Uma Análise Liberal sobre o Manifesto Passe Livre

O assunto mais comentado nos últimos dias foi a mobilização popular a respeito do aumento das passagens de ônibus. Jovens e movimentos populares se uniram e foram às ruas para protestar contra o acréscimo de R$ 0,20  no valor da tarifa. Desde então, o Facebook, que virou uma espécie de termômetro da aclamação pública, foi tomado por duas correntes: uma contra e outra a favor.

A mídia obviamente tomou partido no assunto. Não é preciso ser um grande analista para verificar que todas as matérias a respeito do temas salientam os termos “depredação”, “vandalismo” e perspectivas que tomam como referência estes atos. Eles estão certos, sem dúvida houve isto mesmo, mas uma análise não pode se prender ao óbvio, deve ir a fundo sobre a questão. Então, mesmo sem ter estado lá,  vamos praticar este exercício.

Foram três dias de manifestações reunindo milhares de pessoas. Algumas fotos impressionam, não dá para ver o horizonte.  A raiz do movimento é jovem, chama-se Passe Livre, e a bandeira é utópica, reivindica o transporte gratuito, mas não impossível, visto que já existe uma cidade na Europa com o sistema( Tallinn na Estônia), obviamente com características muito diferentes de São Paulo. O movimento já existia antes, portanto o aumento da passagem foi apenas o estopim, e possivelmente foi abraçado por diversos outros movimentos, visto que dificilmente eles sozinhos conseguiriam reunir tanta gente e por três dias consecutivos.

Ainda que possa se discordar da bandeira, eu, por exemplo, discordo do passe livre, é perfeitamente legitimo o protesto. Basta observar a curva de aumento da passagem desde 1994. Segundo dados do Portal Terra, se a passagem seguisse o aumento da inflação custaria hoje R$ 2,16. Segue o link abaixo para conferência

http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/tarifas-metro-onibus-sp/

A diferença de mais de um real pesa no bolso do trabalhador, mesmo com o subsídio do vale transporte por parte do empregador( todo o valor que exceda 6% do salário). Primeiro porque, é bom lembrar – ainda mais em São Paulo –  nós não utilizamos o transporte apenas para trabalhar. O trabalhador frequentemente sai em seu dia de lazer e pode fazer um curso a noite ou ainda ter filhos em idade escolar que necessitem pegar ônibus(diferente de outras cidades que o transporte escolar é gratuito, em SP o estudante paga meia). Depois porque este valor que vai para o transporte poderia muito bem ser utilizado por parte do empregador, se assim o desejasse, para aumentar seus rendimentos.

O valor torna-se ainda mais escandaloso frente aos subsídios que nós pagamos via impostos. Pagamos R$ 1,2 bilhões a um sistema privado e sem concorrência. Ou seja, além do valor da passagem, soma-se este valor bastante relevante no orçamento da cidade, repito, para um sistema privado de transporte e sem concorrência.

Um breve adendo, frequentemente vejo algumas pessoas reclamarem de quanto os brasileiros são omissos a questões políticas e, com ainda mais frequência, o quanto os impostos pesam no bolso do brasileiro. O mais engraçado é que boa parte delas se posicionou contra os protestos mesmo pagando limpo para empresários uma quantia desta grandeza em forma de subsídio, muitas sem nem ao menos utiliza-lo. Isto sem contar com o apoio constante aos desmandos da polícia, cheirando a saudosismo dos tempos da ditadura, quando os próprios reclamadores de plantão não poderiam reclamar dos impostos e protecionismo (aliás, é bom lembrar, ampliado pelos militares na ditadura com a aliança entre governo e os empresários “amiguinhos” do regime) e da corrupção. Mas voltemos a questão pura e simples.

Sobre o protesto em si, óbvio que qualquer pessoa que paga a conta é contra o vandalismo e violência. No fim das contas tudo retornará em impostos e provavelmente em mais corrupção, durante as compras e manutenção dos equipamentos. Isto sem contar que os feridos, policiais e manifestantes, podem as vezes sofrer traumas irreversíveis. Mas para se posicionar a respeito do assunto, é preciso dois cuidados básicos.

