Funk Universitário?

Outro dia um amigo convidou outro para ir a um show no Circo Voador: “Eu Amo Baile Funk Original”. Na lista de artistas incluía “Velha Guarda do Funk”, Mc Cacau, Ritmo da Favela, entre outros MCs. De repente, cerca de 30 anos depois do surgimento do ritmo, eis que decreta-se a nostalgia do funk original.

Nada de novo, ainda prosseguem as festas dos anos 80, Chitãozinho e Chororó viraram referências do sertanejo raiz e o pagode e axé daqueles idos tempos são lembrados com saudosismo. A única coisa que prossegue é que os ritmos universitários nunca se formam. Paciência.

Alguns vão relembrar que o samba já sofreu estigma e o tempo lhe tornou um ícone de nobreza, o jazz e o blues tomaram caminhos semelhantes lá fora. O rock nem se fala, hoje vive uma crise de identidade de paradoxalmente ser uma tradição em rebeldia.

Então será que vivemos este looping eterno entre a música dos cânones e do povo? Sim e não. O relativismo não pode permitir que não observemos a queda de qualidade da música popular. Se ela antes era o oxigênio que alimentava as inovações na música, hoje ela está mais para uma âncora que separa ainda mais o erudito do popular.

Mas o que será que mudou de lá para cá? Arrisco apontar alguns fenômenos que permitiram esse distanciamento. O primeiro foi o xeque mate que a música eletrônica deu na música. Algo muito semelhante que Duchamp fez quando expôs o sanitário em um museu. Após a música sair do ambiente do instrumento e chegar no eletrônico, ao mesmo tempo que ela expandiu ao infinito, ela se enclausurou no próprio redemoinho. O que poderia ter de novo depois?

Porém, isso é apenas parte do fenômeno, ou, mais precisamente, uma de suas causas, Afinal, junto com a popularização do fazer artístico, ocorreu a expansão do consumo digital da música. Além de acabar com a indústria fonográfica como a conhecemos, o consumo digital teve outro papel importante: acabou com a figura do curador. Hoje, não existe ninguém para nivelar a música, as artes, o jornalismo, a literatura. Mede-se a qualidade do conteúdo pelos cliques e o mecanismo para alcançá-los é tornar tudo o mais simples possível. Para cair no gosto popular, o produtor Max Martin criou até uma fórmula que, ao que tudo indica, deu certo. Criou inúmeros hits de sucesso da última década.

Como a liberdade acabou gerando ainda mais padronização? A resposta é simples: a quantidade imensa de músicas disponíveis a qualquer momento gerou uma necessidade ainda maior de consolidação. E, para isso, em um mundo com inúmeros canais, a compreensão deve ser facilitada ao máximo. Resumindo: quanto mais fácil, melhor. Melodias simplórias, batidas repetitivas e letras mais chicletes possível. Não precisam necessariamente passar nenhuma mensagem, mas se o fizerem, que seja a mais compreensível possível.

O Funk carioca foi o início desse processo. Foi lá, junto com o surgimento do sertanejo como o conhecíamos, que a popularização da música eletrônica e que a ausência de curadoria começou a tomar a forma que hoje se consolidou. E a tendência só cresceu de lá para cá, a ponto daquelas músicas, de gosto duvidoso, hoje parecerem verdadeiros clássicos.

Mas fiquem tranquilos, daqui a vinte anos, essas músicas de hoje serão verdadeiros clássicos.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

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