A Parábola do Bode

Para algumas pessoas a vida é um sofrimento. Eu compreendo, a vida é difícil, e digo mais, ela não é fácil. Mas há tantos encantos nela que eu friso: ela vale a pena. Basta que a alma não seja pequena, parafraseando uma pessoa aí que todos conhecem.

Mas se chegar o belo dia que você achar toda a sua vida um pesado fardo e querer desistir de tudo, mesmo sendo brasileiro, e não desistir nunca, lembre-se de uma parábola muito importante, a “parábola do bode”. Não conhece? Já conto.

Nos muitos ensinamentos adquiridos com o Marcelão na Praça São Salvador, este talvez seja o mais valioso. Como todo bom botafoguense, Marcelão era um daqueles barbudos contadores de estórias de boteco que riem das desgraças da vida. Uma figura típica dos bares de rua do mítico Rio de Janeiro com quem aprendi um bom repertório de piadas causos que me servem para todas as ocasiões. Mas vamos ao que interessa: a parábola do bode.

Jorge era um destes caras que chega ao ponto em que se quer desistir de tudo. Mas antes de dar um tiro na cabeça, vai ao botequim e encontra um velho freqüentador do recinto. Costumava se aconselhar com o sábio velhinho, vindo do interior do Brasil em um destes lugares que se acumulam sabedorias no atacado. Milton, se chamava, mas pode ter o nome que quisermos dar a ele.

– Milton, eu não sei o que eu faço. Minha mulher é uma bruxa, meus filhos são uma peste, o trabalho é só sofrimento e eu não agüento mais esta vida!

– Ora, não pode ser tão ruim assim.

– É porque você não sabe como é. Eu não agüento mais. Penso até em desistir de tudo.

– Bom, lá no interior, quando a gente chega neste ponto, temos que aplicar a tática do bode.

– Bode? Como assim?

– Você volta aqui amanhã e eu vou te dar um bode. Ele vai curar a sua depressão.

– Que história é esta?

– Vai testar ou não vai?

– No meu caso não dá para recusar.

E assim foi, no dia seguinte Jorge retorna e está lá um belo exemplar da Capra aegagrus hircus, vulgo bode, trazido por nosso sábio Milton. Jorge ainda hesita por um minuto, mas acreditando nas sabedorias do interior e se apegando a esperança da cura de sua depressão profunda, aceitou o desafio.

Quando chegou com o tal bode em casa, a mulher faltou lhe crucificar. Chegou até a apontar faca, mas Jorge a convenceu, com algum bom argumento que me faltou agora para escrever a crônica, que o tal bode era para um bem maior para a casa. Talvez tenha falado em astrologia, numerologia, simpatia, pai de santo ou alguma destas crendices que geralmente convencem as meninas. A mulher acabou cedendo, desde que Jorge se responsabilizasse pelo tal caprino.

Uma semana se passa e a vida de Jorge piora ainda mais.  O bode soltava um pelo desgraçado. Um de seus filhos teve um ataque alérgico, o que obrigou ao nosso herói do botequim a ter que levá-lo no hospital com urgência. Voltando, cansado do martírio, Jorge ainda encontrou a casa inteira cagada pelo bode. Passou a noite em claro limpando o cocô, chegou no escritório praticamente virado. No dia seguinte foi pior, um calor desgraçado, e moscas chegavam de todos os cantos e se aglomeravam ao redor do terno animalzinho. Foi, enfim, uma  semana de muito sofrimento para Jorge. Até que, duvidando da eficácia do método peculiar de Milton, voltou ao botequim.

– Milton, você me enganou.

– Como assim?

– Ora, você falou que o bode ia me melhorar e minha vida piorou ainda mais…

– Piorou ainda mais?

– Você não tem ideia. Agora a minha casa é um inferno. Moscas para todo o lado, merda de bode pelos cômodos, pelos e se não bastasse aqueles chifres destruíram o sofá.

– Faz o seguinte, fica com ele mais uma semana para ver se você melhora. Se não der certo você traz ele aqui que eu devolvo ele para a fazenda.

– Combinado.

Naturalmente a vida dele piorou ainda mais e antes mesmo de uma semana Jorge retornou com o bode para Seu Milton.

– Milton, aqui está o dito cujo. Nem adianta, não fico nem mais um minuto com ele.

– então não melhorou?

– Mas de maneira nenhuma. Leva este troço, pelo amor de deus!!!!

– então tá.

Uma semana depois Jorge retornou ao buteco. Desfrutava de uma alegria inesperada, mais leve, tranquilo, o semblante mais tenro. Milton, percebendo a mudança de espírito, aproximou-se do colega.

– E aí, Jorge, como você tá?

– Cara, estou ótimo! Desde aquele bode foi embora metade dos meus problemas desapareceram. E todos os problemas anteriores parecem mais simples. Até a mulher melhorou, você acredita?

E assim encerramos nossa parábola. A vida está uma merda? Moleza, experimente colocar um bode em casa…

Bogado Lins é escritor,roteirista e articulador do blog Literatura Cotidiana

 

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