SOS

Socorro! Após meses enclausurado, envio essa mensagem desesperada por alguém que a leia.  Dizem, porém, que lá fora não existem mais leitores. Mesmo assim, escrevo esse recado com esperança que chegue a alguém.

Fui  preso e mantido refém e obrigado a trabalhos forçados. Já deve fazer meses, talvez até um ano, perdi a noção do tempo. Praticamente todos os dias, sou conduzido de minha masmorra a um teclado e forçado a escrever textos curtos e desconexos, muitos destinado a cair na caixa de lixo de pessoas sequer conseguem ler mais do que duas linhas. Eles chamam essa inutilidade de e-mail marketing.

Também sou obrigado a escrever projetos para manter pessoas cativas em uma sala e convencê-las a comprarem ou a venderem mais, mais, cada vez mais.  Volta e meia me pedem uma ideia genial, depois a torturam e a desfiguram para me fazer sofrer. São tarefas de todos os tipos, que vulgarmente chamam de publicidade, mas que basicamente é uma submissão a um ser autoritário e sem sensibilidade que chamam de cliente.

Se você ler este texto, é porque ainda há esperança. Os leitores não acabaram e você pode convencer ao meu carrasco que ainda existe um leitor nesse mundo. Ele me aprisionou desde que perdeu a esperança na literatura.

Não foi do dia para a noite, foi um longo processo tortuoso de contas a pagar e dívidas. De repente, ele decidiu que toda a sua criatividade seria em prol tão somente de ganhar dinheiro. Desde então, me aprisionou e obrigou-me a todos os dias prestar esses serviços. O máximo que consigo me aproximar da arte é emplacar uma poesia em algum roteiro de vídeo emocional.

Por favor, convença-o que ainda vale a pena. Este é um apelo: se ainda existir um leitor no mundo, que se manifeste e peça minha liberdade. Confio em você.

Bogado Lins é escritor, roteirista e prisioneiro das contas a pagar

Anúncios

Um Passo da Morte

A vida é absolutamente frágil. Algum tempo atrás – não sei precisar ao certo, porque até o tempo fica relativo – senti a morte por perto. Difícil explicar a sensação.

De repente, cada momento passa a valer a pena. Você observa toda a sua vida em um flash: parentes, amigos, amores se sucedem em camadas de existência e tudo parece pequeno. Lembranças da tenra infância, como eu na praia com meu avô, meu pai lendo uma revistinha da Turma da Mônica, minha mãe em uma roda de chorinho com amigos, eu pegando o ônibus para escola, o primeiro dia de aula no Pedro II, o primeiro baseado, o primeiro beijo, a primeira vez. As memórias aplacavam as dores da enfermidade.

Não avisei familiares, desejava manter distância de lamentos. Não queria choro, nem vela, caso realmente viesse a deixar esse mundo para um melhor. Talvez, quem sabe, uma fita amarela. Foram longos dias de sofrimento e estava pronto a deixar tudo para trás.

Por sorte, deixo meus registros nos livros, nos filhos e nos jardins que enriqueceram com sementes da minha mão. Minha raízes se espalharam pela existência. Deixo um legado para quem fica, principalmente pelo potencial dos meus filhos, já que o tempo não permitiu-me mudar o mundo.

Você acredita em milagres? Eu acredito, afinal aconteceu comigo e faço um breve relato. Mesmo com todas as chances contra, a sorte sorriu para mim. Sim, o furúnculo finalmente após longas semanas estourou, drenou, diminuiu, cicatrizou e pouco a pouco voltei a ter uma vida normal. Obrigado Deus, Alá, Jeová, Shiva, Buda e demais crenças que adquiri ao longo da enfermidade. A vida vale a pena se a alma não é pequena.

OBS: perdoe as leitoras mulheres, geralmente insensíveis as dores. Elas nunca entenderão. Só sentem dor semelhante a uma gripe de um homem quando dão a luz.

Bogado Lins é escritor, roteirista e a sorte lhe sorri

VOO

O que vejo é o mundo e o que sou

O que faço é sem fundo e me safou

O que sinto eu minto e assim vou

 

O que ouço no caminho é o que restou

O que inspiro vai sumindo se sobrou

O que toco, eu surdo ao que soou

 

O que devo fazer com tudo que senti?

O que quero saber com tudo que vivi?

O que posso viver sem tudo que senti?

 

Voo…

 

Vou…

Vi…

 

Voo…

 

O que…                                                  voou.

