Como me tornei um leitor compulsivo

 É estranho notar que durante muito tempo não gostei de ler. De fato, quase não pratiquei a leitura entre os 7 e os 17 anos e desse período talvez me lembre de ter lido uma quantidade de livros que cabem nos dedos de uma mão!

 A partir do primeiro ano, só lia na marra. Era um castigo, e com muitas broncas da minha mãe. Ouvia tantos sermões dela tentando me convencer a ler… Ela lia muitos romances, gosta de José de Alencar, Alexandre Dumas, Maurice Druon… E meu pai é bibliotecário, mas cursou também jornalismo; lia bastante. Havia muitos livros em casa e uma vez por mês, sempre aos sábados pela manhã, recebíamos a visita do Sr. Marcondes, do Círculo do Livro. Ele apresentava vários títulos a meus pais e eles compravam uns 2 ou 3 de cada vez, inclusive livros infantis para mim e para minha irmã. Eu ficava com raiva, porque quando o Sr. Marcondes vinha, meus pais não me levavam ao parque para andar de bicicleta!

 Ao longo da minha alfabetização até os 6 anos, lembro que gostava de ler e lia os vários livros que minha mãe me trazia. Ela também sempre lera para mim e minha irmã, e tínhamos uma estante só com nossos livros. Gostávamos principalmente de quando ela lia o Arca de Noé. Aliás, devo ressaltar que parte de minha alfabetização foi promovida pelos meus pais. A escolinha em que estudava encerrou suas atividades no meio do meu pré-primário. Então, meus pais continuaram aos trancos e barrancos a me ensinar o be-a-bá para que eu passasse no teste de ingresso ao 1º ano do colégio onde eles haviam estudado.

 Lembro que nessa época, eu adorava copiar as “famílias de sílabas” da cartilha em papéis pequenos e dar à minha avó ou minha mãe. Até o final de sua vida, minha avó guardou esses papeizinhos numa caixinha em seu armário. Também brincava com minha irmã, apenas um ano mais nova mas muito mais aplicada, de quem copiava poemas ou fábulas com letra mais bonita nas férias. Passávamos horas brincando disso, sempre depois do banho no fim da tarde, com fábulas de La Fontaine e o livro Conversas com versos.

 Aprendi a ler e escrever, como deu pra perceber. Não passei no teste. Mas fui matriculado. Bom, meus pais e minha madrinha que eram ex-alunos junto com a mãe da minha madrinha, que fazia parte da APM, foram em comboio convencer os padres a me aceitarem… Deu certo! Mas só fiquei sabendo do meu fracasso anos mais tarde.

 O primeiro livro marcante de que me recordo foi Fernão Capelo Gaivota. Eram as férias escolares entre a 4ª e a 5ª série e minha mãe falava indignada para mim que, com a minha idade, ela já lera inúmeros livros afora os da escola. Me apresentou o Cazuza, mas só de olhar a grossura torci o nariz. Também mostrou o Pequeno príncipe, e o Fernão – o primeiro não me interessou. Adorei o Fernão Capelo Gaivota, e nunca esqueci seus vôos, tanto que o primeiro livro cobrado na escola no começo do ano, fiz questão de ler. Era da Série Vaga-Lume e chamava-se Leão em família, e foi meu segundo livro marcante – por ter lido, não por ter gostado tanto.

 Daí pra frente, as leituras obrigatórias me massacravam e raramente eu chegava no final dos livros, mesmo quando tinha prova. Pedia para alguém me contar a história e mandava ver! O único momento até o fim da vida escolar em que isso mudou, foi quando tive de ler um livro de crônicas da série Para Gostar de Ler. Gostei de ler mesmo, tanto que me levou a ler o segundo volume da série. Estava na sétima série.

 No ano seguinte nasci poeta! Em verdade, sempre gostei das aulas de redação e não tinha tanta preguiça para escrever quanto para ler. Era aula de Técnicas de Redação e a professora apresentou o poema japonês, o hai-kai. Além de ler tivemos que produzir. Foram meus primeiros poemas da vida e “a poesia fez folia em minha vida”! Coincidiu com a época em que eu mais dois amigos decidimos formar uma banda – eh! Só que ninguém tocava qualquer instrumento. Um foi aprender percussão, o outro violão. Eu, seria vocalista e como já despertara meu “lirismo”, me dediquei à produção das letras das nossas futuras canções. Nunca mais parei de escrever poemas, letras de música, contos, crônicas…

 Mesmo durante o colegial, sequer li os livros cobrados no vestibular, até porque pretendia fazer faculdade de Educação Física. Mas não passei. Mais um fracasso! Foi um momento crítico: estava com 17 anos, com o 2º grau completo, não conseguia emprego pois estava em ano de alistamento militar, e meus pais não tinham condições de custear um “cursinho” pré-vestibular.

 Era fevereiro, minhas irmãs iam para a escola, meus pais ao trabalho e eu ficava em casa sem perspectivas. Num desses dias à toa, fui até as estantes da sala e decidi que não queria ficar inerte. Deveria fazer algo útil. Mas o que ler? Eram tantas opções… Olhava as lombadas, muitos livros que tivera de ler na escola e não o fizera – desses eu me distanciava – até que o A revolução dos bichos me chamou a atenção. Li em dois dias. Gostei bastante e, em seguida, resolvi ler o 1984 também do Orwell. Na semana seguinte, foi o Admirável mundo novo, Regresso ao admirável mundo novo e A ilha, todos do Huxley. Depois li o Querô – a reportagem maldita, Olga, Memórias do Cárcere, O homem que matou Getúlio Vargas… Não parei mais! Certamente em um mês li muito mais do que nos 10 anos anteriores.

 Até que consegui uma bolsa em um cursinho barato. Mas já havia sido fisgado pelo vício da leitura – não que eu tenha abandonado os esportes e, sobretudo, as pedaladas. Naquele ano li todos os livros requisitados nos vestibulares da FUVEST, PUC e Cásper Líbero. Decidi fazer jornalismo – e passei! 4 anos depois fui fazer Letras! 4 anos mais tarde fui trabalhar em uma livraria! Agora sou professor de Língua Portuguesa!

 Desde aquele vestibular mais de 15 anos se passaram, mas nunca estou sem ler ao menos um livro.

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, às vezes jornalista

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