Seja P um Pai

“Seja L um lobo, F uma floresta e P1, P2 e P3 três porquinhos arbitrários…” Dizem que assim que um matemático conta histórias infantis. Porém, essa é apenas uma afirmação falsa. Acredite, tenho conhecimento de causa. Ocorre que meu matemático preferido calha de ser meu pai. Nos poucos momentos clássicos de paternidade, tenho a vaga lembrança de ir com o último exemplar da Turma da Mônica e pedir para que ele lesse.

Tão logo me adentrei no universo da leitura, deixei a prática de lado. E meu pai pode ser o que ele é de melhor para mim: um matemático. Veja bem, continuei meus aprendizados com o patriarca. O hábito das caminhadas nos fins de semana foram cultivados com longas conversas sobre história, política, geografia e, claro, matemática.

Matemáticos pensam diferente de outros pais. Na verdade, pensam diferentes de outros seres humanos. Pensam? Não exatamente, raciocinam. Concatenam operações elevadas que tomam espaço no seu cotidiano, tanto que certas práticas corriqueiras tornam-se mais difíceis, tipo se vestir para o trabalho, por exemplo. Meu pai certa vez colocou um pijama para ir trabalhar e não percebeu. Detalhe: da minha mãe. Em algum momento foi alertado da excentricidade, o que ajudou a tornar o deslize uma lenda. Caso contrário, teria simplesmente caído no ostracismo da própria desatenção.

Uma das vantagens de ter pai matemático era ter aulas da matéria quando a água batia. Os conflitos, porém, eram eminentes. Imagina uma mente na fronteira do pensamento ensinando equação de segundo grau? “Para que eu vou usar equação de segundo grau?” e ele respondia: “Ora, para tudo! Para construir pontes, calcular o voo de aviões e até operações financeiras complexas.” Fiquei quieto. Mentira, eu esperneei e argumentei que para mim não serviria para nada. Uma das desvantagens de ter pai matemático era ter aulas da matéria quando a água batia.

Mas o que ficará para história de verdade? As continhas, essas que de um x e um y chegam num w, ou qualquer uma dessas letrinhas da sopa que formam grandes descobertas aparentemente inúteis para mentes simplórias como a minha, que sequer entendia o princípio de uma equação de segundo grau.

Certa vez ele estava empenhado em um de seus problemas, como se chama as grandes descobertas, mas não conseguia sair do lugar. Ficava indo e vindo numa equação eterna. Então, num sono repentino, deitou o lápis e o papel, e teve um sonho curioso. Estava em um rio navegando e de repente apareceu um jacaré vermelho. Olhou ressabiado para o bichano, enorme, então seguiu o seu curso. Caiu no sono do sono, que invariavelmente é acordar. No dia seguinte ficou pensando sobre o que o sonho poderia representar. Subitamente, eureca! Jacarés vermelhos não existem, logo o caminho do problema estava errado. Retornou a estaca zero e refez o caminho até chegar na solução viável.

O resultado? A vida não é exata como na matemática. Mas um pai vai ser sempre estar contido no conjunto dos pais. No caso do meu, estará sempre ao lado das aulas da matemática e do jacaré vermelho.

Feliz dia dos matemáticos… quero dizer, dos pais.

 

Pérola Negra

Lá no Morro de São Carlos, em plena Estácio, berço do samba, nasceu e viveu Luiz Carlos dos Santos. Seu pai, Oswaldo Melodia, Queria que ele fosse doutor. Por sorte, desobedeceu seu velho. A desobediência sem dúvida é um dos maiores motores da humanidade. Forte feito cobra coral.

Talvez fosse mais fácil se optasse pelos estudos, ou talvez não, mas o fato é que antes de ser conhecido pela melodia, foi tipografo, vendedor, caixeiro e, enfim, aqueles músicos que tocam em bares noturnos que mendigam um minuto de sua atenção. Somava as dificuldades de ser músico a de ser favelado e negro. Tente passar o que ele passou, usar as roupas que usou… uma pérola negra.

Luiz Carlos dos Santos viveu naquele tempo da emancipação da negritude. Veja bem, o samba foi uma das primeiras fronteiras culturais do orgulho negro no Brasil, mas os anos 60 trouxe um mundo inteiro de possibilidades, literalmente. Influenciado pelo movimento negro americano, nossos subúrbios e periferias ganharam muito mais que uma musicalidade, ganharam uma nova atitude. O negro poderia ser do samba sim, mas ele poderia ser mais que isso. No caso , poderia ser swing, melodia, rock, funk. Poderia ser gato.