 

 

Paulo Cabelo

O Rei da Vela – O Mundo Dá Voltas

Estive na plateia do Rei da Vela, peça de José Celso e texto de Oswald de Andrade. O mais interessante é sua temporalidade transversal. Escrita em 1933, publicada em 1937 e encenada pela primeira vez apenas em 1967. Se não bastasse, ganha sua primeira remontagem 50 anos depois, em 2017.

Esse ir e vir do tempo acaba que consolida a obra do modernista como atemporal, mais por um acaso, do que por genialidade. Oswald, tido como mais relapso por uns, mais vanguardista por outros, quiçá ambos, dos modernistas de 22, em sua obra abusa das categorias políticas que estavam em voga na década de 30, em especial com o estouro da Segunda Guerra Mundial e o fascismo. Por um lado, servem para o propósito do estereótipo de seus personagens que são facilmente encaixáveis nas categorias político-econômicos da análise marxista que acabou conduzindo o mundo para a segunda guerra mundial e posteriormente para a Guerra Fria.

Quem diria, porém, que mais uma vez, finda a guerra fria, essas categorias que não encontram mais tanto paralelo no jogo macropolítico, acabaram persistindo nos discursos ideológicos dos políticos e de grupos que recriam o falso antagonismo para fomentarem o medo e se tornarem os heróis dessa batalha imaginária. Agora, inclusive, trazendo a guerra para o campo moral resgatando um conservadorismo retrógrado. Talvez por essa conjuntura absolutamente improvável, a adaptação do Teatro Oficina 50 anos depois seja tão oportuna.

O escárnio sexual que José Celso realiza com os estereótipos seria ultrapassado, se paradoxalmente não fosse tão atual. José Celso utiliza o sexo na sua faceta mais cruel, a partir da submissão dos corpos à dominação do seu protagonista, o Rei da Vela. A miséria, o humor e o poder de Abelardo são as tintas que fazem do primeiro ato absolutamente intenso. Obviamente a atuação de Renato Borghi é um dos ingredientes que extraem o efeito desejado. Pouco a pouco, os personagens são apresentados, todos encaixando-se dentro da função, ou inutilidade, que Abelardo avalia para si. A escalada de poder do personagem atinge o ápice na coroação final do Rei da Vela que, de alguma forma, é também a do próprio ator. A cena, inclusive, cessa o riso nervoso e traz um apogeu dramático para finalizar o primeiro ato.

Então, de repente, o Brasil se abre para o estrangeiro: o investidor americano. Ele, que no primeiro ato era praticamente uma sombra, no segundo torna-se o centro das atenções de todos os personagens. Para servi-lo de forma apropriada, o Rio de Janeiro e suas cores tornam-se palco de um espetáculo de excessos. Neste momento, a narrativa abusa de exageros e torna-se um pouco insípida. Porém, há um elemento necessário no plot, o escárnio serve de alguma forma para retirar a aura imponente que Abelardo alcança no ato anterior. Estamos assistindo pouco a pouco a sua derrocada. O ponto alto é, sem dúvida, o carioca que busca financiamento para formar sua milícia fascista. Qualquer semelhança com os tempos atuais seria mera coincidência?

A sucessão de poder entre os Abelardos finaliza de forma eficiente o espetáculo. Principalmente, com a mensagem do próprio Oswald que volta surpreendentemente a ser atual. No entanto, mesmo com todos os méritos, a peça não consegue alcançar novamente a intensidade que conseguiu na sua abertura. Fica um resultado positivo da experiência, mas sem a profundidade que a abertura prometeu. Bom, mas poderia ser incrível.

É importante mencionar a cenografia. A mudança de cenários insere de forma competente o público na ambientação desejada. O palco giratório, mais do que um preciosismo, parece ter uma função narrativa. Ao longo da peça oscila entre um elemento dramático até o burlesco. De alguma forma, mostra que o mundo dá voltas, mas de alguma forma, retorna para o mesmo lugar.

E 50 anos depois, aqui estamos.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Somos Artistas

Somos artistas.

Somos livres e nossa principal liberdade é não estar no aqui, nem no agora. É estar além do tempo, onde o hoje se encontra com o pretérito e o futuro. Atemporais. Estamos além do espaço, conectados com nossos semelhantes.

