Histórias de forma a reformar formas

Hoje não vou tratar das reformas propostas pelo atual governo federal brasileiro, acho melhor discutir outras coisas talvez mais interessantes. Idade, velhice, atualização, que tal?

Aliás atualizando temas mais globais que a nossa politicalha tupiniquim (coitados dos tupiniquins, serem associados a cada coisa…), EUA é um país desenvolvido, obviamente, mas houve um preço a sua população. Além de ser talvez o exemplo mais consistente de liberalismo econômico em prática, seus trabalhadores vivem em condições que assustam boa parte os empregados daqui. Entre outras coisas, “os Estados Unidos são o único país desenvolvido que trata férias como um “presente” ao empregado, não como um direito. […] Isso significa que decisões sobre férias, ausências por doença ou feriados nacionais são negociados caso a caso entre empregador e empregado. O padrão de várias empresas americanas é dar de 5 a 15 dias de férias pagas por ano a seus trabalhadores, mas um estudo recente do instituto americano Center for Economic and Policy Research mostrou que um em cada quatro trabalhadores da iniciativa privada não recebem nenhum dia de férias pagas.” (Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/11/141112_vert_cap_ferias_dg Acesso em: 21/04/2017)

25% dos trabalhadores americanos sequer tiram férias. Desse modo é fácil imaginar porque vê-se em tantos filmes o medo em qualquer funcionário de tirar férias ou de faltar por motivo de doença. A insegurança sobre a manutenção de cargo ou função é tanta que as pessoas simplesmente evitam ausentar-se. Dessa forma, a manutenção do emprego passa a ser prioridade frente à saúde do indivíduo. (Deixo uma indicação, assista aos documentários de Michael Moore Where to invade next e SOS sicko.) Mas claro, eles são desenvolvidos e a saúde lá é para todos…

Por outro lado, há quem diga – inclusive o deputado Rogério Marinho do PSDB – que o problema da CLT brasileira é a data de nascimento antiga, ela estaria idosa e precisaria de uma reciclagem, afinal ela está desatualizada. Porém olha que coisa, EUA tem a sua lei que estabelece entre outras coisas o que se relatou acima, também chamada Ato de Padrões Justos de Trabalho, datada de 1938. Pois é, ela devia estar bem à frente de seu tempo! Ou servir muito bem aos mandatários daquele país. Aliás, a antiquada CLT tupiniquim é de 1943, sancionada em 1O de Maio por Getúlio Vargas. Ah nada como ter um “pai dos pobres”… É, só que Getúlio foi “mãe dos ricos” deixando os sindicatos sob controle, evitando greves e concedendo inúmeras facilidades a industriais.

Bom, já que se falou sobre o problema da antiguidade da CLT, que tal lembrarmos que acima da CLT existe a Constituição para preservar mínimas condições de vida em sociedade, muito além das relações de trabalho apenas. Ora, veja que coisa, a Constituição brasileira é de 1988, novíssima, e sempre afeita a mais uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional), entretanto, o código máximo daquele país – putz! vou falar de novo de EUA – é de 1787, um absurdo! Está pra lá de caduca de tão velha! Deve precisar urgentemente de uma modernização, “de um salto para o século XXI”! Como pode ser desenvolvido?!

Falando em caducar, e se falarmos dos códigos de conduta estabelecidos pelas mais populares religiões do planeta? Muita coisa, né? Ok, vamos pegar as principais dos EUA – ai, de novo! Pois é, lá mais de 70% da população (Fonte: https://estadosunidosbrasil.com.br/perguntas-frequentes/religiao-nos-estados-unidos/ Acesso em 25/04/2017) é formada por cristãos em sua maioria protestantes. E mais uma vez temos nesse país regras para lá de antigas ainda em vigor e seguidas por uma parcela considerável do povo, visto que qualquer religião baliza de algum modo a vida de seus fiéis. Sim, Calvino, Lutero, Henrique VIII, viveram há pouco tempo, uns 500 anos!