Se fomos influenciados, também influenciamos, com o movimento Black Rio, mas sobretudo com essa tropicalidade que não se cansava em antropofagiar as influências externas e as recriar da forma que fossem. A música negra brasileira era, é, sempre foi, mundial. Mesmo, ou principalmente, aquela do Estácio.

Companheiro de alguns dos nomes mais proeminentes da música, na época popular, como Wally Salomão e Torquato Neto, lançou-se para o sucesso definitivamente nos anos 70. Seu estilo não era samba, não era rock, não era swing, mais uma mistura que não se circunscrevia a brasilidade, era mais que isso. Luiz não era um catalisador, era uma matriz de uma força descomunal. Transcendeu qualquer movimento, rótulo, gênero. Foi melodia. Sua obra vale quanto pesa. E se alcançou a perfeição logo de primeira, o resto foi sequencia, continuação, prolongamento.

Mais importante do que ele era, talvez seja o que causou. Quem me apresentou ao Melodia foi ela, minha mãe. Sempre ela. Dentre os sambas,  chorinhos e canções, lá estava Melodia a cantarolar na caixa de som. Mas o momento que Luiz Melodia despertou de vez em mim foi um pouco depois, na trilha do filme Como Nascem os Anjos. Em um final bruto e sem significado, a dramaticidade de Magrelinha nunca fez tanto sentido. Sim, o sonho continua, vem sempre de um dos lugares mais distantes terra dos gigantes Super Homens.

E eu, apenas mais um super carioca,assim que cheguei em São Paulo, lembro de um relato de uma conhecida que admirava o Ébano. Tanto que na sua primeira viagem ao Rio queria conhecer o Estácio. Qual foi sua surpresa quando chegou no local e deparou-se com… Estácio de Sá. Não conseguiu enxergar a tal beleza mortal que o bairro adquiria na sua música. Não tiro sua razão, o artista as vezes enxerga camadas da realidade que as demais pessoa não alcançam. Daí sua extrema importância.

Ano após anos, os artistas que marcaram nossa vida vão indo. Outros chegam. Mas os tempos são outros. Será que o pôr do sol vai renovar de novo o seu sorriso?

Bogado Lins é escritor, roteirista e admirador da melodia. 

Privilégio do Esquecimento

Eu sinto pena dos jovens hoje em dia. Pena? Compaixão, vamos ser mais brandos. Veja bem, são mais bem informados, mais livres, mais ricos, ou pelo menos tem mais brinquedos e, certamente,  mais conectados do que jamais fomos. Qualquer celular hoje tem uma câmera mais potente que a nossa analógica. E ligar virou tão trivial que todos preferem enviar mensagens. Enfim, se não aproveitarem ao menos essas módicas vantagens, perderão ainda mais.

Mas o que falta a eles é o que sobrava para nós. Nada de saudosismos bestas ou tradicionalismos ultrapassados. Estou falando de algo bem prático. Eles não tem mais privacidade. Ora, para que isso? Simples, na juventude temos que ter direito a errar, a cair, a se atrapalhar, a se apaixonar, a enlouquecer. Isso mesmo, quem foi adolescente e jovem entre os anos 90 e meados de 2000 sabe que teve a última oportunidade de fazer besteira da humanidade. Amém!

Quem erra é errante. Bebedeiras homéricas, caídas, subidas, aquela mulher que não era exatamente o que você queria e até, por que não? Pequenos vandalismos e atos ilícitos que já prescreveram por uma razão ou por outra. São essas aprendizagem por tentativa e erro que trazem alguns ensinamentos e um certo olhar que desvenda o mundo em camadas. É o que tem de mais próximo de uma verdadeira maturidade, aquela que combina a bagagem da experiência com a observação.

Tudo isso agora é passado. Bola para frente. Como diria Nietsche, o esquecimento é uma benção muito maior que a lembrança. Eu mesmo não canso de lembrar de me esquecer as burradas que fiz, algumas por causa de mulheres, outras por demais excessos. Como diria George Best, “metade do meu dinheiro gastei com mulheres e cervejas, e o resto eu desperdicei”. Lembro, por exemplo de ter ficado com uma mulher que me contou tantas mentiras, mentiras assim tão espetaculares, que logo, logo, depois de uns dez dias, percebi que mais que uma mentirosa, era uma alucinada. Mesmo assim, ainda fiquei com ela mais uns vinte dias. Pensar com as duas cabeças é o mesmo que não pensar com nenhuma.Eu era um típico jovem da geração 00.