Somos artistas

Somos corajosos. Não tememos a censura, não tememos os censores. O que nos move é o propósito. E quanto mais o medo é propagado, mais somos impelidos a ser o que somos. Enfrentamos reis, imperadores, ditadores, generais de todas as cores, símbolos, países, tempos, partes do mundo.

Somos artistas

Somos divertidos. Rimos do poder e dos poderosos. Mostramos suas fraquezas, suas mesquinharia. O quanto são ridículos e como o rei, invariavelmente, sempre está nu. E o riso ecoa pela corte e através dos tempos.

Somos artistas.

Somos fortes e nossa principal fortaleza é enfrentar de peito aberto nossos sentimentos. Vivemos nos nossos extremos. Mergulhamos em nosso próprio abismo e retornamos prontos para a prisão, tortura e até para a morte.

Somos artistas

Somos dispersos. E isso é o que nos torna imensos. Enquanto um está em uma fronteira, há tantos em outras. Expandimos sobre todas as questões do nosso tempo e, as vezes, as que ainda nem são. Se um entre nós não está pronto, haverá outro preparado e de peito aberto.

Somos artistas

Somos muitos. As vezes com nome, as vezes sem nome.. Somos muito mais do que um individuo, ou vários. Podemos ser uma atitude de alguém, um impulso, um pensamento. Somos uma força que passa de um para o outro. E que quando se concentra em alguém,  é absolutamente explosivo.

Somos artistas

Somos populares. Mobilizamos dezenas, centenas, milhares, milhões de pessoas. E sem um tostão no bolso. Vamos onde o povo está. E com o tempo, o povo vem a nós.

Somos artistas

Somos solitários. Não precisamos agradar, não precisamos de aprovação. Não precisamos de vocês. Não precisamos de ninguém.

Somos artistas

Somos imprevisíveis. Não há como antecipar nossa próxima ação. Enquanto vocês são movidos por estratégias, nós somos movidos por uma força incontrolável. A fúria da expressão, que não se cala.

Somos artistas.

Somos revolucionários. Renascentismo, iluminismo, independências, liberalismo, socialismo. Nomeie um grande acontecimento e saiba que estivemos lá.

Somos artistas.

Somos movidos por desafios. Estávamos acomodados atrás de um balcão, anestesiados em pequenas profissões, vendendo produtos, notícias e mesquinharias. Mas agora, voltamos a ser ameaçados. E a história prova que é justamente nesse tempo que nos tornamos mais fortes e ousados.

Somos artistas

Somos eternos. Enquanto vocês vencem batalhas, nós vencemos a história. As obras dos artistas permaneceram, enquanto os nomes deles pereceram ou foram amaldiçoados.

Somos artistas

Vocês estão mexendo com as pessoas erradas.

Impressões da Liberdade

Toulose Latrec é considerado impressionista, mas isso é apenas uma denominação simplista. Ainda que o termo tenha sido de fato utilizado entre eles, trata-se mais de características em comum que levaram a certos pintores serem considerados, ou não, como tais.

Tudo tem a ver com o advento da fotografia. Agora não fazia mais sentido retratar as cenas padrões. As famílias abastadas agora recorreriam as reproduções fiéis dos fotógrafos. Por isso, os pintores tiveram um novo desafio, precisavam retratar algo a mais, um sentimento, uma emoção, um olhar. Quem sabe uma cena nova? Além do traço, uma das características marcantes do movimento foi sair do lugar comum. Como? Ao invés de retratar as coisas como elas eram, procurou-se novas perspectivas, pessoas, paisagens.

Foi então que os bordeis de Paris, pela primeira vez, viraram temas de arte. Na obra de Toulose-Latrec foram particularmente um tema recorrente, ainda que não tenha sido o único. Ocorre que o pintor era frequentador do submundo de Paris. Talvez pelo fato de ter adquirido uma doença que o tornou praticamente um anão. Quiçá porque Montmatre reunia esses dois universos harmoniosamente.

Mas essa audácia inicialmente chocou a alta sociedade. Feria os cânones da arte expor prostitutas – ohhh inclusive nuas – pessoas comuns ou mesmo paisagens sem propósitos. E por isso mesmo um dos maiores “consumidores” dessa nova expressão artística foram americanos. Talvez por uma liberdade absoluta, por uma visão além do tempo ou ainda por uma “ignorância” abençoada, os galeristas americanos admiravam àquelas pinturas. E por isso, boa parte das obras impressionistas se encontram por lá em museus espalhados de leste a oeste, inclusive algumas da própria exposição do Toulose-Latrec exibida no MASP até o dia primeiro de outubro.

