“O que é roubar um banco comparado a fundar um?”

Essa bela pergunta vem bem a calhar, ela faz parte de A ópera dos três vinténs de Brecht que em 1928 já realizara qual a instituição que mais lucra sobre a população no sistema em que vivemos. Mas mais legal foi a cena em que essa frase me veio à cabeça.

Estava passeando com minha salsicha – uma cadelinha de 13 anos… – como todos os dias, como um típico cidadão de bem, e enquanto ela se aliviava em uma praça me chamou a atenção uma movimentação. Deviam ser umas 9 horas da noite. Por entre as árvores fiquei observando, dois moleques, duas bicicletas no chão e eles com sede e discrição na direção de seu alvo. Meu primeiro impulso foi me esconder. Fugir talvez. Apenas estanquei. Observando a uma distância que me pareceu segura e que mantivesse minha imagem obscura.

Resolvi sair da cena a passos curtos, em silêncio, na medida que as quatro patinhas permitiam. Os garotos perceberam a minha movimentação. A praça é triangular na confluência de duas ruas, a um quarteirão de meu prédio. Do outro lado da rua em que estavam, há uma padaria, mas a entrada e saída dão para uma outra rua de modo que o movimento no trecho em que agiam era raro. Não havia ninguém além de nós, só o breu. Enquanto me afastava pela minha rua, os dois se mancaram e me observaram. De canto de olho fiquei naquela tensão, celular na mão dentro do bolso, corro? chamo a polícia?

Não.

Foi aí, nesse ponto que Brecht invadiu meu pensamento. Até parei na parede da primeira casa adjacente à praça para continuar vendo a ação dos meninos. Como já haviam julgado que eu estivesse ausente, continuaram com um instrumento de ferro nas mãos. Vez ou outra olhavam para todas as direções. Atacavam com pressa uma bicicleta daquelas estações de aluguel patrocinada por uma grande rede bancária. Eles não pareciam saber como retirar as peças que queriam da bicicleta. Era nítido aquilo misto de medo e prazer que sentiam.

Não posso negar, eu me vi naquela situação há uns 20 anos quando quebrei o garfo de uma bicicleta que não era minha. Sem dinheiro, eu e dois amigos decidimos trocar pelo garfo da bicicleta mais abandonada do bicicletário do prédio deles. A crosta de pó e poeira acumuladas fizeram a gente pensar que a bike era vermelha como a que quebrei, fato que facilitaria a camuflagem da substituição. O duro era fazer tudo isso com a magrela pendurada. Levamos umas duas horas.

No meio do processo ficávamos revezando a tocaia, olhando para todos os lados, naquele misto de medo e prazer. Sorte aquele tempo não ser comum câmeras de monitoramento… No fim, quando limpamos, vimos que era azul marinho, tentamos sujar o garfo vermelho para disfarçar, ficou uma merda. Nunca soube o que aconteceu, se o dono descobriu.

Voltando à praça, fiquei me perguntando, para que chamar a polícia? “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, não é mesmo? De mais a mais, sabia o que os meninos estavam sentindo. Seria hipócrita da minha parte querer “fazer justiça”, ainda mais para defender um banco. No fim das contas, os meninos foram mais justos que eu fora, pelo menos estavam roubando de quem tinha muito, de sobra e que não sentiria a falta.

Voltei para casa pensando: nessa vida quem é ladrão mesmo?

 

 

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, pai de família cujo passado… 

Existe “Interior” em São Paulo

Ao contrário de muitos migrantes da capital, sou de uma cidade que se considera urbana. Nós, cariocas, talvez pela corte perdida, sempre nos consideramos algum tipo de exemplo de urbanidade do Brasil. E, de fato, a densidade de edificações carioca as vezes assusta, principalmente quando se está longe dos horizontes que descansam o olhar. Por isso, ao chegar a São Paulo, estranhei estes recônditos interiores que se escondem entre um bairro e outro. Em um destes bairros, que localizei logo em minha chegada, quedei-me até hoje: Aclimação.

O primeiro motivo que me assentou foi o motivo mais óbvio, tinha cá para mim que precisava instalar-me próximo a um parque, afinal isto seria o mais próximo de uma praia que eu teria em terras paulistanas. E o Parque da Aclimação cumpria este papel muito bem. Mas descobriria, na verdade concomitantemente, que o bairro me reservava muito mais que uma área verde.