Esse é apenas um exemplo, bem tímido na verdade. São tantas e tantas coisas para se contar que eu até esqueci, mas veja bem, porque tenho esse salvo conduto. Nasci em 82, faço parte dessa última geração que nasceu desconectada. Hoje, qualquer deslize é transmitido em tempo real para o mundo todo. Obviamente as bebedeiras, trepadas e alucinógenos são os primeiros perigos a virem à tona. Mas quem pensa que as besteiras se limitam a isso, tem muito mais. As vezes uma frase mal, ou pessimamente, colocada numa conversa ganharia uma repreensão momentânea e o autor seguiria em frente. Porém, estamos numa era onde não há espaço para erro. Um post pode rodar o mundo e te fazer famoso, só que ao contrário, em questão de segundos. Enquanto aquele que você queria que todo mundo visse, passou batido, não é mesmo? As piadas, então, famosas antigamente, procuram algum lugar onde não incomodem ninguém, ali entre o riso inteligente e o bocejo, enquanto o humor perde um pouco da sua essência, a maldade humana.

Os jovens continuam loucos, e sempre serão esse motor de transformação que irá transformar o mundo. Mas agora, eles transmitem sua própria loucura em tempo real e, o mais louco, na maior parte das vezes por vontade própria. Talvez sejam mais comedidos do que fomos, provavelmente aliás. E o que chega até nós é apenas aquilo que sobressaiu do trivial, como sempre. Sinto pena por eles não fazerem tudo que fazem, da forma que fazem, mas em particular. Mas quem sou eu para pensar alguma coisa? É a vez deles. E, ao que parece, simplesmente não conseguem ficar sozinhos.

No fundo nunca saberão o que perderam, porque nunca tiveram. A sensação que o mundo é apenas o que está a sua volta e que você, talvez, esteja apenas sozinho mesmo. Em resumo, privacidade.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Funk Universitário?

Outro dia um amigo convidou outro para ir a um show no Circo Voador: “Eu Amo Baile Funk Original”. Na lista de artistas incluía “Velha Guarda do Funk”, Mc Cacau, Ritmo da Favela, entre outros MCs. De repente, cerca de 30 anos depois do surgimento do ritmo, eis que decreta-se a nostalgia do funk original.

Nada de novo, ainda prosseguem as festas dos anos 80, Chitãozinho e Chororó viraram referências do sertanejo raiz e o pagode e axé daqueles idos tempos são lembrados com saudosismo. A única coisa que prossegue é que os ritmos universitários nunca se formam. Paciência.

Alguns vão relembrar que o samba já sofreu estigma e o tempo lhe tornou um ícone de nobreza, o jazz e o blues tomaram caminhos semelhantes lá fora. O rock nem se fala, hoje vive uma crise de identidade de paradoxalmente ser uma tradição em rebeldia.

Então será que vivemos este looping eterno entre a música dos cânones e do povo? Sim e não. O relativismo não pode permitir que não observemos a queda de qualidade da música popular. Se ela antes era o oxigênio que alimentava as inovações na música, hoje ela está mais para uma âncora que separa ainda mais o erudito do popular.

Mas o que será que mudou de lá para cá? Arrisco apontar alguns fenômenos que permitiram esse distanciamento. O primeiro foi o xeque mate que a música eletrônica deu na música. Algo muito semelhante que Duchamp fez quando expôs o sanitário em um museu. Após a música sair do ambiente do instrumento e chegar no eletrônico, ao mesmo tempo que ela expandiu ao infinito, ela se enclausurou no próprio redemoinho. O que poderia ter de novo depois?

Porém, isso é apenas parte do fenômeno, ou, mais precisamente, uma de suas causas, Afinal, junto com a popularização do fazer artístico, ocorreu a expansão do consumo digital da música. Além de acabar com a indústria fonográfica como a conhecemos, o consumo digital teve outro papel importante: acabou com a figura do curador. Hoje, não existe ninguém para nivelar a música, as artes, o jornalismo, a literatura. Mede-se a qualidade do conteúdo pelos cliques e o mecanismo para alcançá-los é tornar tudo o mais simples possível. Para cair no gosto popular, o produtor Max Martin criou até uma fórmula que, ao que tudo indica, deu certo. Criou inúmeros hits de sucesso da última década.