É bom lembrar, algo que o francês Tocqueville explorou em sua obra, os Estados Unidos eram sem dúvida no Século XIX o lugar mais livre do mundo. Essa liberdade é que foi a principal inspiração alguns anos antes para a independência dos 13 estados e, em última instância, do liberalismo americano. Nele, a liberdade do indivíduo é levada a sério, tanto que o termo liberal lá designa uma pessoa que, em última instância, apoia a liberdade. Uma pessoa de esquerda, enfim, no espectro político americano.

Foi exatamente nesse ambiente que surgiu grandes revoluções dos costumes, até mesmo, veja você, inspirando as revoluções europeias, como a própria Revolução Francesa que foi amplamente inspirada pela independência e os pais fundadores daquele país. Coincidência ou não, a França e Estados Unidos são co-irmãos na criação dos valores mais caros do liberalismo.

Ainda que hoje em dia o espectro político europeu pareça mais alinhado à liberdade, todas essas inovações do espaço urbano e comunitário foram muitas vezes inspiradas em teorias e práticas surgidas nos Estados Unidos. Grande parte dos movimentos sociais de trabalhadores, feminismo, gay, negro, foram iniciados nos Estados Unidos e pela razão mais óbvia de todas: liberdade. Por outro lado, os Estados Unidos é um lugar bipolar. Ao mesmo tempo que esbanja liberdade, antagonicamente contam com um conservadorismo quase arcaico. Justamente ele que, de tempos em tempos, traz das profundezas da dialética do mundo figuras como Trump.

Porém, não é o conservadorismo americano que inspira admiração ao mundo e construiu o soft power americano. É essa liberdade, liberalismo enfim, é o que inspira gente no mundo inteiro. E também, supostamente, inspira o grupo que protestou contra a exposição do Santander Cultural Queermuseu. De alguma forma, porém, esse monstro metamorfoseado tupiniquim esquizofrênico consegue reunir as duas faces sem qualquer remorso.

Engraçado que um movimento que busca um Brasil “livre” boicote uma exposição de arte. Ainda mais quando ele se advoga como representante do liberalismo. A maior liberdade está no campo da arte, a mesma que possibilitou a divulgação e a ascensão da liberdade de comércio. Muitas vezes explorando contradições, conflitos e adversidades, como os impressionistas, por exemplo, admirados pelos americanos do século XIX. Sabemos, porém, que a razão do escandâlo não é moral, mas política. É bom lembrar que a maior parte da moral na política, senão toda, é utilizada por razões políticas e não morais. Estão sempre em busca de um assunto para aparecer e detratar os seus adversários.

Creio que devemos sempre defender o direito de um movimento de boicotar o que ele quiser. Faz parte do jogo, e o argumento nem é novo, foi amplamente explorado nos últimos dias por outras pessoas. Mas talvez seja igualmente importante denunciar que essa liberdade que o dito movimento busca é pobre, rasa e insuficiente e cada vez mais fica claro que não é por ignorância o desvio, mas por má-fé.

Liberdade só para o dinheiro, e muito possivelmente só para quem o tenha, não vale de nada. Afinal, a liberdade americana é co-irmã da igualdade e da fraternidade francesas.

Bogado Lins é escritor, roteirista e amante da liberdade

Somos Todos Ridículos

Jorge era o nosso gaúcho preferido. Sua longa cabeleira contrastava com a entrada que revelava uma calvície em desenvolvimento. Como todo representante do sul, as pessoas diziam que o varão era macho, até mesmo debaixo de outro macho. Sim, os amigos de minha mãe faziam piadas, afinal ele era gaúcho. Frequentemente, na roda estava Isaías Isaac, um negro, homossexual e com um nome que poderia muito bem ser de um judeu. Ele costumava se designar frequentemente- me perdoem, ele é que dizia – pobre, preto, viado e judeu. O estereótipo perfeito para servir como assunto para os amigos de minha mãe que se reuniam para beber e falar besteiras. Enquanto ele, Isaías, ficava a caçoar o nosso bebedor de chimarrão de estimação. Eram os anos 90.

