em campos, ateliês e até mesmo em igrejas. A guerra chega para tudo e para todos. Existe uma opção politica dos fotógrafos e suas fotos transmitem, além da paixão por aquele oficio sendo criado por eles. Existe também na exposição um “certo” Hemingway que aparece em uma bela foto.

Ele é um dos maiores (o maior?) artistas do século passado, Pablo Picasso está no Thomie Othake. A exposição conta com mais de 100 peças do artista, inclusive com uma sala muito boa com o tema da Guernica. Recomendo a canção a Pequena Guernica dos Lestics ( Minha próxima crônica será sobre eles, grande banda ). Picasso foi um artista que colocou tudo em sua obra família, desejos, medos, amigos e tentações. O quadro O Homem Com Chapéu é um exemplo da genialidade de Picasso. Ele fez um quadro daquele com apenas 14 anos. Picasso dizia ser fã de Dom Quixote, assim como este que escreve entendemos um pouco mais de nos mesmos ao ler as aventuras do Cavaleiro da Triste Figura, talvez esteja em Cervantes uma grande influencia de Picasso.

A metrópole tem seus inúmeros defeitos, impossível que um crescimento tão acelerado como o que aconteceu em São Paulo não traga problemas de diferentes formas e maneiras. Mas a Espanha está conosco e se mostra em sua cultura neste semestre na nossa cidade. Faço destas pequenas e singelas palavras meu convite a você conhecer não só as mostras, filmes e fotos, mas sim nossa cidade que é também ela em grande parte também espanhola.

Guilherme Inhesta é descendente de espanhóis, corintiano, respeitador da sinalização, músico, intrigado pelos acasos e acima de tudo apreciador da cerveja que irei lançar chamada Com Moderação.

BRT Literário e as Cotidianices de Renata Andrade

As cotidianices tem sido negligenciadas aqui no blog. Faz tempo tenho preocupado-me com temas “superiores” que concernem às grandes questões existenciais e acabei deixando de lado os personagens e causos do dia-a-dia que foram o motivo inicial do espaço.

Atentei-me ao fato acompanhando a Renata Andrade, que tornou-se, ou sempre foi, uma verdadeira mestra no assunto. Está certo que a favor dela tem o BRT, um meio de transporte que inaugurou uma nova dimensão de cotidianices e que supera o metrô em São Paulo em enredos e narrativas.  Mas há de se reconhecer que a dita cuja tem um olhar apurado para o ditame.   Seu blog no Medium, ou mesmo seu perfil no Facebook, oferecem causos deliciosos e divertidos com um humor que é próprio de quem reconhece que a vida é apenas este exercício de ir, vir, voltar e observar o que acontece no meio do caminho.

A cronista apresenta situações como o ladrão que superou recordes olímpicos e seguramente estaria no mais alto lugar do pódio se não estivesse mais preocupado em tomar o celular de algum motorista distraído. Ou mesmo contando algumas de suas mancadas, fazendo o humor sofisticado do clown, que faz de si mesmo o sujeito do riso. Tudo isso e muito mais está a um clique de distância.

A carioquice ajuda, e muito. Há de se reconhecer que esta sisudez paulistana,  que gera mais silêncios que diálogos, atrapalha. A correria entre uma estação e outra parece uma tentativa de suprimir o tempo, e o tempo é a principal matéria-prima das histórias. Mas toda esta argumentação trata-se de um sofisticado mecanismo de autodefesa para tentar justificar-me ter deixado de lado o cotidiano. Trata-se na verdade da perda do olhar clínico, destreino talvez, ou ainda um certo enclausuramento que guarda para si as histórias que outrora deitavam-se na superfície do texto.

