Paidecendo no Paraíso – 50 tons de cocô

As crianças nos ensinam algumas coisas. Olhe para um adulto e possivelmente será fácil distinguir entre aquele que cuida de crianças  e aquele que não. Veja bem, pode não ser seu filho, digamos natural, mas se você alimenta, dá banho, cuida na saúde e na doença e com uma regularidade constante, digamos cinco vezes na semana, e sem ganhar um tostão por isto – antes pelo contrário – automaticamente você já faz parte deste cada vez mais seleto grupo de pessoas.

A questão é: atualmente a “filiação” está mais ligada ao aspecto cultural do que ao puramente “natural”. A criança, ou a infância propriamente dita, é uma elaboração cultural.  A família, constituída tal como nós a conhecemos, também. Um rápido exemplo: uma das fabulações mais incríveis do Ser Humano é a paternidade . É um símbolo tão poderoso, que serviu de base para o culto de Jesus Cristo. Sua imagem, provavelmente diferente por completo de como o representamos, é de um pai bondoso e protetor. No fundo, esta é a representação de um pai de família, tal como desejamos. A própria maternidade seria diferente se estivéssemos em um mítico “Estado da Natureza”. A mãe provavelmente se separaria de sua cria bem antes do que faz atualmente.

Todos sabem, a família passa por uma transformação. Não preciso me alongar muito no assunto, até porque é consenso que hoje há inúmeras configurações possíveis para um núcleo familiar. É bastante discutível o critério que resumiria o conceito. O que, no entanto, garante que continue havendo famílias é justamente a criança. E uma família, seja como for constituída, que cuide de ao menos um rebento, pode ser considerada uma família em seu aspecto, digamos, mais essencial.

Pois bem, chegamos ao ponto: as crianças são um grande aprendizado. De pronto deslocam o centro da vida de uma pessoa para, veja você, a família. Tudo passa girar ao redor destes pequenos infantes, consolidando para sempre um núcleo familiar. A televisão passa a transmitir programas infantis, o computador passa a ser um local de joguinhos, a casa passa a ser um quintal de brinquedos. O orçamento familiar passa a se adaptar a uma série de gastos voltados a manutenção e crescimento do pequeno ser.

Nada porém se iguala a um retorno mais essencial a própria natureza. Basta recordar das inúmeras convenções que naturalizamos para descobrir o quão difícil é ter crianças. É necessário um longo aprendizado diário para o infante descobrir a mesidade da mesa, a cadeiridade da cadeira e, talvez o tema central do certame literário, a banheiridade do banheiro. A sociabilidade, característica fundamental da nossa espécie, é um longo aprendizado. E acompanhar esta lenta adaptação de um bebê, passando pela meninice, até a adolescência, é um exercício do budismo em sua melhor espécie.

Deste modo, a escatologia básica passa a fazer parte novamente do Ser Humano. Pense você: mijo, merda, vômito e sangue passam a ser comum nos arredores de sua casa. Mais que isto, no seu corpo, suas pernas, suas mãos. Obviamente ganham eufemismos mais cômodos, fofos quase, tais como xixi, cocô e dodói. Trocar fraldas. Lavar bumbum, periquita e piupiu. Limpar a sala, banheiro, cozinha. Higienizar machucados e estancar feridas.  As vezes o xixi,o cocô, o vômito e o sangue, estão ali, jorrando, diretamente em você. Mas você, meu amigo, pouco importa. O foco é sempre da criança.

Considera-se, erroneamente, que a fase passa rapidamente: “mas limpar a criança é apenas quando eles são bebezinhos”.  Nada mais principiante. As crianças crescem, mas continuam precisando do eterno cuidado. Basta uma pequena enfermidade para, em seguida, evacuarem sem aviso. Podem as vezes soltar a bexiga no meio da noite, em um sono mais turbulento. Uma simples curva pode ocasionar um desastre no seu carro, com vômito para todo lado e você, para protegê-lo, contem o fluxo diretamente com sua mão, num instinto sem qualquer propósito. E lembre-se, quando crescem, o recurso da fralda não existe mais e tudo fica mais emocionante. Isto sem contar que a  energia deles aumenta dia após dia, aumentando as topadas, escorregões, contusões e feridas. A coisa vai muito além dos 50 tons de cocô..

Enfim, adquirimos um pacote de  hábitos cotidianos e primordiais para manter a casa cheia de alegria. Faz lembrar que, no fundo, todos somos iguais. Podemos ser intelectuais, professores, executivos, empresários, policiais, artistas, rock stars, socialites, políticos, presidentes, reis, rainhas, mas cagamos, e todos fomos um dia apenas uma criança. E tivemos que, penico a penico, aprender a chegar até aqui.

Bogado Lins é escritor,roteirista e articulador do blog Literatura Cotidiana

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