Heróis Possíveis

Vivemos em tempos difíceis, uma afirmação que seguramente é compartilhada por todos. São em momentos como esse que se inicia uma demanda por narrativas que façam as coisas valer a pena. Por isso mesmo, de uns tempos para cá, assistimos uma proliferação de heróis, principalmente a partir da piora vertiginosa do cenário recessivo.

Tivemos alguns destes personagens nos últimos anos, porém a divisão e anomia social não permitiram unanimidades. Isto sem contar as próprias contradições de alguns destes pseudo ídolos que, com o tempo, ficaram ainda mais evidentes. Sem dúvida, o melhor exemplo é o próprio Eduardo Cunha. Em um dia, o paladino do impeachment, no outro, preso por delitos muito superiores ao alegado no pleito. Hoje, é praticamente unânime que trata-se de um crápula.

Dentro desta realidade distópica que piora a cada dia, chama a atenção a comoção nacional a respeito do desastre do avião da Chapecoense. Obviamente, estamos diante da maior tragédia que já acometeu nosso futebol. E ponto. Os jogadores não morreram por uma causa, uma guerra, ou qualquer outro fator que possa sugerir tamanha comoção e reconhecimento por parte da mídia e da própria população.

Neste ponto, talvez já haja leitores furiosos. Que heresia! Não se trata(apenas) de elencar que há inúmeros outros fatos, ocorrendo aqui ou em outras partes do mundo, que merecem nossa comoção, assim como o desastre do time. Mas sobretudo entender o por quê do ocorrido. Por que nos emocionamos tanto? Por que eles se tornaram nossos heróis? A reflexão surgiu após questionar o meu choque referente a situação. Outro dia mesmo chorei ao ver uma homenagem ao time em um evento particular.

A primeira conclusão foi a própria natureza da notícia. Lembrando um recente artigo do André Forastieiri, trata-se de uma “notícia boa ”. E quando estamos falando de uma notícia boa, nos referimos de algo que move as redações e trend topics das redes sociais. E nem sempre, é bom lembrar, é uma boa notícia. Muitas vezes é o oposto disso. Uma notícia boa é necessariamente inesperada. Sua imprevisibilidade destoa das cerca de 60.000 mortes por violência no país, o que representaria mais de um avião destes por dia. Todo ano 60.000 pessoas são assassinadas, já morrer um time inteiro de futebol, isto é inédito e, portanto, inesperado.

Mas veja bem, esta reflexão visa negar racionalmente a comoção, a mesma que me impeliu a derramar rios de lágrimas mais de uma vez. De forma alguma explica o que ela causou. O intuito aqui é outro, compreender o por quê o fenômeno causou tamanho choque em todos nós. Qual seria o motivo?

Creio que o fenômeno nos aproximou de forma arrebatadora por uma questão de identidade. A Chapecoense, principalmente após o acidente, representou em nosso inconsciente o esforço diário que todos nós realizamos para viver em um mundo difícil. Vivia, e sobrevivia, em meio a gigantes numa competição que times como ele servem, de forma geral, como ativo de troca das divisões inferiores.

Algo porém foi preponderante, o seu sucesso. Sua ascensão em seis anos da Série D para a Série A, incluso a presença numa final de Sul Americana, é sem dúvida algo que trouxe um componente fundamental: o heroísmo. Com um orçamento muitas vezes menor das equipes de elite, conseguiu feitos que os elevaram no cenário do futebol atual. A final na segunda competição mais importante do continente foi a coroa desta trajetória surpreendente.

Mas o sucesso é apenas parte deste escopo. A tragédia e a outra. A inevitabilidade da vida, e da morte, trouxe para o episódio um componente dramático ainda mais relevante. O mesmo que serviu como matéria para os mitos fundadores. O herói que vence desafios mas, à revelia de suas conquistas, cai por vontade divina.

O paralelo ao nosso atual momento é inevitável. O desemprego, a queda de renda, a inflação e todas as dificuldades que, senão você, as pessoas ao seu redor, estão vivendo, trazem esta identificação ainda mais dolorosa e intensa. Aquele time que conseguiu vencer, mesmo neste cenário, perdeu para um inimigo muito maior: a inevitabilidade da vida.

