Vai Trepar, Mendonça!

O Mendonça tinha achado o texto uma merda. Com a ninharia que esse site me paga a vontade é de mandar tomar no cú. Mas o cú do Mendonça deve ser alguma coisa tão feia que seria uma injustiça com o encarregado pelo serviço. De qualquer forma já eram nove e meia e meu cigarro tinha acabado, eu ainda estava me acostumando com o Rio de novo, Mendonça me trouxe para perto dele e da minha cidade, finalmente, não aguentava mais São Paulo. O 15 Minutos ficava num prédio caindo aos pedaços alí na Praça da Cruz Vermelha e ele tinha alugado um quarto pra mim na Monte Alegre, subida pra Santa Teresa. Eu gostei de vir morar aqui, não por ficar mais perto do Mendonça, mas pela cidade, praia, Lapa essas coisas, CCBB, Aterro… eu tava meio que dividindo apartamento com um cara chamado Léo que fumava maconha pra caralho e trabalhava com TI, TI pra mim é tudo que se refere a informática e ninguém entende. Se você não entende de alguma coisa em informática provavelmente essa coisa é TI. Porra, perto de dez horas, eu não ia começar outro texto agora, se fuder, ia tomar uma cerva na Lapa que era perto, do aluguel tinham sobrado duzentos contos na minha mão. Ia vê as mina, que escrever pro Mendonça porra nenhuma, minha mãe já tinha me ligado e me  enchido o saco que o Rio tá perigoso, que isso, que aquilo…ah! Perigoso sou eu com raiva, num fode! Vô vê as mina pô!

Desci a Monte Alegre em clima de festa até a  Riachuelo, a Lapa continuava igual, era um lugar cheio de mesa de bar pra tudo que é lado e tinha uma porrada de travesti encostada nos canto, uma espécie de Augusta só que plano, cheio de mulher, tinha as feia também, mas a bonita é colateral da feia, por isso que tem menos. Eu sentei numa mesa e pedi uma Primeira bem gelada, tava sozinho na mesa, eram tipo dez horas, mas a noite é uma criança e a madrugada é um feto e com duzentos contos no Rio o sujeito reina, nesse ponto foi sensacional deixar São Paulo e voltar. Trocar a balada pela night é econômico. A noite seguia e eu ainda lá sozinho na mesa, três garrafas de Primeira já se acumulavam e eu já estava lubrificado o suficiente pra deixar o isqueiro no bolso e levantar pra pedir fogo pra primeira desavisada, a noite tinha começado. Mendonça? Meu cú.

– Você tem fogo?

Encostada na porta do bar de macacão jeans e top:

– Tu vai meter essa? Tá há mó tempão na mesa acendendo o cigarro com o maior isqueirão e agora vem perguntar se eu tenho fogo? Dá o papo logo! Eu hein!

Beto desengonçado tenta amenizar:

– Mas se você tá sabendo que eu tô o maior tempão na mesa acendendo com meu isqueiro tu tava prestando atenção em mim…

– Ô do isqueiro, eu trabalho aqui, minha função é ficar tomando conta das mesas, deu pra entender? Agora vaza, sai, vai, deixa eu trabalhar!

Voltei pra mesa mas não me dei por convencido. Ela estava me olhando de um jeito diferente, tenho certeza…Sou carioca, porra! Vou dar mais um tempo e mando o papo na lata. Enquanto isso pedi mais uma Primeira gelada, já eram quatro na mesa. Nesse meio tempo o lugar lotou e a minha mesa era a única com quatro cadeiras, dava pra botar as cadeiras sem mesa perto da porta do bar, mas eu tinha uma ideia melhor. Do nada três meninas ao mesmo tempo me pediram pra pegar as cadeiras que sobravam na minha mesa, eu nem olhei pra elas, fiz que sim e fiquei alí como quem trabalha sentado atrás de uma mesa de uma cadeira só, nem tive o reflexo de convidar as meninas para sentar na mesma mesa, putz! Que otário! Lá se foi a minha ideia melhor. A verdade é que já eram cinco Primeiras e eu estava ficando meio bêbado. Meu Chevy tinha acabado, fechei a conta e saí para dar uma volta e comprar cigarros. Comprei o Chevy num bar que fica de esquina com a Gomes Freire e continuei andando em direção a Joaquim Silva, tinham sido sete anos em São Paulo, já não conhecia mais ninguém…Quando estava no meio da Joaquim Silva escuto uma voz conhecida:

-Ei Beto?!