Sem contar que ainda temos um outro, de quem protestantes reformularam as ideias, regras, e tudo mais, um tal de Jesus. E este tem só uns 2 mil anos. É isso, os protestantes viram que precisavam reformar os preceitos de Jesus provavelmente para dar uma atualizada na coisa, afinal o Novo Testamento já fazia mais de milênio. Se levarmos em consideração, por exemplo, os dez mandamentos, deveremos considera-los “leis fósseis”. É, faz sentido, “não matarás” não cabe muito bem aos EUA… No entanto, os tais mandamentos ainda encontram seguidores – talvez não dos dez – em corpulento contingente aqui e lá “na terra das oportunidades”. Se bem que “não matarás” também não cabe muito bem aqui…

Estou começando a achar a CLT não muito antiga…

Estou começando a achar que coisas velhas e atuais são relativas…

Por essas razões, certamente não é mal copiando o modelo dos EUA que o Brasil se tornará desenvolvido. Fazer isso seguindo aquele país é desconsiderar algumas relações de trabalho como as expostas aqui e muito mais, é ignorar suas guerras, seus desastres ambientais, sua história.

Ninguém pode viver a vida do outro, então o que serve para uns não necessariamente serve a outros. Simples assim!

Paulo Roberto Laubé

O Mito eras tu

Não vou narrar uma fábula ou feito heroico, mas certamente deuses encarnadores das forças da natureza e das condições humanas enquadram-se neste relato. Acontece que sou impelido à redação sem ter um norte, um objetivo claro para com o texto que necessariamente surge. Há fonte. Apenas o mito.

No entanto a musa incita, o impulso está lá, aqui, empurra a mão à caneta; está cá, ali, sussurra do âmago à mente, que sente o desejo irrefreável de saltar para fora. Da boca foge. Da pele, não pode. Dos olhos, sacode, desvia, cega. Da mente a mão em códigos numa narrativa turva de significação simbólica desenha-se, talvez a fábula se realize. Apenas omito.

De fato, tem-se a representação de fatos e personagens reais inspirados, instigados, fustigados pela imaginação em meio a sacrifícios (de estilo) para soar verídico aquilo que verifico, dou veredito, todavia somente ventilo entre vírgulas censuradas aquilo a que viso. A narrativa toda vira castigo… As penas, omito.

Duras penas este viver a narrar sem narrar o viver, ainda que viva essa angústia. A verve sentida é contida, transmitida com vileza à pontiaguda em traços marcantes e cortantes ao íntimo ímpeto entre estas grades horizontais no papel. Esfacelo a fábula em ínfimas fatias fáticas. Da volição vulcânica, a face lívida afana toda ebulição. Fumaça. As penas, o mito.

Com oculares rasgadas precisamente furtivas e cercada de mirtos, encerras o trágico. Como portas o arco e a lira, armas e rosas, perigo e perdição, lugubridade e lascívia? Eras tu, Érato, que derramavas em lavas esta narrativa. Inspiro e não respiro. Queimo.

Apenas Mito.

 

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, às vezes jornalista

“O que é roubar um banco comparado a fundar um?”

Essa bela pergunta vem bem a calhar, ela faz parte de A ópera dos três vinténs de Brecht que em 1928 já realizara qual a instituição que mais lucra sobre a população no sistema em que vivemos. Mas mais legal foi a cena em que essa frase me veio à cabeça.

Estava passeando com minha salsicha – uma cadelinha de 13 anos… – como todos os dias, como um típico cidadão de bem, e enquanto ela se aliviava em uma praça me chamou a atenção uma movimentação. Deviam ser umas 9 horas da noite. Por entre as árvores fiquei observando, dois moleques, duas bicicletas no chão e eles com sede e discrição na direção de seu alvo. Meu primeiro impulso foi me esconder. Fugir talvez. Apenas estanquei. Observando a uma distância que me pareceu segura e que mantivesse minha imagem obscura.

Resolvi sair da cena a passos curtos, em silêncio, na medida que as quatro patinhas permitiam. Os garotos perceberam a minha movimentação. A praça é triangular na confluência de duas ruas, a um quarteirão de meu prédio. Do outro lado da rua em que estavam, há uma padaria, mas a entrada e saída dão para uma outra rua de modo que o movimento no trecho em que agiam era raro. Não havia ninguém além de nós, só o breu. Enquanto me afastava pela minha rua, os dois se mancaram e me observaram. De canto de olho fiquei naquela tensão, celular na mão dentro do bolso, corro? chamo a polícia?

Não.

