Impunidade se aprende na Escola

Os pais e familiares, os professores, as escolas, as leis, todos somos responsáveis pelo aprendizado mais repugnante e vergonhoso que ocorre em praticamente todos os colégios desse Brasil. A mesma impunidade que deveria nos mover para destituir quase todos os governantes e políticos do Congresso, das Câmaras, dos Palácios, a cada novo escândalo nos noticiários, é muito bem aprendida por muitas de nossas crianças – inicialmente inocentes – desde a tenra infância, principalmente nas escolas públicas brasileiras.

 

Houve uma época na qual os estudantes eram levados às escolas para que apreendessem uma formação humana e adquirissem os conhecimentos necessários para entrar no mercado de trabalho e/ou ingressar no ensino superior. Com esse intuito, os pais literalmente concediam amplos poderes aos professores tidos como mestres, e confiavam até mesmo que castigos físicos – da palmatória a ajoelhar no milho – fossem aplicados aos alunos. Nem por isso os adultos frutos dessa educação tornaram o mundo pior. Nunca se conversa com um vovô que ache um absurdo os castigos que recebeu, ou que se afirme traumatizado por eles, ao contrário, todos são saudosos dos tempos de escola e aprenderam muito.

 

Claro que castigar fisicamente as crianças e estudantes não é papel de professores, no entanto, assim como os políticos corruptos, criminosos e infratores, os alunos também carecem de punições quando erram. Qualquer criança em formação aprende com erros se for corrigida pelos pais em casa, então por que na escola seria diferente? Em outras palavras, a questão não é defender a possibilidade de castigar os alunos, mas sim que seja possível, é justo e educativo, que seja ensinado desde o início que todos os atos e escolhas geram conseqüências. Alguém discorda de que as pessoas devam aprender que são responsáveis por cada atitude que tomam?

 

Os professores podem fazer bilhetes aos pais, advertências, e até chamá-los para uma conversa quando há um aluno com mau comportamento, tomar alguma medida conjunta, descobrir se a conduta ocorre somente na escola, etc. Entretanto, é justamente neste ponto que se identifica o grande problema precípuo. A maioria dos estudantes de escolas públicas é oriunda de lares com famílias desestruturadas, ou, no mínimo, com pais “ausentes” pela necessidade de trabalhar e sustentar a casa. Isso dificulta o contato com os responsáveis, e confirma o que se observa em qualquer estabelecimento de ensino da rede pública: poucas crianças recebem alguma educação em casa.

 

Transferiu-se a responsabilidade de pais e mães para com a educação dos filhos aos professores. Além de absurdo é impossível que se exija de qualquer professor ensinar as noções de bom comportamento, respeito, os princípios de boas maneiras, polidez simultaneamente para trinta ou quarenta crianças a partir de seis anos apenas quatro horas por dia. A história do “Tarzan” ou “Mogli – o menino lobo” não é ficção; qualquer ser humano que se crie desde o nascimento sem contato com humanos é tão selvagem como qualquer outro animal, apenas em um corpo de homem. Uma criança que não recebeu os mínimos parâmetros de educação de seus pais, no seio de sua família, dificilmente os aprenderá na escola, visto que as leis – segundo grande problema – impedem que se castiguem os alunos.

 

É concebível proibir um professor de colocar um aluno para fora da sala de aula? É aceitável que não seja permitido a um coordenador de escola suspender um aluno? E a melhor de todas: é possível um aluno passar ao ano ou à série seguinte sem notas suficientes? No estado de São Paulo, a resposta é sim para todas as anteriores! Além de ser vetada ao professor qualquer forma de castigar ou punir o aluno que adota algum comportamento inadequado, um estudante matriculado na rede pública estadual não precisa sequer obter notas médias para evoluir no curso. O último recurso para impor algum limite aos “alunos-selvagens”, as notas, simplesmente foi extirpado. Em resumo, o estudante não precisa estudar, por incrível que pareça!

 

Pior ainda é o fato de hoje o professor ser forçado a dar nota. Exatamente. Caso um estudante frequente mais de 75% do ano letivo, ele não pode ser reprovado; se ele não possuir nota suficiente, é o professor que será investigado pela diretoria de ensino. Somente há reprovação nos ditos finais de ciclo: quarta e oitava séries do Ensino Fundamental e terceira série do Ensino Médio. Por outro lado, supondo que o estudante esteja em final de ciclo e por nota ou frequência ele venha a ficar retido nesta série, ao fazê-la pela segunda vez, nem a falta de assiduidade, nem a ausência de médias pode reprová-lo de novo. Isto é a Progressão Continuada.

 

Inventou-se até um conceito novo para categorizar os estudantes que, dentro desse sistema, não atingem o desenvolvimento esperado e que não reproduzem o conhecimento condizente com a idade-série: “alfabético”, aquele que não pode ser chamado de alfabetizado, mas que consegue reconhecer o alfabeto e algumas palavras, escreve o próprio nome, e provavelmente sabe copiar da lousa. Muitos alfabéticos concluem a vida escolar e são jogados ao mercado de trabalho e suas variações mais acessíveis: desde a informalidade até a criminalidade. Mas quando um professor perde a cabeça com tanto desrespeito, é ele o criminoso nos jornais.

 

Assim, para que ter boas maneiras?, para que ter política de boa vizinhança?, para que seguir regras de trânsito?, para que respeitar as leis?, para que educação? Do mesmo modo que os parlamentares são dotados de imunidade – um eufemismo para impunidade – os estudantes assimilam já nos primeiros anos escolares o que veem nos noticiários: o Brasil é o país da impunidade. Se preferir, podemos dizer que a formatura é uma boa pizza. E essa consciência da impunidade é oficialmente enraizada no comportamento das crianças e adolescentes que se tornam jovens e adultos sem parâmetros, sem limites, sem respeito, enfim, sem educação. Só nos resta mesmo a selvageria. E a culpa é do professor.

 

Paulo Roberto Laubé

CABELO

 

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2 respostas em “Impunidade se aprende na Escola

  1. Laubé, concordo contigo mas ainda acho que pior que aquele aluno que não tem educação em casa, ou melhor dizendo a chance de ter uma educação em casa, devido a uma série de conjunturas sóciais do nosso país é aquele que vem de uma família pseudônimo estruturada com condições, pais que estudaram, etc e que quando são chamados na escola devido ao comportamento dos filhos dizem que é tudo ilusão do professor, diretor, etc e que o filho deles é um anjinho… Isso sim é impunidade e costas quentes!

    • Sem dúvida, esta também é outra situação tão ruim ou pior, visto que em tese são pessoas mais escolarizadas e que deveriam ter um senso de realidade melhor. Mas…

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