Ser ou Não Ser

Há um dilema com que todo escritor se depara no exercício deste que é o seu oficio: o de escrever. Acontece que a matéria-prima que norteia tal atividade não é a linguagem propriamente dita, como se poderia supor, mas sim a experiência através da qual toda literatura se desenvolve.

Alguns argumentarão que há escritores que nunca saíram de sua cidade e escreveram sobre países longínquos e experiências diversas que nunca viveram. Mas a experiência, mesmo assim, está sempre lá; às vezes, não vem da fonte primária propriamente dita, mas de uma fonte secundária, como se diz no linguajar das ciências humanas. Até porque a literatura, ainda que não seja ciência, é humana, demasiadamente humana. Aqueles que escreveram sobre coisas que nunca viveram se utilizaram para isso da vivência de outros, através da leitura ou das histórias que ouviram e, mesmo os que tiveram, digamos, um currículo invejável de vida, também se aproveitaram da mesma experiência para narrar sobre o que aconteceu com outros que conheceram na sua trajetória.

Escrever, portanto, é uma operação de soma, subtração, multiplicação e divisão de experiências, entre outras que muitos pensam restritas às operações matemáticas. O fato, porém, é que equacionar experiências, e todas estas distintas operações entre elas, é uma arte que exige tempo e esmero. Primeiro, logicamente, necessita da prática de fazer estas várias operações, observar seus efeitos e contabilizar os resultados. Depois, buscar os assuntos, que servirão de base para a construção literária, seja na leitura de livros, seja na prática da vida ou, o que é mais comum, na mescla entre os dois. Não necessariamente nesta mesma ordem, é importante lembrar.

Há as duas vertentes no mundo literário mais ou menos descriminadas. Temos, por exemplo, um Rimbaud, que morreu jovem e, durante a sua vida, traficou armas no norte da África. Por outro lado, há um Manuel Bandeira, que viveu grande parte da sua vida sem sair de casa, relembrando uma lúdica infância que passou e observando o mundo girar pela sua janela. E há diversos outros exemplos dos dois lados no mundo da literatura.

Por isso, ser escritor hoje em dia é muito difícil, ainda mais considerando que a vida de trabalhador exige mais do que nos tempos de outrora. Acontece que muitos escritores dos outros tempos, quase todos, não ganhavam sua vida com a atividade, e por isso faziam seu dinheirinho das contas a pagar sendo farmacêuticos, jornalistas, funcionários públicos em geral. Hoje, porém, o ritmo de trabalho dos tempos de globalização separa ainda mais os escritores dos seres humanos reais. Pois, se o sujeito pega lá seu trem, metrô, trabalha com a pressão de um dia a dia de qualquer empresa, do ramo que seja, e chega em casa cheio de contas para pagar e coisas para fazer, dificilmente conseguirá levar adiante uma produção literária. A conclusão é que ficou mais difícil coçar o saco ou viver estas grandes experiências que servem de extrato para os grandes textos.

Não se trata, portanto, apenas do tempo de se escrever, mas, sobretudo, do tempo de se viver. Isto porque a escrita, como já mencionado, precisa desta matéria prima bruta que é a experiência. Então, se o cara tem lá o intuito de escrevinhar algumas linhas, precisa saber antes sobre o que irá discorrer. E, para isso, precisa ter o seu ociozinho criativo, a la Domenico de Masi, seja para uma leitura de seu interesse, ou para observar o cotidiano da praça de sua esquina até lhe ocorrer uma grande ideia. Pois, se Marcel Proust não fez grandes viagens em sua vida e sempre viveu na sua provinciana Paris, por outro lado teve tempo para refletir sobre a vida leviana que se cultivava na cidade. E, não menos importante, tempo  para escrever e reescrever um romance de sete volumes!

Há uma vantagem de nossos tempos em relação a esta época. Hoje, existe gente que ganha dinheiro exclusivamente com sua produção literária. Deste modo, para ser escritor hoje em dia, precisa-se direcionar uma sólida carreira no jornalismo, que demora bastante, ou ir direto ao assunto, contando com  um “paitrocinador” ou uma profissão de vida mansa, cada vez mais rara nos dias atuais, que possibilite a trajetória de tentativa e erro da escrita. É importante também a sorte de um editor topar com seu trabalho e o achar “editável”, seja lá o que isto queira dizer. A conclusão é que um trabalhador, pai de família e cheio de contas para pagar, não terá grandes oportunidades de escrever um Em busca do tempo perdido.

Não que  não haja tempo para quem seja “comprometido”, mas a crônica que vos fala, acredito, serve de boa justificativa para a minha falta da semana passada. Após quase um ano de Literatura Cotidiana, deixei de postar a minha religiosa crônica dominical. Se não escrevi nenhum Vidas secas ou A invenção de Orfeu, pelo menos advogo bem a meu favor o que, quem sabe, com uma certa construção política e boas amizades, consiga meu ingresso para a Academia Alagoana de Letras. Prometo que, mesmo com todas as dificuldades, tentarei manter o meu direito ao domingo literário.

E um grande abraço a todos!

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

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