Como a liberdade acabou gerando ainda mais padronização? A resposta é simples: a quantidade imensa de músicas disponíveis a qualquer momento gerou uma necessidade ainda maior de consolidação. E, para isso, em um mundo com inúmeros canais, a compreensão deve ser facilitada ao máximo. Resumindo: quanto mais fácil, melhor. Melodias simplórias, batidas repetitivas e letras mais chicletes possível. Não precisam necessariamente passar nenhuma mensagem, mas se o fizerem, que seja a mais compreensível possível.

O Funk carioca foi o ritmo embrionário desse processo no Brasil. Foi lá, junto com o surgimento do sertanejo como o conhecíamos, que a popularização da música eletrônica e que a ausência de curadoria começou a tomar a forma que hoje se consolidou. E a tendência só cresceu de lá para cá, a ponto daquelas músicas, de gosto duvidoso, hoje parecerem verdadeiros clássicos.

Mas fiquem tranquilos, daqui a vinte anos, essas músicas de hoje serão os clássicos de amanhã.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Terra de Souza Paiol

Se você é forte, aconselho que venha para o Brasil. Aqui é o lugar dos fortes. Você vai se destacar, crescer e ser cada vez mais. É a sua natureza, correto?

Você é forte daqueles que bate de verdade? Aqui, no mano a mano, vence aquele que bate mais. Nada de Marlboro, estamos falando da terra do Souza Paiol. Quebra na porrada na rua e mata. Só cuidado para não ser preso. E para não ser preso, você precisa seguir a regra do jogo.

É importante jogar a regra do jogo, a do mais forte, no caso. Uma pessoa sozinha com toda a força do mundo aqui não vai triunfar. Porque alguns fracos aprenderam algo básico: tem que se associar para serem mais fortes. Daí nasceram alguns fracos bem fortes, muito. Porque estão cercados de gente forte para bater, se preciso.

O tempo fez tudo mais sofisticada. Na verdade, só a ameaça é suficiente. Por isso foram criados leis para não precisar nem chegar as vias de fato. Mas isso, claro, para quem é fraco. As leis são para os fracos. Os fortes de verdade não precisam seguir a lei. Os fortes conseguem tardar a lei, ou mesmo ignorá-la. Então, aqui no Brasil, você vai ter que aprender a estar do lado da lei, ou seja, do mais forte, para não sofrer suas consequências.

Há apenas um porém, quem chegou antes tem bastante vantagem sobre você. Tem gente que está há mais de 400 anos e criaram escrituras para se apropriar de terras, muros para separá-las e leis para protegê-las. Além disso, são muito simpáticos com seus conterrâneos. Como dizem, aos amigos tudo, aos inimigos à lei. Por isso, é importante ter aliados, e os certos. Aqueles que tem os atalhos para a lei e para a ordem. Os demais, são seus inimigos, sejam temporários, os fortes que disputam a chave do cofre, ou os permanentes, os que estão fora dos muros e das leis, os fracos.

Porém, à margem da lei, quem é mais forte sobrevive. Pelo menos quem está mais armado. Então, é importante estar armado para os lugares onde não existem leis. E, aqui, são muitos. As armas são para fazer valer as leis ou criá-las se você não estiver do lado delas. No fundo, se você estiver do lado de um, está do lado oposto do outro.

Dizem que os opostos se atraem, por isso as fronteiras as vezes são nebulosas. Quanto mais alto se chega na hierarquia mas os pontos de contatos se entrelaçam e se confundem. Quem está em cima, por vezes dialoga, circula e convive nos pontos de contato e por meio da linguagem que todo mundo entende: dinheiro.

A bem da verdade, a força que você precisa para chegar em cima não é apenas da sua. É necessário muitos ombros que aguentam para poder enxergar tudo. E o mais forte, seja de onde for, nem sempre é o mais forte, mas que reúne mais braços e ombros. Sim, os fortes daqui são bem ridículos de perto, velhos, flácidos, gordos, esqueléticos, esquisitos, mas tem a força das leis, dos muros e de gente forte que garante tudo como está.

Os fortes de verdade vencem apesar de tudo. São capas de revistas, heróis das olímpiadas, especialistas em informática, doutores da medicina ou do direito, gênios das ciências. Porém, numa terra onde os fortes daqui são na verdade fracos que tem pessoas fortes por trás delas, quem é forte de verdade não está entre iguais. Frequentemente procuram outros lugares onde estão entre os seus.

