Marcas de um Conflito

Eu sou carioca. Mas não sou um carioca convencional, além de nascido na “linda e triste” Zona Sul, sou loiro de olho azul. Isso tem algumas vantagens, mas tem desvantagens também. Lembro de sair na rua sozinho, afinal as crianças andavam sozinhas nos anos 90, e ser o alvo preferencial dos pivetes. Era o “alemão”, e isso numa cidade que não lidava muito bem com eles. Já tinham até composto aquela que hoje é um clássico da nostalgia funkeira ” nós com os alemão vamos se divertir”.

Talvez por ter desenvolvido um senso de autopreservação ou por ter tirado a sorte grande, sofri meu primeiro roubo apenas muito tempo depois. Por que? Bom, o dia a dia no Rio desenvolve um certo savoir-faire que te deixa preparado para situações adversas, um eufemismo para uma guerra civil em plena ebulição. O código de quem fala mais alto é o normal, a norma das ruas da cidade perigosa. Se alguém te ameaça, o natural é ser ainda mais ameaçador. Seja no olhar, no gesto e, principalmente, no palavreado. Talvez hoje a escalada de violência esteja ainda maior, mas durante minha juventude boa parte dos assaltos e assédios poderiam ser evitados por uma atitude, falando mais alto que o agressor. As vezes, até, o embate físico era inevitável. E isso, se aprende nas ruas o quanto mais é necessário. Minha história foi um amplo aprendizado nesse sentido. Idas e vindas na vizinhança, ou no ônibus rumo ao colégio, safando-se da eminência de ser assaltado.

Esse jeito meio malandro, meio agressivo se projetam para além das ruas, becos e vielas. Ele se impregna nos espaços coletivos e até mesmo dentro de casa. Lembro-me de quando ingressei numa escola federal de alto nível graças a ser um nerd irremediável. No primeiro dia de aula, tive que enfrentar a intimidação de um aluno repetente, dois anos mais velho. Mais uma vez, tive que me fazer de mais perigoso do que ele, com olhar fixo e levemente insano. Prefiro não contar o que lhe disse. O que posso dizer é que depois o respeito mútuo ocorreu e, se não éramos propriamente amigos, nunca chegamos a brigar, para minha sorte. Acredito que se encontrá-lo novamente hoje, provavelmente nos trataremos como dois conhecidos que há muito não se veem.

Esse hábito impregna de tal modo que o natural é você reproduzir e se orgulhar dele. Quando conheci um primo de um amigo, resolvi contar as peripécias das ruas do Rio e do quanto ele tinha que se precaver e ficar atento. Bom, e se safando de uma coisa ou outra com minha assistência, ele poderia usufruir do melhor da cidade maravilhosa, seja lá o que isso poderia significar com 13 ou 14 anos. Logo depois, o menino teve uma diarréia de medo. E eu? Bem, eu ri. Não tinha qualquer compaixão para compreender que essa cultura do enfrentamento não pudesse ser algo circunscrito ao Carioca Way of Life.

Muito mais tarde, ao chegar na juventude e circular mais pela cidade nas praias e avenidas, frequentemente era abordado em inglês ou em um portunhol improvisado oferecendo algo a se vender ou simplesmente pedindo um qualquer. Era nesses momentos que exibia com orgulho o meu sotaque carioca rasgado e treinado nas ruas e vielas que constrastava com o jeito esquisito de se vestir e de me portar. Olhando em perspectiva, eles realmente não tinha como saber. Os xsss e rrrsss rasgado dito em alto em bom tom, além de assaltos, me salvou de pagar mais caro pelo mate, biscoito Globo e qualquer mercadoria, além, claro, das corridas de táxi.

Esses trejeitos e exageros acabam entrando em perspectiva ao habitar uma cidade como São Paulo. O tom mais alto da voz, um apego descomunal aos pertences, a ponto de não deixar a mochila longe do corpo ou a roupa sozinha na praia para se banhar; e até mesmo um hábito de enfrentamento ao menor sinal de interpelação soam muito mais ridículos e desproporcionais. Perdoem-me, fui forjado assim. Os cabelos loiros,os olhos azuis e o jeito atrapalhado na cidade morena e cheia do gingado sempre foi um estigma a ser superado. Ainda mais em uma cidade repartida, onde a geografia ao mesmo tempo divide quem tem tudo de quem nada tem, mas paradoxalmente junta.

