Terra de Souza Paiol

Se você é forte, aconselho que venha para o Brasil. Aqui é o lugar dos fortes. Você vai se destacar, crescer e ser cada vez mais. É a sua natureza, correto?

Você é forte daqueles que bate de verdade? Aqui, no mano a mano, vence aquele que bate mais. Nada de Marlboro, estamos falando da terra do Souza Paiol. Quebra na porrada na rua e mata. Só cuidado para não ser preso. E para não ser preso, você precisa seguir a regra do jogo.

É importante jogar a regra do jogo, a do mais forte, no caso. Uma pessoa sozinha com toda a força do mundo aqui não vai triunfar. Porque alguns fracos aprenderam algo básico: tem que se associar para serem mais fortes. Daí nasceram alguns fracos bem fortes, muito. Porque estão cercados de gente forte para bater, se preciso.

O tempo fez tudo mais sofisticada. Na verdade, só a ameaça é suficiente. Por isso foram criados leis para não precisar nem chegar as vias de fato. Mas isso, claro, para quem é fraco. As leis são para os fracos. Os fortes de verdade não precisam seguir a lei. Os fortes conseguem tardar a lei, ou mesmo ignorá-la. Então, aqui no Brasil, você vai ter que aprender a estar do lado da lei, ou seja, do mais forte, para não sofrer suas consequências.

Há apenas um porém, quem chegou antes tem bastante vantagem sobre você. Tem gente que está há mais de 400 anos e criaram escrituras para se apropriar de terras, muros para separá-las e leis para protegê-las. Além disso, são muito simpáticos com seus conterrâneos. Como dizem, aos amigos tudo, aos inimigos à lei. Por isso, é importante ter aliados, e os certos. Aqueles que tem os atalhos para a lei e para a ordem. Os demais, são seus inimigos, sejam temporários, os fortes que disputam a chave do cofre, ou os permanentes, os que estão fora dos muros e das leis, os fracos.

Porém, à margem da lei, quem é mais forte sobrevive. Pelo menos quem está mais armado. Então, é importante estar armado para os lugares onde não existem leis. E, aqui, são muitos. As armas são para fazer valer as leis ou criá-las se você não estiver do lado delas. No fundo, se você estiver do lado de um, está do lado oposto do outro.

Dizem que os opostos se atraem, por isso as fronteiras as vezes são nebulosas. Quanto mais alto se chega na hierarquia mas os pontos de contatos se entrelaçam e se confundem. Quem está em cima, por vezes dialoga, circula e convive nos pontos de contato e por meio da linguagem que todo mundo entende: dinheiro.

A bem da verdade, a força que você precisa para chegar em cima não é apenas da sua. É necessário muitos ombros que aguentam para poder enxergar tudo. E o mais forte, seja de onde for, nem sempre é o mais forte, mas que reúne mais braços e ombros. Sim, os fortes daqui são bem ridículos de perto, velhos, flácidos, gordos, esqueléticos, esquisitos, mas tem a força das leis, dos muros e de gente forte que garante tudo como está.

Os fortes de verdade vencem apesar de tudo. São capas de revistas, heróis das olímpiadas, especialistas em informática, doutores da medicina ou do direito, gênios das ciências. Porém, numa terra onde os fortes daqui são na verdade fracos que tem pessoas fortes por trás delas, quem é forte de verdade não está entre iguais. Frequentemente procuram outros lugares onde estão entre os seus.

Aqui é a terra dos fortes, mas quem é forte de verdade, para que estar entre tantos fracos, não é mesmo?

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

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