Porém reconhecer a grande literatura, nem que seja nas pequenices do dia-a-dia,  sempre nos faz melhores escritores. Afinal, esta é a grande vantagem da arte. Não existe narrativa maior ou menor em absoluto, existe sim um despertar de sentimentos que se projeta no apreciador. E a hierarquia existente na arte flutua conforme este despertar constante, fazendo ora uns maiores, ora outros. E mesmo esta hierarquia comporta tantas diversidades que possivelmente não se detém em números, como nos esportes que a vitória é a única baliza,  mas em intensidades, como as diferentes frequências que um sentido é capaz de assimilar.

Sendo assim, perdoo a minha negligência com o cotidiano, talvez fruto de uma destilação para algo diferente, e saboreio as palavras desta escritora que recorda-me a todo instante como a realidade é cheia de enredos fantásticos e, ao mesmo tempo, triviais. Valeu Renata!

Bogado Lins é escritor, roteirista e apreciador da boa literatura cotidiana

“O que é roubar um banco comparado a fundar um?”

Essa bela pergunta vem bem a calhar, ela faz parte de A ópera dos três vinténs de Brecht que em 1928 já realizara qual a instituição que mais lucra sobre a população no sistema em que vivemos. Mas mais legal foi a cena em que essa frase me veio à cabeça.

Estava passeando com minha salsicha – uma cadelinha de 13 anos… – como todos os dias, como um típico cidadão de bem, e enquanto ela se aliviava em uma praça me chamou a atenção uma movimentação. Deviam ser umas 9 horas da noite. Por entre as árvores fiquei observando, dois moleques, duas bicicletas no chão e eles com sede e discrição na direção de seu alvo. Meu primeiro impulso foi me esconder. Fugir talvez. Apenas estanquei. Observando a uma distância que me pareceu segura e que mantivesse minha imagem obscura.

Resolvi sair da cena a passos curtos, em silêncio, na medida que as quatro patinhas permitiam. Os garotos perceberam a minha movimentação. A praça é triangular na confluência de duas ruas, a um quarteirão de meu prédio. Do outro lado da rua em que estavam, há uma padaria, mas a entrada e saída dão para uma outra rua de modo que o movimento no trecho em que agiam era raro. Não havia ninguém além de nós, só o breu. Enquanto me afastava pela minha rua, os dois se mancaram e me observaram. De canto de olho fiquei naquela tensão, celular na mão dentro do bolso, corro? chamo a polícia?

Não.

Foi aí, nesse ponto que Brecht invadiu meu pensamento. Até parei na parede da primeira casa adjacente à praça para continuar vendo a ação dos meninos. Como já haviam julgado que eu estivesse ausente, continuaram com um instrumento de ferro nas mãos. Vez ou outra olhavam para todas as direções. Atacavam com pressa uma bicicleta daquelas estações de aluguel patrocinada por uma grande rede bancária. Eles não pareciam saber como retirar as peças que queriam da bicicleta. Era nítido aquilo misto de medo e prazer que sentiam.

Não posso negar, eu me vi naquela situação há uns 20 anos quando quebrei o garfo de uma bicicleta que não era minha. Sem dinheiro, eu e dois amigos decidimos trocar pelo garfo da bicicleta mais abandonada do bicicletário do prédio deles. A crosta de pó e poeira acumuladas fizeram a gente pensar que a bike era vermelha como a que quebrei, fato que facilitaria a camuflagem da substituição. O duro era fazer tudo isso com a magrela pendurada. Levamos umas duas horas.

No meio do processo ficávamos revezando a tocaia, olhando para todos os lados, naquele misto de medo e prazer. Sorte aquele tempo não ser comum câmeras de monitoramento… No fim, quando limpamos, vimos que era azul marinho, tentamos sujar o garfo vermelho para disfarçar, ficou uma merda. Nunca soube o que aconteceu, se o dono descobriu.

Voltando à praça, fiquei me perguntando, para que chamar a polícia? “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, não é mesmo? De mais a mais, sabia o que os meninos estavam sentindo. Seria hipócrita da minha parte querer “fazer justiça”, ainda mais para defender um banco. No fim das contas, os meninos foram mais justos que eu fora, pelo menos estavam roubando de quem tinha muito, de sobra e que não sentiria a falta.