Era o Mendonça! Naquela altura da noite, bêbado e sozinho era até uma boa notícia encontrar com o Mendonça.

– A Lapa acabou Beto…vai pra casa…tu escreveu o texto?

-Cara, ainda não, a noite foi uma merda até agora e a sua?

-Eu só estou voltando pra casa, tava no jornal até agora e você?

-Tava no Bar da Cachaça e nada por lá…

-Te dar uma dica, Beto, tenta escrever alguma coisa tipo uma crônica ficcional, tipo um conto que retrate o teu cotidiano, que fale de alguma coisa que aconteceu contigo, menos metalinguagem dessa vez, um lance mais descritivo…você consegue…daquele jeito, início, meio e fim…

-Ô Mendonça, são mais de meia noite, a minha noite foi uma merda, eu te encontro na Lapa por acaso no primeiro dia que eu saio depois que voltei pro Rio e você quer falar do texto que eu te devo? Porra, Mendonça! Vai trepar, Mendonça!

Solano Guedes é artista,escritor e carioca convicto.

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Marcas de um Conflito

Eu sou carioca. Mas não sou um carioca convencional, além de nascido na “linda e triste” Zona Sul, sou loiro de olho azul. Isso tem algumas vantagens, mas tem desvantagens também. Lembro de sair na rua sozinho, afinal as crianças andavam sozinhas nos anos 90, e ser o alvo preferencial dos pivetes. Era o “alemão”, e isso numa cidade que não lidava muito bem com eles. Já tinham até composto aquela que hoje é um clássico da nostalgia funkeira ” nós com os alemão vamos se divertir”.

Talvez por ter desenvolvido um senso de autopreservação ou por ter tirado a sorte grande, sofri meu primeiro roubo apenas muito tempo depois. Por que? Bom, o dia a dia no Rio desenvolve um certo savoir-faire que te deixa preparado para situações adversas, um eufemismo para uma guerra civil em plena ebulição. O código de quem fala mais alto é o normal, a norma das ruas da cidade perigosa. Se alguém te ameaça, o natural é ser ainda mais ameaçador. Seja no olhar, no gesto e, principalmente, no palavreado. Talvez hoje a escalada de violência esteja ainda maior, mas durante minha juventude boa parte dos assaltos e assédios poderiam ser evitados por uma atitude, falando mais alto que o agressor. As vezes, até, o embate físico era inevitável. E isso, se aprende nas ruas o quanto mais é necessário. Minha história foi um amplo aprendizado nesse sentido. Idas e vindas na vizinhança, ou no ônibus rumo ao colégio, safando-se da eminência de ser assaltado.

Esse jeito meio malandro, meio agressivo se projetam para além das ruas, becos e vielas. Ele se impregna nos espaços coletivos e até mesmo dentro de casa. Lembro-me de quando ingressei numa escola federal de alto nível graças a ser um nerd irremediável. No primeiro dia de aula, tive que enfrentar a intimidação de um aluno repetente, dois anos mais velho. Mais uma vez, tive que me fazer de mais perigoso do que ele, com olhar fixo e levemente insano. Prefiro não contar o que lhe disse. O que posso dizer é que depois o respeito mútuo ocorreu e, se não éramos propriamente amigos, nunca chegamos a brigar, para minha sorte. Acredito que se encontrá-lo novamente hoje, provavelmente nos trataremos como dois conhecidos que há muito não se veem.

Esse hábito impregna de tal modo que o natural é você reproduzir e se orgulhar dele. Quando conheci um primo de um amigo, resolvi contar as peripécias das ruas do Rio e do quanto ele tinha que se precaver e ficar atento. Bom, e se safando de uma coisa ou outra com minha assistência, ele poderia usufruir do melhor da cidade maravilhosa, seja lá o que isso poderia significar com 13 ou 14 anos. Logo depois, o menino teve uma diarréia de medo. E eu? Bem, eu ri. Não tinha qualquer compaixão para compreender que essa cultura do enfrentamento não pudesse ser algo circunscrito ao Carioca Way of Life.