Foi aí, nesse ponto que Brecht invadiu meu pensamento. Até parei na parede da primeira casa adjacente à praça para continuar vendo a ação dos meninos. Como já haviam julgado que eu estivesse ausente, continuaram com um instrumento de ferro nas mãos. Vez ou outra olhavam para todas as direções. Atacavam com pressa uma bicicleta daquelas estações de aluguel patrocinada por uma grande rede bancária. Eles não pareciam saber como retirar as peças que queriam da bicicleta. Era nítido aquilo misto de medo e prazer que sentiam.

Não posso negar, eu me vi naquela situação há uns 20 anos quando quebrei o garfo de uma bicicleta que não era minha. Sem dinheiro, eu e dois amigos decidimos trocar pelo garfo da bicicleta mais abandonada do bicicletário do prédio deles. A crosta de pó e poeira acumuladas fizeram a gente pensar que a bike era vermelha como a que quebrei, fato que facilitaria a camuflagem da substituição. O duro era fazer tudo isso com a magrela pendurada. Levamos umas duas horas.

No meio do processo ficávamos revezando a tocaia, olhando para todos os lados, naquele misto de medo e prazer. Sorte aquele tempo não ser comum câmeras de monitoramento… No fim, quando limpamos, vimos que era azul marinho, tentamos sujar o garfo vermelho para disfarçar, ficou uma merda. Nunca soube o que aconteceu, se o dono descobriu.

Voltando à praça, fiquei me perguntando, para que chamar a polícia? “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, não é mesmo? De mais a mais, sabia o que os meninos estavam sentindo. Seria hipócrita da minha parte querer “fazer justiça”, ainda mais para defender um banco. No fim das contas, os meninos foram mais justos que eu fora, pelo menos estavam roubando de quem tinha muito, de sobra e que não sentiria a falta.

Voltei para casa pensando: nessa vida quem é ladrão mesmo?

 

 

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, pai de família cujo passado… 

Como ver como cego comover

 

 E se de repente você ficasse cego? Isso mesmo, você leitor, do nada, um piscar de olhos, e nada, só a escuridão? É difícil imaginar? Feche os olhos. Vamos, feche só por uns instantes… Ok, não há como fechar os olhos e ler este texto, ao menos, não dessa forma. Não, não se trata de um texto sobre Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, nem sobre o filme Dançando no escuro de Lars Von Trier.

 Será que somos privilegiados pelo sentido da visão ou somos escravos dele? Quanto somos dependentes? Talvez sejamos deficientes táteis, olfativos, auditivos… Será que aquilo que comemos teria o mesmo sabor se não víssemos? Não dá para imaginar isso sem ficar com medo. Aliás vencer esse medo e mergulhar na escuridão é de trata este texto.

 A exposição Diálogos no escuro, lançada na Alemanha em 1989, chegou ao Brasil e está em cartaz no Centro de Cultura Judaica, porém “exposição” ou “cartaz” não são as palavras certas, não encaixam bem. Talvez experiência, mas é mais que isso. É uma vivência! É colocar-se no lugar do outro. Mais ainda, é enxergar com o ponto de vista do outro, ou, melhor dizendo, não enxergar. Essa é a maravilha: sentir na pele e diante dos olhos a escuridão, como é a vida de um deficiente visual. Por 45 minutos, podemos realizar a cegueira, a vida de quem dorme e acorda na escuridão.

 É difícil, é uma experiência tocante, vencer o “medo do escuro” é complicado, há pessoas que refugam, que se descontrolam. Quem vence os instantes iniciais certamente passa por uma transformação: “ver como cego”. Diálogos no escuro é uma experiência dialética consigo mesmo, não é simplesmente visitar uma instalação em um museu. É sentir uma instalação durante uma visita a um museu, degusta-la com todos os sentidos exceto a visão. Perder o senso espacial, guiar-se pelo toque, seguir o som, provar um gosto diferente e vislumbrar a escuridão com alegria. É desmitificar a visão e viver, além dela.

 Descobrir como somos frágeis, deficientes em todos os sentidos e dependentes principalmente da visão. Como se passássemos a entender a fala da personagem de Bjork, Selma, no filme Dançando no escuro, quando diz: “Eu já vi tudo, eu já vi até a escuridão”. É descer o degrau dos olhos que veem e enxergar de peito aberto com um cego. Sim, quem guia o passeio são pessoas “ditas” deficientes visuais que não nos fazem sentir diminuídos por se deslocarem com mais desenvoltura na escuridão, ao contrário, fazem com que nós nos embrenhemos no nosso momento dialético de se colocar na lugar do outro, de ser outro em si mesmo.

