Os Cinco Sentidos do Samba

Eu tenho um quadro de Nelson Sargento no meu quarto. É uma pintura despretensiosa de casebres de diferentes cores inclinadas em um morro. No fundo de um céu azul claro e nuvens esparsas, algumas aves sobrevoando na direção do vento compõem a cena.

Pode ser a Mangueira, mas também pode ser as outras 700 favelas da Cidade Maravilhosa. Talvez seja uma representação daquele exato momento que João Nogueira descreveu em uma de suas composições: “numa vasta extensão, onde não há plantação… e quando o primeiro começa os outros depressa procuram marcar seu pedacinho de terra para morar”. Quem sabe seja uma pintura sem geografia? Uma vila tranquila, um éden, naquele inexato instante que nunca existiu.

Curioso um quadro desse cair sob meus cuidados. Talvez seja fruto dessa minha admiração do samba que cresceu conforme amadurecia o meu amor pelo Rio. Naqueles idos anos 90 e início dos anos 2000, quando eu percorria a Lapa, Santa Tereza e as ruas da minha cidade em busca de amores e narrativas que perdurassem. Mas também tem a história prática. De como o samba, tantas vezes decretado à morte, ressurge em sua espontaneidade na casa de alguém.

Enquanto na Sapucaí os grandes desfiles viravam uma indústria, os sambistas tradicionais caíam gradativamente no ostracismo. Com exceção de alguns cantores que circulavam nas gravadoras e nas casas noturnas, o gênero musical mais puro e sincopado ia pouco a pouco perdendo relevância nas elites. Já nas camadas populares, prevalecia o pagode, um ritmo mais acelerado e com novos expoentes.

Foi nesse período, lá pelos anos 80 que Luiz Carlos, um amigo da família, foi contratado pela Funarte. Um dos projetos que participou, a Caravana Funarte, possibilitou a circulação de sambistas pelo interior do Brasil. Então, figuras que permaneciam no ostracismo voltaram a habitar os palcos brasileiros. Para um punhado deles, significou uma sobrevida financeira. Foi a partir daí que alguns desses senhores, incluso Nelson Sargento, começaram a se encontrar com Luiz. Como forma de gratidão, o sambista presenteou-o com algumas de suas pinturas, cujo maiores méritos era reproduzir essa simplicidade do olhar de quem vive o samba – um olhar naif, como diria os críticos de arte.

Entre paixões arrebatadoras e desilusões, Luiz vivia intensamente. Não raro, os amores custavam-lhe todas suas economias e o deixava tão sem recursos quanto os sambistas que auxiliava tempos de Funarte. No fundo, era naif. Por isso, pelo menos duas vezes em sua vida mudou-se para a casa do meu pai. Em uma delas, acabou deixando essa lembrança como forma de agradecer a acolhida. Eu rapidamente adotei-o para meu quarto e foi dos poucos objetos que levei comigo quando sai de casa rumo a São Paulo.

Já na nova cidade, pude conhecer a admiração pelo samba dos paulistas. Ainda que esteja longe de ser uma unanimidade e mais afeito a apreciação silenciosa, o amor paulistano pelo gênero é sincero, como uma admiração de um menino apaixonado. Conheci tudo isso há dez anos atrás por intermédio de duas personalidades do mundo editorial, Leonel e Isildo. Ao retornar das rodas de samba, o quadro permanecia como uma relíquia de contemplação. Acessava aquelas emoções que as rodas de samba cariocas me proporcionaram em um tempo que talvez nunca tenha existido.

Hoje, em pleno mundo digital, observo a resiliência do mais africano dos ritmos brasileiros. Enquanto o rock nacional agoniza em praça pública e a MPB perde sua capacidade de renovação, a tradição do ritmo é justamente o que o mantém vivo. Essa conjunção entre dança, fantasia, desfile, enredo, coletividade e todo um imaginário que o sustenta, acabou tornando-o mais forte e preparado para os novos tempos.

Por incrível que pareça, mesmo com todas as críticas, a Sapucaí fez mais bem do que mal ao gênero, no que diz respeito à sustentação do ritmo no coração do grande público. Mas certamente foram essas pequenas relíquias e penduricalhos que tornaram tão simbólico e emocional. Afinal, o que faz perdurar é justamente o que atinge simultaneamente esse universo individual na maior quantidade de pessoas possível. E o samba tem essa riqueza de elementos que se combinam em uma experiência completa. Desde o tato na dança, o paladar e o olfato da feijoada, e obviamente a audição desse ritmo que remonta às orações. 

Ou ainda, essa visão idílica de um amontoado de casebres numa comunidade fictícia em um dia de céu azul com pássaros voando ao fundo na direção do vento.Um sentido que se expande em emoções simples, que fazem sentido e são sobretudo inocentes, ou naif, como preferirem.

Bogado Lins é escritor, roteirista e admirador de samba

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