A pequena historia da minha bolseta

Como o coldre do policial ou o cinto mil-e-uma-utilidades do Batman, uma das marcas da minha adolescência da qual ainda não me livrei é a pochete! É tão útil quanto fora de moda…

Lá por volta dos onze anos, minha mãe deciciu que eu poderia ter uma cópia da chave de casa, pois em breve eu passaria a voltar sozinho da escola, eu estava virando um hominho e todo esse papo. Ela só não me ensinou como fazer para que ao longo de cinco horas sentando e levantando das cadeiras da escola, jogando bola ou brincando, a chave não desaparecesse do bolso!

Bom, após algumas cópias perdidas, ganhei um belo adereço: um chaveiro com corda daqueles bons de girar nos dedos para pendurar no pescoço as chaves de casa e do portão do prédio. Parei de perder as chaves!

Pouco tempo depois, não perdi mais nenhuma chave, mas continuava perdendo várias outras coisas: os meus trocados, carteira da escola, cópia da certidão de nascimento (ainda não tinha meu RG)… Aí minha mãe – a sabedoria materna é sempre criativa! – ordenou que eu passasse a usar pochete, afinal as coisas precisavam estar presas a mim para que não as perdesse. Por incrível que pareça eu perdia também coisas que eu colocava na mochila da escola, não me pergunte como.

E foi bom, mesmo porque dois ou três anos depois pude carregar na pochete, além da carteira e da chave, meus maços de cigarros e isqueiros escondidos, halls ou kids, walkman, baralho, camisinhas, saca-rolhas, e otras cositas mas! A pochete transformou-se quase que num uniforme, não saía de casa sem ela. Até para a praia eu ia com ela (claro que se ficasse só de sunga eu tirava a pochete – e nunca tive sunga de crochê nem paletó de ombreiras como ridiculariza uma propaganda!). Aliás chegou a até a ser moda usar pochete! Embora eu não seja muito adepto da moda nem entenda muito sobre esse assunto…

Gostava de chamar minha pochete de “bolseta”, bolsa pequena, fazendo um trocadilho infame, que, por sinal, repeti inúmeras vezes, inclusive aqui no título.

Lembro uma vez, no segundo colegial, o professor de história que pegava no meu pé por conta do cabelo cumprido, sempre pedia para eu apagar a lousa. Quando acabei naquele dia, ele virou pra mim cheio de sarcasmo: por que você usa essa bolsa aí para trás? Sempre usei a pochete na bunda sem a menor crise com isso, e, todo cheio de mim, virei para o professor Luís: porque na frente já tenho o que tem que ter! E antes que a classe risse ele treplicou: Então você precisa de algo atrás?! E todo mundo caiu na risada. Nem por isso quis matá-lo…

No vestibular também tive problemas uma vez. Um fiscal cismou que eu tinha que tirá-la da cintura, mesmo mantendo ela pra trás. Isso que eu nem tinha pager ou celular. Aliás naquela época nem dinheiro tinha! E cola era algo que daria muito trabalho produzir… Tirei e deixei no chão e não a esqueci na hora de ir embora.

Há dez anos quando comecei meu namoro, minha namorada já reclamava por achar feio e fora de moda. Mas, confiante que sou, continuei fiel à minha bolsa de cintura! Era quase uma bolsa mágica tantas as coisas que carregava nela! Na verdade, as vezes que tentei sair de casa sem ela eu sempre estranhava, me sentia nu, parecia que eu estava esquecendo alguma coisa. Ou muitas. É muito difícil, cada dia é uma batalha, até porque a pochete é tão prática!

Aos poucos, ao longo dos anos, o conteúdo dela foi mudando. Parei de fumar, o saca-rolhas deu lugar a um suíço do Paraguai, o walkman se tornou mais que obsoleto com celulares e MP3 ou Ipod, o baralho deixou de ser essencial frente a um bloquinho de notas ou um gravador nos tempos do jornalismo. Em compensação as chaves, agora do carro também, a carteira, as camisinhas e escova e pasta de dentes são integrantes permanentes.

Mais recentemente passei por outro evento envolvendo minha pochete. Acho que não sou o único que tem problemas para entrar em bancos. É engraçado porque sempre estou com a pochete e o conteúdo declarado acima, mas raramente a porta giratória trava. No entanto, a agência onde tenho uma conta mudou de bandeira e passei a ser barrado todas as vezes que tentava entrar e, pior, eu já vinha deixando de usar a pochete.

Acontece que num dia com pressa, e com a pochete tentei entrar no banco e como sempre fui barrado. Já estava meio puto naquele dia, então olhei para o mesmo segurança e comecei a reclamar que era sempre a mesma coisa, que aquilo já estava ficando chato e blábláblá até que a porta foi liberada. Fui ao caixa, fiz o que tinha que fazer e, antes de sair, tirei o canivete da pochete fechado e indo em direção a porta mostrei para o segurança: olha com o que eu entrei nessa merda desse banco!

Guardei o canivete e saí de alma lavada

É, mas hoje a pochete não é mais bem vista, não só nos bancos. Tirando alguns ciclistas, corredores, e os comerciantes de rua ninguém mais usa pochete… Não sei por quê!

Estou tentando me livrar desse vício! Mas não deixo de carrega-la à cintura quando vou viajar, quando vou pedalar, quando estou sem mochila ou sem bolso… Ok, quase sempre estou com a pochete! Afinal, nem é tão ruim assim! Aposto que ainda vai voltar à moda!

Paulo Roberto Laubé

CABELO

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