Rua Gualachos – Epitáfio

É, esta é a rua que está morrendo… Ou de outro ponto de vista nascendo, e sob novo nome desenvolve-se comercialmente, na velocidade voraz do aquecimento financeiro e imobiliário da cidade de São Paulo.

Não, não moro nesta rua e nunca morei, por trinta anos morei na rua onde ela começa. Provavelmente também nunca vou morar na Gualachos, embora esse fosse meu sonho de infância transmitido a mim por minha mãe – o sonho era dela. (Existem até fotos dela nos tempos de sua adolescência defronte ao jardim do casarão mais bonito da rua. Casarão este que já foi demolido há uns dez anos para dar lugar a um estacionamento, infelizmente, e que já foi desativado também.)

Esta rua tornou-se um oásis de calmaria e clima residencial em meio ao bairro misto em que se localiza e que, próximo ao centro da capital e mais perto ainda da Avenida Paulista, viu ao longo de décadas em boa parte de seu entorno crescer o número de comércios e edifícios comerciais ou residenciais. Há dois anos, contavam-se por exemplo quatro estacionamentos na rua, ou seja, eram quatro casarões a menos e sinal de que a demanda de automóveis mudou muito nas últimas décadas.

Estacionamento enorme na entrada da rua

Estacionamento enorme na entrada da rua

Mas não é só por isso que esta rua chama a atenção. Na verdade, ela possui um trajeto curto de um quarteirão meio longo, mas que não chega a 300m. O trajeto é sinuoso, no meio há uma clareira onde a rua fica bem mais larga – e, por sinal, é nessa altura que existia o casarão mais bonito… – e termina no Tênis Clube Paulista. Ela acaba em outra clareira chamada Praça Tênis Clube Paulista, mas cujas características de praça deram lugar a uma garagem a céu aberto e uma das últimas casas também foi abaixo e é um dos estacionamentos.

Estacionamento em lugar de casa e onde subirá um prédio

Estacionamento em lugar de casa e onde subirá um prédio

Há outra curiosidade sobre o nome da via, nas placas das casas que ainda restavam e do Tênis Clube, podiam-se verificar outras grafias: Gualachos ou Gualaxos e Gualaxo. No site do clube instalado há 86 anos lá, consta o nome pelo qual a rua é conhecida pelos moradores mais antigos do bairro: Gualachos. No entanto, no site da prefeitura e no google a rua aparece com a última opção, Gualaxo, nome de uma tribo indígena que vivia no sul do Brasil e que teve muitos enfrentamentos com os bandeirantes. Outras duas ruas com nomes indígenas também deixaram de existir no nome: a Jurubatuba e a dos Tupinambás, esta última ainda consta no própria site da prefeitura embora seu nome tenha mudado recentemente para homenagear um médico Rua Doutor Eduardo Amaro – um dos fundadores do hospital e maternidade situado nesta rua.

Além dos casarões vindo abaixo para dar lugar aos estacionamentos, quase todas as casas da rua Gualachos estão sendo demolidas e prédios comerciais vão surgindo um atrás do outro. Em meio a este processo, outra característica da rua também está se perdendo. A Gualachos era um oásis por ser extremamente arborizada, com árvores muito antigas com copas que encobriam totalmente a via e cujos troncos eram inabraçáveis tão largos eram. E muitas das árvores vão embora junto com as casas. É triste.

A rua está morrendo…

Não veremos os carros suados ou balançando aos amores mais afobados que eram habitués do local. Tudo bem que isso também vai diminuir o afluxo de maconheiros que há décadas frequentam a rua para discretamente fazer uso de sua erva, porém o mais chocante é a agressão burra a uma cidade já carente de áreas verdes.

Mais que o meu sonho não se realizar, é triste ver erros inacreditáveis de urbanização sob a pecha de progresso perpetuarem-se em plena segunda década do século XXI em São Paulo. Como podem permitir em um quadrilátero de nem meia dúzia de quarteirões com ruas que não comportam duas vias de circulação, com duas escolas, uma faculdade, um curso pré-vestibular, um centro de cursos técnicos, um clube, um hospital público e um enorme hospital e maternidade, construir tantos edifícios comerciais? Não só não há mais onde os próprios moradores estacionarem seus carros, quanto mais os muitos trabalhadores que já fazem parte do cenário, o que dirá os tantos que virão.

Só nos horários de entrada e saída das escolas já há um congestionamento generalizado nas ruas deste quadrilátero que não existia há 20 anos com as mesmas escolas. Entretanto, o que se vê hoje é que em quase todo o período comercial do dia já há uma quantidade muito maior de automóveis nas ruas da região inversamente proporcional à quantidade de árvores.

O primeiro edifício recentemente construído na charmosa Gualachos, justamente onde era o casarão mais bonito na parte mais larga da clareira do trajeto, deixou apenas a porta dos fundos para saída de lixo na rua Gualaxo.

Clareira da rua e os fundos do prédios ainda em construção no lugar onde fora a casa mais bonita da rua...

Clareira da rua e os fundos do prédios ainda em construção no lugar onde fora a casa mais bonita da rua…

É… o sonho acabou.

Paulo Roberto Laubé

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