Muito mais tarde, ao chegar na juventude e circular mais pela cidade nas praias e avenidas, frequentemente era abordado em inglês ou em um portunhol improvisado oferecendo algo a se vender ou simplesmente pedindo um qualquer. Era nesses momentos que exibia com orgulho o meu sotaque carioca rasgado e treinado nas ruas e vielas que constrastava com o jeito esquisito de se vestir e de me portar. Olhando em perspectiva, eles realmente não tinha como saber. Os xsss e rrrsss rasgado dito em alto em bom tom, além de assaltos, me salvou de pagar mais caro pelo mate, biscoito Globo e qualquer mercadoria, além, claro, das corridas de táxi.

Esses trejeitos e exageros acabam entrando em perspectiva ao habitar uma cidade como São Paulo. O tom mais alto da voz, um apego descomunal aos pertences, a ponto de não deixar a mochila longe do corpo ou a roupa sozinha na praia para se banhar; e até mesmo um hábito de enfrentamento ao menor sinal de interpelação soam muito mais ridículos e desproporcionais. Perdoem-me, fui forjado assim. Os cabelos loiros,os olhos azuis e o jeito atrapalhado na cidade morena e cheia do gingado sempre foi um estigma a ser superado. Ainda mais em uma cidade repartida, onde a geografia ao mesmo tempo divide quem tem tudo de quem nada tem, mas paradoxalmente junta.

Certamente um dos traços dessa divisão está na pele. Mas se criava dificuldade para mim, que era o “alemão”, nem quero entrar no mérito de quem está do outro lado dessa geografia. Enquanto ficava atento para manter meus pertences, o mundo de quem nasceu a alguns quarteirões e com a pele escura era uma luta pela vida. Sem qualquer exagero. Eu era um sortudo de ter que defender meus bens e não a minha existência.

Por isso, as marcas do conflito carioca, mesmo desigual como tudo em nosso Brasil, chegou num ponto em que ninguém se salva. Nem eu, o alemão. Uma coisa aprendi à ferro e fogo nas ruas da minha cidade, com esse alemão aqui ninguém se mete. Desculpem-me, fui forjado assim.

Bogado Lins é escritor, roteirista e não leva desaforo para casa. 

 

 

Whiteout

Eu precisava entregar o texto, estava no prazo – porque me recuso a usar o termo deadline- e o editor já estava em cima, dois e-mails em três dias, caso pra Rivotril de 2mg. Não tinha o que fazer, minha cabeça estava oca, nem uma ideia que prestasse embora o editor defendesse a tese de que você poderia perfeitamente fazer um texto excelente com uma ideia ruim, era apenas uma questão de tetris vocabular – ele dizia isso, o cara era um chato. Depois que conseguiu os últimos dois patrocínios pro site se achava o Duda Mendonça dos portais de literatura, na verdade ele não era o Duda mas era o Mendonça, era o nome dele.

Tudo bem isso estava pagando a maior parte das minhas contas, eu era um dos mais antigos, na verdade eu conhecia o editor há muito tempo mas a verdade é que ele nunca me respeitou, eu fiz meu nome no Quem conta um conto.com pela qualidade do meu material que invariavelmente aumentava o número de visualizações. Do contrário já tinha sido dispensado há muito tempo. Quando eu entrei, quando era independente ainda eu era uma máquina de boas ideias, quem deu o nome do site fui eu, porra! Ideias boas todos os dias, toda semana, títulos, frases, contos, crônicas, uma fábrica de originalidade… e o Mendonça tinha todos os defeitos do mundo, e tinha, mas não era invejoso. Ele investia, divulgava, criava página, dava um jeito de achar um designer religioso que não cobrava o trampo: o site era o coração dele, Mendonça era jornalista, escrevia para o 15 Minutos há muitos anos mas tinha paixão por literatura anônima, este sem dúvida era o meu caso. ‘Te pago sessenta pratas o texto’ e assim eu fui parar na jogada, vivia duro, pagava uma semana e meia de Chevy comprando um maço por dia.

O Mendonça precisava de mim e eu precisava do Mendonça. Os textos dele eram lentos e cheio de vícios, não que o cara escrevesse mal mas estava sempre brincando de “tetris vocabular”.

– Ô Geraldo, que porra é essa? Esse personagem aqui sou eu! Você acha que eu sou um idiota?
-Ó, se a carapuça serviu, usa. Só tô fazendo meu trabalho…

Depois daquela – pelo Messenger? Pelo amor de Deus – eu saí e fui tomar uma gelada, o Mendonça era do AA, não bebia há anos e mesmo assim ainda frequentava aquela porra. Eu acho que eles colocam alguma coisa no café que é servido no AA, uma espécie de soma, não sei bem, os caras do AA são um caso a parte, como o Mendonça.