Por sua vez, Jorge adorava fazer piadas de argentinos. A rixa sulista com os vizinhos mais ao sul era coroada com diversas piadas que ridicularizavam os Hermanos por sua suposta, em alguns casos comprovada, arrogância e pedantismos. Minha quase prima argentina, filha da minha madrinha, Maria Eva, escutava e ria das anedotas. Mas Jorge não se restringia aos portenhos, também fazia piadas com homossexuais, ao lado do Isaías inclusive, e sua suposta vitima eram os Pelotenses.

A história tem uma explicação para o caso dos Pelotenses . Dizem que eles são chamados de viados porque eles dão o cu… Não, não, não, pelo amor de Deus, essa é apenas uma piada chula. A verdadeira é que, em outros tempos, os ricos fazendeiros de Pelotas enviavam seus filhos para estudar na Europa e, ao retornarem, traziam costumes refinados que frequentemente eram ridicularizados pelos locais. De alguma forma, a pecha pegou em todos os gaúchos que tinham essa fixação pela própria masculinidade. Caso semelhante ocorreu com os campineiros, que eram ricos fazendeiros de café. Mas isso é outra piada, digo, história.

A origem dos estereótipos ajudam a explicar a origem das chacotas e relativizá-las, mas apenas no seu aspecto mais superficial. O riso tem uma raiz mais profunda dentro da natureza humana. O hábito de rir de alguém por conta de seu pertencimento a um grupo social é algo próprio da essência do riso. Algo humano, demasiadamente humano.

Do que rimos? Essa foi a pergunta que intrigou muitos filósofos. Gaston Bachelard, o que parece ter melhor definido o trâmite, conceituou o risível como algo derivado da própria humanidade. Rimos de coisas, por assim dizer, humanas. Você, por exemplo, já riu de uma paisagem? Aposto que não. Mas se riu, algum dia, é porque identificou nela um olhar, um sorriso, algo humano. Assim como quando rimos de gatos e cachorros, estamos na verdade rindo de algo que nos lembra alguma humanidade qualquer.

Mas não é qualquer coisa humana que rimos. Mas de uma coisa em particular, algo que se ressalta, se projeta, se destaca, como em uma caricatura. E para descobrir o que é isso exatamente, temos que voltar ao instinto mais básico do riso e lembrar da cena cômica mais clichê mas que frequentemente sempre traz o escracho. Uma pessoa caindo, por exemplo. Porque rimos de sua desgraça? Simples, rimos do inadequado. O adequado seria essa mesma pessoa seguir seu rumo natural. Porém, ela caiu. Talvez estava bêbada, chateada, triste, mas isso não importa para o riso, a não ser, é claro, que seja uma razão ridícula para ele ter caído.

O que é inadequado? Tudo que dentro de uma comunidade, nosso de preferência, foi estabelecido que deveria ser de outra forma. Alguém, ou alguns, estabelecem que não deveríamos ser mãos de vaca, arrogantes, afeminados, chatos, burros por isso utilizamos esses estereótipos para denegrir as pessoas, ou grupos, que odiamos, e, muito provavelmente, tememos. Por isso, o riso ecoa tão bem em um grupo, é uma confirmação que você faz parte dele. O riso frequentemente representa uma afirmação para um e uma negação para outro.

Mas são apenas estereótipos e o poder, do estereótipo, é ser sem história. Quanto mais conhecemos a triste narrativa do porquê alguém fez algo ou sentimos como uma pessoa sofre simplesmente por ser o que ela é dentro de uma sociedade preconceituosa, o riso desaparece. A compaixão é inimiga do riso. O riso é social. É humano. É cruel. E por trás dele, ecoa o quão ridículo nós próprios somos, os autores.

E aí retornamos a piada. Será que ela tem lugar em uma sociedade plural e democrática? Talvez, dentro de uma maturidade de compreender os seus limites. E mais importante, o nosso lugar. Os tempos mudaram e nunca retornaremos àquele momento anterior. Muito bom que seja assim, mas o riso sempre existirá. Como utilizá-lo? A solução do palhaço é incrível. Rir de si mesmo é sempre uma forma de superação e aprendizado. Mas será a única?

Porque ríamos tanto da pessoa que amamos? Porque, no fundo, podíamos. Os estereótipos de nossos amigos são queridos, só os tornam ainda mais interessantes, amáveis e, por que não? Engraçados. No fundo, rir pode ser um desprendimento da seriedade da vida. Afinal, somos todos ridículos. E talvez reconhecer isso é que pode nos tornar ainda maiores.

Agradeço aos meus amigos por serem tão ridículos e me lembrarem, sempre, o quanto eu sou também.