Algo que me chamou a atenção, eram as casas e palacetes que se distribuíam nas ruas que se cruzavam por entre o labirinto das descidas e subidas do bairro. Era simplesmente incrível que um bairro ao lado do Centro e da Paulista pudesse permanecer bucólico mesmo com uma vizinhança tão agitada. Algo inimaginável até para um carioca. Mas o fato é que esta era apenas uma das peculiaridades deste recanto.

Incrustado entre Liberdade, Cambuci, Paraíso e Vila Mariana, Aclimação ainda é um bairro de vendinhas e quitandas que oferecem produtos pitorescos e um estilo de vida que está cada vez mais escasso. Aqui na rua Muniz de Souza, por exemplo, tem uma avícola, um comércio que vende exclusivamente frangos e galinhas inteiros ou em partes, além de ovos. O gosto, perdoem-me os veganos, é fresco e tem sabor de granja. Na mesma Muniz de Souza tem o mercado de grãos da Dona Laura, onde descobrimos que o arroz integral tem um sabor particular especial por conta de uns pedaços vermelhos crocantes. Quando cheguei a São Paulo, ainda tinha os pães da Padaria Fluminense que, segundo falava-se, eram feitos ainda em fornos à lenha na época. Hoje, sem dúvida, não mais, mas se você seguir toda vida rumo ao Cambuci, entre os haitianos e africanos que se acotovelam nos bares para ver o final da Champions League, vai encontrar uma das padarias italianas mais antigas do bairro.

Na Maracaí, até pouco tempo, tinha uma loja de fantasia que deu lugar a um hub de crossfit. Não confunda com a loja de apetrechos carnavalescos que chega gente do Brasil inteiro, Rio incluso, para adquirir peças para enfeitar o carnaval do país afora. Entrando pela  Liberdade, após passar os comércios e serviços populares de frete, marceneiros, estofadistas e profissões liberais de todo o tipo, chega-se a lojas de artigos japoneses variados, incluso uma livraria na Galvão Bueno com livros exclusivamente das línguas do oriente.

Os botecos são um capítulo à parte, um deles, o Juriti, oferece petiscos dos mais diversos para acompanhamento da velha e boa cerveja gelada, além das tradicionais batidas. Pode-se escolher entre degustar uma rã, uma codorna ou frutos do mar variados, incluso ostras vindas do Litoral Norte. Na outra ponta do bairro, pode-se degustar uma costela na preguiça do domingo no bar da Safira de uma senhora. O bar é tão exclusivo que sequer apareceu no Google na minha pesquisa.  Há também os mais ou menos chiques, mas estes há em toda a parte, não é verdade?

Mas saindo do fora do comum, há também o comércio regular que, a bem da verdade, está cada vez mais escasso nas ruas da cidade, escondendo-se cada vez mais em Shoppings. Na Lins de Vasconcelos as lojas se distribuem ao longo da avenida e oferece um pouco de tudo, de brinquedos, roupas, chocolates às inúmeras opções de comida. Incluso o Yokoyama, que é o mais próximo do tradicional pastel de feira que você encontrará em uma loja formal.  A própria Aclimação também tem suas opções, além do Hirota que é o mercado que oferece sortimentos orientais típicos do bairro, misturados às necessidades triviais do dia-a-dia.

Porém, toda esta sensação de vida de interior não estaria completa se não acordasse todos os dias com os passarinhos cantando em um clima bucólico numa casa em uma esquina de uma rua sem saída e com quebra-molas (é mais “interiorano” que “lombada”) e pensando que, sim, existe “interior” em São Paulo, em plena capital.

Bogado Lins é escritor, roteirista e um interiorano nato

Palavreado

Acho incrível a origem das palavras, como elas chegaram a algum dia a despertar em alguém o que atualmente causam. “Incrível”, por exemplo, vem do crer, algo que simplesmente não se pode acreditar. Inacreditável, enfim.

As pessoas, sem dúvida, teriam mais em conta a palavra “decorar” se soubessem que a origem dela vem do coração. Sim, porque o “cor” no meio, perdido ali, vem do termo em latim que significa este órgão que mantém a vida pulsando. Em outras palavras, significa ter o conteúdo no coração. A origem é semelhante  ás palavras acordar, cordial, recordar e mesmo coragem, que nada mais é que, um derivativo de coraticum, uma “ação do coração”.Alguém,  porém, “entusiasmado” talvez esteja ainda além de alguém corajoso, afinal “está possuído por deus”, já que teo, em grego significava Deus, o que aliás pontua teologia, teogonia e outros tantos teos por aí, incluso o nome.

