Até os Palhaços tem Cu

Aquela coceira já o acompanhava há alguns meses. Uma coceira desagradável, numa região que não poderia ser coçada sem algum constrangimento ou muito cuidado em ser discreto, uma coceira no cu. No início era algo eventual e uma ligeira passada de dedos médios por cima da calça resolviam bem o problema, mas a coisa foi se aprofundando e para que a coceira fosse combatida ele agora precisava procurar um lugar privado para resolver o problema que só se agravava, meses passaram e algumas pomadas depois  ele se decidiu por procurar um médico especializado, um proctologista. De posse do endereço, um bairro nobre em uma zona sul, a pobre alma assolada por aquela aflição anal chega até o médico. Atrás de uma enorme mesa no consultório o doutor começa a atendê-lo com uma estranha anamnese.

– Você está com essa coceira há quanto tempo?

– Ah…

– Meses, não é?

– É…

– E passou um monte de pomada, não é?

– É, passei…

– E nada deu jeito, nada resolveu o problema do seu cu.

– An?

– Ué? Você não está com uma coceira no cu? O que você veio fazer aqui?

– (silêncio)

– Olha aqui meu rapaz, esses clínicos, esse pessoal do postinho, ninguém entende de cu, entendeu? Só eu entendo de cu. Você sabe há quantos anos eu passo o dia olhando para cu? Você tem ideia de quantos cus eu vi na faculdade? No meu período de residência? Nesses mais de trinta anos olhando para cu, só cu? Todo dia cu? Você tem ideia?

– Não…quer dizer…posso imaginar (constrangido)

– Pois é, o cu meu rapaz é a síntese do ser humano. Tudo termina no cu, se não começa como cu, termina como cu. Veja o casamento. Uma empresa que se monta. Um filho que se cria. Tudo é um grande e bem escondido cu, como o seu cu que está coçando agora, eu não posso vê-lo, mas nada, nada te incomoda mais do que esta síntese universal coçando aí, este microcosmo, esse esqueleto guardado por dentro de calças e saias, calcinhas e cuecas, o cu meu rapaz…tudo é um cu. Alguém gosta de vir aqui e se deparar com o próprio cu? Com a existência do próprio cu? Com a qualidade do próprio cu? Só eu entendo de cu!

– Mas e essa coceira doutor?

– Vou precisar te examinar…vou precisar ver mais um cu…

Dá-se o exame, o rapaz se coloca de lado deitado na maca de exame, o médico muito profissionalmente faz uso de luvas, examina o constrangedor local e em silêncio pede que o rapaz retorne até a sala onde ficava a mesa enorme. Sentado ele prossegue.

– Meu rapaz, você tem dentes?

– An?

-Você não me ouviu? Perguntei se você tem dentes, você tem dentes?

– Sim (incrédulo)

-Pois é, imagino que você escove esses dentes, certo?

– Sim (sem entender)

– Imagino que você passe pasta de dentes numa escova, a coloque com água na boca e dente por dente você, enfim, você, escove os seus dentes. Certo?

– Sim, faço isso.

– E no cu que passa merda você passa papel, acertei? Ninguém entende de cu, meu rapaz, ninguem! Como você passa papel para limpar um lugar do seu próprio corpo onde acabou de passar merda?

– (silêncio)

– Você já passou merda no braço? Pegou a merda esfregou no braço, merda fresca tá? Já fez isso?

-Na…não…

-Pois bem, se você sujasse o seu braço com merda humana, tá? Daquelas que fedem, como a dos mendigos, ok? Você limparia com um papelzinho, você realmente acha que esse papel é higiênico? Ninguém entende de cu, meu rapaz, só eu entendo de cu.

– Então, doutor, é uma questão de higiene?

– Não meu rapaz, é uma questão de cu, é uma questão de síntese universal, é uma questão de microcosmo, tudo começa e termina no cu e você, meu rapaz teve a sorte de perceber que você tem um cu, você deveria agradecer a essa coceira, porque foi ela que te apresentou a síntese, foi ela que fez você olhar para dentro do seu próprio cu ( tudo bem, que essa parte quem fez fui eu ), a única coisa que você precisa fazer é tratar o seu cu como eu disser para você tratá-lo, só eu entendo de cu, meu filho.

Assustado o rapaz vendo o médico suando e falando aquelas coisas todas não soube bem como reagir.

– Preciso passar alguma pomada?

– Não você precisa passar a limpar o seu cu direito.

– Tu…tudo bem…e como eu faço isso?

– Você dá o cu? É homossexual?

– Não! Peraí, você tá indo longe demais, doutor!

-Nada é longe demais para um cu, meu rapaz, você não sabe o que um cu é capaz de fazer pelo seu dono, um cu é como um cachorro é o melhor amigo de um homem.

– Tudo bem, doutor, olha só, eu estou com uma coceira no ânus, não sou homossexual e queria saber qual a assepsia correta para parar de sofrer com a coceira já que não preciso de pomadas ou remédios, pode ser? Vamos simplificar, doutor…

– Meu filho, só eu entedndo de cu, são anos e anos e anos!

– Tudo bem porra!!! Então como é que eu faço para cuidar da porra do meu cu dirieto, caralho?Só quero que essa merda dessa coceira vá para puta que pariu, que merda!

– Isso meu rapaz, liberte o cu que há em você!

– Que porra de cu que há em mim? Quanto é que é essa merda dessa consulta de bosta, seu tarado? Vim aqui pra você falar que só você entende de cu e que eu tenho que lavar a minha bunda direito, porra, você acha que eu sou palhaço???

– Até os palhaços tem cu, lave com sabão líquido de preferência no bidê, a consulta custa trezentos reais.

O rapaz assina o cheque e se acalma. O médico oferece um copo de água. O rapaz abaixa a cabeça e pensa durante algo como cinco minutos, se levanta e sorrindo entrega o cheque ao médico:

– Vai tomar no cu, doutor.

– Você também meu filho, muito obrigado.

Solano Guedes é escritor, artista plástico e compositor. Escreve às terças no Literatura Cotidiana

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