Cruzamentos coletivos e individuais

Sem dúvida o trânsito de São Paulo é uma selva, aliás, mais do que isso, é uma guerra do todos contra todos. Por esta razão, por falta de grana ou por necessidade e por uma inclinação pessoal, ao longo da minha vida de estudante e trabalhador optei muitas vezes pelo trajeto a pé, de bicicleta ou de ônibus e só recentemente, nos últimos três anos, é que adotei o automóvel como opção, uma vez que meus trajetos são dentro ou entre bairros próximos sem precisar passar por grandes avenidas ou vias de muito fluxo.

De todo jeito, não sou a favor dos corredores de ônibus implantados indiscriminadamente e sem um estudo prévio da localidade, de como e onde implantá-los, mas não é por isso que devo ser perseguido pelos coletivos! Não, não expresso minhas ideias aos quatro ventos para que essa opinião seja pública. E sim, sempre defendi que os transportes coletivos devessem ser privilegiados – mas de forma inteligente, né!

Além disso, não há quem me conheça que não saiba a minha predileção, campanha e o costume de usar a bicicleta como meio de transporte. E só não pedalo mais nos meus trajetos por não ter condições físicas e por não ter onde estacionar a minha bike com segurança em uma das escolas em que trabalho. Mas na outra, exceto quando chove – que realmente não me dispus a enfrentar de bom grado essa condição com a bicicleta –, vou sempre com a magrela.

Dessa forma sei muito bem que distância há entre o respeito e eu, ou a falta dele. Por outro lado, “vou chover no molhado” e ressaltar o quanto a falta de respeito é presente na “concrete jungle” dos automóveis, sobretudo na relação com os maiores deles. Existe alguma questão psicológica ligada ao tamanho e à potência do veículo, que faz seus condutores perderem a razão completamente – além do clichê da falta de educação que perpassa toda e qualquer questão brasileira. Falo isso por dois eventos recentes pelos quais passei.

Dia 11 de fevereiro, minha mulher simplesmente fez uma curva em uma rua para a qual ela não se dirigia sem acelerar nem virar o volante. Como? Simples, o motorista do ônibus que trafegava na faixa do meio de uma via com três faixas de rolamento resolveu virar à esquerda em um cruzamento e apenas não viu o carro ao seu lado na faixa que ele atravessou para fazer a curva. O meu carro com minha esposa dirigindo. Não bastasse isso, o distinto motorista que já havia se envolvido em outros acidentes de trânsito, de acordo com o levantamento realizado na delegacia, afirmou “todos viram naquela rua, todos sabem que os ônibus viram lá e o ônibus tem preferência”.

Pode?

Após quase três meses de o motorista ter assumido sua culpa na delegacia, ainda não tive meu carro consertado e nem fui ressarcido dos prejuízos. Pode?

Mas tudo bem, foi um acidente, tivemos azar e o problema é aquele motorista. E como fico com o fato de eu quase não estar vivo para fazer este relato por conta de um motorista de ônibus na última quarta-feira?

Parei antes da faixa de pedestres em um cruzamento diante do vermelho no sinal, era uma descida ainda a 900 metros de casa. Ao surgir o verde, montei e deixei a gravidade tirar a bicicleta da inércia – Graças a todos os Deuses! – não saí com força no pedal! Antes que eu atravessasse toda a faixa de pedestres, um ônibus simplesmente fez “bibi” e passou no sinal vermelho, tive que torcer o guidão, por o pé no chão e puxar a bicicleta de volta, ignorando se havia carro atrás de mim, e rezar para que as mais de 12 toneladas sobre rodas não passasse por cima de mim.

Não só eu senti o vento do ônibus na minha orelha como pareceu que senti a tinta nos meus pelos. Tive uns segundos de letargia que sequer me permitiram xingar. Minhas pernas pareciam gelatina de tão bambas.

Encostei. Deixei os carros que vinham atrás passarem. O máximo que consegui foi reconhecer que era um ônibus da ViaSul – a mesma que me deve o conserto de toda a lateral do meu carro desde fevereiro. Me recompus. Segui meu caminho como se fosse alguém que pedalava pela primeira vez nas ruas, tamanha a insegurança que tomou conta.

Agora me pergunto como podemos presenciar isso diariamente e não nos indignarmos? Realmente não sei o que fazer. Se estivesse de carro, provavelmente estaria com o símbolo da ViaSul tatuado na minha orelha dormindo dentro de uma caixão.

Por essas e outras sou contra pedalar com fones de ouvido – embora seja uma delícia! – da mesma forma que sou contrário a dirigir com som muito alto, afinal no trânsito é necessário que todos os sentidos estejam parabolicamente ligados. Sejam ciclovias e ciclofaixas, sejam corredores de ônibus ou de motos, se não houver respeito… Questão de sobrevivência!

Paulo Roberto Laubé

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