O primeiro deles em relação a nossa mídia. Basta lembrar algumas coberturas totalmente manipuladas a respeito de manifestações populares, uma delas durante o movimento Diretas Já. Pode parecer um passado longínquo mas este é apenas um exemplo escancarado, visível, de como as coisas são divulgadas de acordo com certos interesses. Pois bem, basta orientar os repórteres para seguir a passeata  e procurar somente aquilo que interessa. Isto basta para influenciar decisivamente na opinião da matéria, sem sequer tomar um posicionamento, digamos, mais claro.  É bom contrabalancear estas perspectivas com outras análises, por isto vou elencar abaixo uma que me pareceu bem cuidadosa, a da repórter Marina Novaes, com um nível de detalhamento um pouco incomum na internet.

http://noticias.terra.com.br/brasil/transito/protesto-em-sp-dura-cerca-de-6-horas-e-tem-pelo-menos-20-detidos,5879a9eb5063f310VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

A segunda em relação à nossa polícia. Sabemos que ela ainda não sabe lidar com manifestações deste tipo. Ainda está se acostumando muito lentamente, e com muito sofrimento, é bom lembrar, com certos paradigmas democráticos de como deve lidar com a população a quem ela deveria servir.  Geralmente, a primeira decisão é abafar tudo com violência e, nestes casos, o público costuma revidar. E isto obviamente vai gerar vandalismo e mais violência.

Não estou dizendo que não houve vandalismo gratuito. Deve ter ocorrido, sem dúvida. Mas basta olhar para esta foto abaixo para intuir que se todos estes indivíduos fossem vândalos, eu duvido muito que São Paulo estivesse de pé hoje, Ainda mais com três dias sucessivos de protestos.

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Eu, como liberal, sou a favor dos manifestos, algo que nós brasileiros ainda não nos acostumamos após anos de ditadura. Fico inclusive feliz que uma bandeira econômica, que afeta diretamente a população tenha servido como estopim para protestos. Nisto nos assemelhamos com os europeus, e americanos, que tem como principais motivações para reclamar e se manifestar publicamente questões relacionada ao seu cotidiano, em vez de causas ideológicas e, na minha opinião, vazias para a sociedade.

Muito ainda precisa ser feito. Protestos contra o escândalo do Maracanã e a política de privatização da esfera pública no Rio por parte do Estado e Prefeitura, por exemplo, aconteceram, mas não tomaram a proporção e o apelo deste movimento.  Deveriam seguir este exemplo, pois de alguma forma ambos tem uma raiz muito semelhante: a utilização da maquina pública para fins privados. Afinal o que é o transporte público em São Paulo senão um péssimo serviço prestado por empresas privadas com monopólio garantido, tarifa abusiva (em 2012 a passagem na Cidade do México custava 0,75 em maio de 2012 segundo matéria do Extra) e, mesmo assim, contando com um subsidio bilionário? Sem dúvida tem alguma coisa de errado.

Avaliando tudo isto, sou a favor dos protestos. Acendem o alerta no governo e servem para contrabalancear as forças políticas. Servem inclusive para tirar o PT da zona de conforto, afinal acontecem em meio ao marasmo econômico dos últimos anos de Dilma .  É bom lembrar que a tão odiada corrupção e o autoritarismo andam juntos, isto porque sabemos que para as coisas continuarem como estão, basta que ninguém reclame. Admira-me que todos sejam contra a corrupção e não apoiem movimentos que, no mínimo, põem uma questão tão importante no centro do debate político.

Agora o mais irônico de tudo, e que sem dúvida vai  dar ainda mais o que falar, é que dias depois de sentar a mão nos manifestantes, a própria Polícia parece estar anunciando o seu protesto por maiores salários. Os próximos dias prometem discussões quentes. O que será que a mídia noticiará? E a opinião nas redes sociais? Estou curioso para ver.

Bogado Lins

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