Voltei para casa pensando: nessa vida quem é ladrão mesmo?

 

 

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, pai de família cujo passado… 

Existe “Interior” em São Paulo

Ao contrário de muitos migrantes da capital, sou de uma cidade que se considera urbana. Nós, cariocas, talvez pela corte perdida, sempre nos consideramos algum tipo de exemplo de urbanidade do Brasil. E, de fato, a densidade de edificações carioca as vezes assusta, principalmente quando se está longe dos horizontes que descansam o olhar. Por isso, ao chegar a São Paulo, estranhei estes recônditos interiores que se escondem entre um bairro e outro. Em um destes bairros, que localizei logo em minha chegada, quedei-me até hoje: Aclimação.

O primeiro motivo que me assentou foi o motivo mais óbvio, tinha cá para mim que precisava instalar-me próximo a um parque, afinal isto seria o mais próximo de uma praia que eu teria em terras paulistanas. E o Parque da Aclimação cumpria este papel muito bem. Mas descobriria, na verdade concomitantemente, que o bairro me reservava muito mais que uma área verde.

Algo que me chamou a atenção, eram as casas e palacetes que se distribuíam nas ruas que se cruzavam por entre o labirinto das descidas e subidas do bairro. Era simplesmente incrível que um bairro ao lado do Centro e da Paulista pudesse permanecer bucólico mesmo com uma vizinhança tão agitada. Algo inimaginável até para um carioca. Mas o fato é que esta era apenas uma das peculiaridades deste recanto.

Incrustado entre Liberdade, Cambuci, Paraíso e Vila Mariana, Aclimação ainda é um bairro de vendinhas e quitandas que oferecem produtos pitorescos e um estilo de vida que está cada vez mais escasso. Aqui na rua Muniz de Souza, por exemplo, tem uma avícola, um comércio que vende exclusivamente frangos e galinhas inteiros ou em partes, além de ovos. O gosto, perdoem-me os veganos, é fresco e tem sabor de granja. Na mesma Muniz de Souza tem o mercado de grãos da Dona Laura, onde descobrimos que o arroz integral tem um sabor particular especial por conta de uns pedaços vermelhos crocantes. Quando cheguei a São Paulo, ainda tinha os pães da Padaria Fluminense que, segundo falava-se, eram feitos ainda em fornos à lenha na época. Hoje, sem dúvida, não mais, mas se você seguir toda vida rumo ao Cambuci, entre os haitianos e africanos que se acotovelam nos bares para ver o final da Champions League, vai encontrar uma das padarias italianas mais antigas do bairro.

Na Maracaí, até pouco tempo, tinha uma loja de fantasia que deu lugar a um hub de crossfit. Não confunda com a loja de apetrechos carnavalescos que chega gente do Brasil inteiro, Rio incluso, para adquirir peças para enfeitar o carnaval do país afora. Entrando pela  Liberdade, após passar os comércios e serviços populares de frete, marceneiros, estofadistas e profissões liberais de todo o tipo, chega-se a lojas de artigos japoneses variados, incluso uma livraria na Galvão Bueno com livros exclusivamente das línguas do oriente.

Os botecos são um capítulo à parte, um deles, o Juriti, oferece petiscos dos mais diversos para acompanhamento da velha e boa cerveja gelada, além das tradicionais batidas. Pode-se escolher entre degustar uma rã, uma codorna ou frutos do mar variados, incluso ostras vindas do Litoral Norte. Na outra ponta do bairro, pode-se degustar uma costela na preguiça do domingo no bar da Safira de uma senhora. O bar é tão exclusivo que sequer apareceu no Google na minha pesquisa.  Há também os mais ou menos chiques, mas estes há em toda a parte, não é verdade?