Aqui é a terra dos fortes, mas quem é forte de verdade, para que estar entre tantos fracos, não é mesmo?

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Artista de Verdade

Já reparou que muitas das nossas amizades duradouras surgem no período da adolescência? Minha hipótese é que nosso senso crítico não é muito desenvolvido, daí aquelas características chatas dos amigos do peito passam batido e, vinte anos mais tarde a gente acaba se acostumando. “Ele é assim mesmo mas é meu amigo”. Já o pessoal que você conhece depois cai no senso crítico implacável logo de cara. Nada passa. E verdade seja dita, somos chatos por natureza.

Solano é um desses caras chatos que eu conheci nesse nebuloso período da adolescência. Ele deveria ter uns 17, talvez 18 anos, dois a mais que eu. A recíproca era completamente verdadeira, eu também era chato à beça o que, nesse caso, tornou a amizade benéfica mutuamente. Somos amigos desde então, e desconfio que, mesmo com a distância, cada vez mais.

Em toda a amizade há sempre um fio condutor que une as pontas em torno de um interesse em comum. No nosso caso foi as artes, inclusive nos conhecemos por uma de suas ideias, um coletivo chamado Factotum que iria revolucionar o Parque dos Patins na Lagoa e ainda nos descolar uns trocados vendendo nossas obras juvenis. Parecia possível para a gente, mesmo que fossemos encher o saco dos frequentadores do parque para comprarem poemas e rabiscos, entre o revolucionário e o chato. Mas, talvez por sorte, o projeto ficou apenas em duas reuniões, uma delas em minha casa, que teve de mérito me aproximar de Solano.

Sempre fui muito exigente, meus amigos sabem disso, e por isso tenho segurança para afirmar que Solano é um gênio, e desde aquela época. Gênios porém tem “geniosidades”, essas idiossincrasias que tornam as pessoas simultaneamente incríveis e insuportáveis, num limite difícil de separar. Sua produção artística surge sem muito direcionamento e organização. Quase que por sorte mesmo. Algumas são maravilhosas, outras boas, muitas são apenas chatas. Porém isso não importa para um artista, afinal se tem uma coisa boa em sê-lo é que eles sempre são lembrados pelo seu melhor. E eu sempre o admiro pelo que ele oferece de melhor para mim e para o mundo.

O que porém me fez ser amigo de Solano e não apenas um admirador de sua arte, foi sua benevolência comigo. Mesmo com seu talento proeminente, sempre teve paciência para prestigiar meus textos ainda em processo de apuramento estético, devaneios das minhas verdades diletantes da adolescência e da juventude. Mas isso talvez tenha sido o mais fácil, afinal foi Solano quem me ajudou a segurar a barra das minhas aventuras amorosas intensas que oscilavam entre a completa paixão e desilusão. Agradeço a ele demais por isso, mais que isso, o amo.

Aos gênios, muitas vezes o cotidiano não combina com suas trivialidades, então acredito que o mundo ainda esteja a procura do lugar para sua arte. Ocorre que vivemos um tempo estranho onde torcedor discute contabilidade do clube, empresários são os novos ídolos e artista bom é aquele que escreve projeto para Lei Rouanet. O mundo está chato, acho que porque tem gente normal demais.

Por isso, Solano é meu amigo. Dentre as genialidades e insuportabilidades cotidianas, ele ainda é uma pessoa que posso compartilhar minhas chatices, piadas babacas e uma cervejinha despretensiosa no lugar que for, agora em família. Mas sobretudo porque, além do amor da amizade, o admiro demais. Ele me lembra que o mundo é muito mais do que ídolos de balanços financeiros e artistas estatais. Ele é um artista de verdade.

Bogado Lins é escritor, roteirista e amigo do Solano.

Os Cinco Sentidos do Samba

Eu tenho um quadro de Nelson Sargento no meu quarto. É uma pintura despretensiosa de casebres de diferentes cores inclinadas em um morro. No fundo de um céu azul claro e nuvens esparsas, algumas aves sobrevoando na direção do vento compõem a cena.