– Amigo, bota uma Primeira bem gelada aqui pra mim!

Fiquei pensando, já lubrificado mas não me vinha nada, nada na cabeça, eu já não era mais a máquina dos primeiros tempos mas costumava ter boas ideias, olhava pro bar, ouvia as conversas, tinha que voltar pra casa e começar o texto, eu sabia mas a minha cabeça tava oca, ventava de um ouvido a outro. Eu chamo isso de whiteout, tinha tempo que não rolava, a solução só podia ser beber mais uma.

-Mais uma Primeira aí por favor!

Tomei a terceira Primeira e voltei pra casa. No note o cursor piscava solene na página em branco, nada, absolutamente nada de novo sob o sol, pensei em ligar para o Mendonça e abrir o jogo mas eu trabalhava de São Paulo e ele no Rio, a essa hora estaria na redação envolvido lá com as coberturas do 15 minutos, melhor não. Eu podia falar de um monte de coisa, no descritivo básico, estilo crônicazinha pra encher linguiça mas mesmo tendo que matar duas laudas por semana nunca tinha feito isso, era questão de honra, a ideia tinha que vir, calma Geraldo, dá um tempo, escreve qualquer coisa.

‘Eu não nasci paulista, eu me tornei paulista…’

Putz isso tá uma merda! E a angústia ia crescendo porque eu tinha cinco dias pra matar o texto e tinha deixado pra última hora e agora o Mendonça me atormentava e eu não conseguia pensar em nada. Já sei! Vou fumar um! Mas eu não tenho maconha em casa, vai dar um trabalho…mas não tem outro jeito, aplico uma erva e sigo o fluxo e entrego qualquer porra. Foda-se.

– Ô Nandinho tu não salva não?
-Que porra é essa?Tu nem fuma maconha direito…
-Cara é por uma boa causa, acredite, tenho que começar um texto aqui e nada…
-Segura em casa eu eutô do teu lado eu passo aí e a gente queima
-Já é

Nando chegou e já foi dichavando naqueles trituradores e em pouco tempo a gente
estava carburando.

– Texto é?
– É!
– Só…
-É…
-Só…
-Pior que é…
-Que que tu disse?
-Do texto
-Ah, só…

O Nando só veio queimar um mesmo que tava atrasado para ir ao banco. Eu fiquei sozinho diante do monitor, o cursor piscava, arquivo, página inicial, localizar…office…office é bom, pincel de formatação é bom, muito bom isso, calibri em negrito, isso dá um pé…eu podia criar um texto todo com um mesmo protagonista mas que não fosse o mesmo protagonista, um protagonista que mudasse sem que o leitor percebesse…não…não…sei lá, será que tem alguma coisa pra comer nessa casa? Geraldo chapou no sofá da sala. Dia seguinte de manhã acorda com o telefone, era o Mendonça.

– Fala Mendonça.
-Fala aí Geraldo, é que como você não entregou o texto até agora achei uma boa te contar uma ideia que tive.
-Diz
-Cara faz uma daquelas suas paradas metalinguísticas mas tenta partir pra uns personagens meio inspirados na vida real, acho que tu mata isso fácil.
– Fechou.

Solano Guedes é escritor, artista e amigo do Mendonça, por incrível que pareça

Samba das Minas – Samburbano

Quem conhece a Gloriete sabe que ela tem Luz, até no sobrenome. Uma de suas amigas e queridas da vida, a Paula Preta, capitaneia um samba em pleno Largo da Santa Cecília. Um lugar importante na paulicéia.

Já fui em muitos sambas em minha vida e o que posso destacar nesse em específico, talvez por coincidência do dia e do horário, é que ele foi do inicio ao fim um samba de mulheres. E que mulheres! Cada uma com sua história – baianas, paulistas e sambistas representando suas tradições. Todas orgulhosas de suas raízes negras, africanas e brasileiras, desfilando seu orgulho em formato de samba, no melhor estilo.

Essa particularidade, uma roda de samba conduzida por mulheres, me alertou para a importância do feminino no samba. Seria errado falar de leveza, de doçura, ainda que as mulheres tenham também isso em si, particularmente naqueles que elas escolheram com sua benção amar, mas isso definitivamente não expressa o espírito feminino. E ainda mais no samba. Vamos lembrar de Clementina de Jesus, Clara Nunes, Bethânia, que interpretam as músicas de tal forma que se tornam delas e com uma fortaleza dificilmente reproduzível. Estamos falando do feminino em seu poder absoluto. As mulheres são poderosas muito antes do empoderamento.

