Damnatio Memoriae

Os traidores têm espaço privilegiado na História. Seus nomes são lembrados constantemente , ainda que de forma reversa que nossos heróis. No caso do Brasil, onde nossos heróis “morreram de overdose” e nossos inimigos “estão no poder”, geralmente aparecem do lado do herói, como uma face reversa.  Então do lado de um Tiradentes, por exemplo, há um Joaquim Silvério dos Reis, e ao lado de Felipe Camarão, temos Calabar. Aliás, neste caso, muitos lembram mais de Calabar do que um dos “heróis” da expulsão dos holandeses de Pernambuco.

O mais famoso de todos e que entra simultaneamente no âmbito religioso e histórico é, sem dúvida nenhuma, Judas.  Seu nome é “celebrado” junto a Cristo toda a semana santa e antes mesmo do dito cujo. Pois, se domingo comemoramos seu nascimento, um dia antes, no sábado, malhamos Judas.

A questão da traição é sempre um ponto de vista. Se analisarmos, por exemplo, o atentado de 20 de julho contra Hitler, a maior parte de nós fica decepcionado que o “traidor” tenha falhado, mas se Hitler ganhasse a guerra, muito mais gente seria da teoria que o tal Stauffenberg de fato seria um dos maiores traidores da História.

Em Roma, os traidores recebiam uma sanção denominada Damnatio Memoriae  que em latim significa “danação da memória”. Há poucos registros que foram de fato utilizados, sendo mais corriqueiro o uso “não-oficial” do tal apagão, mas houve até imperadores que os romanos quiseram esquecer por completo, tais como Domiciano e o co-imperdor Geta. Eis que, a despeito da tal danação, tais pessoas voltam a ser lembradas pelo mesmo motivo que todos quiseram esquecê-los.

Pois é, os traidores, em vez de esquecidos, são lembrados, e talvez seja bom que os sejam, funcionam como uma espécie de freio de breque social. Quando retomamos a memória deles, acionamos um símbolo de repudio que serve como um ritual de religação social. Afinal, os traidores, os errados e os corruptos sempre são os outros, nunca nós mesmos.

Recentemente, lendo o livro História dos Quilombolas de Flávio dos Santos Gomes, dei-me conta de um fator interessante: boa parte de sua pesquisa analisou os processos-crimes de escravos fugitivos para intuir sobre como seria o processo de formação de quilombos e sobre o seu cotidiano. Alguns destes relatos baseiam-se em traidores, uns pelas circunstâncias e outros pela ambição, e neste momento uma ideia imediatamente pulou ao pensamento.  Se não fosse os traidores muita coisa que sabemos e nos orgulhamos estaria perdida. Afinal seus relatos são registrados pela História oficial e servem mais tarde como fonte de consulta para nossos historiadores, como no caso específico dos quilombolas. Provavelmente nunca saberíamos de detalhes sobre os quilombos da região do Iguaçu se não fosse estes ilustres traidores. Da mesma forma Palmares e possivelmente Canudos não estariam nos livros escolares se não fosse o seu massacre e seus Judas de plantão.

Esta crônica, portanto, fica como uma justa homenagem aos traidores, se muitas vezes nos tiraram a esperança e acabaram com nossas realizações, por outro lado nos concederam a benção da memória.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

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