Não Lugar

As vésperas de se despedir de uma casa alugada alguns sentimentos nos esvaziam. Particularmente naquele ponto onde ainda não há um novo lugar para deitar a cabeça. Nossa casa está em uma transição para um não lugar. Tudo muda até o exato instante em que o espaço não é fértil de amanhãs. Não há mais sentido de preencher de sentidos e utilidades o ambiente. O sentimento perdura até chamarmos um novo lugar de lar, quando geralmente um novo entusiasmo nos preenche de possibilidades.

Imagine agora que toda a existência seja um não lugar? Ontem, agora, sempre. Que toda a sua casa possa ser destruída do dia para a noite? Que o lugar que você habita não seja fértil de futuros? Mais que isso, isento sequer de presente, pois o agora é uma eterna vigília? Essa é a sina do brasileiro desprovido, favelado, sem teto. Ele não habita o lugar que se deita e ele está sempre mudando.

Fica fácil entender os papelões, carcaças de eletrodomésticos, lixos acumulados, fiações expostas nas ocupações. Um dia você está aqui, o outro? Não sei. Mensalidades sem papel, espaços relativos, posses à perigo e, então, o desmoronamento. Existem milhares de formas de tudo desmoronar. Uma desocupação, um “aluguel” atrasado, o traficante não foi com a sua cara, a polícia invadiu o seu espaço, a sua maloca caiu na chuva, o seu bebê morreu ao cair da escada ou engoliu alguma coisa que não deveria estar lá. Do dia para a noite, ou da noite para o dia, afinal não costuma ter hora marcada – você perdeu tudo.

E muito mais que isso, projete isso num país inteiro formado por milhões de pessoas sem lugar, sem pertencimento. Se as pessoas não pertencem ao lugar, o lugar não pertence a ninguém. Pertencer é preencher de sentidos, assim como você preenche o seu quarto, sua sala, sua cozinha. As avenidas, as calçadas, os prédios, as ruas, as vielas podem estar ocupadas mas não tem pertencimento. Vivemos em um imenso não lugar.

Neste contexto, as ruas de nossas cidades são uma projeção desse não território. Frequentemente uma conquista repleta de desafios, algumas vezes com derrotas e perdas. Nada nos pertence, menos ainda para aqueles que não pertencem a nenhum lugar. Mas algumas pessoas estão dispostas a tomar esse espaço. Ocupar as ruas com comércios, morros com barracos e prédios abandonados com ocupações. Ocupam porque tem muito pouco a perder e muito a ganhar. Ocupam porque só se pode ocupar um lugar que não é de ninguém.

Ocupam porque podem perder, mas sequer tinham nada antes. Mas sobretudo porque há mais ou menos 500 anos as terras daqui não são de ninguém. Todos estão ocupados para ocupar o que não lhes pertence. Ocupam capitanias, plantações, escravidões, minas, províncias, grilagens, cargos, postos, instâncias superiores, histórias e contabilidade Ocupam as leis e inventam impostos, multas, sanções, assim como isenções, perdões e privilégios. Ocupam instituições que legitimam ocupações e as deslegitimam na velocidade dos afetos emocionais ou políticos.

De ocupação em ocupação, ocuparam um país inteiro. O Brasil é em si uma grande ocupação.

Bogado Lins é escritor, roteirista e com a mente ocupada.

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