Certamente um dos traços dessa divisão está na pele. Mas se criava dificuldade para mim, que era o “alemão”, nem quero entrar no mérito de quem está do outro lado dessa geografia. Enquanto ficava atento para manter meus pertences, o mundo de quem nasceu a alguns quarteirões e com a pele escura era uma luta pela vida. Sem qualquer exagero. Eu era um sortudo de ter que defender meus bens e não a minha existência.

Por isso, as marcas do conflito carioca, mesmo desigual como tudo em nosso Brasil, chegou num ponto em que ninguém se salva. Nem eu, o alemão. Uma coisa aprendi à ferro e fogo nas ruas da minha cidade, com esse alemão aqui ninguém se mete. Desculpem-me, fui forjado assim.

Bogado Lins é escritor, roteirista e não leva desaforo para casa. 

 

 

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Pajé do Design

O Digão me ensinou uma coisa. Quando certo dia, por um motivo ou outro, perguntei a ele, se aquilo era do seu tempo. Ele retrucou na hora: “meu tempo é hoje!”. Na verdade, essa é a versão simplificada, resumida do causo,  absolutamente não foi assim. Certeza que foi de  uma  forma completamente diferente mas, na real, como ele disse a tal frase, de fato pouco importa. O importante é a repetição constante que já virou característica. “Digão, acho que isso é do seu tempo…”  e ele prontamente,” que nada, meu tempo é hoje”. Sinceramente, acho que o tempo dele é amanhã. Como diria Mário Quintana, nunca somos contemporâneos de nós mesmos.

Quem está perto do Digão, está perto de sonhos. E eles  são, digamos, a matéria prima do futuro. Ele os tem cotidianamente – intenções, propósitos, projetos incríveis que mobilizam pessoas e por vezes se concretizam.  Outras vezes não, mas até aqueles que ficam no caminho, servem de substrato para outros que ainda estão para nascer. Mas muito além de sonhar seus próprios sonhos, Rodrigo está sempre sonhando em coletivo. Cada vez mais pessoas o procuram para tornar real suas abstrações..  E, como dizia Raul, sonho que se sonha sozinho é só um sonho. Mas sonho que se sonha junto… se chama realidade.

Mas o Lima é muito mais que uma pessoa para realizar o inexistente. Ele também é cheio de cotidianos. Está pronto, seja a hora que for, para fazer logos, e-mails marketing, fundos de palco, telas, banners e campanhas inteiras para clientes de todos os tipos. E fazer, refazer e fazer de novo, mais uma vez. Há quem diga que ele não dorme, mas isso é pura intriga. Quem o conhece sabe que ele desenhou uma cadeira especial para pilotar a sua SS Enterprise. Basta ele se conectar com seu cabo USB no móvel inteligente e recarregar suas energias. Tanto é verdade, que é só ele sair dela que o seu sono aparece. Ao menos, há relatos bastante convincentes que isso ocorreu. Nunca mais eu vou dormir, nunca mais eu vou dormir…

Particularmente gosto da sua autoconfiança imutável dentro de sua fluidez diária. Quando o mundo está prestes a cair – digo para as pessoas ao redor, incluso eu, por vezes, porque o mundo em si também é assim nessa fluidez imutável – ele continua lá com uma naturalidade segura que, no final, sim, vai dar certo. E invariavelmente dá, com trilha sonora de Di Melo “calma, calma, calma…” tocando em freqüências inaudíveis para os ouvidos despreparados.E, por isso, todos gostam de tê-lo por perto também quando mais se precisa.  Afinal, uma certeza nada mais é que a soma de determinações. E uma determinação inabalável vale mais do que várias dispersas.

Sua postura budista exibindo um sorriso constante contrasta com seus contatos indígenas de terceiro grau.  A sua paz na verdade é muito mais na certeza do caminho a ser percorrido do que propriamente de uma serenidade harmoniosa. Em seu interior, mil projetos pelejam para emergir e se tornarem reais.  Porém, para descobrir isso é preciso atravessar algumas camadas de silêncio até chegar em alguns dedos de prosa e sua pupila dilatada. Por vezes, até se escuta lá no fundo o Pajé, ou  espíritos da natureza se manifestando e dizendo as verdades necessárias, seguidas das suas baforadas do seu cigarro de palha.É nesse momento também que as entidades ancestrais se manifestam e mostram um par de cicatrizes,sobreposições de mistérios e uma força interior derivada dos desafios superados.

