Paidecendo no Paraíso – 6 anos

Neste ano a festa de Santiago, não teve brigadeiros, chapeuzinho e amiguinhos reunidos. Tal como a celebração de alguns adultos, que duram dias e encontros fortuitos num período entre a passagem de um ciclo e outro, a sua festa teve duração de  4 dias, desde o dia 27 propriamente dito até o dia 30.

Certa vez, em viagem pela Rio Santos voltando de Ilha Bela, Santiago estava no carro. Ao passar pela placa indicativa, avisamos para ele: filho, agora estamos passando pela Praia de Santiago. Logo em seguida, anunciou sua decisão: pai, mãe, quero fazer meu aniversário de 6 anos na minha praia.

Pois bem, este ano foi atípico. A celebração de 6 anos de Santiago foi no mar. No dia 27 de novembro, pegamos o carro e fomos estrada adentro rumo a Paraty. Para cumprir o objetivo principal, pegamos a mítica BR 101, e após duas horas de estrada, lá estávamos nós na isolada Praia de Santiago, sem barracas, turistas, pessoas sequer, em plena quarta-feira de novembro. Lá ficou o rebento, indo e vindo, correndo, pulando, batendo nas ondas. Seu cabelo molhado se mesclou em pontas, fazendo esculturas com as mechas enquanto o sol deu uma cor avermelhado nos fios. Ao contrário de seu pai, que se enveredou pelos rios e subiu as montanhas, Santiago tem afeição pelo mar.

Mas a Praia de Santiago foi apenas o início. De lá, pegamos a estrada das praias e montanhas, até a cidade dos piratas e contrabandistas de ouro, algo que fascina meu moleque desde sua tenra idade. Lá, nos instalamos na pequena Praia de Jabaquara. E logo na chegada, prosseguimos nossa estada à beira do mar. Ao perceber o ir e vir sereno das ondas, o menino foi direto submergir nas águas da costa. De lá não saiu até o cair da noite, quando o mar esquentou levemente, dando aquela preguiça de voltar.

Ainda deu tempo depois para Santiago cruzar o morro e ir até ao centro histórico. Lá, além de aprender a subir em árvore, conheceu um menino que não existia. Provavelmente tinha a mesma idade que o aniversariante. Aparentava não ter pai ou mãe, ainda que todos o conhecessem. Ao pegar um mapa, falou que morava na bússola e convidou Santiago para ir consigo para um ponto fora da existência, mas seu pai e sua mãe não lhe deixavam sair do raio da praça. Depois de comer batata frita e tomar sorvete, voltamos a pousada, cruzando novamente o morro e passando por um cemitério onde se encontravam as ossadas dos antigos corsários. Santiago quis entrar para ver fantasmas mas já estava tarde, e no dia seguinte prometia sol.

Ao levantar, Santiago conheceu João, vindo de uma cidade que fica longe de São Paulo mas, pasmem, também fica dentro do Brasil – ainda está se habituando a entender que o seu país é enorme. Dizem que lá na cidade de João tem um belo horizonte para se ver. Apesar de ser mais novo, ficaram bem amigos e parceiros de correria. Mas neste dia seu amigo foi pegar um barco, e Santiago retornou a praia, onde comeu moqueca de peixe e passeou de caiaque com o pai, indo até uma pequena ilha onde morava pescadores. No dia seguinte, porém, brincaram praticamente o dia inteiro na praia.

Não se sabe se as memórias permanecerão, eu mesmo mal me lembro dos meus seis anos, quanto mais do aniversário. Mas algo pode contribuir para pelo menos servir de recordação. Acontece que Santiago recebeu sua primeira carta de amor de uma menina de sua idade, uma argentina: “de La nenita que bibe(assim escreveu) en La puerta 1” e preencheu com três coracõezinhos. Ela estava na escada a caminho do nosso quarto sob uma pedra para não deixa-la voar e com uma pequena flor com um laço para enfeitá-la. Quando Santiago foi procurá-la, eles já tinham ido embora.

Ele próprio decidiu o dia que encerraria sua longa celebração, no sábado, para retornar para a celebração de encerramento do judô na escolinha. Mas a própria cerimônia para receber a faixa branca e grená, recebida do campeão brasileiro da modalidade, foi bem bonita, como que simbolizando a passagem da tenra infância para o início das responsabilidades do primeiro ano: dever de casa todos os dias, inúmeros livros e ainda por cima aprender a respeitar sua irmãzinha. Como diria o tio do Homem Aranha, ou Voltaire, não sei bem quem disse primeiro, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.

E após tantas aventuras, fica a pergunta, onde será o aniversário de 7 anos?

Bogado Lins

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