Alfabético funcional: competência de muitos brasileiros

Curta análise histórica da educação brasileira e a formação de (an)alfabetos funcionais.

Ter diploma e não saber ler. Esta é a realidade de boa parte dos brasileiros – inclusive dos que frequentaram escola e consideram saber ler – e a solução depende de inúmeros fatores históricos interligados em complexo “novelo”.

     Diacronicamente, para começar a desfiar esse novelo, pode-se comprovar que o acesso ao conhecimento ou à educação pelos indivíduos das classes sociais mais baixas do país sempre foi extremamente restrito. A maior, mas põe maior nisso, parcela da população ao longo dos períodos Colonial e Imperial era formada de escravos e homens livres (semelhantes a pequenos burgueses). Apenas os integrantes do cume da pirâmide social – clero e aristocracia – detinham algum grau de escolarização.

     A universalização do acesso à escola na infância, historicamente, é um acontecimento recentíssimo, quase sincrônico. Até os anos 1970, havia um número grande de escolarizados nas altas classes que correspondem à minoria da população. Situação de proporções inversas à esmagadora maioria, que incluía pouquíssimos com acesso à educação. No entanto, o problema de estar ou frequentar escola, com medidas acertadas ou não, foi quase resolvido nas últimas três décadas. Ainda há criança fora da escola, mas é um percentual bem reduzido.

     A grande questão é sob que condições ocorre essa universalização, visto que sequer havia unidades de ensino para todos, a população brasileira quase dobrou nos últimos quarenta anos, não faltaram crises econômicas neste período e os profissionais ligados ao ensino foram cada vez mais desvalorizados (pesquisem, deem uma “googada”, só por curiosidade, quanto vale em (ir)reais a hora-aula de um professor do estado de São Paulo, por exemplo). Logo há que se eliminar a falta de recursos financeiros como um fator contributivo para os atuais altos índices de alfabetismo funcional, como revelado no último resultado do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional).

     O déficit, então, é de qualidade. Ao tentar absorver o máximo desse contingente de crianças em idade escolar nas últimas décadas, a instituição escola não manteve os níveis de qualidade e hoje é evidente o seu descompasso. As escolas públicas perderam suas características de excelência, enquanto as particulares, que de início procuravam diferenciar-se por atributos que as valorizassem, de modo geral, com a clientela sempre crescendo e a concorrência reduzida, deixam de buscar ou garantir a alta qualidade para atender apenas a lógica de mercado.

     Para reverter este quadro, é necessária uma drástica revalorização dos profissionais da educação com salários melhores e planos de carreira melhores; desenvolver políticas públicas melhores que aumentem a renda das famílias diminuindo a carga horária de trabalho; e reformular o sistema de ensino, sobretudo, a Progressão Continuada adotada a partir da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996 por meio da qual o aluno avança na vida escolar mesmo sem condições para tal. Dessa forma, o poder público deixaria de diplomar analfabetos funcionais, o que contribuiria sobremaneira para a melhoria do país.

     Bom, se tudo for melhor, até penduro meu diploma na parede! – engraçado, está sempre meio torto…

  Paulo Roberto Laubé

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