Mas deixemos todas as grandes questões para outras discussões, estamos falando de samba, todos os últimos sábados do mês. Convidadas especialíssimas dão seu recado. Há um certo privilégio àquele samba rural, pasmem, em pleno samba urbano, um espaço onde a voz feminina sobressai naturalmente. Ora, se o melhor samba é uma forma de oração, que voz melhor do que a feminina para orar? Aquela que tem em si a semente de criar e reproduzir e toda a fortaleza que isso deriva. Não a toa, está ali do lado de uma igreja, para semear o sagrado, seja qual for a religião que você acredita.

O famoso Jongo ,derivado da Serrinha com raízes rurais, o samba de roda baiano e, claro, uma ou outra referência que todos conhecem eram apresentados a um público sedento por ocupar os espaços urbanos e se sentir parte da cidade que ela, enfim, habitou.São Paulo é outra quando você a conhece e ocupa, junto, esses espaços.

Simplesmente, não consigo pensar em melhor forma de falar de empoderamento. Um samba das minas, em pleno centro, dando espaço para desfrutar da sua própria cidade. Quero fazer parte disso mais vezes com minha voz no coro.

Samburbano

Último sábado do mês

a partir das 15h

Largo da Santa Cecília

Bogado Lins é escritor, roteirista e adora um bom samba

Pajé do Design

O Digão me ensinou uma coisa. Quando certo dia, por um motivo ou outro, perguntei a ele, se aquilo era do seu tempo. Ele retrucou na hora: “meu tempo é hoje!”. Na verdade, essa é a versão simplificada, resumida do causo,  absolutamente não foi assim. Certeza que foi de  uma  forma completamente diferente mas, na real, como ele disse a tal frase, de fato pouco importa. O importante é a repetição constante que já virou característica. “Digão, acho que isso é do seu tempo…”  e ele prontamente,” que nada, meu tempo é hoje”. Sinceramente, acho que o tempo dele é amanhã. Como diria Mário Quintana, nunca somos contemporâneos de nós mesmos.

Quem está perto do Digão, está perto de sonhos. E eles  são, digamos, a matéria prima do futuro. Ele os tem cotidianamente – intenções, propósitos, projetos incríveis que mobilizam pessoas e por vezes se concretizam.  Outras vezes não, mas até aqueles que ficam no caminho, servem de substrato para outros que ainda estão para nascer. Mas muito além de sonhar seus próprios sonhos, Rodrigo está sempre sonhando em coletivo. Cada vez mais pessoas o procuram para tornar real suas abstrações..  E, como dizia Raul, sonho que se sonha sozinho é só um sonho. Mas sonho que se sonha junto… se chama realidade.

Mas o Lima é muito mais que uma pessoa para realizar o inexistente. Ele também é cheio de cotidianos. Está pronto, seja a hora que for, para fazer logos, e-mails marketing, fundos de palco, telas, banners e campanhas inteiras para clientes de todos os tipos. E fazer, refazer e fazer de novo, mais uma vez. Há quem diga que ele não dorme, mas isso é pura intriga. Quem o conhece sabe que ele desenhou uma cadeira especial para pilotar a sua SS Enterprise. Basta ele se conectar com seu cabo USB no móvel inteligente e recarregar suas energias. Tanto é verdade, que é só ele sair dela que o seu sono aparece. Ao menos, há relatos bastante convincentes que isso ocorreu. Nunca mais eu vou dormir, nunca mais eu vou dormir…

Particularmente gosto da sua autoconfiança imutável dentro de sua fluidez diária. Quando o mundo está prestes a cair – digo para as pessoas ao redor, incluso eu, por vezes, porque o mundo em si também é assim nessa fluidez imutável – ele continua lá com uma naturalidade segura que, no final, sim, vai dar certo. E invariavelmente dá, com trilha sonora de Di Melo “calma, calma, calma…” tocando em freqüências inaudíveis para os ouvidos despreparados.E, por isso, todos gostam de tê-lo por perto também quando mais se precisa.  Afinal, uma certeza nada mais é que a soma de determinações. E uma determinação inabalável vale mais do que várias dispersas.