Portanto, a Chapecoense tornou-se um símbolo poderoso. Este time de futebol não é nosso herói desejado. Sem dúvida o ideal seria alguém que nos salvasse e protegesse. Mas cada vez mais a desilusão tirou a legitimidade destes perfil. Cada vez mais, pelas frequentes desilusões, não acreditamos mais em heróis.

Este time simplesmente é nosso herói porque enfrentou as diversidades e perdeu para o inimigo maior, a inevitabilidade da vida. De alguma forma nos recorda simultaneamente a vitória e a derrota e, sobretudo, o nosso desejo de imortalidade.

Se eles não são nossos heróis desejados, são nossos heróis possíveis. Descansem em paz.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Paidecendo no Paraíso, esquina com a Topázio – O Pianista

Meu filho toca piano. O rebento hoje frequentemente faz apresentações e, entre um vídeo e outro, todos se emocionam ao vê-lo com esmero indo de uma nota para outra. Faz todo o ritual de subir ao palco, agradecer, tocar e agradecer de novo. Sem contar a camisa social que destaca-se no seu guarda roupa de camisetas comuns e peças rasgadas, mantidas sobretudo por um capricho pessoal. Sim, ele já tem os dele.

O esforço em garantir que faça aulas de música em parte foi meu, a outra da minha mulher que garante a frequência do moleque. Ao lembrar disso , considero a minha cota de egoísmo na ação. Não me entenda mal, é super bonito vê-lo tocar e acertar as notas no piano, oposto ao seu velho pai. Porém, o anseio de que aprendesse música desde cedo veio justamente de uma certa frustração minha de não conseguir fazer o mesmo.

Túnel do tempo: em idade anterior ao meu filho iniciar seu aprendizado, minha tia proibiu-me de tocar o seu piano de cauda. E desde então, os pianos viraram uma relíquia nobre e impalpável. Pouco mais tarde, na adolescência,  fiz uma tímida tentativa de aprender violão. O motivo não poderia ser mais banal, queria me destacar nas rodas e fazer sucesso com as meninas, a exemplo de alguns amigos. Mas a falta de disciplina me impediu de realmente avançar.  E, pouco tempo depois, lamentei minha displicência. Hoje, somo esta a minhas demais decepções: não ter um instrumento para chamar de meu. Mas a verdade é que, desde a proibição, nunca consegui contemplar um piano e entender-me como alguém capaz de dominá-lo. A imagem do instrumento acabou tornando-se algo superior a minha humilde pessoa. Mas por que não ele, por que não meu filho?

Sim, de alguma forma, projetamos nossas frustrações em nossos filhos. Não fui um pianista? Meu filho poderia muito bem sê-lo. Não era bom de luta quando criança? Coloca o menino no judô, kung fu, quem sabe no Jiu Jitsu também? Não fui muito afeito a computadores? Que tal pesquisar um curso de robótica? Não fui milionário e nem tive pai rico? Bom, isso eu realmente não posso ajudar muito, ainda.

Está certo que ele não é obrigado a tocar piano.  Calma gente, não sou um pai como o de Beethoven ou coisa parecida. Nossa tática foi suave, tentamos fazê-lo começar bem cedo com as aulas, antes de um eventual senso crítico despontar, ou  mesmo aquela preguiça que vai crescendo conforme vamos ficando mais velho. Até o momento, está dando certo. O moleque curte! Tanto que chorou copiosamente outro dia quando colocado sob a escolha entre o judô e o piano pelo orçamento em tempos de adaptação a crise.  Apesar de ter induzido a escolha no piano, acabei mantendo nos dois, afinal o seu choro me comoveu. Uma pena enorme que seu choro não fez o mesmo com o cheque especial, paciência. Como dizia minha falecida mãe; “$#%%$%?  $#%%$% e meio”.

De alguma forma, a continuidade da vida se desdobra de diferentes formas. Ele vai pouco a pouco tornando-se meu ídolo, chegando onde seu pai não esteve, por outro lado, vai imitando seu ancião, fazendo suas micro revoluções por onde passa.  Pois veja você, estava lá ele prestes a apresentar Asa Branca quando uma educadora percebe que o pequeno não porta a partitura. Sua professora tinha-lhe advertido a trazê-la, mas pelo tamanho da peça e pelo domínio do trecho, seria irrelevante. Mais que isso, talvez o atrapalhasse. De fato, comparando com outros colegas seus, percebia um certo nervosismo dos pequenos ao mirar o pergaminho defronte a eles, indagando-lhes a próxima nota.