Ele diz que não tem religião mas, sabemos, é mentira. O design é sua fé. Posso escutar suas sábias palavras me alertando para a perfeição da criação. “Bogado, o design é tudo, desde a eficiência, a beleza, a funcionalidade, absolutamente cada detalhe, faz parte do design”. Cultua alguns dos mestres do assunto, como aquele que foi a Índia e voltou iluminado, o Steve Jobs. “Taj Mahaaaalll, Taj Mahallll. Ele provou da maçã e, desde então, a Apple foi seu guia. Outros softwares testaram sua força de vontade. Aliás, estamos falando de um fanático religioso. Se pudesse, excluiria do mundo Power Point, Word, Microsoft, Corel Draw e outros programas que não levam sua religião a sério e seus respectivos criadores.Mas independente dos seus iconoclasmos e ímpetos violentos quem não tem seus problemas?

Sua perseverança conseguiu, pouco a pouco, reunir pessoas incríveis em torno do seu propósito. Cada uma delas vale uma ou mais crônicas como essa em um tempo muito breve. Poderia se chamar isso de uma empresa, empreendimento ou uma marca, mas na boa, vai muito além disso. Trata-se seguramente de uma irmandade com o Tim Maia cantando de fundo “No Caminho do Beeeem”. Sim, pessoas que se tornaram amigas e espero caminhar junto delas ao longo da minha jornada.

Guardo com cuidado a ficha de ouro. Aquela que aciona o amigo no momento mais necessário para virar a mesa, para ganhar o jogo. Ter amigos assim é como uma certeza que não se está sozinho, seja lá o que for, e que a soma das partes é muito mais que um. É nóissxxx.

Bogado Lins é escritor, roteirista e parceiro do Digão.

Sou Brasileiro e com Responsabilidade

Sou brasileiro e com orgulho. Sou do país que teve figuras como Paulo Freire, Machado de Assis, Luiz Gonzaga, Hermeto Pascoal, Nise da Silveira, Elis Regina, Maria Quitéria, Chiquinha Gonzaga,Vinicius de Moraes, Castro Alves, Joaquim Nabuco, Oscar Freire, André Rebouças, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Cartola, Tom Jobim e tantos outros .

Temos brasileiros horrorosos também, é verdade. Mas tem franceses, alemães, japoneses, russos, americanos, italianos, belgas horrorosos na história também e hoje em dia.  Não foi um brasileiro que criou o fascismo, dentre os criadores,  está o famoso italiano, Mussolini. Não foi um Brasileiro que restabeleceu a escravidão nas colônias americanas e tampouco assassinou cruelmente 100 mil negros no local, foi o francês Napoleão Bonaparte. Não foi um brasileiro que decidiu soltar a bomba atômica, foi o presidente americano Harry Truman. Não foi um brasileiro que deu a ordem para massacrar cerca de 200.000 chineses, foi o imperador japonês Hirohito. Dos alemães, não precisamos nem falar ,né?

Mas se hoje, todos reconhecem os esforços que cada um desses países fez para que coletivamente se tornem melhores, pouco se fala por outro lado que as empresas e indústrias desses países parecem não ter a mesma avaliação. Afinal, foram empresas francesas como a Alstom e alemãs como a Siemens que corromperam o Estado de São Paulo nas licitações do metrô. Se tivemos grandes construtoras brasileiras citadas na Lava Jato, também tivemos a coreana Samsung, a inglesa Rolls Royce a holandesa SBM, a italiana Techint e a sueca Skanka. As mineradoras canadenses tiveram a informação que extinguiria as reservas brasileiras antes do anúncio oficial. Detalhe: 5 meses antes. Isso apenas falando de Brasil, se analisarmos retrospectivamente na história, lembraremos de outros casos de grandes empresas desses lindos países apoiando atrocidades ao redor do mundo.Algumas nasceram para servir o nazismo, o facismo e o expansionismo americano.

Ok, estamos falando de empresas, mas e as pessoas? Bom, se somos o país da prostituição infantil, uma parte importante desse mercado é composto por estrangeiros, notadamente europeus que se aproveitam da fragilidade de nosso país para fazer aquilo que eles não fazem no deles. Este obviamente é apenas um exemplo extremo, mas diversos estrangeiros – europeus, americanos e orientais -rapidamente incorporam hábitos vivenciados aqui logo depois de saírem de suas comunidades, sem muita reflexão.  Já vi japoneses estacionando em lugares proibidos e protestando contra o meu protesto de que estavam errados, um holandês flanelinha e europeus aplicando golpes em brasileiros.

