Foucault, verdade, Raul, informação – tudo na banca de jornal

Parei numa banca de jornal no corre-corre da vida diária e, ao passar os olhos pelas revistas e jornais, de repente… uma voz interior gritou nos meus ouvidos: “Pare o mundo que eu quero descer!” Sim, eu adoro o velho Raulzito! Mas não é que de repente me deu um estalo e vi quantas eram as vozes que traziam a explicação! Para todos os problemas, até os que eu não sabia que tinha, e os que teria, e os que eu não terei, mas talvez já tenha tido. E de Raul Seixas para Michel Foucault foi um pulo. Ou essa viagem aqui:

Ao longo do século XX, a racionalização extremada consolidou-se ao mesmo tempo em que o valor de verdade da ciência atingiu seu ápice suplantando a verdade de Deus. Já citei em outras crônicas a psicologia, os médicos… Multiplicaram-se os intelectuais específicos em detrimento dos intelectuais universais, num processo iniciado lá no século XVII com Descartes e suas “Meditações”. Foi Descartes quem definiu o ‘eu’ ao cunhar a frase “penso logo existo” e ainda estabelecer o caminho da verdade: o método. Não à toa foi nessa época que a ciência e suas metodologias se tornaram independentes do pensamento filosófico.

Esses intelectuais específicos, segundo Michel Foucault, nasceram do jurista, do homem que reivindicava a universalidade da lei justa e deriva de uma figura muito diversa do jurista-notável”, o “cientista-perito”. Os intelectuais se habituaram a trabalhar não no universal, no exemplar, no “justo-e-necessário-para-todos”, mas em setores determinados, em pontos precisos em que os situavam seja suas condições de trabalho, seja suas condições de vida (a moradia, o hospital, o asilo, o laboratório, a universidade, as relações familiares ou sexuais…). Assim, disciplinas como a biologia e a física, cujo crescimento foi mais acelerado a partir dos séculos XVIII e XIX, serviram de principais nascedouros destes novos intelectuais que, para Foucault, passaram ao proscênio da sociedade, sobretudo na figura do físico-atômico no século XX. Afinal, este tinha uma relação direta e localizada com a instituição e o saber científico que intervinha na sociedade, já que a ameaça atômica concernia todo o gênero humano e o destino do mundo – seu discurso podia ser ao mesmo tempo específico e universal.

Dessa forma, sobre as minorias sociais (mulheres, loucos, homossexuais…) fortaleceram as relações de poder. Sobre a loucura surgiu o discurso “verdadeiro” da psiquiatria; a sexualidade infantil tornou-se um alvo e um instrumento de poder, logo deveria ser vigiada e não demorou para a psicologia atuar nesse sentido; os homossexuais até então tidos como libertinos, pervertidos, tornaram-se os doentes do instinto sexual; as mulheres, o sexo frágil; e contra os negros, judeus, ciganos, entre outros, surgiram os discursos racistas, segregadores. Portanto, a sexualidade deixou de ser aquilo de que o poder temeria e passou a ser aquilo através do que o poder se exerce – conforme Foucault.

Dessa maneira, fragmentado em diversas frentes o poder se manifesta. O difícil é reconhecer quem está ao lado do poder. Para os marxistas, todas as formas de poder são exercidas por uma elite, uma classe dominante, ainda que alguns seus indivíduos o façam inconscientemente. Nesse ponto, vale ressaltar que de qualquer forma através das idéias e dos discursos de poder pune-se o corpo dos perseguidos: as mulheres, os homossexuais, os negros… Ou seja, em prol da alma, de uma constituída verdade fundante, indiscutível, constitui-se o discurso do poder em oposição ao corpo perecedor, descartável, doentio, controlável e punível.

A razão se cria através de uma crença da razão, a vontade do saber, e a ciência é seu leme, portanto do acaso, de algo não razoável. Analogamente, a verdade e a verdade da alma é produzida, nem sempre de forma natural, mas de uma crença da verdade; um discurso com valor e efeito de verdade que vence, que é a resultante de um jogo de forças, ou de discursos de verdade. Crença esta que poder fruto do senso comum ou coagida, imposta pelo poder. Por este aspecto talvez se tenha justificado a escolha de Arnold Schwarzneger para governador da Califórnia, sem nenhum antecedente na política e sendo um estrangeiro nos EUA. É possível que as pessoas tenham visto nele o que suas formas físicas, sua biografia e suas personagens no cinema não escondem: um corpo evidentemente forte, resistente as punições, às coerções de poder. Ao mesmo tempo, é sinal também de que as pessoas já internalizaram as relações de poder consciente ou inconscientemente e estão na “roda”, na engrenagem do jogo de forças.

No entanto, Foucault deixa uma esperança pois, apesar de ser alvo do exercício do poder, também é na pobreza que residem as tradições e identidades culturais onde nasce a resistência à verdade do neoliberalismo da classe dominante produzida pelo poder. Assim, enquanto o poder pressupõe o saber, a ignorância, ou a falta de informação oculta e incita a resistência. Se lembrarmos do “Mito da Caverna” de Platão, chegaríamos a conclusão de que quando saímos da caverna, ou seja quando despertamos de um discurso com valor de verdade, não encontramos a luz, mas sim outra caverna.

Para Foucault no rastro de Nietzsche, há sempre outra caverna e a caverna que “vence” é apenas a que representa o discurso que teve mais força nas relações de força dos regimes de saber; no jogo de forças. E não faltam cavernas, ou verdades sendo produzidas, divulgadas e aceitas pelos intelectuais específicos que se multiplicam por aí. É só parar na frente de uma banca de jornais – principalmente nas revistas de ciência, saúde… – que se pode começar a ter uma idéia da coisa toda!

Nem comentei nada com o Seu Oscar da banca porque, afinal, ele não tinha culpa de nada.

Paulo Roberto Laubé

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