João Teimoso

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A maior parte dos livros infantis me ganham pela ilustração. De forma geral, os enredos são simples e o texto beira o simplório. A razão parece óbvia, ele é voltado para crianças pequenas que supostamente não conseguem prestar muita atenção em narrativas longas. Muitas vezes isso é verdade, ainda que a prática cotidiana vá desenvolvendo um certo gosto pelas histórias mais complexas e a temas variados. Tomo como exemplo meus próprios rebentos, principalmente o primogênito de cinco anos. Se antes eu que lhe oferecia os livros, agora ele que vem com eles para fazermos a sessão leitura. Costuma trazê-los da biblioteca ou de um programa escolar que incentiva a troca de livro entre todos. E olha, precisa ter fôlego, daquele que as vezes nos falta depois de um dia inteiro de trabalho.

Mas não estou aqui para falar da categoria dos livros infantis como um todo, mas sim de um específico que me chamou a atenção: João Teimoso. Este livrinho foi escrito em 1974 por Luiz Raul Machado, autor que por algum motivo não tomei conhecimento até agora, mesmo estando no patamar dos grandes autores infantis brasileiros, tais como Ruth Rocha, Ana Maria Machado e tantos outros.  Desde então ganhou umas oito edições e vale tantas quanto forem necessárias para as gerações posteriores. Fez refletir sobre o porquê das autoras serem mais reconhecidas do que os homens neste universo literário, mas essa reflexão fica para outra ocasião.

O bacana do livro infantil é que ele mesmo é parte de um ritual, onde você e a criança estabelecem um acordo tácito em nome da literatura. Os dois ganham, você por se permitir a virar um contador de história e arriscar-se em vozes ridículas  e narrativas das mais diversas, e a criança por se deixar levar pelo universo que você e o livro estabelecem. A aventura é, ainda por cima, extremamente benéfica. Pesquisas indicam que crianças que participam de leituras costumam ter um desenvolvimento da oralidade e da escrita melhor. Mas, enfim, deixemos a estatística e mergulhemos em um caso específico que os números podem até explicar mas não compreendem: a leitura de João Teimoso para meu pequeno rebento.

Tudo começa com a madrinha presenteando um brinquedo para o menino. Chama-se João Teimoso, daqueles que vão para um lado e retornam em seguida com a teimosia de um destino. O menino mesmo não tem nome, talvez para que o seu filho possa fazer às vezes dele na história. E assim, a mágica acontece, envolvendo o seu menino, quem sabe você também, nas meninices do autor. A tal madrinha resolve ir embora, como muitos parentes dos nossos filhos, mas vai sem se despedir. Segundo Luiz, para que o menino não fique triste. Assim, ela vira a fada madrinha, que mais adiante vai fazer parte dos diálogos de menino com o brinquedo.

João Teimoso guarda um segredo, razão pela qual vai e vem sem se abalar. Menino precisa aprender este segredo para ler o livro do mundo, o mais lindo de todos.  Mas antes de aprender grandes segredos, menino tem muitas brincadeiras para compartilhar com seu boneco. E uma a uma delas vai lhe ensinar coisas que o silêncio pode dizer. E no final, bem, o livro finaliza. Afinal não vou estragar o melhor da brincadeira, né?

Creio que o mais bonito do livro seja a forma que o autor escreve. Consegue intercalar um ritmo para passar algumas mensagens, que não estão servidas de bandeja, estão por detrás da história, como segredos que precisam ser desvendados. Algo que apenas o dialogo entre você e “você mesmo”, representando pelo autor por um boneco, a companhia solitária de uma criança, pode lhe trazer. A aprendizagem cotidiana com a própria vida, e as questões internas que precisamos enfrentar, e desde cedo, ao contrário do que nossa tentação de proteção nos impele a esconder.

No final, meu filho me falou emocionado que este era um livro muito bonito. Acho que chegou a soltar uma lágrima. E um livro infantil me ensinou ou, mais precisamente, me lembrou – no fundo, muitas coisas nós já sabemos, precisamos apenas reaprender cotidianamente – que sim, uma criança também deve ter a sua pequena solidão e suas grandes questões.

Bogado Lins

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Uma resposta em “João Teimoso

  1. Que lindo , este foi um dos livros que o Santiago escolheu na biblioteca aqui pertinho da nossa casa. Ele mesmo criou o habito de pegar livros e tem sua carteirinha . é extremamente atendo com os prazos de entrega , pois não gosta de ficar suspenso e toda a quinta ao sair do futebol já entra com sua sacola de livros correndo biblioteca adentro para trocar por outros.

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