Impressões da Liberdade

Toulose Latrec é considerado impressionista, mas isso é apenas uma denominação simplista. Ainda que o termo tenha sido de fato utilizado entre eles, trata-se mais de características em comum que levaram a certos pintores serem considerados, ou não, como tais.

Tudo tem a ver com o advento da fotografia. Agora não fazia mais sentido retratar as cenas padrões. As famílias abastadas agora recorreriam as reproduções fiéis dos fotógrafos. Por isso, os pintores tiveram um novo desafio, precisavam retratar algo a mais, um sentimento, uma emoção, um olhar. Quem sabe uma cena nova? Além do traço, uma das características marcantes do movimento foi sair do lugar comum. Como? Ao invés de retratar as coisas como elas eram, procurou-se novas perspectivas, pessoas, paisagens.

Foi então que os bordeis de Paris, pela primeira vez, viraram temas de arte. Na obra de Toulose-Latrec foram particularmente um tema recorrente, ainda que não tenha sido o único. Ocorre que o pintor era frequentador do submundo de Paris. Talvez pelo fato de ter adquirido uma doença que o tornou praticamente um anão. Quiçá porque Montmatre reunia esses dois universos harmoniosamente.

Mas essa audácia inicialmente chocou a alta sociedade. Feria os cânones da arte expor prostitutas – ohhh inclusive nuas – pessoas comuns ou mesmo paisagens sem propósitos. E por isso mesmo um dos maiores “consumidores” dessa nova expressão artística foram americanos. Talvez por uma liberdade absoluta, por uma visão além do tempo ou ainda por uma “ignorância” abençoada, os galeristas americanos admiravam àquelas pinturas. E por isso, boa parte das obras impressionistas se encontram por lá em museus espalhados de leste a oeste, inclusive algumas da própria exposição do Toulose-Latrec exibida no MASP até o dia primeiro de outubro.

É bom lembrar, algo que o francês Tocqueville explorou em sua obra, os Estados Unidos eram sem dúvida no Século XIX o lugar mais livre do mundo. Essa liberdade é que foi a principal inspiração alguns anos antes para a independência dos 13 estados e, em última instância, do liberalismo americano. Nele, a liberdade do indivíduo é levada a sério, tanto que o termo liberal lá designa uma pessoa que, em última instância, apoia a liberdade. Uma pessoa de esquerda, enfim, no espectro político americano.

Foi exatamente nesse ambiente que surgiu grandes revoluções dos costumes, até mesmo, veja você, inspirando as revoluções europeias, como a própria Revolução Francesa que foi amplamente inspirada pela independência e os pais fundadores daquele país. Coincidência ou não, a França e Estados Unidos são co-irmãos na criação dos valores mais caros do liberalismo.

Ainda que hoje em dia o espectro político europeu pareça mais alinhado à liberdade, todas essas inovações do espaço urbano e comunitário foram muitas vezes inspiradas em teorias e práticas surgidas nos Estados Unidos. Grande parte dos movimentos sociais de trabalhadores, feminismo, gay, negro, foram iniciados nos Estados Unidos e pela razão mais óbvia de todas: liberdade. Por outro lado, os Estados Unidos é um lugar bipolar. Ao mesmo tempo que esbanja liberdade, antagonicamente contam com um conservadorismo quase arcaico. Justamente ele que, de tempos em tempos, traz das profundezas da dialética do mundo figuras como Trump.

Porém, não é o conservadorismo americano que inspira admiração ao mundo e construiu o soft power americano. É essa liberdade, liberalismo enfim, é o que inspira gente no mundo inteiro. E também, supostamente, inspira o grupo que protestou contra a exposição do Santander Cultural Queermuseu. De alguma forma, porém, esse monstro metamorfoseado tupiniquim esquizofrênico consegue reunir as duas faces sem qualquer remorso.

Engraçado que um movimento que busca um Brasil “livre” boicote uma exposição de arte. Ainda mais quando ele se advoga como representante do liberalismo. A maior liberdade está no campo da arte, a mesma que possibilitou a divulgação e a ascensão da liberdade de comércio. Muitas vezes explorando contradições, conflitos e adversidades, como os impressionistas, por exemplo, admirados pelos americanos do século XIX. Sabemos, porém, que a razão do escandâlo não é moral, mas política. É bom lembrar que a maior parte da moral na política, senão toda, é utilizada por razões políticas e não morais. Estão sempre em busca de um assunto para aparecer e detratar os seus adversários.

Creio que devemos sempre defender o direito de um movimento de boicotar o que ele quiser. Faz parte do jogo, e o argumento nem é novo, foi amplamente explorado nos últimos dias por outras pessoas. Mas talvez seja igualmente importante denunciar que essa liberdade que o dito movimento busca é pobre, rasa e insuficiente e cada vez mais fica claro que não é por ignorância o desvio, mas por má-fé.

Liberdade só para o dinheiro, e muito possivelmente só para quem o tenha, não vale de nada. Afinal, a liberdade americana é co-irmã da igualdade e da fraternidade francesas.

Bogado Lins é escritor, roteirista e amante da liberdade

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