Mas nem sempre há muita nobreza nesta origem. Lembrando das aulas de história da minha sexta série, até hoje recordo de um professor de história que para explicar algumas das técnicas de punição da Idade Moderna, lembrava que o termo “enfezado” vem da época, quando se colocava pequenos ladrões e baderneiros de primeira viagem em um barril de fezes em praça pública. Sem dúvida, a pessoa saia de lá “enfezada”. A tortura também nomeou a palavra “trabalho”, que deriva da palavra tripalium, um instrumento de tortura de três estacas de madeira onde a pessoa era estendida, semelhante a uma cruz.

A história também age na fabricação das palavras. Cesariana é associada a Julio Cesar, que supostamente teria nascido desta primeira operação na história. Os meses e os planetas, são nomes provindos de imperadores e Deuses : Jano, Februs, Marte,Aprilis, Julio, Augusto, Vênus, Jupiter e assim sucessivamente.

A “Igreja”, que nada mais é que um ajuntamento de pessoas, oferece “seminários”, que, ironias à parte, provêm de semente, ou mais precisamente, “sêmen”. Talvez uma mera coincidência para um péssimo hábito que perdura à séculos. Aliás, esta mania de utilizar termos sexuais é recorrente, abacate, por exemplo, é o termo asteca para testículos, talvez por lembrarem bolas gigantes. O mesmo se aplica as belas orquídeas, porém, provindo do grego, do termo “Orchis”.

Algumas origens de palavras também fazem pensar sobre  questões mais complexas, tal como Mario Sergio Cortella bem lembrou, idiota tem a mesma raiz de identidade, ou ID, ou seja, alguém que se fecha em si mesmo e apenas cuida dos próprios interesses. Já político, vem de polis, como era nomeado as cidades na Grécia antiga, ou mais precisamente quem participava da vida da polis. Sim, de alguma forma, é uma boa pista para se pensar que a sociedade realmente precisa de um pensamento global.

Da mesma forma, problema, antes de vir de algo “problemático”, vem justamente de pró, frente, mais Ballein, se pôr à frente. Ou seja, encarar um problema, colocar sua cara à frente do problema, é, em suma, estar à frente dos demais. Da mesma forma, colocar à prova, que também se origina de “probo” significa algo “honesto”.

Saber a origem(origo, nascimento), nem sempre quer dizer algo extraordinário ou mesmo possua algum tipo de essência eterna(do latim, ato de ser), verdade (aletheia do grego, não oculto), mas pode servir para nos nortear no caminho para saber porque as palavras despertam sentimentos diversos, as vezes óbvios, e outras nem tanto.

Mas tem palavras que parecem que são eco eterno de si mesmas, amar vem do latim, e significa exatamente isso: amar. Assim como mãe, e que é por assim dizer, a “matriz” de tudo. Palavras tão naturais que conectam ou “religam” o homem à sua natureza, como a religião, graças a Deus, o “Ser Supremo”, ou mesmo a própria “natureza”, o nascimento de tudo.

Bogado Lins é escritor, roteirista e filósofo(amante do conhecimento) de tempos em tempos.

Como ver como cego comover

 

 E se de repente você ficasse cego? Isso mesmo, você leitor, do nada, um piscar de olhos, e nada, só a escuridão? É difícil imaginar? Feche os olhos. Vamos, feche só por uns instantes… Ok, não há como fechar os olhos e ler este texto, ao menos, não dessa forma. Não, não se trata de um texto sobre Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, nem sobre o filme Dançando no escuro de Lars Von Trier.

 Será que somos privilegiados pelo sentido da visão ou somos escravos dele? Quanto somos dependentes? Talvez sejamos deficientes táteis, olfativos, auditivos… Será que aquilo que comemos teria o mesmo sabor se não víssemos? Não dá para imaginar isso sem ficar com medo. Aliás vencer esse medo e mergulhar na escuridão é de trata este texto.

 A exposição Diálogos no escuro, lançada na Alemanha em 1989, chegou ao Brasil e está em cartaz no Centro de Cultura Judaica, porém “exposição” ou “cartaz” não são as palavras certas, não encaixam bem. Talvez experiência, mas é mais que isso. É uma vivência! É colocar-se no lugar do outro. Mais ainda, é enxergar com o ponto de vista do outro, ou, melhor dizendo, não enxergar. Essa é a maravilha: sentir na pele e diante dos olhos a escuridão, como é a vida de um deficiente visual. Por 45 minutos, podemos realizar a cegueira, a vida de quem dorme e acorda na escuridão.