De todo o modo, é frequente  o hábito de quando nos referimos a eles, não o fazermos a partir de generalizações, tipo “alemãozinho é foda”, “japonesinho, hein, num presta”. Assim como, quando vemos grandes problemas recorrentes internacionais com outras nações, como os tiroteios em escolas nos EUA, os jornais locais fazem de tudo para não apontar o elefante na sala. Sempre são pessoas doentes, individualmente, sem afetar o orgulho nacional. Ainda que estatisticamente é óbvio que um problema coletivo exista. Ao passo que basta um árabe fazer o mesmo que a primeira reação é generalizar a partir do terrorismo.

Ou seja, qual é o papel de generalizar um povo atualmente? Frequentemente reduzi-lo a uma característica perversa, quando sabemos que uma coletividade, mesmo com suas idiossincrasias, tem uma pluralidade que extravasa qualquer generalização simplista. Porém, o mais engraçado em relação a nós, é que não temos o costume de generalizar outros povos, como frequentemente observamos, mas nós mesmos.O velho e recorrente complexo de vira lata. Por que?

Existem inúmeros motivos é verdade. Difícil apontar todos eles numa crônica curta que tem como principal objetivo simplesmente apontar o óbvio, mas arrisco a dizer: qual é a maior de todas? A terceirização das responsabilidades. Isso é um traço muito particular de nós brasileiros, incluso eu, sempre tentarmos achar culpados externos pelo que vivemos coletivamente. No fundo, acreditamos que estamos aqui só de passagem, como se fossemos estrangeiros de nossa própria pátria.  Se muitos de nós são exemplos de como empreender e vencer nas adversidades, por outro lado, temos uma dificuldade de criar lideranças politicas não inseridas no ciclo vicioso da nossa politica. Por que ela não foi construída visando a comunidade, mas algo que está além dela. E, sim, também é nossa responsabilidade.

Os melhores entre nós preferem brilhar sozinhos, e com toda razão. Mas se conseguimos em outras tantas carreiras ter sucessos individuais, por que não empreendemos no principal desafio da nossa nação, que é isso mesmo, ser um nação? Talvez porque é mais fácil não ser brasileiro e simplesmente terceirizar as mazelas do nosso país para os outros, os bárbaros, esses que estão a alguns quarteirões da minha casa, talvez ao lado, e não reconhecer que todos nós somos responsáveis pela nossa rua, nossa comunidade, sociedade, país.

Há quem possa se destacar e ser um líder nesse cenário, vamos reconhecer os esforços e sermos receptivos com novas lideranças, mas principalmente vamos exercer a política no dia a dia, pedindo para que as pessoas não ponham lixo fora do horário, emitindo nossa opinião com respeito, nos envolvermos com as pequenas e grandes questões cotidianas. Mas, principalmente, não generalizarmos responsabilidades individuais. Se alguém cometeu um mal feito, ela deve responder com nome, sobrenome CPF e se defender diante do tribunal. Chega de cairmos em nossa armadilha coletiva de não enxergarmos como uma sociedade, com todas as complexidades e deveres que isso acarreta.

Chegou a hora de todos assumirmos a responsabilidade mais básica de todas em uma nação. Eu sou brasileiro, com toda a delícia e a dor que isso traz. E você?

Bogado Lins é escritor, roteirista e brasileiro com toda a responsabilidade que isso traz

Looping Narrativo

Somos fascinados por histórias e estamos sempre buscando nos refugiar do nosso cotidiano em narrativas. Aventuras que nos lembrem que a vida pode ser incrível, mesmo que apenas no nosso interior mais intimo. Cada vez mais porém, a velocidade dos acontecimentos e da nossa dispersão nos torna ainda mais exigentes diante de uma nova história.E por conta disso, o cinema se tornou um eterno looping narrativo. Por que? É uma longa história…

Desconfio que muito mais que histórias, estamos em busca de personagens,pessoas enfim, com seus sentimentos, problemas, desafios, complexidades e genialidades. São eles que nos cativam e nos atraem para dedicarmos horas de nossa atenção. E convenhamos, a quem você dedicaria 2h de seu dia para dedicar seus ouvidos? Um amigo de longa data ou um completo desconhecido? Afinal, o que filmes como Star Wars, Vingadores, Harry Potter e 007 tem em comum?

