O Rei da Vela – O Mundo Dá Voltas

Estive na plateia do Rei da Vela, peça de José Celso e texto de Oswald de Andrade. O mais interessante é sua temporalidade transversal. Escrita em 1933, publicada em 1937 e encenada pela primeira vez apenas em 1967. Se não bastasse, ganha sua primeira remontagem 50 anos depois, em 2017.

Esse ir e vir do tempo acaba que consolida a obra do modernista como atemporal, mais por um acaso, do que por genialidade. Oswald, tido como mais relapso por uns, mais vanguardista por outros, quiçá ambos, dos modernistas de 22, em sua obra abusa das categorias políticas que estavam em voga na década de 30, em especial com o estouro da Segunda Guerra Mundial e o fascismo. Por um lado, servem para o propósito do estereótipo de seus personagens que são facilmente encaixáveis nas categorias político-econômicos da análise marxista que acabou conduzindo o mundo para a segunda guerra mundial e posteriormente para a Guerra Fria.

Quem diria, porém, que mais uma vez, finda a guerra fria, essas categorias que não encontram mais tanto paralelo no jogo macropolítico, acabaram persistindo nos discursos ideológicos dos políticos e de grupos que recriam o falso antagonismo para fomentarem o medo e se tornarem os heróis dessa batalha imaginária. Agora, inclusive, trazendo a guerra para o campo moral resgatando um conservadorismo retrógrado. Talvez por essa conjuntura absolutamente improvável, a adaptação do Teatro Oficina 50 anos depois seja tão oportuna.

O escárnio sexual que José Celso realiza com os estereótipos seria ultrapassado, se paradoxalmente não fosse tão atual. José Celso utiliza o sexo na sua faceta mais cruel, a partir da submissão dos corpos à dominação do seu protagonista, o Rei da Vela. A miséria, o humor e o poder de Abelardo são as tintas que fazem do primeiro ato absolutamente intenso. Obviamente a atuação de Renato Borghi é um dos ingredientes que extraem o efeito desejado. Pouco a pouco, os personagens são apresentados, todos encaixando-se dentro da função, ou inutilidade, que Abelardo avalia para si. A escalada de poder do personagem atinge o ápice na coroação final do Rei da Vela que, de alguma forma, é também a do próprio ator. A cena, inclusive, cessa o riso nervoso e traz um apogeu dramático para finalizar o primeiro ato.

Então, de repente, o Brasil se abre para o estrangeiro: o investidor americano. Ele, que no primeiro ato era praticamente uma sombra, no segundo torna-se o centro das atenções de todos os personagens. Para servi-lo de forma apropriada, o Rio de Janeiro e suas cores tornam-se palco de um espetáculo de excessos. Neste momento, a narrativa abusa de exageros e torna-se um pouco insípida. Porém, há um elemento necessário no plot, o escárnio serve de alguma forma para retirar a aura imponente que Abelardo alcança no ato anterior. Estamos assistindo pouco a pouco a sua derrocada. O ponto alto é, sem dúvida, o carioca que busca financiamento para formar sua milícia fascista. Qualquer semelhança com os tempos atuais seria mera coincidência?

A sucessão de poder entre os Abelardos finaliza de forma eficiente o espetáculo. Principalmente, com a mensagem do próprio Oswald que volta surpreendentemente a ser atual. No entanto, mesmo com todos os méritos, a peça não consegue alcançar novamente a intensidade que conseguiu na sua abertura. Fica um resultado positivo da experiência, mas sem a profundidade que a abertura prometeu. Bom, mas poderia ser incrível.

É importante mencionar a cenografia. A mudança de cenários insere de forma competente o público na ambientação desejada. O palco giratório, mais do que um preciosismo, parece ter uma função narrativa. Ao longo da peça oscila entre um elemento dramático até o burlesco. De alguma forma, mostra que o mundo dá voltas, mas de alguma forma, retorna para o mesmo lugar.

E 50 anos depois, aqui estamos.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

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