Tenho que admitir, porém,  tremi em meu interior, será que o filhote iria me decepcionar? Sem dúvida, os alemães o culpariam caso não executasse a obra com maestria – by the way, eu contei que o colégio dele é alemão? Será que estava próximo dele pegar algum trauma irreversível como o meu de tornar o piano um item nobre, superior, absolutamente intocável? Foi então que a mágica aconteceu. Santiago subiu ao palco e tocou a música com destreza, com uma naturalidade como quem sempre o fizera. Palmas. E nada de partitura.

O ato talvez tivesse caído no esquecimento, caso não notasse que em sua última apresentação um fato curioso.  Não com ele exatamente, mas com seus colegas. Entre uma e outra apresentação, percebi que muitos não portavam a partitura desta vez. O fato havia provocado  uma mudança no colégio! Agora seus colegas poderiam optar, ou não, em tocar com as cifras. De fato, todos pareceram mais à vontade, sem a obrigação de mirar os próximos passos. Mais que isso, permitiu uma certa confiança na maior parte dos pianistas mirins.

E foi assim que dei-me conta que meu coração dispara quando olho para ele e me vejo, ainda mais do que quando choro vendo ele sendo aquilo que nunca fui .A infância é um pouco disso, uma projeção da criança que nunca fomos junto a um espelho do adulto que nos tornamos.

Bogado Lins é um músico frustrado, pai de filhos lindos e articulador do Literatura Cotidiana

O Mito eras tu

Não vou narrar uma fábula ou feito heroico, mas certamente deuses encarnadores das forças da natureza e das condições humanas enquadram-se neste relato. Acontece que sou impelido à redação sem ter um norte, um objetivo claro para com o texto que necessariamente surge. Há fonte. Apenas o mito.

No entanto a musa incita, o impulso está lá, aqui, empurra a mão à caneta; está cá, ali, sussurra do âmago à mente, que sente o desejo irrefreável de saltar para fora. Da boca foge. Da pele, não pode. Dos olhos, sacode, desvia, cega. Da mente a mão em códigos numa narrativa turva de significação simbólica desenha-se, talvez a fábula se realize. Apenas omito.

De fato, tem-se a representação de fatos e personagens reais inspirados, instigados, fustigados pela imaginação em meio a sacrifícios (de estilo) para soar verídico aquilo que verifico, dou veredito, todavia somente ventilo entre vírgulas censuradas aquilo a que viso. A narrativa toda vira castigo… As penas, omito.

Duras penas este viver a narrar sem narrar o viver, ainda que viva essa angústia. A verve sentida é contida, transmitida com vileza à pontiaguda em traços marcantes e cortantes ao íntimo ímpeto entre estas grades horizontais no papel. Esfacelo a fábula em ínfimas fatias fáticas. Da volição vulcânica, a face lívida afana toda ebulição. Fumaça. As penas, o mito.

Com oculares rasgadas precisamente furtivas e cercada de mirtos, encerras o trágico. Como portas o arco e a lira, armas e rosas, perigo e perdição, lugubridade e lascívia? Eras tu, Érato, que derramavas em lavas esta narrativa. Inspiro e não respiro. Queimo.

Apenas Mito.

 

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, às vezes jornalista

Os Lestics e Os Folhetins da Vida

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Durante anos, tentei fazer com que a banda folk Lestics entrasse numa novela do Silvio de Abreu da Rede Globo. Ele pedia dicas para determinados personagens que criava para seus folhetins. Deve ter uns 3 discos dos Lestics de formações diferentes. Não tinha a intenção de vender a banda ao sucesso ou coisa assim, apenas gostaria que mais pessoas conhecessem as letras e melodias de uma banda que possui uma qualidade ímpar em sua obra. Que bom seria que mais pessoas a conhecessem…

Conheci a banda no meio da década passada quando era Olavo (voz), Umberto (violão e Piano), Patu (baixo), Felipe (batera) e o Lirinha (guitarra). Como amigo do Lirinha, fui apresentado à banda. Era um simples ensaio no Nimbus, mas as suas musicas já me chamaram a atenção, principalmente, Plano de Fuga, com seu baixo Mccartiano e sua letra que diz que nem tudo esteja perdido. Sim, eu também acho que nem tudo esta perdido.