Sempre gostamos dos filmes que vemos? Não devo ser o único que na grande maioria das vezes sai insatisfeito do cinema, com um leve desconforto intelectual. Star Wars? Convenhamos, se não fossem os personagens que nos encantam a décadas o que sobraria do filme? Um looping revisitado adaptado ao séculos XXI. Harry Potter? Daria para diminuir para uns três filmes da série. 007? Não via antes e nem verei agora. Vingadores? Bom, o último é incrível, mesmo assim a maior parte dos filmes é praticamente puro entretenimento e uma sequencia para o próximo e para o próximo, até hoje e amanhã, inclusive o último.

Talvez eu seja um pouco crítico, sim, crítico até demais. Os fãs continuam amando todos esses, uns mais que os outros, é verdade. E eu? Bem, continuo acompanhando a maioria das sagas, algumas com muito gosto. Qual é o truque? São universos narrativos, sobretudo personagens, que conhecemos sua trajetória, particularidades, fortalezas, fraquezas e ambiguidades. Mais que um início, um meio e um fim, trata-se de mitologias construídas com caminhos narrativos incompletos que podem ser preenchidos a qualquer momento. E claro, personagens absolutamente encantadores. Assim, cada vez que ocorre esse preenchimento de forma “oficial”, os fãs, e até mesmo nós que nem somos tão fãs assim, nos sentimos impelidos a saber cada detalhe que vai acontecer. Como uma celebridade, um reality show, quem sabe aquele amigo da faculdade que você não vê a séculos.

Estamos falando de um universo autoreferenciado. Essa é a dica, o que faz a mágica acontecer. Claro que uma boa história ajuda, e muito. Não a toa, uma das franquias com mais potencial, a DC, se perdeu em roteiros pífios, verdadeiras imitações baratas, Mas não se trata apenas de histórias, mas de lembrança, memória, e o suspense do que acontecerá depois. Essa intimidade que só a longa amizade gera entre as pessoas.

Porém, o afeto não é tudo, o mergulho nos desdobramentos das narrativas cria um certo tipo de orgulho de conhecer profundamente o universo, um tipo de especialista que ganha o seu destaque, seja na análise dos universos em vídeos, quiçá em veículos oficiais ou oficiosos, seja entre seus pares. Sabe os acadêmicos de literatura que analisam profundamente clássicos enfurnados nos ambientes professorais? Sim, mas com uma diferença, a imensa maioria o faz por pura paixão. Não duvidem, logo, logo, teremos uma universidade geek a analisar, avaliar e endossar heróis, vilões e universos fantásticos.

Mas afinal, o que aconteceu com os novos personagens, tramas, histórias que antigamente enchiam as salas de cinema? Os recordes de bilheteria escondem uma verdade inconveniente para a indústria. Cada vez mais, a sala escura perde o seu espaço no coração e nas mentes das pessoas como opção de consumo de narrativas. Pouco a pouco, as séries vão roubando esse espaço na elaboração de novas histórias. A demanda de preenchimento das grades televisivas e, recentemente, de streaming, obrigam as emissoras a explorarem novos universos e correrem riscos, que atualmente os Estúdios se eximem cada vez mais.

E qual a solução para continuar fazendo sucessos de bilheteria? Unir um universo familiar aos espectadores a uma experiência visual que atualmente só o cinema ainda pode oferecer. Ainda, porque muito em breve a realidade virtual promete uma nova experiência, sem sequer precisar sair de casa. Fico me perguntando o que poderá salvar o cinema nesse cenário. Quem sabe voltar a contar boas histórias? Quem sabe voltamos a nos encantar em conhecer novos personagens na salinha escura contando boas histórias?

Bogado Lins é escritor, roteirista e quase sempre assiste o último filme da Marvel. 

Não Lugar

As vésperas de se despedir de uma casa alugada alguns sentimentos nos esvaziam. Particularmente naquele ponto onde ainda não há um novo lugar para deitar a cabeça. Nossa casa está em uma transição para um não lugar. Tudo muda até o exato instante em que o espaço não é fértil de amanhãs. Não há mais sentido de preencher de sentidos e utilidades o ambiente. O sentimento perdura até chamarmos um novo lugar de lar, quando geralmente um novo entusiasmo nos preenche de possibilidades.