 É difícil, é uma experiência tocante, vencer o “medo do escuro” é complicado, há pessoas que refugam, que se descontrolam. Quem vence os instantes iniciais certamente passa por uma transformação: “ver como cego”. Diálogos no escuro é uma experiência dialética consigo mesmo, não é simplesmente visitar uma instalação em um museu. É sentir uma instalação durante uma visita a um museu, degusta-la com todos os sentidos exceto a visão. Perder o senso espacial, guiar-se pelo toque, seguir o som, provar um gosto diferente e vislumbrar a escuridão com alegria. É desmitificar a visão e viver, além dela.

 Descobrir como somos frágeis, deficientes em todos os sentidos e dependentes principalmente da visão. Como se passássemos a entender a fala da personagem de Bjork, Selma, no filme Dançando no escuro, quando diz: “Eu já vi tudo, eu já vi até a escuridão”. É descer o degrau dos olhos que veem e enxergar de peito aberto com um cego. Sim, quem guia o passeio são pessoas “ditas” deficientes visuais que não nos fazem sentir diminuídos por se deslocarem com mais desenvoltura na escuridão, ao contrário, fazem com que nós nos embrenhemos no nosso momento dialético de se colocar na lugar do outro, de ser outro em si mesmo.

 É rever uma frase e ela tomar outra dimensão: “Caminhar com um amigo no escuro é melhor que sozinho na claridade” – cunhou Helen Keller.

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, às vezes jornalista

Não Simplifiquem Meu Ídolo

garrinchaFui assistir ao espetáculo Garrincha de Bob Wilson e, ao final, fui impelido a escrever sobre o assunto. Sempre ao acompanhar uma obra, procuro os pontos positivos. É quase uma ética relativa às dificuldades que qualquer artista encontra no seu ofício, até porque no fundo qualquer manifestação artística tem algo a oferecer.  No entanto, a peça Garrincha prova que se o intuito inicial, o mindset, não acertar o direcionamento, joga-se fora todo o esforço. Mais que isso, neste caso, estamos falando de reforçar um erro.

Se não conhecesse a história de Garrincha, se não tivesse lido a brilhante biografia escrita por Ruy Castro, A Estrela Solitária, talvez pensasse que o personagem fosse apenas um abestalhado que , por jogar bem futebol, alcançou uma fama fugaz que sua imbecilidade deixou escapar. Os personagens clownescos que rodeiam o enredo – que mais parecia uma colagem cronológica que, sem o programa, seria difícil desvendar – infantilizam uma das maiores tragédias do futebol brasileiro, quiçá de todo imaginário do país. Aquela criança com riso irritante e os pássaros comentaristas avoados selam o destino da obra a ser apenas um musical saltimbanco.

Talvez tudo isto seja verdade? Talvez Garrincha fosse realmente, no fundo, apenas um infante de pernas tortas? Sim, talvez. Afinal, Garrincha tinha algo infantil, era alcoólatra, mulherengo e realmente botou tudo a perder, o que em resumo, é o que diz a história. Mas a narrativa deixa escapar toda a complexidade do personagem, todo o enredo ao redor que o alça a uma tragédia marcante: o alcoolismo desenvolvido na infância proveniente do mergulho da chupeta na cachaça, os testes rejeitados pelas pernas tortas, a assinatura de contrato no Botafogo devido à interferência de Nilton Santos, as duas Copas do Mundo em um tempo onde a desconfiança da população no ditame era nula, o romance e traições a Elza Soares, as inúmeras lendas que cercam o jogador e, enfim, a derrocada final, quando Garrincha não conseguia simplesmente mais jogar, por sua culpa, sim, mas também muito por conta da destruição que o próprio futebol promove nas articulações e músculos com o tempo. Tudo isso e restou apenas risos, caretas, música e uma coreografia bem ensaiada.

Pode ser injusto dizer que não houve uma pesquisa, creio que as referências imagéticas provam que houve uma procura por materiais que endossassem as cenas. Porém, o resultado final serve apenas para reforçar um estereótipo de Garrincha que, no fundo, representaria um Macunaíma que “se liberta” poeticamente de uma vida incompreendida. A criança que voa livremente após a morte junto aos pássaros que caçava na sua mítica Pau Grande. Desculpe, mas esperava mais da Estrela Solitária. No fundo, o que irrita mais é que realmente parece haver uma escolha neste sentido. Ao que tudo indica, o autor buscava reforçar este lado tolo e pseudopoético do ídolo.