Sua postura budista exibindo um sorriso constante contrasta com seus contatos indígenas de terceiro grau.  A sua paz na verdade é muito mais na certeza do caminho a ser percorrido do que propriamente de uma serenidade harmoniosa. Em seu interior, mil projetos pelejam para emergir e se tornarem reais.  Porém, para descobrir isso é preciso atravessar algumas camadas de silêncio até chegar em alguns dedos de prosa e sua pupila dilatada. Por vezes, até se escuta lá no fundo o Pajé, ou  espíritos da natureza se manifestando e dizendo as verdades necessárias, seguidas das suas baforadas do seu cigarro de palha.É nesse momento também que as entidades ancestrais se manifestam e mostram um par de cicatrizes,sobreposições de mistérios e uma força interior derivada dos desafios superados.

Ele diz que não tem religião mas, sabemos, é mentira. O design é sua fé. Posso escutar suas sábias palavras me alertando para a perfeição da criação. “Bogado, o design é tudo, desde a eficiência, a beleza, a funcionalidade, absolutamente cada detalhe, faz parte do design”. Cultua alguns dos mestres do assunto, como aquele que foi a Índia e voltou iluminado, o Steve Jobs. “Taj Mahaaaalll, Taj Mahallll. Ele provou da maçã e, desde então, a Apple foi seu guia. Outros softwares testaram sua força de vontade. Aliás, estamos falando de um fanático religioso. Se pudesse, excluiria do mundo Power Point, Word, Microsoft, Corel Draw e outros programas que não levam sua religião a sério e seus respectivos criadores.Mas independente dos seus iconoclasmos e ímpetos violentos quem não tem seus problemas?

Sua perseverança conseguiu, pouco a pouco, reunir pessoas incríveis em torno do seu propósito. Cada uma delas vale uma ou mais crônicas como essa em um tempo muito breve. Poderia se chamar isso de uma empresa, empreendimento ou uma marca, mas na boa, vai muito além disso. Trata-se seguramente de uma irmandade com o Tim Maia cantando de fundo “No Caminho do Beeeem”. Sim, pessoas que se tornaram amigas e espero caminhar junto delas ao longo da minha jornada.

Guardo com cuidado a ficha de ouro. Aquela que aciona o amigo no momento mais necessário para virar a mesa, para ganhar o jogo. Ter amigos assim é como uma certeza que não se está sozinho, seja lá o que for, e que a soma das partes é muito mais que um. É nóissxxx.

Bogado Lins é escritor, roteirista e parceiro do Digão.

100 contos em um… ano

Para quem pretende viver a literatura no cotidiano, tenho uma confissão a fazer. Alonguei-me durante mais de um ano numa coletânea que supostamente reuniria os cem melhores contos brasileiros. De um conto por dia, a leitura começou a minguar, até diminuir a velocidade e esparsar em longas páginas por semanas a fio. De repente, um ano se passou e nada de finalizar a obra. Devo admitir que não estamos falando de um livrinho qualquer, trata-se de 616 páginas que nem sempre são triviais. Mesmo assim, fica o questionamento, tornei-me preguiçoso? Nada de 40 mil páginas por dia que já alcançaram por aí, bastaria míseras 50 diárias que já estava excelente. Mas fiquei nesta conta, as vezes 5, outras 3, míseras 1, e até dias que nenhuminha sequer foi folheada.

E o proveito? Se pude apreciar novamente clássicos e outros contistas até então desconhecidos, ficou uma pontinha de decepção. Duvidei um pouco se a seleção realmente reunia o que há de melhor, o que acabou acrescentando alguns dias, semanas, meses na apreciação do material. Uma certa preguiça de seguir adiante.

Antes de tudo, gostaria de eximir culpados. Uma curadoria desse nível de responsabilidade sempre está propensa a injustiças. Creio que Ítalo, nosso hercúleo organizador, ao privilegiar a diversidade de autores, acabou deixando o que verdadeiramente era melhor, mas que eventualmente repetiria certos artilheiros indomáveis, como Clarice Lispector, por exemplo, que de fato foi a campeã, mas também outros exímios contistas como Lima Barreto, João do Rio, Murilo Rubião, Caio Fernando Abreu, Rubem Fonseca, Guimarães Rosa, dentre outros. E, sem dúvida, haveria outro leitor mais crítico que reclamaria justamente disso.