Mas saindo do fora do comum, há também o comércio regular que, a bem da verdade, está cada vez mais escasso nas ruas da cidade, escondendo-se cada vez mais em Shoppings. Na Lins de Vasconcelos as lojas se distribuem ao longo da avenida e oferece um pouco de tudo, de brinquedos, roupas, chocolates às inúmeras opções de comida. Incluso o Yokoyama, que é o mais próximo do tradicional pastel de feira que você encontrará em uma loja formal.  A própria Aclimação também tem suas opções, além do Hirota que é o mercado que oferece sortimentos orientais típicos do bairro, misturados às necessidades triviais do dia-a-dia.

Porém, toda esta sensação de vida de interior não estaria completa se não acordasse todos os dias com os passarinhos cantando em um clima bucólico numa casa em uma esquina de uma rua sem saída e com quebra-molas (é mais “interiorano” que “lombada”) e pensando que, sim, existe “interior” em São Paulo, em plena capital.

Bogado Lins é escritor, roteirista e um interiorano nato

Palavreado

Acho incrível a origem das palavras, como elas chegaram a algum dia a despertar em alguém o que atualmente causam. “Incrível”, por exemplo, vem do crer, algo que simplesmente não se pode acreditar. Inacreditável, enfim.

As pessoas, sem dúvida, teriam mais em conta a palavra “decorar” se soubessem que a origem dela vem do coração. Sim, porque o “cor” no meio, perdido ali, vem do termo em latim que significa este órgão que mantém a vida pulsando. Em outras palavras, significa ter o conteúdo no coração. A origem é semelhante  ás palavras acordar, cordial, recordar e mesmo coragem, que nada mais é que, um derivativo de coraticum, uma “ação do coração”.Alguém,  porém, “entusiasmado” talvez esteja ainda além de alguém corajoso, afinal “está possuído por deus”, já que teo, em grego significava Deus, o que aliás pontua teologia, teogonia e outros tantos teos por aí, incluso o nome.

Mas nem sempre há muita nobreza nesta origem. Lembrando das aulas de história da minha sexta série, até hoje recordo de um professor de história que para explicar algumas das técnicas de punição da Idade Moderna, lembrava que o termo “enfezado” vem da época, quando se colocava pequenos ladrões e baderneiros de primeira viagem em um barril de fezes em praça pública. Sem dúvida, a pessoa saia de lá “enfezada”. A tortura também nomeou a palavra “trabalho”, que deriva da palavra tripalium, um instrumento de tortura de três estacas de madeira onde a pessoa era estendida, semelhante a uma cruz.

A história também age na fabricação das palavras. Cesariana é associada a Julio Cesar, que supostamente teria nascido desta primeira operação na história. Os meses e os planetas, são nomes provindos de imperadores e Deuses : Jano, Februs, Marte,Aprilis, Julio, Augusto, Vênus, Jupiter e assim sucessivamente.

A “Igreja”, que nada mais é que um ajuntamento de pessoas, oferece “seminários”, que, ironias à parte, provêm de semente, ou mais precisamente, “sêmen”. Talvez uma mera coincidência para um péssimo hábito que perdura à séculos. Aliás, esta mania de utilizar termos sexuais é recorrente, abacate, por exemplo, é o termo asteca para testículos, talvez por lembrarem bolas gigantes. O mesmo se aplica as belas orquídeas, porém, provindo do grego, do termo “Orchis”.

Algumas origens de palavras também fazem pensar sobre  questões mais complexas, tal como Mario Sergio Cortella bem lembrou, idiota tem a mesma raiz de identidade, ou ID, ou seja, alguém que se fecha em si mesmo e apenas cuida dos próprios interesses. Já político, vem de polis, como era nomeado as cidades na Grécia antiga, ou mais precisamente quem participava da vida da polis. Sim, de alguma forma, é uma boa pista para se pensar que a sociedade realmente precisa de um pensamento global.

