Os passos em volta

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Hoje vou falar do primeiro livro de prosa de um poeta português contemporâneo que, sem sombra de dúvida, é muito interessante. Começa que autor recusa os prêmios que ganha, não dá entrevistas e pouco se sabe sobre sua vida pessoal.

O livro chama-se Os passos em volta de Herberto HELDER e foi publicado pela primeira vez em 1963. Vale notar que a produção da obra se deu ao longo de mais de 2 anos em que o autor esteve viajando, de forma que o livro apresenta tons autobiográficos e semelhanças com diários ou relatos de viagem, ainda que seja um livro de contos.

Pode-se notar um viajante introspectivo e, talvez por isso, a obra seja um tanto hermética. Surpreende também – já que Herberto Helder tem ligações som o surrealismo – o inusitado de alguns contos, permitindo-se encontrar traços de realismo fantástico.

Destaco dois contos, não, minto, destaco quatro contos que mais “mexeram com meus botões”. Sem dúvida o conto que abre o livro “Estilo” causa um tremendo impacto no leitor desde a primeira frase, que sugere um possível diálogo com esse leitor: “– Se eu quisesse, enlouquecia.” O mesmo impacto se tem ao se deparar com o último conto “Trezentos e sessenta graus” em que o narrador fala da volta ao local de origem, não por acaso ele fecha “os passos em volta”.

Quem conhece um pouquinho de história de Portugal ou leu Os lusíadas, obra máxima da literatura portuguesa, ou ainda sabe de onde veio a expressão “agora é tarde, a Inês é morta” vai se deliciar com o conto “Teorema” em que o narrador é nada mais nada menos que um dos assassinos de Inês de Castro em seus derradeiros momentos. No entanto, embora tal história nos remeta ao século XIV, o conto é permeado de elementos da história de Portugal muito posteriores ao episódio da Inês de Castro e possui até aspectos de paródia em relação à ditadura de Salazar, contexto histórico à época da produção do conto.

Para acabar, rapidamente, o conto “Duas pessoas” é dos mais fascinantes e constituído quase que inteiramente de duplos, desde o título até a narrativa feita em duas vozes. São dois personagens, dois discursos, dois monólogos e um dialógo (por que não?), dois espaços: o dentro e o fora. A situação apresenta dois apartados no apartamento em um momento pós-sexo em que há uma mistura de diálogos diretos e monólogos interiores.

Agora, boa leitura!

Paulo CABELO é poeta, cronista e professor das futuras gerações de leitores

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