Por outro lado, um questionamento que surgiu foi justamente o quanto grande parte dos contos me soou datado. Será que alguns contos fazem tanto sentido hoje em dia? Será que a perspectiva do século XXI mudou a nossa apreciação da literatura? Talvez fossem os melhores contos quando foram selecionados, mas será que o tempo os envelheceu? O tempo muda a apreciação dos objetos e das obras. Também tornou algumas questões menos relevantes. Talvez pela representatividade, talvez pela busca de alguma mensagem realmente relevante, notadamente esse perfil classe média, intelectual e funcionário público ou jornalista de escritor que se repete ao longo da história da nossa literatura acabou nos atrapalhando. Será que estamos aquém da qualidade literária mundial? Será que um Borges faria menos sentido no Brasil? Talvez, precisamos de alguém que possa oferecer aquilo que seja só nosso, como Guimarães Rosas, que conseguiu decifrar e traduzir universos que de alguma forma transcenderam sua origem. Por outro lado, que crítico não apontaria o bruxo do Cosme Velho como universal? Sim e não, precisamos de mais escritores com origens e diversidades, ou ao menos que busque retratá-las com precisão, mas também nos faltou alguns outros que almejassem as estrelas.

Mas a pergunta realmente relevante, vale a pena ler? Certamente! Saliento alguns que me surpreenderam: Negrinha de Monteiro Lobato traz a crueldade da escravidão e do racismo sob a perspectiva de uma criança, já Baleia de Graciliano Ramos pensa a fome por meio da saga de um cachorro, a genial naturalização do autor. Algumas foram gratas lembranças como Tangerine Girl, de Raquel de Queiroz. O conto campeão, tanto pela surpresa, quanto pela maestria foi A Maior Ponte do Mundo de Domingos Pellegrini, um relato da construção da Ponte Rio Niterói na visão de um eletricista. Devo ter cometido algumas dezenas de injustiças ao não citar uns tantos contos. Paciência.

Outra reflexão que vale é a importância das coletâneas. Esse passeio por meio de um olhar por meio de temáticas, recortes históricos ou seja lá qual assunto for, possibilita conhecer novos autores e contos que caso contrário não chegariam a minha mesa de leitura. Talvez o que mais atrapalhou verdadeiramente foi essa mania de querer desvendar página por página, talvez se deixasse a leitura fluida, livre conforme os afetos e espasmos, a apreciação seria tanto melhor.

O resultado? Leia, e leia a próxima coletânea também, essa fonte de mergulho em águas nunca dantes navegadas que possibilita novas descobertas. Sem talvez o cartesianismo de seguir em linha reta o rumo das páginas, mas em sinuosidades que te possibilitem navegar melhor pelo belo e improvável como um navegante.

Afinal, cem contos valem a pena se a alma não é preguiçosa.

Bogado Lins é escritor, roteirista e leitor de coletâneas

Sou Brasileiro e com Responsabilidade

Sou brasileiro e com orgulho. Sou do país que teve figuras como Paulo Freire, Machado de Assis, Luiz Gonzaga, Hermeto Pascoal, Nise da Silveira, Elis Regina, Maria Quitéria, Chiquinha Gonzaga,Vinicius de Moraes, Castro Alves, Joaquim Nabuco, Oscar Freire, André Rebouças, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Cartola, Tom Jobim e tantos outros .

Temos brasileiros horrorosos também, é verdade. Mas tem franceses, alemães, japoneses, russos, americanos, italianos, belgas horrorosos na história também e hoje em dia.  Não foi um brasileiro que criou o fascismo, dentre os criadores,  está o famoso italiano, Mussolini. Não foi um Brasileiro que restabeleceu a escravidão nas colônias americanas e tampouco assassinou cruelmente 100 mil negros no local, foi o francês Napoleão Bonaparte. Não foi um brasileiro que decidiu soltar a bomba atômica, foi o presidente americano Harry Truman. Não foi um brasileiro que deu a ordem para massacrar cerca de 200.000 chineses, foi o imperador japonês Hirohito. Dos alemães, não precisamos nem falar ,né?

Mas se hoje, todos reconhecem os esforços que cada um desses países fez para que coletivamente se tornem melhores, pouco se fala por outro lado que as empresas e indústrias desses países parecem não ter a mesma avaliação. Afinal, foram empresas francesas como a Alstom e alemãs como a Siemens que corromperam o Estado de São Paulo nas licitações do metrô. Se tivemos grandes construtoras brasileiras citadas na Lava Jato, também tivemos a coreana Samsung, a inglesa Rolls Royce a holandesa SBM, a italiana Techint e a sueca Skanka. As mineradoras canadenses tiveram a informação que extinguiria as reservas brasileiras antes do anúncio oficial. Detalhe: 5 meses antes. Isso apenas falando de Brasil, se analisarmos retrospectivamente na história, lembraremos de outros casos de grandes empresas desses lindos países apoiando atrocidades ao redor do mundo.Algumas nasceram para servir o nazismo, o facismo e o expansionismo americano.

