Sotaques e Dialetos Paulistanos

Os cariocas sofrem de um certo medo de visitar São Paulo cujo motivo eu sinceramente não consigo entender. Desconfio de que seja por causa da tal rivalidade, mas, ainda que injustificada, isto por si só não deveria ser razão para a resistência. Ora, pois se a coisa mais difícil é encontrar um paulista nato em São Paulo!

Pois é, aqui é o lugar do Brasil que mais se assemelha à tal Torre de Babel. Hoje mesmo, andando pelo bairro, escutei um dialeto que só posso supor que seja provindo das Arábias. Aqui na Aclimação, bairro onde me instalei, as ruas estão tomadas por coreanos e sua língua é ostentada em restaurantes, igrejas,  algumas lojas e em diálogos cotidianos. De início, é impossível distinguir entre um coreano, um chinês e um japa mas, com o tempo, arriscam-se alguns palpites. Por certo que os pitacos devem estar errados, mas servem  para dar um quê de conaisseur de não sei o quê para alguém que esteja ao seu lado.

Alguns podem argumentar que o turismo no Rio também torna a cidade uma miscelânea de idiomas, mas há aí uma diferença crucial, pois distingue-se claramente que a maior parte está ali para alguns dias de deleite, enquanto os dialetos da Nova York Tupiniquim são de moradores que estabelecem suas histórias por aqui.

E, quando o sujeito fala português, é bem provável que venha por aí um sotaque, algumas vezes das regiões mais remotas do Brasil. Foi aqui em São Paulo, por exemplo, que eu soube que o Amapá não era uma ilusão de grandeza dos militares. Conheci por aqui a primeira amapaense da minha vida por estas terras, o que me faz pensar que é mais fácil conhecer um por aqui do que ir até Macapá. É só dizer um lugar do Brasil e eu te digo que, sem dúvida, você encontrará um cara que vem de lá andando pela Paulista, ou morando na Zona Leste.

Isto, é claro, sem contar os gaúchos, mineiros, baianos e, pasmem, os tantos cariocas com quem se esbarra por toda a parte. Todos nesta quimera do capitalismo de Hemisfério Sul Maravilha. Contou-me um artista plástico pernambucano que há gente de sua terra que vive entre si em São Paulo sem conhecer sequer um paulista! E não se trata de “baianos” propriamente, estigma equivalente ao “paraíba” no Rio, mas, a julgar pelo interlocutor, gente da alta classe. Lembrando que se tornar paulistano não é das tarefas mais fáceis, mesmo para aqueles que têm berço, por isso encontra-se quem muito se orgulha de ter assimilado esta cidade mesmo não tendo vindo de seu ventre.

Sem contar as primeiras gerações de paulistanos saídos da mescla de gente de um lado e de outro. Estas já se consideram da terra, apesar de se sentir também vinculadas ao lugar que seus pais deixaram. Por vezes, misturam sotaques e costumes quase sem perceber e ser percebidas, graças ao cosmopolitanismo interiorano da cidade de onze milhões de habitantes.

Faz pensar que, em breve, São Paulo não será apenas um caldeirão de culturalidades diversas, mas também um produtor de cultura própria. Certamente já há indícios disto por agora, com a despretensão do samba paulistano, as diversas expressões musicais eletrônicas ou influenciadas por elas, e este rap paulistano que já toma sua cara e se expressa nos versos e nos grafites pelas ruas. Além disto, há figuras emblemáticas como Arnaldo Antunes, Rita Lee, Marcelo Rubens Paiva, que inauguraram sucessivas gerações de ouro e que continuam em formação.

Espera-se apenas que a cidade, e o paulistano mais especificamente, esteja mais preparada para esta inédita centralidade. Isto pressupõe não apenas produzir cultura, mas também agregar cultura à própria. Não como “guetos” ou “tribos“, tal como ocorre hoje, mas construindo sua identidade a partir desta mescla, tal como o samba, a bossa-nova e o chorinho foram incorporados à própria imagem do Rio e o jazz e o hip-hop a Nova York. Quando isto finalmente acontecer, de fato, então talvez São Paulo enfim seja a “capital” da cultura no Brasil.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

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