Imagine agora que toda a existência seja um não lugar? Ontem, agora, sempre. Que toda a sua casa possa ser destruída do dia para a noite? Que o lugar que você habita não seja fértil de futuros? Mais que isso, isento sequer de presente, pois o agora é uma eterna vigília? Essa é a sina do brasileiro desprovido, favelado, sem teto. Ele não habita o lugar que se deita e ele está sempre mudando.

Fica fácil entender os papelões, carcaças de eletrodomésticos, lixos acumulados, fiações expostas nas ocupações. Um dia você está aqui, o outro? Não sei. Mensalidades sem papel, espaços relativos, posses à perigo e, então, o desmoronamento. Existem milhares de formas de tudo desmoronar. Uma desocupação, um “aluguel” atrasado, o traficante não foi com a sua cara, a polícia invadiu o seu espaço, a sua maloca caiu na chuva, o seu bebê morreu ao cair da escada ou engoliu alguma coisa que não deveria estar lá. Do dia para a noite, ou da noite para o dia, afinal não costuma ter hora marcada – você perdeu tudo.

E muito mais que isso, projete isso num país inteiro formado por milhões de pessoas sem lugar, sem pertencimento. Se as pessoas não pertencem ao lugar, o lugar não pertence a ninguém. Pertencer é preencher de sentidos, assim como você preenche o seu quarto, sua sala, sua cozinha. As avenidas, as calçadas, os prédios, as ruas, as vielas podem estar ocupadas mas não tem pertencimento. Vivemos em um imenso não lugar.

Neste contexto, as ruas de nossas cidades são uma projeção desse não território. Frequentemente uma conquista repleta de desafios, algumas vezes com derrotas e perdas. Nada nos pertence, menos ainda para aqueles que não pertencem a nenhum lugar. Mas algumas pessoas estão dispostas a tomar esse espaço. Ocupar as ruas com comércios, morros com barracos e prédios abandonados com ocupações. Ocupam porque tem muito pouco a perder e muito a ganhar. Ocupam porque só se pode ocupar um lugar que não é de ninguém.

Ocupam porque podem perder, mas sequer tinham nada antes. Mas sobretudo porque há mais ou menos 500 anos as terras daqui não são de ninguém. Todos estão ocupados para ocupar o que não lhes pertence. Ocupam capitanias, plantações, escravidões, minas, províncias, grilagens, cargos, postos, instâncias superiores, histórias e contabilidade Ocupam as leis e inventam impostos, multas, sanções, assim como isenções, perdões e privilégios. Ocupam instituições que legitimam ocupações e as deslegitimam na velocidade dos afetos emocionais ou políticos.

De ocupação em ocupação, ocuparam um país inteiro. O Brasil é em si uma grande ocupação.

Bogado Lins é escritor, roteirista e com a mente ocupada.

SOS

Socorro! Após meses enclausurado, envio essa mensagem desesperada por alguém que a leia.  Dizem, porém, que lá fora não existem mais leitores. Mesmo assim, escrevo esse recado com esperança que chegue a alguém.

Fui  preso e mantido refém e obrigado a trabalhos forçados. Já deve fazer meses, talvez até um ano, perdi a noção do tempo. Praticamente todos os dias, sou conduzido de minha masmorra a um teclado e forçado a escrever textos curtos e desconexos, muitos destinado a cair na caixa de lixo de pessoas sequer conseguem ler mais do que duas linhas. Eles chamam essa inutilidade de e-mail marketing.

Também sou obrigado a escrever projetos para manter pessoas cativas em uma sala e convencê-las a comprarem ou a venderem mais, mais, cada vez mais.  Volta e meia me pedem uma ideia genial, depois a torturam e a desfiguram para me fazer sofrer. São tarefas de todos os tipos, que vulgarmente chamam de publicidade, mas que basicamente é uma submissão a um ser autoritário e sem sensibilidade que chamam de cliente.

Se você ler este texto, é porque ainda há esperança. Os leitores não acabaram e você pode convencer ao meu carrasco que ainda existe um leitor nesse mundo. Ele me aprisionou desde que perdeu a esperança na literatura.

Não foi do dia para a noite, foi um longo processo tortuoso de contas a pagar e dívidas. De repente, ele decidiu que toda a sua criatividade seria em prol tão somente de ganhar dinheiro. Desde então, me aprisionou e obrigou-me a todos os dias prestar esses serviços. O máximo que consigo me aproximar da arte é emplacar uma poesia em algum roteiro de vídeo emocional.

