Privilégio do Esquecimento

Eu sinto pena dos jovens hoje em dia. Pena? Compaixão, vamos ser mais brandos. Veja bem, são mais bem informados, mais livres, mais ricos, ou pelo menos tem mais brinquedos e, certamente,  mais conectados do que jamais fomos. Qualquer celular hoje tem uma câmera mais potente que a nossa analógica. E ligar virou tão trivial que todos preferem enviar mensagens. Enfim, se não aproveitarem ao menos essas módicas vantagens, perderão ainda mais.

Mas o que falta a eles é o que sobrava para nós. Nada de saudosismos bestas ou tradicionalismos ultrapassados. Estou falando de algo bem prático. Eles não tem mais privacidade. Ora, para que isso? Simples, na juventude temos que ter direito a errar, a cair, a se atrapalhar, a se apaixonar, a enlouquecer. Isso mesmo, quem foi adolescente e jovem entre os anos 90 e meados de 2000 sabe que teve a última oportunidade de fazer besteira da humanidade. Amém!

Quem erra é errante. Bebedeiras homéricas, caídas, subidas, aquela mulher que não era exatamente o que você queria e até, por que não? Pequenos vandalismos e atos ilícitos que já prescreveram por uma razão ou por outra. São essas aprendizagem por tentativa e erro que trazem alguns ensinamentos e um certo olhar que desvenda o mundo em camadas. É o que tem de mais próximo de uma verdadeira maturidade, aquela que combina a bagagem da experiência com a observação.

Tudo isso agora é passado. Bola para frente. Como diria Nietsche, o esquecimento é uma benção muito maior que a lembrança. Eu mesmo não canso de lembrar de me esquecer as burradas que fiz, algumas por causa de mulheres, outras por demais excessos. Como diria George Best, “metade do meu dinheiro gastei com mulheres e cervejas, e o resto eu desperdicei”. Lembro, por exemplo de ter ficado com uma mulher que me contou tantas mentiras, mentiras assim tão espetaculares, que logo, logo, depois de uns dez dias, percebi que mais que uma mentirosa, era uma alucinada. Mesmo assim, ainda fiquei com ela mais uns vinte dias. Pensar com as duas cabeças é o mesmo que não pensar com nenhuma.Eu era um típico jovem da geração 00.

Esse é apenas um exemplo, bem tímido na verdade. São tantas e tantas coisas para se contar que eu até esqueci, mas veja bem, porque tenho esse salvo conduto. Nasci em 82, faço parte dessa última geração que nasceu desconectada. Hoje, qualquer deslize é transmitido em tempo real para o mundo todo. Obviamente as bebedeiras, trepadas e alucinógenos são os primeiros perigos a virem à tona. Mas quem pensa que as besteiras se limitam a isso, tem muito mais. As vezes uma frase mal, ou pessimamente, colocada numa conversa ganharia uma repreensão momentânea e o autor seguiria em frente. Porém, estamos numa era onde não há espaço para erro. Um post pode rodar o mundo e te fazer famoso, só que ao contrário, em questão de segundos. Enquanto aquele que você queria que todo mundo visse, passou batido, não é mesmo? As piadas, então, famosas antigamente, procuram algum lugar onde não incomodem ninguém, ali entre o riso inteligente e o bocejo, enquanto o humor perde um pouco da sua essência, a maldade humana.

Os jovens continuam loucos, e sempre serão esse motor de transformação que irá transformar o mundo. Mas agora, eles transmitem sua própria loucura em tempo real e, o mais louco, na maior parte das vezes por vontade própria. Talvez sejam mais comedidos do que fomos, provavelmente aliás. E o que chega até nós é apenas aquilo que sobressaiu do trivial, como sempre. Sinto pena por eles não fazerem tudo que fazem, da forma que fazem, mas em particular. Mas quem sou eu para pensar alguma coisa? É a vez deles. E, ao que parece, simplesmente não conseguem ficar sozinhos.

No fundo nunca saberão o que perderam, porque nunca tiveram. A sensação que o mundo é apenas o que está a sua volta e que você, talvez, esteja apenas sozinho mesmo. Em resumo, privacidade.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

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