“Argumentação ou reprodução?”

   Acabo de ler o artigo de Thais Paiva na Carta Capital de fevereiro “Argumentação ou reprodução” em que há uma crítica ao modo como as aulas de produção de textos argumentativos são realizadas nas escolas brasileiras de forma geral e não posso deixar de dar meus pitacos já que esta discussão está no centro da minha atividade profissional. Concordo com o início quando ela afirma que os alunos saem do Ensino Médio “com dificuldades para argumentar, defender teses e construir pontos de vista”. Concordo com a afirmação de que há nos livros didáticos, em muitos casos, um embasamento raso sobre argumentação, dificilmente há exemplos contrastantes sobre o mesmo tema (“textos acordes e discordes”). E concordo que boa parte dos exemplos são do meio jornalístico.
 
 
   No entanto, eu não sou o melhor professor de Língua Portuguesa e antes de cursar a faculdade de Letras fiz jornalismo, mas sou oriundo de uma escola em que fui muitas vezes instigado a pensar de forma diferente, ainda que nem sempre esta escola realizasse ou aceitasse maneiras de pensar diversas muito menos divergentes em sua atuação. Assim nas aulas de Produção de Texto que ministro, sobretudo nas turmas do último ano do Ensino Médio, realizo atividades de verdadeira “dissecação” de textos argumentativos não só jornalísticos – e sem sombra de dúvidas a minha experiência no Jornalismo contribui muito no meu trabalho. Além disso, nas propostas de redação que elaboro, sempre procuro apresentar mais de um ponto de vista sobre a questão, e quando a proposta é retirada de algum vestibular procuro enfatizar os vários olhares sob os quais a questão pode ser tomada.
 
 
   Por outro lado, é muito difícil fazer os alunos se embrenharem nestas atividades uma vez que há a “cultura” disseminada na prática da educação brasileira de que a aula de redação é uma aula quase que de lazer – o que já ouvi de alunos de turmas que já saíram da escola particular em que trabalho sobre as aulas de redação antes de eu chegar à escola há três anos. Inclusive já me chamaram a atenção – de baixo e de cima, hierarquicamente falando – por ser rigoroso demais. C’est la vie! Sim, não é uma disciplina escolar valorizada nem por alunos, nem muitas vezes por coordenadores e diretores.
 
 
   O problema do artigo da Carta Capital é trazer somente uma constatação, mas infelizmente boa parte do problema está, a meu ver, na falta de valorização da Redação de modo socialmente geral, que passa por várias instâncias, inclusive pela desvalorização do curso de Letras nas universidades e faculdades brasileiras, passa pela desvalorização da língua como pilar de cultura, de modo que sobretudo sua manifestação escrita seja desprezada em consequência de décadas, quiçá séculos, de descaso com a educação brasileira e uma política de retórica aceitação de toda e qualquer manifestação da língua como um remédio para as inúmeras dificuldades no recente processo de universalização do ensino brasileiro. 
 
   Não vou deixar de observar o meu lado nem serei corporativista. Por razões que vão da formação ruim já citada à desvalorização social e salarial do profissional, o trabalho específico da escrita, de fazer os estudantes escreverem (sem falar ainda de textos dissertativos-argumentativos), é deixado de lado, não só por professores especialistas mas também porque isso começa como uma bola de neve na formação da criança leitora e escritora lá na educação infantil por professores alfabetizadores e nos primeiros anos do Ensino Fundamental. Quando a criança chega aos anos finais do Ensino Fundamental e toma contato com professores especialistas as barreiras (deficiências, vícios e distorções) já estão muito mais aprofundadas. Para melhorar, são esses professores especialistas os cobrados quando ocorrem performances ruins em vestibuares e ENEM tanto por diretores, como por pais e alunos.
   

   Sem falar que dá muito trabalho e demanda muito tempo verificar as redações de uma turma, ainda mais se fizer como eu que lê e analisa cada vírgula o que o aluno quis dizer, como poderia escrever, se a linguagem está adequada ao contexto, se o vocabulário é pertinente, se a construção sintática é bem feita, criativa, ou apenas funcional. Para cada redação que tenho que corrigir são 10 a 20 minutos em média, tenho 9 classes de 26 a 35 alunos cada, imagina quanto tempo aos finais de semana e horas livres perco para fazer estas correções. Pois é são poucos os professores que se dedicam a isso…
 
   Agora vamos aos clichês, será que a política brasileira e seus líderes de fato querem que a massa de estudantes de escolas públicas (e particulares) tenham senso crítico e consigam elaborar hipóteses, teses e defesas das mesmas? Será que há interesse em escolas públicas com qualidade? Professores melhor preparados? Será que não há um interesse em que os cidadãos eleitores sejam apenas reprodutores de discursos e argumentos?
 
 
   É complicado, foi o que me passou pela cabeça ao ler o artigo e “quem quiser que conte outra…” como já disse Raul Seixas.
 
 
Paulo Roberto Laubé
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Uma resposta em ““Argumentação ou reprodução?”

  1. Olá Paulo. Gostei muito do texto. Infelizmente, nossa história vem sendo construída, com esses lugares comuns, que descreve tão bem. Contudo, não é uma “realidade” brasileira. Conheço uma professora de ensino médio que dá aulas na França, e que vive os mesmos problemas, na escola pública e privada…amigos “nem com Dreier ”
    Agora, executar com competência uma aula dessas, e ver que alguém, de fato, aprender, é de lavar a alma.

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