Da mesma forma, problema, antes de vir de algo “problemático”, vem justamente de pró, frente, mais Ballein, se pôr à frente. Ou seja, encarar um problema, colocar sua cara à frente do problema, é, em suma, estar à frente dos demais. Da mesma forma, colocar à prova, que também se origina de “probo” significa algo “honesto”.

Saber a origem(origo, nascimento), nem sempre quer dizer algo extraordinário ou mesmo possua algum tipo de essência eterna(do latim, ato de ser), verdade (aletheia do grego, não oculto), mas pode servir para nos nortear no caminho para saber porque as palavras despertam sentimentos diversos, as vezes óbvios, e outras nem tanto.

Mas tem palavras que parecem que são eco eterno de si mesmas, amar vem do latim, e significa exatamente isso: amar. Assim como mãe, e que é por assim dizer, a “matriz” de tudo. Palavras tão naturais que conectam ou “religam” o homem à sua natureza, como a religião, graças a Deus, o “Ser Supremo”, ou mesmo a própria “natureza”, o nascimento de tudo.

Bogado Lins é escritor, roteirista e filósofo(amante do conhecimento) de tempos em tempos.

Como ver como cego comover

 

 E se de repente você ficasse cego? Isso mesmo, você leitor, do nada, um piscar de olhos, e nada, só a escuridão? É difícil imaginar? Feche os olhos. Vamos, feche só por uns instantes… Ok, não há como fechar os olhos e ler este texto, ao menos, não dessa forma. Não, não se trata de um texto sobre Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, nem sobre o filme Dançando no escuro de Lars Von Trier.

 Será que somos privilegiados pelo sentido da visão ou somos escravos dele? Quanto somos dependentes? Talvez sejamos deficientes táteis, olfativos, auditivos… Será que aquilo que comemos teria o mesmo sabor se não víssemos? Não dá para imaginar isso sem ficar com medo. Aliás vencer esse medo e mergulhar na escuridão é de trata este texto.

 A exposição Diálogos no escuro, lançada na Alemanha em 1989, chegou ao Brasil e está em cartaz no Centro de Cultura Judaica, porém “exposição” ou “cartaz” não são as palavras certas, não encaixam bem. Talvez experiência, mas é mais que isso. É uma vivência! É colocar-se no lugar do outro. Mais ainda, é enxergar com o ponto de vista do outro, ou, melhor dizendo, não enxergar. Essa é a maravilha: sentir na pele e diante dos olhos a escuridão, como é a vida de um deficiente visual. Por 45 minutos, podemos realizar a cegueira, a vida de quem dorme e acorda na escuridão.

 É difícil, é uma experiência tocante, vencer o “medo do escuro” é complicado, há pessoas que refugam, que se descontrolam. Quem vence os instantes iniciais certamente passa por uma transformação: “ver como cego”. Diálogos no escuro é uma experiência dialética consigo mesmo, não é simplesmente visitar uma instalação em um museu. É sentir uma instalação durante uma visita a um museu, degusta-la com todos os sentidos exceto a visão. Perder o senso espacial, guiar-se pelo toque, seguir o som, provar um gosto diferente e vislumbrar a escuridão com alegria. É desmitificar a visão e viver, além dela.

 Descobrir como somos frágeis, deficientes em todos os sentidos e dependentes principalmente da visão. Como se passássemos a entender a fala da personagem de Bjork, Selma, no filme Dançando no escuro, quando diz: “Eu já vi tudo, eu já vi até a escuridão”. É descer o degrau dos olhos que veem e enxergar de peito aberto com um cego. Sim, quem guia o passeio são pessoas “ditas” deficientes visuais que não nos fazem sentir diminuídos por se deslocarem com mais desenvoltura na escuridão, ao contrário, fazem com que nós nos embrenhemos no nosso momento dialético de se colocar na lugar do outro, de ser outro em si mesmo.

 É rever uma frase e ela tomar outra dimensão: “Caminhar com um amigo no escuro é melhor que sozinho na claridade” – cunhou Helen Keller.

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, às vezes jornalista