Café da Xuxa

É impressionante como algumas coisas subitamente viram passado. Pareciam uma instituição eterna e, de repente, vão caindo gradativamente no esquecimento. Marcas, roupas, hábitos, ritmos e vivências vão sendo substituídos pouco a pouco, sem nenhum grande anúncio. Lembra o filósofo que anunciou “as maiores revoluções acontecem no silêncio”.

Programas de televisão eram assim, quase uma pedra fundamental na formação das pessoas.  A Rede Globo ainda hoje parece não ter assimilado muito bem a mudança dos tempos. Talvez por inércia, ou por opção deliberada, continua falando com praticamente o mesmo público, ou não, já que as mesmas pessoas que a acompanhavam nos áureos tempos de público exclusivamente receptor também não são mais as mesmas.  Vai ano, volta, e “vem aí” Faustão, Jornal Nacional,  novelas e Malhação. Precisa-se de anos e anos até que uma das peças da engrenagem da emissora sejam substituídas.

A Xuxa, por exemplo, hoje é uma pálida caricatura do que ela foi em seus “tempos áureos”. Noves fora zero, sua realeza de fato existiu naquele tempo em que era relevante dentro do seu xuxismo. Hoje a entidade Xuxa funciona mais ou menos como a Rainha da Inglaterra, figura lá como uma peça decorativa, aparecendo de tempos em tempos para falar com sua meia dúzia de súditos, enquanto o restante da população vive a sua vida normal. Vez ou outra faz uma ou outra ação mais polêmica, como anunciar que foi abusada sexualmente, ou pinta o cabelo de preto, em ação de marketing de uma marca. Logo em seguida volta ao seu ostracismo cotidiano.

Justiça seja feita, com as próprias mãos, a Xuxa até os anos 90 foi o primeiro programa erótico infantil da minha geração. Até os marmanjos gostavam de assistir vez ou outra o programa para acompanhar as fartas coxas de uma das primeiras “modelo, atriz e manequim”. Mas reduzir o programa ao seu aspecto meramente sexual é retirar toda a criatividade dos roteiristas que deveriam se matar para criar um ou outro aspecto relevante além da fartura da gaúcha.

A turma da Xuxa é um exemplo deste exercício de criatividade. Uma destas criações fantásticas deste time de criadores foi o “Dengue”, um mosquito gigante de múltiplos braços. Procurando no Google, achei fotos dele com uma guitarra cenográfica ao lado da Xuxa com shortinho. A pesquisa foi essencial para retirar o equivoco da falha de memória, tinha me confundido ele com o “Praga”, um anãozinho que se vestia com um figurino verde. Além deles, tinha as paquitas que preenchiam o palco com sua beleza e “louridão.

O “xou da Xuxa”- não estranhe, é com x mesmo e não era do Eike –  tinha  outros trunfos. Sua finalização acontecia numa nave na qual Xuxa embarcava rumo ao seu planeta de dengues, pragas e Sashas. Volta e meia criava um novo disquinho que vinha com meia dúzia de músicas de gosto duvidosa, quase jingles, que tinham como principal mérito grudar na mente e se repetirem indefinidamente no subconsciente. Não estranha que algumas delas toquem até hoje em festas do público que passou por esta perversão.

Xuxa, e sua turma de criativos, também foram responsáveis pela criação de padrões exógenos para o imaginário coletivo brasileiro, que permaneceram até, a bem dizer, os tempos atuais. Xuxa, junto a seus paquitos e paquitas, ajudaram a estabelecer um padrão estético sueco num país de mestiços. Outro foi o seu café da manhã, uma mesa repleta de pães, queijos, frutas, bolos e guloseimas mais ou menos saudáveis para a época, que ali permanecia no início do programa como exemplo de uma alimentação farta e saudável num país de maioria pobre e parcela significativa miserável.

Aliás, a dita mesa, antítese da alimentação do brasileiro,  fez tanto sucesso pela fartura, que acabou respingando em outro programa, de uma figura igualmente emblemática, e que também hoje é também uma pálida caricatura do que foi: Silvio Santos. O apresentador neste período conduzia a maior parte dos programas da segunda maior emissora brasileira, O SBT.  Um deles, possivelmente o mais famoso, era a Porta da Esperança. Um sorteado ia até ao programa e pedia algum “sonho”, qualquer que fosse. Após merchandising, suspenses gerais e vinhetas, a porta finalmente se abria. Se o sorteado tivesse sorte, seu sonho estaria ali.

Pois bem, certo dia, foi uma candidata ao programa. Era uma mulher simples, pobre e de biótipo que se diluiria em qualquer grande rua de uma área central brasileira. Seu sonho foi emblemático: queria um “café-da-manhã de rico”. Quem conhece Silvio, sabe que ele estava diante de uma oportunidade única para seu estilo de apresentação. Aproveitou-se do pedido inusitado para extrair da dita cuja a definição do tal café. “Sabe como é Silvio, com fruta, bolo, queijo, presunto e leite tipo do B”.  O auditório caia em risada. O sucesso da mulher foi tanto que ela ia e voltava do programa e audiência aumentava. Muitos queriam que a senhora finalmente tivesse o seu “café da Xuxa”, outros não, para vê-la voltar indefinidamente ao programa.

O café esfriou. Qualquer padaria ou hotel de quinta tem um “Café da Xuxa” em buffet. Nave espacial virou retro e o futuro agora está, digamos, mais terrestre, com redes sociais e aparelhos cada vez menores. Mais algumas coisas permanecem, como que garantindo que os tempos ainda permanecem. Hoje, por exemplo, domingo, pé de cachimbo. Dia de sol, futebol e Faustão.

Um beijo para minha mãe, para meu pai, para os meus amiguinhos e para você. Beijinho, beijinho, tchau, tchau e um x no seu coração!

Bogado Lins

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