Pode ser a Mangueira, mas também pode ser as outras 700 favelas da Cidade Maravilhosa. Talvez seja uma representação daquele exato momento que João Nogueira descreveu em uma de suas composições: “numa vasta extensão, onde não há plantação… e quando o primeiro começa os outros depressa procuram marcar seu pedacinho de terra para morar”. Quem sabe seja uma pintura sem geografia? Uma vila tranquila, um éden, naquele inexato instante que nunca existiu.

Curioso um quadro desse cair sob meus cuidados. Talvez seja fruto dessa minha admiração do samba que cresceu conforme amadurecia o meu amor pelo Rio. Naqueles idos anos 90 e início dos anos 2000, quando eu percorria a Lapa, Santa Tereza e as ruas da minha cidade em busca de amores e narrativas que perdurassem. Mas também tem a história prática. De como o samba, tantas vezes decretado à morte, ressurge em sua espontaneidade na casa de alguém.

Enquanto na Sapucaí os grandes desfiles viravam uma indústria, os sambistas tradicionais caíam gradativamente no ostracismo. Com exceção de alguns cantores que circulavam nas gravadoras e nas casas noturnas, o gênero musical mais puro e sincopado ia pouco a pouco perdendo relevância nas elites. Já nas camadas populares, prevalecia o pagode, um ritmo mais acelerado e com novos expoentes.

Foi nesse período, lá pelos anos 80 que Luiz Carlos, um amigo da família, foi contratado pela Funarte. Um dos projetos que participou, a Caravana Funarte, possibilitou a circulação de sambistas pelo interior do Brasil. Então, figuras que permaneciam no ostracismo voltaram a habitar os palcos brasileiros. Para um punhado deles, significou uma sobrevida financeira. Foi a partir daí que alguns desses senhores, incluso Nelson Sargento, começaram a se encontrar com Luiz. Como forma de gratidão, o sambista presenteou-o com algumas de suas pinturas, cujo maiores méritos era reproduzir essa simplicidade do olhar de quem vive o samba – um olhar naif, como diria os críticos de arte.

Entre paixões arrebatadoras e desilusões, Luiz vivia intensamente. Não raro, os amores custavam-lhe todas suas economias e o deixava tão sem recursos quanto os sambistas que auxiliava tempos de Funarte. No fundo, era naif. Por isso, pelo menos duas vezes em sua vida mudou-se para a casa do meu pai. Em uma delas, acabou deixando essa lembrança como forma de agradecer a acolhida. Eu rapidamente adotei-o para meu quarto e foi dos poucos objetos que levei comigo quando sai de casa rumo a São Paulo.

Já na nova cidade, pude conhecer a admiração pelo samba dos paulistas. Ainda que esteja longe de ser uma unanimidade e mais afeito a apreciação silenciosa, o amor paulistano pelo gênero é sincero, como uma admiração de um menino apaixonado. Conheci tudo isso há dez anos atrás por intermédio de duas personalidades do mundo editorial, Leonel e Isildo. Ao retornar das rodas de samba, o quadro permanecia como uma relíquia de contemplação. Acessava aquelas emoções que as rodas de samba cariocas me proporcionaram em um tempo que talvez nunca tenha existido.

Hoje, em pleno mundo digital, observo a resiliência do mais africano dos ritmos brasileiros. Enquanto o rock nacional agoniza em praça pública e a MPB perde sua capacidade de renovação, a tradição do ritmo é justamente o que o mantém vivo. Essa conjunção entre dança, fantasia, desfile, enredo, coletividade e todo um imaginário que o sustenta, acabou tornando-o mais forte e preparado para os novos tempos.

Por incrível que pareça, mesmo com todas as críticas, a Sapucaí fez mais bem do que mal ao gênero, no que diz respeito à sustentação do ritmo no coração do grande público. Mas certamente foram essas pequenas relíquias e penduricalhos que tornaram tão simbólico e emocional. Afinal, o que faz perdurar é justamente o que atinge simultaneamente esse universo individual na maior quantidade de pessoas possível. E o samba tem essa riqueza de elementos que se combinam em uma experiência completa. Desde o tato na dança, o paladar e o olfato da feijoada, e obviamente a audição desse ritmo que remonta às orações. 

Ou ainda, essa visão idílica de um amontoado de casebres numa comunidade fictícia em um dia de céu azul com pássaros voando ao fundo na direção do vento.Um sentido que se expande em emoções simples, que fazem sentido e são sobretudo inocentes, ou naif, como preferirem. Uma emoção autêntica.

Bogado Lins é escritor, roteirista e admirador de samba