Seja P um Pai

“Seja L um lobo, F uma floresta e P1, P2 e P3 três porquinhos arbitrários…” Dizem que assim que um matemático conta histórias infantis. Porém, essa é apenas uma afirmação falsa. Acredite, tenho conhecimento de causa. Ocorre que meu matemático preferido calha de ser meu pai. Nos poucos momentos clássicos de paternidade, tenho a vaga lembrança de ir com o último exemplar da Turma da Mônica e pedir para que ele lesse.

Tão logo me adentrei no universo da leitura, deixei a prática de lado. E meu pai pode ser o que ele é de melhor para mim: um matemático. Veja bem, continuei meus aprendizados com o patriarca. O hábito das caminhadas nos fins de semana foram cultivados com longas conversas sobre história, política, geografia e, claro, matemática.

Matemáticos pensam diferente de outros pais. Na verdade, pensam diferentes de outros seres humanos. Pensam? Não exatamente, raciocinam. Concatenam operações elevadas que tomam espaço no seu cotidiano, tanto que certas práticas corriqueiras tornam-se mais difíceis, tipo se vestir para o trabalho, por exemplo. Meu pai certa vez colocou um pijama para ir trabalhar e não percebeu. Detalhe: da minha mãe. Em algum momento foi alertado da excentricidade, o que ajudou a tornar o deslize uma lenda. Caso contrário, teria simplesmente caído no ostracismo da própria desatenção.

Uma das vantagens de ter pai matemático era ter aulas da matéria quando a água batia. Os conflitos, porém, eram eminentes. Imagina uma mente na fronteira do pensamento ensinando equação de segundo grau? “Para que eu vou usar equação de segundo grau?” e ele respondia: “Ora, para tudo! Para construir pontes, calcular o voo de aviões e até operações financeiras complexas.” Fiquei quieto. Mentira, eu esperneei e argumentei que para mim não serviria para nada. Uma das desvantagens de ter pai matemático era ter aulas da matéria quando a água batia.

Mas o que ficará para história de verdade? As continhas, essas que de um x e um y chegam num w, ou qualquer uma dessas letrinhas da sopa que formam grandes descobertas aparentemente inúteis para mentes simplórias como a minha, que sequer entendia o princípio de uma equação de segundo grau.

Certa vez ele estava empenhado em um de seus problemas, como se chama as grandes descobertas, mas não conseguia sair do lugar. Ficava indo e vindo numa equação eterna. Então, num sono repentino, deitou o lápis e o papel, e teve um sonho curioso. Estava em um rio navegando e de repente apareceu um jacaré vermelho. Olhou ressabiado para o bichano, enorme, então seguiu o seu curso. Caiu no sono do sono, que invariavelmente é acordar. No dia seguinte ficou pensando sobre o que o sonho poderia representar. Subitamente, eureca! Jacarés vermelhos não existem, logo o caminho do problema estava errado. Retornou a estaca zero e refez o caminho até chegar na solução viável.

O resultado? A vida não é exata como na matemática. Mas um pai vai ser sempre estar contido no conjunto dos pais. No caso do meu, estará sempre ao lado das aulas da matemática e do jacaré vermelho.

Feliz dia dos matemáticos… quero dizer, dos pais.

 

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