100 contos em um… ano

Para quem pretende viver a literatura no cotidiano, tenho uma confissão a fazer. Alonguei-me durante mais de um ano numa coletânea que supostamente reuniria os cem melhores contos brasileiros. De um conto por dia, a leitura começou a minguar, até diminuir a velocidade e esparsar em longas páginas por semanas a fio. De repente, um ano se passou e nada de finalizar a obra. Devo admitir que não estamos falando de um livrinho qualquer, trata-se de 616 páginas que nem sempre são triviais. Mesmo assim, fica o questionamento, tornei-me preguiçoso? Nada de 40 mil páginas por dia que já alcançaram por aí, bastaria míseras 50 diárias que já estava excelente. Mas fiquei nesta conta, as vezes 5, outras 3, míseras 1, e até dias que nenhuminha sequer foi folheada.

E o proveito? Se pude apreciar novamente clássicos e outros contistas até então desconhecidos, ficou uma pontinha de decepção. Duvidei um pouco se a seleção realmente reunia o que há de melhor, o que acabou acrescentando alguns dias, semanas, meses na apreciação do material. Uma certa preguiça de seguir adiante.

Antes de tudo, gostaria de eximir culpados. Uma curadoria desse nível de responsabilidade sempre está propensa a injustiças. Creio que Ítalo, nosso hercúleo organizador, ao privilegiar a diversidade de autores, acabou deixando o que verdadeiramente era melhor, mas que eventualmente repetiria certos artilheiros indomáveis, como Clarice Lispector, por exemplo, que de fato foi a campeã, mas também outros exímios contistas como Lima Barreto, João do Rio, Murilo Rubião, Caio Fernando Abreu, Rubem Fonseca, Guimarães Rosa, dentre outros. E, sem dúvida, haveria outro leitor mais crítico que reclamaria justamente disso.

Por outro lado, um questionamento que surgiu foi justamente o quanto grande parte dos contos me soou datado. Será que alguns contos fazem tanto sentido hoje em dia? Será que a perspectiva do século XXI mudou a nossa apreciação da literatura? Talvez fossem os melhores contos quando foram selecionados, mas será que o tempo os envelheceu? O tempo muda a apreciação dos objetos e das obras. Também tornou algumas questões menos relevantes. Talvez pela representatividade, talvez pela busca de alguma mensagem realmente relevante, notadamente esse perfil classe média, intelectual e funcionário público ou jornalista de escritor que se repete ao longo da história da nossa literatura acabou nos atrapalhando. Será que estamos aquém da qualidade literária mundial? Será que um Borges faria menos sentido no Brasil? Talvez, precisamos de alguém que possa oferecer aquilo que seja só nosso, como Guimarães Rosas, que conseguiu decifrar e traduzir universos que de alguma forma transcenderam sua origem. Por outro lado, que crítico não apontaria o bruxo do Cosme Velho como universal? Sim e não, precisamos de mais escritores com origens e diversidades, ou ao menos que busque retratá-las com precisão, mas também nos faltou alguns outros que almejassem as estrelas.

Mas a pergunta realmente relevante, vale a pena ler? Certamente! Saliento alguns que me surpreenderam: Negrinha de Monteiro Lobato traz a crueldade da escravidão e do racismo sob a perspectiva de uma criança, já Baleia de Graciliano Ramos pensa a fome por meio da saga de um cachorro, a genial naturalização do autor. Algumas foram gratas lembranças como Tangerine Girl, de Raquel de Queiroz. O conto campeão, tanto pela surpresa, quanto pela maestria foi A Maior Ponte do Mundo de Domingos Pellegrini, um relato da construção da Ponte Rio Niterói na visão de um eletricista. Devo ter cometido algumas dezenas de injustiças ao não citar uns tantos contos. Paciência.

Outra reflexão que vale é a importância das coletâneas. Esse passeio por meio de um olhar por meio de temáticas, recortes históricos ou seja lá qual assunto for, possibilita conhecer novos autores e contos que caso contrário não chegariam a minha mesa de leitura. Talvez o que mais atrapalhou verdadeiramente foi essa mania de querer desvendar página por página, talvez se deixasse a leitura fluida, livre conforme os afetos e espasmos, a apreciação seria tanto melhor.

O resultado? Leia, e leia a próxima coletânea também, essa fonte de mergulho em águas nunca dantes navegadas que possibilita novas descobertas. Sem talvez o cartesianismo de seguir em linha reta o rumo das páginas, mas em sinuosidades que te possibilitem navegar melhor pelo belo e improvável como um navegante.

Afinal, cem contos valem a pena se a alma não é preguiçosa.

Bogado Lins é escritor, roteirista e leitor de coletâneas

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