Assim, retorno a avaliação inicial. Todo o aparato de luz, cenas, atores e excelentes músicos acabam por servir tão somente para endossar melhor uma concepção que, de início, destrói com um ídolo ao invés de torná-lo carne, osso e espírito. No intuíto de descrever suas peculiaridades, estereotipa. Na tentativa de poetizar, retira toda a complexidade.

A incompreensão das grandes referências do teatro talvez torne minha avaliação pobre, não fujo da raia. As pessoas ao meu lado aplaudiram de pé, o que faz com que provavelmente esteja sozinho em meu veredito. Mesmo assim, não abro mão, nem pé dele. Uma opinião torta é, ainda assim, uma opinião. Até porque creio que um espetáculo como Garrincha se tem algum valor é justamente pelo fato de almejar uma grande audiência. Dito isto, qualquer pessoa, portanto, pode emitir seu juizado. Cá está o meu.

Trazer um diretor internacional referência no teatro para apresentar suas obras é sim um grande mérito e deve ser ressaltada a iniciativa. Porém, creio que Bob negligenciou as possibilidades do personagem que tinha em mãos. Garrincha é um drama, uma tragédia, é, enfim, um mito de criação de um futebol arte.  Se fosse um musical, deveria ser uma ópera. Se fosse uma dança, deveria ser um balé desses de machucar os dedos. Do modo que foi apresentado, sinto com pesar, que foi apenas um desperdício de uma grande oportunidade.

Por favor, Bob, não simplifique meu ídolo.

Bogado Lins é escritor, roteirista e, apesar de tricolor, é fã de Garrincha

Cultura é a Alma do Negócio

A cultura em primeiro momento parece inútil. Para que financiar peças, filmes, exposições, concertos e demais manifestações artísticas se os hospitais estão em ruínas, se as escolas estão com péssimos resultados e se a infraestrutura vai de mal a pior? Engraçado que sempre tenha sido assim e nunca ninguém reclamou. Agora, com os protestos dos artistas contra a extinção do MINC, que mais que uma medida de austeridade, parece mais uma retaliação, os artistas viraram o novo bode expiatório do país.

Mas vamos aos fatos: a cultura é o maior patrimônio de um povo. A constatação deveria ser óbvia e simplesmente encerrar o texto nesta frase, mas como são tempos difíceis, vamos desenvolvê-la. Ela antes de tudo é uma das áreas mais importantes da economia. E não estou me referindo em termos relativos. Quem não atua no setor talvez não esteja a par, mas há toda uma economia que gira em torno da cultura que movimenta bilhões, sim, bilhões de reais, só aqui no Brasil. Domenico de Masi em um de seus livros lembra que a Grã-Bretanha ganha mais com a exportação de música do que com a indústria de aço.

Os especialistas cunharam até um termo para se referir a tudo o que a cultura gera em termos econômicos, trata-se da Economia Criativa. Este segmento engloba toda a área que exige criação, desenvolvimento e difusão de manifestações culturais, seja com fim em si mesmo, seja com outros objetivos:  artesanatos, centros culturais, artes visuais, fotografia, teatro, cinema, mídias, audiovisual, preservação de patrimônio histórico, propaganda, design, softwares, games e uma infinidade de atividades.  A projeção de quanto o setor movimenta varia conforme os critérios. Segundo o Sebrae, o setor movimenta  2,7% do PIB nacional e 2 milhões de empregos. Incríveis 110 bilhões de reais! Se englobarmos toda a cadeia produtiva envolvida com essas atividades, segundo o próprio Sebrae, o número iria para inacreditáveis R$ 735 bilhões de reais.

Mas veja bem, a importância em termos de valores puramente numéricos não reflete o que ela influencia na economia. E aqui não estou me referindo a nada poético, mas em termos de consumo.  O exemplo mais óbvio é a Apple, o que seria desta empresa de computadores se não fosse o design? Se não fosse sua logo pecaminosa? Mas vou além, se não fosse ela consumida justamente por artistas, criadores, designers e pessoas justamente ligadas à cultura? Pois é, não há marca no mundo que seja desejada e amada que em algum momento não se relacionou de forma eficaz com alguma manifestação cultural. A Absolut seria apenas uma vodka de um país estranho não fosse Andy Warhol. A Nike seria apenas um tênis sem o seu lifestyle hip hop. A Harley Davidson tem um casamento duradouro com o Rock. O famoso Chocolate dos Frades da Nestlé é uma apropriação de um quadro renascentista e, convenhamos, o que o cinema não fez para grandes marcas de carro, cigarros, alimentos, etc?