Ok, estamos falando de empresas, mas e as pessoas? Bom, se somos o país da prostituição infantil, uma parte importante desse mercado é composto por estrangeiros, notadamente europeus que se aproveitam da fragilidade de nosso país para fazer aquilo que eles não fazem no deles. Este obviamente é apenas um exemplo extremo, mas diversos estrangeiros – europeus, americanos e orientais -rapidamente incorporam hábitos vivenciados aqui logo depois de saírem de suas comunidades, sem muita reflexão.  Já vi japoneses estacionando em lugares proibidos e protestando contra o meu protesto de que estavam errados, um holandês flanelinha e europeus aplicando golpes em brasileiros.

De todo o modo, é frequente  o hábito de quando nos referimos a eles, não o fazermos a partir de generalizações, tipo “alemãozinho é foda”, “japonesinho, hein, num presta”. Assim como, quando vemos grandes problemas recorrentes internacionais com outras nações, como os tiroteios em escolas nos EUA, os jornais locais fazem de tudo para não apontar o elefante na sala. Sempre são pessoas doentes, individualmente, sem afetar o orgulho nacional. Ainda que estatisticamente é óbvio que um problema coletivo exista. Ao passo que basta um árabe fazer o mesmo que a primeira reação é generalizar a partir do terrorismo.

Ou seja, qual é o papel de generalizar um povo atualmente? Frequentemente reduzi-lo a uma característica perversa, quando sabemos que uma coletividade, mesmo com suas idiossincrasias, tem uma pluralidade que extravasa qualquer generalização simplista. Porém, o mais engraçado em relação a nós, é que não temos o costume de generalizar outros povos, como frequentemente observamos, mas nós mesmos.O velho e recorrente complexo de vira lata. Por que?

Existem inúmeros motivos é verdade. Difícil apontar todos eles numa crônica curta que tem como principal objetivo simplesmente apontar o óbvio, mas arrisco a dizer: qual é a maior de todas? A terceirização das responsabilidades. Isso é um traço muito particular de nós brasileiros, incluso eu, sempre tentarmos achar culpados externos pelo que vivemos coletivamente. No fundo, acreditamos que estamos aqui só de passagem, como se fossemos estrangeiros de nossa própria pátria.  Se muitos de nós são exemplos de como empreender e vencer nas adversidades, por outro lado, temos uma dificuldade de criar lideranças politicas não inseridas no ciclo vicioso da nossa politica. Por que ela não foi construída visando a comunidade, mas algo que está além dela. E, sim, também é nossa responsabilidade.

Os melhores entre nós preferem brilhar sozinhos, e com toda razão. Mas se conseguimos em outras tantas carreiras ter sucessos individuais, por que não empreendemos no principal desafio da nossa nação, que é isso mesmo, ser um nação? Talvez porque é mais fácil não ser brasileiro e simplesmente terceirizar as mazelas do nosso país para os outros, os bárbaros, esses que estão a alguns quarteirões da minha casa, talvez ao lado, e não reconhecer que todos nós somos responsáveis pela nossa rua, nossa comunidade, sociedade, país.

Há quem possa se destacar e ser um líder nesse cenário, vamos reconhecer os esforços e sermos receptivos com novas lideranças, mas principalmente vamos exercer a política no dia a dia, pedindo para que as pessoas não ponham lixo fora do horário, emitindo nossa opinião com respeito, nos envolvermos com as pequenas e grandes questões cotidianas. Mas, principalmente, não generalizarmos responsabilidades individuais. Se alguém cometeu um mal feito, ela deve responder com nome, sobrenome CPF e se defender diante do tribunal. Chega de cairmos em nossa armadilha coletiva de não enxergarmos como uma sociedade, com todas as complexidades e deveres que isso acarreta.

Chegou a hora de todos assumirmos a responsabilidade mais básica de todas em uma nação. Eu sou brasileiro, com toda a delícia e a dor que isso traz. E você?

Bogado Lins é escritor, roteirista e brasileiro com toda a responsabilidade que isso traz