Ensaios para o Ar

Sabe é como dar um rolé de buzão, se apropriar de uma gíria que não é da sua geração, contar pichações com x, olhar o joelho da moça sentada ao lado é ser a mão por debaixo da saia da Monalisa, almoçar como Joe Pesci jantar como De Niro, lanchar como o Al Pacino e digerir como o Tarantino. Assim mesmo num moto-contínuo, contínuo! contínuo! contínuo! E você, você é um Nelson Rodrigues! Isso aqui parece fácil mas pode assemelhar difícil se o olho não tem como palpebrar, é que na instalação das mentes organizaram uma constelação, é dela que se alimentam aqueles que trazem desvios para os acidentes e demências quaisquer, em todo erro há uma ligação direta com este tipo de estrutura não manifesta em carne. An? Um texto curto e divertido? Posso mandar um desenho do meu pênis? Não, não vamos polemizar, vamos lembrar de Charlie, eu sou Snoopy. E falando em cachorro eu queria que vocês me dissessem se é verdade que existem psicanalistas para cachorro na Argentina, sim, porque meu pai sempre me disse isso e eu sempre achei que ele tinha entendido errado, alguém disse a ele que “na argentina tem psicanalista pra cachorro”, quer dizer muitos psicanalistas e não muitos psicanalistas para cachorro. É preciso sair por aí e andar de mão dada com um amigo, com uma amiga, de braço dado com a mãe que já morreu, poder deixar descer goela abaixo da alma uma rima óbvia e não estar nem à direita nem ao centro e nem à esquerda, ser mão dupla e nunca duas caras, olhar nos olhos de todos aqueles com quem fala, olhar o tamanho do seu quarto de empregada e deixar a voz que se cala vir à tona, ver a fala e dela toda letra certa sem nenhuma sigla sem nenhuma placa de siga sem nada a não ser um farol verde enorme observado o som emitido por toda espécie de coração.Não faz sentido mas é de propósito, tá? Também posso criar uma narrativa linear com personagens que se antagonizem num primeiro momento e em pouco tempo vão paulatinamente se aproximando e bu! Aparece a máscara do Bozo, algo não deixa! Alguém certamente vai ter que organizar isso e essa pessoa certamente não sou eu, o que eu consegui organizar além de delírios, hábitos imorais, e descontrole foi fé e a fé não pode ser séria, não faz sentido se for,  isso é para tomar um ar, sair de dentro da minha mente, porque durante muito tempo toda vez que olhava no espelho após fazer a barba não gostava do que via, igual o Tim Maia.

Nunca fumo enquanto escrevo. Já viu o preço do cigarro? Eu sempre quis ser um erudito, mas aos quinze anos conheci a maconha que me apresentou um pessoal conhecido como a Fraternidade Tyson, os Tyson tinham por regra jamais ler um livro inteiro, alguns liam o início, outros liam parte do início e parte do final, outros se concentravam no meio, eu fui muito bem recebido na fraternidade e rápidamente tinha me tornado Grão Mestre Tyson, com a graduação 22 na Ordem, como Grão Mestre Tyson eu já não lia sequer a capa do livro, me atentava unicamente na orelha que é o grande símbolo da Fraternidade Tyson. Com isso não me tornei um erudito, mas me tornei bem superficial e tenho armazenadas um sem número de orelhas que me garantem cinco minutos de conversa sobre quase todos os assuntos. Bom, não me tornei um erudito mas posso permanecer ao lado de um por uma média de quinze minutos em fluente conversa, e como os eruditos de uma maneira geral são taciturnos, sorumbáticos e macambúzios, é mais do que o suficiente. Outra coisa que eu sempre quis ser foi ser um pintor porque para o pintor no mundo contemporâneo tudo pode acontecer inclusive nada, o pintor é um fingidor finge tão completamente que chega a fingir que é cor a cor que deveras mente, as cores mentem para as formas quando se vão para a lona, quando ganham o tecido, dizem que são belas e que deveriam estar ali, mas nada é verdade, finda a jornada e eu me deparo com o que fiz, olho a pintura e vezes me salta um palavrão amargo de arrependimento. A pintura para o artista é certamente uma das brigas mais feias disponíveis para compra, assim como a literatura, eu comprei as duas e sangro até hoje para pagar as prestações. Na pintura penso possível vencer o combate por pontos, no meu caso é usual eu perder por nocaute. Quando falo de literatura como briga, não é exatamente como combate, vejo o ofício de quem escreve como uma caminhada em aclive, o único porém é que não se pode parar para beber água, o escritor se hidrata com o próprio suor, é uma atividade extremamente cansativa que pode levar a morte. Essa é a minha literatura e é por isso que vou devagar na seringa. O que observo quando olho por cima dos meus ombros, além de alguma caspa é que deixei cair muitos estilos pelo caminho e por parecer complicado estou ficando cada vez mais simples, o indivíduo que leu La Fontaine precisa perceber se é cigarra ou formiga, se é tartaruga ou lebre.  Porém Arte de um modo geral não é para quem entra na piscina pela escadinha.

 Solano Guedes é escritor, artista plástico e pertencente a Fraternidade Tyson

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