Olavo e Patu ainda continuam na banda. Fui a um show, recentemente, onde tocaram as canções de seu sétimo álbum ainda não lançado. Eles tocaram em um lugar chamado Casa Do Elefante. Este lugar vende DVDs, LPS e alguns livros. Um tipo de lugar que está se tornando comum na cidade de São Paulo – lugar pequeno com boa musica e as pessoas interessada pela musica que é tocada pela banda. E o Lestics fez seu show, como sempre honesto e poeticamente singelo.

Uma vez em um festival de Folk nos anos 2000, organizado por meu amigo Pedro Gama, enchi a paciência do Olavo após o show para tocar minha musica da banda predileta O Rio. Ele e sua esposa estavam visivelmente irritados comigo e com toda razão, me presentearam cantando à capela a letra abaixo:

O rio me leva a Lisboa
O rio me leva a Paris
O rio me leva pro mar
mas antes me traz aqui

Ele corre escada acima
Ele inunda a casa inteira
Ele cai pela janela
e se faz de cachoeira

Cheguei a tocar com alguns membros do Lestics. O excelente baterista Pio Parts e o multi instrumentista Primo. Músicos de primeira e pessoas que passaram poucas e boas comigo. Pio Partes saiu recentemente da banda, gravou o álbum Seis da banda e partiu. O Primo teve rápida passagem na banda, mas de vez em quando conversamos sobre o assunto.

Seu álbum seis possui participação especial do grande Bocato em Entre Caracas e Paramaribo. Destaco a sublime Um jeito especial de dar errado, que foi até trilha de relacionamento deste que vos escreve. E acredite todo mundo se identifica com a frase que diz que a gente não foi feito para dar certo, mas encontrou um jeito especial de dar errado.

Quando os Beatles acabaram, perguntaram a para Mick Jagger qual era melhor banda que existe ( todos esperando que agora ele ia dizer que era os Stones) ele disse que era a banda que toca no bar da esquina de sua casa. Concordo com Mick Jagger por isso vi tantos shows de inúmeras bandas com um publico pequeno e às vezes desinteressado, mas vi a verdade, a beleza e o mistério que somente a musica pode transmitir. Mick Jagger os Lestics é uma dessas bandas, aquelas que são a melhor que existe.

Guilherme Inhesta é alguém que olha para a direita e para a esquerda do tempo, John Cale numa banda que só toca Velvet Underground e estudante de Arte Contemporânea.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espanha Em Mim e Em Toda Parte

São Paulo esta tendo seus dias de Espanha:  o filme Julieta de Almodóvar está em cartaz, a exposição Valise Mexicana com fotos de Robert Capa sobre a guerra civil Espanhola ocorre na Caixa Cultural e ainda a exposição de Pablo Picasso “Mão Erudita, Olho Selvagem” fica no Instituto Tomie Ohtake até 14 de agosto.

Impossível não querer ir ao cinema para assistir um dos mais importantes diretores da atualidade. Pedro Almodóvar possui uma obra cinematográfica importante e pessoal com altos e baixos. Julieta está no “alto”, com certeza, a historia de uma mãe lidando com o desaparecimento voluntario de sua filha é envolvente. Almodóvar é um dos mestres do drama, Douglas Sirk com certeza o chamaria de um excelente discípulo. Mas vale a pena citar que existe algo a mais que Sirk no cinema de Almodóvar e é a Espanha. Em suas ações e reações características de uma cultura com sangue latino. Ir ao cinema também é sentir um sonho em outro idioma.

Na exposição Valise Mexicana na Caixa cultural no centro de São Paulo, encontra-se um dos maiores fotógrafos de todos os tempos o Sr. Robert Capa, junto a ele temos fotos de Gerda Taro e David Seymour. A Guerra Civil na Espanha na década de 30 foi responsável por mais de 40.000 mortes. A raça humana às vezes me decepciona. Mas a coragem dos jovens fotógrafos é também um feito de nossos pares. As fotos em geral são feitas em batalhas nas cidades, em campos, ateliês e até mesmo em igrejas. A guerra chega para tudo e para todos. Existe uma opção politica dos fotógrafos e suas fotos transmitem, além da paixão por aquele oficio sendo criado por eles. Existe também na exposição um “certo” Hemingway que aparece em uma bela foto.