Mas se a cultura agrega valor a marcas, é porque ela é antes de tudo uma “marca”, e muito, muito poderosa. Artistas como Chico Buarque, Fernanda Montenegro, Caetano Velloso, Gilberto Gil, Sebastião Salgado, Vik Muniz, Wagner Moura e tantos outros são muito mais conhecidos no mundo do que qualquer marca brasileira. Aliás, as poucas marcas brasileiras que efetivamente geraram desejo e atenção fora daqui, tais como Havaianas e Natura, foram justamente por essa associação à cultura que artistas como eles ajudaram a fomentar.

Imagine o quanto Caetano Velloso agrega à imagem brasileira com sua música? Quanto Fernanda Montenegro surpreendeu o mundo com uma indicação ao Oscar e com um Urso de Ouro? Quanto Vik Muniz trouxe de investimento para as artes plásticas brasileiras com sua obra? Quanto José Padilha e Wagner Moura beneficiaram o mercado audiovisual brasileiro  e seus profissionais com seus últimos filmes e série de sucesso?

Manifestações culturais como o Chorinho, Bossa Nova, Samba, Cinema Novo, carnaval, forró, cordel e outras tantas influenciam o mundo inteiro e podem ser consideradas nossa versão do Soft Power. Nossos artistas frequentemente são convidados ao exterior, vendemos obras de arte, música e cinema. Anualmente milhares de pessoas do mundo inteiro vão ao Brasil não apenas pelas belas paisagens, mas sobretudo para vivenciar esta atmosfera que a cultura brasileira disseminou. Afinal, se fosse só uma questão de belezas naturais, tenho certeza que o Caribe e até outros vizinhos sul-americanos têm tanto a oferecer do que nós. Inclusive, vale ressaltar, este turista que vem ao país por conta desta imagem gasta muito mais do que a grande maioria que vem por conta dos clichês que, infelizmente, nosso ainda latente atraso cultural continua a produzir. E o único país que perdemos na América do Sul em termos de turismo é justamente a Argentina, dá para imaginar o porquê.

Para entender a importância do investimento na cultura, utilizemos o exemplo da ciência(outra aliás que perdeu muito também). A inovação muitas vezes depende de investimentos constantes em projetos que muitas vezes não geram resultados, mas quando dão certo movimentam quantias inestimáveis. A cultura funciona da mesma forma, apoiar projetos culturais experimentais possibilitam a criação de linguagens que tempos depois podem servir como influência para o mundo inteiro. Sem este tipo de apoio, inúmeras manifestações culturais podem sucumbir, algo muito semelhante que ocorre com muitos talentos da nossa ciência. Está em jogo muitas vezes também a sobrevivência de gêneros e manifestações culturais que já perderam apelo comercial: chorinho, samba, frevo, cordel, música clássica, ópera,  dentre outros estilos que são parte integrantes da nossa cultura e que colaboram para manter a identidade do país.

Sem dúvida, a cultura no país não vai acabar por conta da extinção do MINC. Os artistas vão continuar aos trancos e barrancos vivendo e sobrevivendo, afinal não são artistas por causa de dinheiro. Alguns simplesmente vão voltar a empregos fixos e deixar de produzir arte, ou produzirão menos. E quem é famoso vai continuar famoso, e rico. A cultura brasileira, seja popular, seja erudita, vai continuar existindo nos seus trancos e barrancos de sempre. É possível dizer, inclusive, que o próprio MINC era em grande parte figurativo, visto que apenas 0,38% da verba da Federação, e apenas 320 milhões de reais em 2015 eram efetivamente investidos em produção de cultura.  Porém, o que assusta é a minimização do papel da cultura no país.  É mais que importante, é fundamental. Para se ter uma  ideia, basta observar o que países como os EUA, França, Alemanha, Espanha, dentre outros, ganham por conta de sua cultura. E, mais importante, o quanto investem.

É ruim ter que explicar em pleno século XIX a importância da cultura para um país. Imagina então no século XXI?

Bogado Lins é escritor, roteirista e apreciador das artes.