Reflexões sobre a Velhice

Inteligencia é dos jovens

Ficar velho é a arte de observar a chuva cair com a sabedoria de uma gota d´água. Não sabe do antes e nem do depois, apenas sabe que seu propósito é pingar. E estalar ao cair no chão.  Observar é coisa para jovens, a velhice é ser o próprio observar, sem sujeito.

Os jovens dizem que não têm tempo, porque o veem passando, sem saber que o tempo é todo deles. Enquanto isso, os velhos são tidos por Kronos, como se estivessem fora do tempo. E quem apenas observa pode pensar que o tempo deles já passou, mas é que ele em si não está fora do tempo.

Ser velho, de verdade, é ser criança, ou ao menos deveria sê-lo. Situar-se acima do bem e do mal e entender que a moralidade é para quem ainda pertence ao personagem. Sobretudo, esquecer mais do que lembrar. Repetir apenas para que ainda haja um porquê. Brincar de estar entre todos, mas não mais jogar e abandonar as regras.

A inteligência é dos jovens, são sempre cheios de argumentos, pontos de vista e sacadas inteligentes. Já a sabedoria é dos velhos. Isso porque, enquanto a primeira é uma posse, a outra é um estado. A velhice, portanto, é apenas isto: um estado de espírito. Mas pode ser que a idade nunca lhe conceda este dom. É preciso antes ultrapassar o véu que está por entre as coisas e descobrir o grande segredo: que não há segredo algum.

Entender é próprio dos jovens e eles podem até entender este texto, ou a velhice. Por outro lado, compreender é dos velhos. Compreender é aceitar que a experiência não é suficiente para se conhecer o mundo, e sempre há o desconhecido dentro do entendimento. Autoconhecimento é descobrir que, dentro de si, há apenas um pequeno vazio, que se completa com o vazio que está lá fora. Estado, simplesmente. Sentir que não há sentido algum, apenas sentidos. E que no fundo, no fundo, tudo é superficial.

Envelhecer, de fato, é abandonar o fato e chegar ao todo. É um exercício do aqui e agora. Por isso, pode-se subitamente estar velho e não estar mais. Há muito tempo que a velhice não concerne mais à idade, àqueles que seriam os velhos de antigamente, diz-se que chegaram à “terceira idade”. E hoje não se enxerga mais a dignidade da velhice.

Portanto, se você encontrar a velhice por aí, sorria, pois ela conhecerá um Eu que está além de você. E, na verdade, mais tarde você saberá: foi ela que te encontrou.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

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