Ele é um dos maiores (o maior?) artistas do século passado, Pablo Picasso está no Thomie Othake. A exposição conta com mais de 100 peças do artista, inclusive com uma sala muito boa com o tema da Guernica. Recomendo a canção a Pequena Guernica dos Lestics ( Minha próxima crônica será sobre eles, grande banda ). Picasso foi um artista que colocou tudo em sua obra família, desejos, medos, amigos e tentações. O quadro O Homem Com Chapéu é um exemplo da genialidade de Picasso. Ele fez um quadro daquele com apenas 14 anos. Picasso dizia ser fã de Dom Quixote, assim como este que escreve entendemos um pouco mais de nos mesmos ao ler as aventuras do Cavaleiro da Triste Figura, talvez esteja em Cervantes uma grande influencia de Picasso.

A metrópole tem seus inúmeros defeitos, impossível que um crescimento tão acelerado como o que aconteceu em São Paulo não traga problemas de diferentes formas e maneiras. Mas a Espanha está conosco e se mostra em sua cultura neste semestre na nossa cidade. Faço destas pequenas e singelas palavras meu convite a você conhecer não só as mostras, filmes e fotos, mas sim nossa cidade que é também ela em grande parte também espanhola.

Guilherme Inhesta é descendente de espanhóis, corintiano, respeitador da sinalização, músico, intrigado pelos acasos e acima de tudo apreciador da cerveja que irei lançar chamada Com Moderação.

BRT Literário e as Cotidianices de Renata Andrade

As cotidianices tem sido negligenciadas aqui no blog. Faz tempo tenho preocupado-me com temas “superiores” que concernem às grandes questões existenciais e acabei deixando de lado os personagens e causos do dia-a-dia que foram o motivo inicial do espaço.

Atentei-me ao fato acompanhando a Renata Andrade, que tornou-se, ou sempre foi, uma verdadeira mestra no assunto. Está certo que a favor dela tem o BRT, um meio de transporte que inaugurou uma nova dimensão de cotidianices e que supera o metrô em São Paulo em enredos e narrativas.  Mas há de se reconhecer que a dita cuja tem um olhar apurado para o ditame.   Seu blog no Medium, ou mesmo seu perfil no Facebook, oferecem causos deliciosos e divertidos com um humor que é próprio de quem reconhece que a vida é apenas este exercício de ir, vir, voltar e observar o que acontece no meio do caminho.

A cronista apresenta situações como o ladrão que superou recordes olímpicos e seguramente estaria no mais alto lugar do pódio se não estivesse mais preocupado em tomar o celular de algum motorista distraído. Ou mesmo contando algumas de suas mancadas, fazendo o humor sofisticado do clown, que faz de si mesmo o sujeito do riso. Tudo isso e muito mais está a um clique de distância.

A carioquice ajuda, e muito. Há de se reconhecer que esta sisudez paulistana,  que gera mais silêncios que diálogos, atrapalha. A correria entre uma estação e outra parece uma tentativa de suprimir o tempo, e o tempo é a principal matéria-prima das histórias. Mas toda esta argumentação trata-se de um sofisticado mecanismo de autodefesa para tentar justificar-me ter deixado de lado o cotidiano. Trata-se na verdade da perda do olhar clínico, destreino talvez, ou ainda um certo enclausuramento que guarda para si as histórias que outrora deitavam-se na superfície do texto.

Porém reconhecer a grande literatura, nem que seja nas pequenices do dia-a-dia,  sempre nos faz melhores escritores. Afinal, esta é a grande vantagem da arte. Não existe narrativa maior ou menor em absoluto, existe sim um despertar de sentimentos que se projeta no apreciador. E a hierarquia existente na arte flutua conforme este despertar constante, fazendo ora uns maiores, ora outros. E mesmo esta hierarquia comporta tantas diversidades que possivelmente não se detém em números, como nos esportes que a vitória é a única baliza,  mas em intensidades, como as diferentes frequências que um sentido é capaz de assimilar.

Sendo assim, perdoo a minha negligência com o cotidiano, talvez fruto de uma destilação para algo diferente, e saboreio as palavras desta escritora que recorda-me a todo instante como a realidade é cheia de enredos fantásticos e, ao mesmo tempo, triviais. Valeu Renata!

Bogado Lins é escritor, roteirista e apreciador da boa literatura cotidiana