Democracia – Antes do Liberalismo Econômico, o Político

Sem liberalismo político não tem porque liberalismo econômico. Antes de tudo é preciso fazer este acordo com o leitor. Esta premissa, que você pode discordar, coisa boa do liberalismo político, é fundamental até mesmo para que o comércio entre as pessoas possa funcionar plenamente.

Mas o comércio é apenas parte, crucial é verdade, desta equação, mas sozinho não é suficiente, tampouco ideal. Mais que liberdade de comércio, precisamos de liberdade política, com todos os deveres e desafios embutidos nesta escolha.

Liberalismo político? Nada mais é que a democracia. E o Brasil tem avançado neste caminho, bastante, mas ainda está longe de ser pleno, mesmo com um regime “democrático”. Explico-me, acontece que ambas são utopias, não existem plenamente em nenhuma sociedade, e estão espalhadas de uma maneira difusa e orgânica, com maior ou menor intensidade.

O Brasil nunca foi liberal e nem democrático. Não adianta fazer uma constituição para proclamar do dia para a noite que ambas as coisas existem e coexistem. Isto é ainda mais utopia. Mas fazer uma constituição democrática é, oxalá, criar um início, um caminho e muito bom que o Brasil esteja nele. Um bom parâmetro para entender este problema é o livro Liberalismo e Democracia de Norberto Bobbio. Diz o autor que se pode medir o quão uma sociedade é democrática verificando em quantas instâncias ela decide as coisas democraticamente. Democracia é, enfim, hábito e cultura internalizada e espalhada ao longo da sociedade.

Não precisa de muito esforço para ver que ainda estamos longe deste caminho.  Nas ruas, nos bairros,  nos parques e até mesmo nas famílias, temos manifestações de autoritarismo por todos os lados. Mas há um ambiente que por excelência o autoritarismo se expande com mais facilidade, com mais conivência: as empresas. Sabemos que o ambiente do trabalho, pela sua própria natureza de responsabilidades e entregas, permite e até incentiva a figura do chefe déspota para conseguir seus objetivos. E isto obviamente foi reforçado durante os anos de desemprego econômico que o Brasil viveu durante os anos 90 e no início da década passada.

A primeira faceta ruim é a centralização, é muito comum as decisões mais importantes estarem centralizadas na mão de um gestor inalcançável. Além do óbvio desperdício de tempo, muitos funcionários fazem uma leitura óbvia desta postura: não temos responsabilidade, logo não importa, o que obviamente leva a um grau de imobilismo e baixo nível de inovação. Mas esta não é a pior. Muito mais prejudicial são os diretores e gestores que acham que dentro do ambiente de suas empresas estão acima da legalidade. Óbvio que uma empresa tem um ou mais donos e que eles tem o direito de manter quem eles quiserem para trabalhar para eles. Mas contratar alguém não significa ter “poder” sobre esta pessoa além do cargo que você a contratou, não  significa poder constrange-la na frente de seus colegas, ou mesmo em particular e, sim, você deve respeitar a legislação trabalhista.

Pela lógica, quanto maior empresa, mais deve ter canais de comunicação e, na medida do possível, de compartilhamento de decisões devem ter, afinal mais pessoas estão envolvidas neste ambiente, no mínimo no plano da produção. Uma Sociedade Anônima, supõe-se, deve também cumprir sua “razão social” e além do lucro a seus associados, deve compreender que ela deve exercer uma função na sociedade, e da melhor forma possível, garantindo sua sobrevivência. Isto é liberalismo econômico e politico, e se for uma “utopia”, não é uma utopia “nossa” mas do próprio discurso das grandes empresa, afinal é a base da teoria da governança corporativa que se baseia nos interesses de seus “stakeholders” (acionistas, clientes, colaboradores,fornecedores e sociedade), por mais que não seja colocada em prática.

Mas a reflexão aqui deve ir além do trivial. Ora, por que uma empresa deve ter um ambiente liberal?  Temos exemplos de empresas que tem ganhos ao compartilhar com seus funcionários decisões e benefícios. Costumam ser mais inovadoras e oferecer produtos melhores. Mas temos diversas outras que não são, pelo contrário, e frequentemente estão entre as maiores do mundo.

Chegamos finalmente ao ponto: antes do aspecto puramente econômico, precisamos também tomar uma decisão política. Nós precisamos exigir ambientes de trabalhos que proporcionem a nós e ao próximo uma vida digna, assim como nas outras instâncias das nossas vidas. Por que? Simples, porque não podemos tolerar viver novamente em ambientes totalitários. Sejam eles onde forem. Estas condições de trabalho geram ganhos de escala produtiva, e em última instância, em algum momento, nós, ou nossos filhos, seremos obrigados a trabalhar nestas condições. Mesmo a inovação, tão vangloriada na atualidade e difícil de se alcançar em ambientes assim, é frequentemente roubada sem pudor algum. Estima-se que empresas como a Apple e o Google gastem mais em processos de direitos autorais do que em inovação.

Não, eu não quero de jeito maneira, seguir o exemplo da China, mesmo com todo seu crescimento  econômico espetacular e nem quero que outros países sigam este caminho. Devemos nos pautar nos melhores exemplos e sem dúvida, por mais que hajam ajustes e avanços, eles estão na Europa e nos Estados Unidos, e em suas empresas.

Mas antes de “seguir exemplos”, precisamos “ser exemplo”, tomar atitudes,  e talvez a primeira  dentre elas seja escolher a forma de como queremos trabalhar e consumir. Aí está a chave de uma sociedade verdadeiramente liberal, econômica e politica: os nossos direitos tornam-se simultaneamente os nossos deveres.

Bogado Lins

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s