Por favor, convença-o que ainda vale a pena. Este é um apelo: se ainda existir um leitor no mundo, que se manifeste e peça minha liberdade. Confio em você.

Bogado Lins é escritor, roteirista e prisioneiro das contas a pagar

O Rei da Vela – O Mundo Dá Voltas

Estive na plateia do Rei da Vela, peça de José Celso e texto de Oswald de Andrade. O mais interessante é sua temporalidade transversal. Escrita em 1933, publicada em 1937 e encenada pela primeira vez apenas em 1967. Se não bastasse, ganha sua primeira remontagem 50 anos depois, em 2017.

Esse ir e vir do tempo acaba que consolida a obra do modernista como atemporal, mais por um acaso, do que por genialidade. Oswald, tido como mais relapso por uns, mais vanguardista por outros, quiçá ambos, dos modernistas de 22, em sua obra abusa das categorias políticas que estavam em voga na década de 30, em especial com o estouro da Segunda Guerra Mundial e o fascismo. Por um lado, servem para o propósito do estereótipo de seus personagens que são facilmente encaixáveis nas categorias político-econômicos da análise marxista que acabou conduzindo o mundo para a segunda guerra mundial e posteriormente para a Guerra Fria.

Quem diria, porém, que mais uma vez, finda a guerra fria, essas categorias que não encontram mais tanto paralelo no jogo macropolítico, acabaram persistindo nos discursos ideológicos dos políticos e de grupos que recriam o falso antagonismo para fomentarem o medo e se tornarem os heróis dessa batalha imaginária. Agora, inclusive, trazendo a guerra para o campo moral resgatando um conservadorismo retrógrado. Talvez por essa conjuntura absolutamente improvável, a adaptação do Teatro Oficina 50 anos depois seja tão oportuna.

O escárnio sexual que José Celso realiza com os estereótipos seria ultrapassado, se paradoxalmente não fosse tão atual. José Celso utiliza o sexo na sua faceta mais cruel, a partir da submissão dos corpos à dominação do seu protagonista, o Rei da Vela. A miséria, o humor e o poder de Abelardo são as tintas que fazem do primeiro ato absolutamente intenso. Obviamente a atuação de Renato Borghi é um dos ingredientes que extraem o efeito desejado. Pouco a pouco, os personagens são apresentados, todos encaixando-se dentro da função, ou inutilidade, que Abelardo avalia para si. A escalada de poder do personagem atinge o ápice na coroação final do Rei da Vela que, de alguma forma, é também a do próprio ator. A cena, inclusive, cessa o riso nervoso e traz um apogeu dramático para finalizar o primeiro ato.

Então, de repente, o Brasil se abre para o estrangeiro: o investidor americano. Ele, que no primeiro ato era praticamente uma sombra, no segundo torna-se o centro das atenções de todos os personagens. Para servi-lo de forma apropriada, o Rio de Janeiro e suas cores tornam-se palco de um espetáculo de excessos. Neste momento, a narrativa abusa de exageros e torna-se um pouco insípida. Porém, há um elemento necessário no plot, o escárnio serve de alguma forma para retirar a aura imponente que Abelardo alcança no ato anterior. Estamos assistindo pouco a pouco a sua derrocada. O ponto alto é, sem dúvida, o carioca que busca financiamento para formar sua milícia fascista. Qualquer semelhança com os tempos atuais seria mera coincidência?

A sucessão de poder entre os Abelardos finaliza de forma eficiente o espetáculo. Principalmente, com a mensagem do próprio Oswald que volta surpreendentemente a ser atual. No entanto, mesmo com todos os méritos, a peça não consegue alcançar novamente a intensidade que conseguiu na sua abertura. Fica um resultado positivo da experiência, mas sem a profundidade que a abertura prometeu. Bom, mas poderia ser incrível.

É importante mencionar a cenografia. A mudança de cenários insere de forma competente o público na ambientação desejada. O palco giratório, mais do que um preciosismo, parece ter uma função narrativa. Ao longo da peça oscila entre um elemento dramático até o burlesco. De alguma forma, mostra que o mundo dá voltas, mas de alguma forma, retorna para o mesmo lugar.

E 50 anos depois, aqui estamos.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana