Looping Narrativo

Somos fascinados por histórias e estamos sempre buscando nos refugiar do nosso cotidiano em narrativas. Aventuras que nos lembrem que a vida pode ser incrível, mesmo que apenas no nosso interior mais intimo. Cada vez mais porém, a velocidade dos acontecimentos e da nossa dispersão nos torna ainda mais exigentes diante de uma nova história.E por conta disso, o cinema se tornou um eterno looping narrativo. Por que? É uma longa história…

Desconfio que muito mais que histórias, estamos em busca de personagens,pessoas enfim, com seus sentimentos, problemas, desafios, complexidades e genialidades. São eles que nos cativam e nos atraem para dedicarmos horas de nossa atenção. E convenhamos, a quem você dedicaria 2h de seu dia para dedicar seus ouvidos? Um amigo de longa data ou um completo desconhecido? Afinal, o que filmes como Star Wars, Vingadores, Harry Potter e 007 tem em comum?

Sempre gostamos dos filmes que vemos? Não devo ser o único que na grande maioria das vezes sai insatisfeito do cinema, com um leve desconforto intelectual. Star Wars? Convenhamos, se não fossem os personagens que nos encantam a décadas o que sobraria do filme? Um looping revisitado adaptado ao séculos XXI. Harry Potter? Daria para diminuir para uns três filmes da série. 007? Não via antes e nem verei agora. Vingadores? Bom, o último é incrível, mesmo assim a maior parte dos filmes é praticamente puro entretenimento e uma sequencia para o próximo e para o próximo, até hoje e amanhã, inclusive o último.

Talvez eu seja um pouco crítico, sim, crítico até demais. Os fãs continuam amando todos esses, uns mais que os outros, é verdade. E eu? Bem, continuo acompanhando a maioria das sagas, algumas com muito gosto. Qual é o truque? São universos narrativos, sobretudo personagens, que conhecemos sua trajetória, particularidades, fortalezas, fraquezas e ambiguidades. Mais que um início, um meio e um fim, trata-se de mitologias construídas com caminhos narrativos incompletos que podem ser preenchidos a qualquer momento. E claro, personagens absolutamente encantadores. Assim, cada vez que ocorre esse preenchimento de forma “oficial”, os fãs, e até mesmo nós que nem somos tão fãs assim, nos sentimos impelidos a saber cada detalhe que vai acontecer. Como uma celebridade, um reality show, quem sabe aquele amigo da faculdade que você não vê a séculos.

Estamos falando de um universo autoreferenciado. Essa é a dica, o que faz a mágica acontecer. Claro que uma boa história ajuda, e muito. Não a toa, uma das franquias com mais potencial, a DC, se perdeu em roteiros pífios, verdadeiras imitações baratas, Mas não se trata apenas de histórias, mas de lembrança, memória, e o suspense do que acontecerá depois. Essa intimidade que só a longa amizade gera entre as pessoas.

Porém, o afeto não é tudo, o mergulho nos desdobramentos das narrativas cria um certo tipo de orgulho de conhecer profundamente o universo, um tipo de especialista que ganha o seu destaque, seja na análise dos universos em vídeos, quiçá em veículos oficiais ou oficiosos, seja entre seus pares. Sabe os acadêmicos de literatura que analisam profundamente clássicos enfurnados nos ambientes professorais? Sim, mas com uma diferença, a imensa maioria o faz por pura paixão. Não duvidem, logo, logo, teremos uma universidade geek a analisar, avaliar e endossar heróis, vilões e universos fantásticos.

Mas afinal, o que aconteceu com os novos personagens, tramas, histórias que antigamente enchiam as salas de cinema? Os recordes de bilheteria escondem uma verdade inconveniente para a indústria. Cada vez mais, a sala escura perde o seu espaço no coração e nas mentes das pessoas como opção de consumo de narrativas. Pouco a pouco, as séries vão roubando esse espaço na elaboração de novas histórias. A demanda de preenchimento das grades televisivas e, recentemente, de streaming, obrigam as emissoras a explorarem novos universos e correrem riscos, que atualmente os Estúdios se eximem cada vez mais.

E qual a solução para continuar fazendo sucessos de bilheteria? Unir um universo familiar aos espectadores a uma experiência visual que atualmente só o cinema ainda pode oferecer. Ainda, porque muito em breve a realidade virtual promete uma nova experiência, sem sequer precisar sair de casa. Fico me perguntando o que poderá salvar o cinema nesse cenário. Quem sabe voltar a contar boas histórias? Quem sabe voltamos a nos encantar em conhecer novos personagens na salinha escura contando boas histórias?

Bogado Lins é escritor, roteirista e quase sempre assiste o último filme da Marvel. 

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Não Lugar

As vésperas de se despedir de uma casa alugada alguns sentimentos nos esvaziam. Particularmente naquele ponto onde ainda não há um novo lugar para deitar a cabeça. Nossa casa está em uma transição para um não lugar. Tudo muda até o exato instante em que o espaço não é fértil de amanhãs. Não há mais sentido de preencher de sentidos e utilidades o ambiente. O sentimento perdura até chamarmos um novo lugar de lar, quando geralmente um novo entusiasmo nos preenche de possibilidades.

Imagine agora que toda a existência seja um não lugar? Ontem, agora, sempre. Que toda a sua casa possa ser destruída do dia para a noite? Que o lugar que você habita não seja fértil de futuros? Mais que isso, isento sequer de presente, pois o agora é uma eterna vigília? Essa é a sina do brasileiro desprovido, favelado, sem teto. Ele não habita o lugar que se deita e ele está sempre mudando.

Fica fácil entender os papelões, carcaças de eletrodomésticos, lixos acumulados, fiações expostas nas ocupações. Um dia você está aqui, o outro? Não sei. Mensalidades sem papel, espaços relativos, posses à perigo e, então, o desmoronamento. Existem milhares de formas de tudo desmoronar. Uma desocupação, um “aluguel” atrasado, o traficante não foi com a sua cara, a polícia invadiu o seu espaço, a sua maloca caiu na chuva, o seu bebê morreu ao cair da escada ou engoliu alguma coisa que não deveria estar lá. Do dia para a noite, ou da noite para o dia, afinal não costuma ter hora marcada – você perdeu tudo.

E muito mais que isso, projete isso num país inteiro formado por milhões de pessoas sem lugar, sem pertencimento. Se as pessoas não pertencem ao lugar, o lugar não pertence a ninguém. Pertencer é preencher de sentidos, assim como você preenche o seu quarto, sua sala, sua cozinha. As avenidas, as calçadas, os prédios, as ruas, as vielas podem estar ocupadas mas não tem pertencimento. Vivemos em um imenso não lugar.

Neste contexto, as ruas de nossas cidades são uma projeção desse não território. Frequentemente uma conquista repleta de desafios, algumas vezes com derrotas e perdas. Nada nos pertence, menos ainda para aqueles que não pertencem a nenhum lugar. Mas algumas pessoas estão dispostas a tomar esse espaço. Ocupar as ruas com comércios, morros com barracos e prédios abandonados com ocupações. Ocupam porque tem muito pouco a perder e muito a ganhar. Ocupam porque só se pode ocupar um lugar que não é de ninguém.

Ocupam porque podem perder, mas sequer tinham nada antes. Mas sobretudo porque há mais ou menos 500 anos as terras daqui não são de ninguém. Todos estão ocupados para ocupar o que não lhes pertence. Ocupam capitanias, plantações, escravidões, minas, províncias, grilagens, cargos, postos, instâncias superiores, histórias e contabilidade Ocupam as leis e inventam impostos, multas, sanções, assim como isenções, perdões e privilégios. Ocupam instituições que legitimam ocupações e as deslegitimam na velocidade dos afetos emocionais ou políticos.

De ocupação em ocupação, ocuparam um país inteiro. O Brasil é em si uma grande ocupação.

Bogado Lins é escritor, roteirista e com a mente ocupada.

SOS

Socorro! Após meses enclausurado, envio essa mensagem desesperada por alguém que a leia.  Dizem, porém, que lá fora não existem mais leitores. Mesmo assim, escrevo esse recado com esperança que chegue a alguém.

Fui  preso e mantido refém e obrigado a trabalhos forçados. Já deve fazer meses, talvez até um ano, perdi a noção do tempo. Praticamente todos os dias, sou conduzido de minha masmorra a um teclado e forçado a escrever textos curtos e desconexos, muitos destinado a cair na caixa de lixo de pessoas sequer conseguem ler mais do que duas linhas. Eles chamam essa inutilidade de e-mail marketing.

Também sou obrigado a escrever projetos para manter pessoas cativas em uma sala e convencê-las a comprarem ou a venderem mais, mais, cada vez mais.  Volta e meia me pedem uma ideia genial, depois a torturam e a desfiguram para me fazer sofrer. São tarefas de todos os tipos, que vulgarmente chamam de publicidade, mas que basicamente é uma submissão a um ser autoritário e sem sensibilidade que chamam de cliente.

Se você ler este texto, é porque ainda há esperança. Os leitores não acabaram e você pode convencer ao meu carrasco que ainda existe um leitor nesse mundo. Ele me aprisionou desde que perdeu a esperança na literatura.

Não foi do dia para a noite, foi um longo processo tortuoso de contas a pagar e dívidas. De repente, ele decidiu que toda a sua criatividade seria em prol tão somente de ganhar dinheiro. Desde então, me aprisionou e obrigou-me a todos os dias prestar esses serviços. O máximo que consigo me aproximar da arte é emplacar uma poesia em algum roteiro de vídeo emocional.

Por favor, convença-o que ainda vale a pena. Este é um apelo: se ainda existir um leitor no mundo, que se manifeste e peça minha liberdade. Confio em você.

Bogado Lins é escritor, roteirista e prisioneiro das contas a pagar

O Rei da Vela – O Mundo Dá Voltas

Estive na plateia do Rei da Vela, peça de José Celso e texto de Oswald de Andrade. O mais interessante é sua temporalidade transversal. Escrita em 1933, publicada em 1937 e encenada pela primeira vez apenas em 1967. Se não bastasse, ganha sua primeira remontagem 50 anos depois, em 2017.

Esse ir e vir do tempo acaba que consolida a obra do modernista como atemporal, mais por um acaso, do que por genialidade. Oswald, tido como mais relapso por uns, mais vanguardista por outros, quiçá ambos, dos modernistas de 22, em sua obra abusa das categorias políticas que estavam em voga na década de 30, em especial com o estouro da Segunda Guerra Mundial e o fascismo. Por um lado, servem para o propósito do estereótipo de seus personagens que são facilmente encaixáveis nas categorias político-econômicos da análise marxista que acabou conduzindo o mundo para a segunda guerra mundial e posteriormente para a Guerra Fria.

Quem diria, porém, que mais uma vez, finda a guerra fria, essas categorias que não encontram mais tanto paralelo no jogo macropolítico, acabaram persistindo nos discursos ideológicos dos políticos e de grupos que recriam o falso antagonismo para fomentarem o medo e se tornarem os heróis dessa batalha imaginária. Agora, inclusive, trazendo a guerra para o campo moral resgatando um conservadorismo retrógrado. Talvez por essa conjuntura absolutamente improvável, a adaptação do Teatro Oficina 50 anos depois seja tão oportuna.

O escárnio sexual que José Celso realiza com os estereótipos seria ultrapassado, se paradoxalmente não fosse tão atual. José Celso utiliza o sexo na sua faceta mais cruel, a partir da submissão dos corpos à dominação do seu protagonista, o Rei da Vela. A miséria, o humor e o poder de Abelardo são as tintas que fazem do primeiro ato absolutamente intenso. Obviamente a atuação de Renato Borghi é um dos ingredientes que extraem o efeito desejado. Pouco a pouco, os personagens são apresentados, todos encaixando-se dentro da função, ou inutilidade, que Abelardo avalia para si. A escalada de poder do personagem atinge o ápice na coroação final do Rei da Vela que, de alguma forma, é também a do próprio ator. A cena, inclusive, cessa o riso nervoso e traz um apogeu dramático para finalizar o primeiro ato.

Então, de repente, o Brasil se abre para o estrangeiro: o investidor americano. Ele, que no primeiro ato era praticamente uma sombra, no segundo torna-se o centro das atenções de todos os personagens. Para servi-lo de forma apropriada, o Rio de Janeiro e suas cores tornam-se palco de um espetáculo de excessos. Neste momento, a narrativa abusa de exageros e torna-se um pouco insípida. Porém, há um elemento necessário no plot, o escárnio serve de alguma forma para retirar a aura imponente que Abelardo alcança no ato anterior. Estamos assistindo pouco a pouco a sua derrocada. O ponto alto é, sem dúvida, o carioca que busca financiamento para formar sua milícia fascista. Qualquer semelhança com os tempos atuais seria mera coincidência?

A sucessão de poder entre os Abelardos finaliza de forma eficiente o espetáculo. Principalmente, com a mensagem do próprio Oswald que volta surpreendentemente a ser atual. No entanto, mesmo com todos os méritos, a peça não consegue alcançar novamente a intensidade que conseguiu na sua abertura. Fica um resultado positivo da experiência, mas sem a profundidade que a abertura prometeu. Bom, mas poderia ser incrível.

É importante mencionar a cenografia. A mudança de cenários insere de forma competente o público na ambientação desejada. O palco giratório, mais do que um preciosismo, parece ter uma função narrativa. Ao longo da peça oscila entre um elemento dramático até o burlesco. De alguma forma, mostra que o mundo dá voltas, mas de alguma forma, retorna para o mesmo lugar.

E 50 anos depois, aqui estamos.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Impressões da Liberdade

Toulose Latrec é considerado impressionista, mas isso é apenas uma denominação simplista. Ainda que o termo tenha sido de fato utilizado entre eles, trata-se mais de características em comum que levaram a certos pintores serem considerados, ou não, como tais.

Tudo tem a ver com o advento da fotografia. Agora não fazia mais sentido retratar as cenas padrões. As famílias abastadas agora recorreriam as reproduções fiéis dos fotógrafos. Por isso, os pintores tiveram um novo desafio, precisavam retratar algo a mais, um sentimento, uma emoção, um olhar. Quem sabe uma cena nova? Além do traço, uma das características marcantes do movimento foi sair do lugar comum. Como? Ao invés de retratar as coisas como elas eram, procurou-se novas perspectivas, pessoas, paisagens.

Foi então que os bordeis de Paris, pela primeira vez, viraram temas de arte. Na obra de Toulose-Latrec foram particularmente um tema recorrente, ainda que não tenha sido o único. Ocorre que o pintor era frequentador do submundo de Paris. Talvez pelo fato de ter adquirido uma doença que o tornou praticamente um anão. Quiçá porque Montmatre reunia esses dois universos harmoniosamente.

Mas essa audácia inicialmente chocou a alta sociedade. Feria os cânones da arte expor prostitutas – ohhh inclusive nuas – pessoas comuns ou mesmo paisagens sem propósitos. E por isso mesmo um dos maiores “consumidores” dessa nova expressão artística foram americanos. Talvez por uma liberdade absoluta, por uma visão além do tempo ou ainda por uma “ignorância” abençoada, os galeristas americanos admiravam àquelas pinturas. E por isso, boa parte das obras impressionistas se encontram por lá em museus espalhados de leste a oeste, inclusive algumas da própria exposição do Toulose-Latrec exibida no MASP até o dia primeiro de outubro.

É bom lembrar, algo que o francês Tocqueville explorou em sua obra, os Estados Unidos eram sem dúvida no Século XIX o lugar mais livre do mundo. Essa liberdade é que foi a principal inspiração alguns anos antes para a independência dos 13 estados e, em última instância, do liberalismo americano. Nele, a liberdade do indivíduo é levada a sério, tanto que o termo liberal lá designa uma pessoa que, em última instância, apoia a liberdade. Uma pessoa de esquerda, enfim, no espectro político americano.

Foi exatamente nesse ambiente que surgiu grandes revoluções dos costumes, até mesmo, veja você, inspirando as revoluções europeias, como a própria Revolução Francesa que foi amplamente inspirada pela independência e os pais fundadores daquele país. Coincidência ou não, a França e Estados Unidos são co-irmãos na criação dos valores mais caros do liberalismo.

Ainda que hoje em dia o espectro político europeu pareça mais alinhado à liberdade, todas essas inovações do espaço urbano e comunitário foram muitas vezes inspiradas em teorias e práticas surgidas nos Estados Unidos. Grande parte dos movimentos sociais de trabalhadores, feminismo, gay, negro, foram iniciados nos Estados Unidos e pela razão mais óbvia de todas: liberdade. Por outro lado, os Estados Unidos é um lugar bipolar. Ao mesmo tempo que esbanja liberdade, antagonicamente contam com um conservadorismo quase arcaico. Justamente ele que, de tempos em tempos, traz das profundezas da dialética do mundo figuras como Trump.

Porém, não é o conservadorismo americano que inspira admiração ao mundo e construiu o soft power americano. É essa liberdade, liberalismo enfim, é o que inspira gente no mundo inteiro. E também, supostamente, inspira o grupo que protestou contra a exposição do Santander Cultural Queermuseu. De alguma forma, porém, esse monstro metamorfoseado tupiniquim esquizofrênico consegue reunir as duas faces sem qualquer remorso.

Engraçado que um movimento que busca um Brasil “livre” boicote uma exposição de arte. Ainda mais quando ele se advoga como representante do liberalismo. A maior liberdade está no campo da arte, a mesma que possibilitou a divulgação e a ascensão da liberdade de comércio. Muitas vezes explorando contradições, conflitos e adversidades, como os impressionistas, por exemplo, admirados pelos americanos do século XIX. Sabemos, porém, que a razão do escandâlo não é moral, mas política. É bom lembrar que a maior parte da moral na política, senão toda, é utilizada por razões políticas e não morais. Estão sempre em busca de um assunto para aparecer e detratar os seus adversários.

Creio que devemos sempre defender o direito de um movimento de boicotar o que ele quiser. Faz parte do jogo, e o argumento nem é novo, foi amplamente explorado nos últimos dias por outras pessoas. Mas talvez seja igualmente importante denunciar que essa liberdade que o dito movimento busca é pobre, rasa e insuficiente e cada vez mais fica claro que não é por ignorância o desvio, mas por má-fé.

Liberdade só para o dinheiro, e muito possivelmente só para quem o tenha, não vale de nada. Afinal, a liberdade americana é co-irmã da igualdade e da fraternidade francesas.

Bogado Lins é escritor, roteirista e amante da liberdade

Somos Todos Ridículos

Jorge era o nosso gaúcho preferido. Sua longa cabeleira contrastava com a entrada que revelava uma calvície em desenvolvimento. Como todo representante do sul, as pessoas diziam que o varão era macho, até mesmo debaixo de outro macho. Sim, os amigos de minha mãe faziam piadas, afinal ele era gaúcho. Frequentemente, na roda estava Isaías Isaac, um negro, homossexual e com um nome que poderia muito bem ser de um judeu. Ele costumava se designar frequentemente- me perdoem, ele é que dizia – pobre, preto, viado e judeu. O estereótipo perfeito para servir como assunto para os amigos de minha mãe que se reuniam para beber e falar besteiras. Enquanto ele, Isaías, ficava a caçoar o nosso bebedor de chimarrão de estimação. Eram os anos 90.

Por sua vez, Jorge adorava fazer piadas de argentinos. A rixa sulista com os vizinhos mais ao sul era coroada com diversas piadas que ridicularizavam os Hermanos por sua suposta, em alguns casos comprovada, arrogância e pedantismos. Minha quase prima argentina, filha da minha madrinha, Maria Eva, escutava e ria das anedotas. Mas Jorge não se restringia aos portenhos, também fazia piadas com homossexuais, ao lado do Isaías inclusive, e sua suposta vitima eram os Pelotenses.

A história tem uma explicação para o caso dos Pelotenses . Dizem que eles são chamados de viados porque eles dão o cu… Não, não, não, pelo amor de Deus, essa é apenas uma piada chula. A verdadeira é que, em outros tempos, os ricos fazendeiros de Pelotas enviavam seus filhos para estudar na Europa e, ao retornarem, traziam costumes refinados que frequentemente eram ridicularizados pelos locais. De alguma forma, a pecha pegou em todos os gaúchos que tinham essa fixação pela própria masculinidade. Caso semelhante ocorreu com os campineiros, que eram ricos fazendeiros de café. Mas isso é outra piada, digo, história.

A origem dos estereótipos ajudam a explicar a origem das chacotas e relativizá-las, mas apenas no seu aspecto mais superficial. O riso tem uma raiz mais profunda dentro da natureza humana. O hábito de rir de alguém por conta de seu pertencimento a um grupo social é algo próprio da essência do riso. Algo humano, demasiadamente humano.

Do que rimos? Essa foi a pergunta que intrigou muitos filósofos. Gaston Bachelard, o que parece ter melhor definido o trâmite, conceituou o risível como algo derivado da própria humanidade. Rimos de coisas, por assim dizer, humanas. Você, por exemplo, já riu de uma paisagem? Aposto que não. Mas se riu, algum dia, é porque identificou nela um olhar, um sorriso, algo humano. Assim como quando rimos de gatos e cachorros, estamos na verdade rindo de algo que nos lembra alguma humanidade qualquer.

Mas não é qualquer coisa humana que rimos. Mas de uma coisa em particular, algo que se ressalta, se projeta, se destaca, como em uma caricatura. E para descobrir o que é isso exatamente, temos que voltar ao instinto mais básico do riso e lembrar da cena cômica mais clichê mas que frequentemente sempre traz o escracho. Uma pessoa caindo, por exemplo. Porque rimos de sua desgraça? Simples, rimos do inadequado. O adequado seria essa mesma pessoa seguir seu rumo natural. Porém, ela caiu. Talvez estava bêbada, chateada, triste, mas isso não importa para o riso, a não ser, é claro, que seja uma razão ridícula para ele ter caído.

O que é inadequado? Tudo que dentro de uma comunidade, nosso de preferência, foi estabelecido que deveria ser de outra forma. Alguém, ou alguns, estabelecem que não deveríamos ser mãos de vaca, arrogantes, afeminados, chatos, burros por isso utilizamos esses estereótipos para denegrir as pessoas, ou grupos, que odiamos, e, muito provavelmente, tememos. Por isso, o riso ecoa tão bem em um grupo, é uma confirmação que você faz parte dele. O riso frequentemente representa uma afirmação para um e uma negação para outro.

Mas são apenas estereótipos e o poder, do estereótipo, é ser sem história. Quanto mais conhecemos a triste narrativa do porquê alguém fez algo ou sentimos como uma pessoa sofre simplesmente por ser o que ela é dentro de uma sociedade preconceituosa, o riso desaparece. A compaixão é inimiga do riso. O riso é social. É humano. É cruel. E por trás dele, ecoa o quão ridículo nós próprios somos, os autores.

E aí retornamos a piada. Será que ela tem lugar em uma sociedade plural e democrática? Talvez, dentro de uma maturidade de compreender os seus limites. E mais importante, o nosso lugar. Os tempos mudaram e nunca retornaremos àquele momento anterior. Muito bom que seja assim, mas o riso sempre existirá. Como utilizá-lo? A solução do palhaço é incrível. Rir de si mesmo é sempre uma forma de superação e aprendizado. Mas será a única?

Porque ríamos tanto da pessoa que amamos? Porque, no fundo, podíamos. Os estereótipos de nossos amigos são queridos, só os tornam ainda mais interessantes, amáveis e, por que não? Engraçados. No fundo, rir pode ser um desprendimento da seriedade da vida. Afinal, somos todos ridículos. E talvez reconhecer isso é que pode nos tornar ainda maiores.

Agradeço aos meus amigos por serem tão ridículos e me lembrarem, sempre, o quanto eu sou também.

Seja P um Pai

“Seja L um lobo, F uma floresta e P1, P2 e P3 três porquinhos arbitrários…” Dizem que assim que um matemático conta histórias infantis. Porém, essa é apenas uma afirmação falsa. Acredite, tenho conhecimento de causa. Ocorre que meu matemático preferido calha de ser meu pai. Nos poucos momentos clássicos de paternidade, tenho a vaga lembrança de ir com o último exemplar da Turma da Mônica e pedir para que ele lesse.

Tão logo me adentrei no universo da leitura, deixei a prática de lado. E meu pai pode ser o que ele é de melhor para mim: um matemático. Veja bem, continuei meus aprendizados com o patriarca. O hábito das caminhadas nos fins de semana foram cultivados com longas conversas sobre história, política, geografia e, claro, matemática.

Matemáticos pensam diferente de outros pais. Na verdade, pensam diferentes de outros seres humanos. Pensam? Não exatamente, raciocinam. Concatenam operações elevadas que tomam espaço no seu cotidiano, tanto que certas práticas corriqueiras tornam-se mais difíceis, tipo se vestir para o trabalho, por exemplo. Meu pai certa vez colocou um pijama para ir trabalhar e não percebeu. Detalhe: da minha mãe. Em algum momento foi alertado da excentricidade, o que ajudou a tornar o deslize uma lenda. Caso contrário, teria simplesmente caído no ostracismo da própria desatenção.

Uma das vantagens de ter pai matemático era ter aulas da matéria quando a água batia. Os conflitos, porém, eram eminentes. Imagina uma mente na fronteira do pensamento ensinando equação de segundo grau? “Para que eu vou usar equação de segundo grau?” e ele respondia: “Ora, para tudo! Para construir pontes, calcular o voo de aviões e até operações financeiras complexas.” Fiquei quieto. Mentira, eu esperneei e argumentei que para mim não serviria para nada. Uma das desvantagens de ter pai matemático era ter aulas da matéria quando a água batia.

Mas o que ficará para história de verdade? As continhas, essas que de um x e um y chegam num w, ou qualquer uma dessas letrinhas da sopa que formam grandes descobertas aparentemente inúteis para mentes simplórias como a minha, que sequer entendia o princípio de uma equação de segundo grau.

Certa vez ele estava empenhado em um de seus problemas, como se chama as grandes descobertas, mas não conseguia sair do lugar. Ficava indo e vindo numa equação eterna. Então, num sono repentino, deitou o lápis e o papel, e teve um sonho curioso. Estava em um rio navegando e de repente apareceu um jacaré vermelho. Olhou ressabiado para o bichano, enorme, então seguiu o seu curso. Caiu no sono do sono, que invariavelmente é acordar. No dia seguinte ficou pensando sobre o que o sonho poderia representar. Subitamente, eureca! Jacarés vermelhos não existem, logo o caminho do problema estava errado. Retornou a estaca zero e refez o caminho até chegar na solução viável.

O resultado? A vida não é exata como na matemática. Mas um pai vai ser sempre estar contido no conjunto dos pais. No caso do meu, estará sempre ao lado das aulas da matemática e do jacaré vermelho.

Feliz dia dos matemáticos… quero dizer, dos pais.