Gota de Príncipio, Meio e Fim

Não importava mais o dia da semana, mas era terça. Na plataforma da estação Méier de trem ela esperava por ele ansiosa e triste, em cinco minutos subindo as escadas de dois em dois degraus apontou Mário, rápido disse “Trouxe essa foto, é pra você”. A foto estava dentro de um porta retratos de madeira, até bonito, porém Sofia sentia alguma coisa como uma raiva anacrônica, as lágrimas estavam pelo lado de trás dos seus olhos. “Que foi?”, Mário, “Mário, a gente sente saudade do futuro?”, “Quê?”, “Eu vim aqui para você devolver minhas coisas.” Ainda sem entender a pergunta Mário abre a mochila que trazia nas costas e devolve à Sofia uma bolsa feminina de tamanho médio. “Então é isso, Sofia?” “É isso Mário.” E virou-se e desçeu as escadas em direção à Dias da Cruz. Mário corre até as escadas e grita “A gente só sente saudade do futuro quando começa pelo final!” Sofia se vira, uma lágrima desçe e ela segue seu caminho.

“Mário! Eu te amo” dizia Sofia enquanto rolava pelas gramas da Quinta da Boa Vista, Mário a  fotografar sem parar seu amor rolando, seu amor escada rolante que elevava todo tipo de sentimento. “Já estamos juntos há um tempão, Sofia…”, “E vamos ficar muito mais! Meu Mariozinho!” Os dois passeavam e faziam toda sorte de planos, lembravam de como se conheceram na loja em que Sofia trabalhava, riam e tomavam sorvete. E o namoro seguia, os encontros se deram, foram apresentados às famílias e Sofia, muito querida, dormia no quarto de Mário na casa de sua família, sempre andavam juntos, falavam juntos e amavam juntos como é dos jovens fazer. Até que Sofia engravidou. “Mário, tô grávida”, silêncio, “E o que você quer fazer? – pergunta Mário”, “Como assim o que eu quero fazer? Eu vou ter um filho seu, porra!” Sofia estava irredutível, mas Mário, de posse apenas de seus vinte anos, não queria um filho naquele momento e tentou de todas as maneiras explicar o porquê. Nada feito. Sofia continuou se negando a “um outro caminho” como Mário defendia até que uma briga foi inevitável. Sofia com cabelos nas ventas foi à procura da família de Mário e ouviu da mãe de Mário literalmene “…você precisa fazer um aborto minha filha, Máriozinho não tem condições de ser pai, vocês ainda tem muito tempo…”, vendo-se sozinha Sofia se afastou de Mário imediatamente, Sofia sumiu. Mário não a procurou talvez por morarem em bairros distantes as ausências mútuas tenham sido facilitadas, Sofia morava na zona sul e proibiu Mário de ser sequer atendido na portaria de seu prédio, porém ele não foi a essa portaria, ele não telefonou, Mário também sumiu. Um ano se passou e Sofia procurou por Mário “Alô, Mário, é Sofia, quero que você me devolva as coisas que eu deixei na sua casa, quero um ponto final.”, “Mas…Sofia…o que você fez esse tempo?” “Isso não é problema seu, quero minhas coisas, você pode me encontrar e levar?”, um gaguejante”Posso” veio de Mário.

Mário entrou na loja de fantasias e foi até o balcão, lá estava uma moça linda de seus dezenove anos, acabando de atender um cliente, haviam outras atendentes mas ele fez cera até entrar na vez dela “Oi, qual seu nome? – perguntou Mário, “Sofia”, “Então Sofia eu estou procurando uma fantasia, eu tenho uma festa para ir…”, “Ah, é? Uma festa?” “É, e ainda tenho uns convites”. Risos. Mário não acreditou, mas a menina não só topou ir à festa com ele como deu a hora que saía do serviço, certamente era seu dia de sorte. Mais tarde Mário apareceu na loja e lá estava na porta, com um sorriso no rosto uma mulher que inspirava futuro.

Solano Guedes é artista plástico, escritor e artista multifacetado

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