 É rever uma frase e ela tomar outra dimensão: “Caminhar com um amigo no escuro é melhor que sozinho na claridade” – cunhou Helen Keller.

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, às vezes jornalista

Seria eu, seria ateu

Toda vez que chegamos à Páscoa é assim: fico me perguntando o que teria acontecido de fato. Lembro a música de Raul Seixas – cantor e compositor do qual sou fã desde a adolescência – “Judas”, e mais uma vez me pergunto, não será isso mesmo? Judas não teria sido o escolhido para encenar com um beijo a trama mais secreta de Deus?

Deus é grande, é bondade, é compaixão, é amor, é perdão. Deus olha por todos, sabe o que ocorre com todos e pode interceder por qualquer um. Ao menos é o que diz a crença. Então, por que deixaria suceder o que aconteceu no Monte das Oliveiras? De mais a mais, tomando o ponto de vista adotado por Raul na sua canção, por que marcaria um seu semelhante, Judas, com a pecha da traição para a eternidade? Teria tal homem cometido pecados tão perniciosos e nocivos? Seria ele pior que Pôncio Pilatos ou Herodes, por exemplo? E Iscariotes de fato não agüentou toda a pressão, tanto que após trair o Senhor enforcou-se.

Seria Judas tão pior que o próprio apóstolo Pedro? – que é tantas vezes citado nos livros sagrados. O São Pedro, pescador de almas que tanto faz chover em São Paulo, é mencionado 23 vezes no evangelho de Marcos, 24 no de Mateus, 27 no de Lucas, 39 no de João, e não menos de 182 vezes no Novo Testamento; foi a pedra fundamental onde se edificou a igreja cristã, tendo ele como seu primeiro papa. Apóstolo de inegável liderança, por outro lado, negou Cristo por não menos de três vezes em poucas horas na madrugada da sexta-feira da paixão, isto é, logo após a prisão de Jesus. Ah, é verdade, ele fez isso para se safar apenas…

Outro assunto que me intriga é: o que teria feito o filho de Deus no tempo em que esteve no deserto, período em que, reza a lenda, o Diabo o tentara por três vezes somente? Só mente quem quer esconder algo, em geral. O que teriam para esconder os escritores do Novo Testamento para omitir esse e outros pedaços da vida do Salvador? Será que o Messias não poderia ser humano e, como tal, realizar coisas mundanas como se apaixonar por Madalena? Será que resistiu à tentação, ou essa foi a maneira de os fundadores da igreja o mitificarem?

Outro dado que me intriga é: como alguém que transforma água em vinho pode ser tão santificado? Se assim for, Cristo deixa Baco e Dioniso no chinelo!

De toda forma, quem teria coragem de recusar um pedido de Deus? Ou de seu filho? Que tarefa seria mais difícil – haveria trabalho mais pesado? – do que servir de traidor do Senhor? A quem você pediria, se fosse necessário e possível, o desligamento dos aparelhos que o mantém vivo? Certamente, não seria a um qualquer que estivesse passando… Aliás, as coisas mais difíceis sempre pedimos aos entes mais próximos a nós, não só por serem os que nos atenderiam, mas também por serem os que nos entenderiam. E na quarta-feira, quando Jesus jantava com os discípulos e anunciou que seria traído, deu o pão encharcado em vinho à Judas – e tal gesto era sinal de predileção nos costumes da época.

Como diz a música “Parte de um plano secreto amigo fiel de Jesus, fui escolhido por ele para pregá-lo na cruz. Cristo morreu como um homem, o mártir da salvação, deixando para mim, seu amigo, o sinal da traição.”

 

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, às vezes jornalista

Rocky entre deuses e arco-íris

 Aí estava eu cheio de trabalho para fazer passando os canais da TV para cima e para baixo, percebo que um deles transmite um filme nada novo, um clássico dos “durões americanos”: Rocky: um lutador. Por curiosidade olhei qual seria a programação do canal e não é que passariam todos os filmes do Rocky em sequência!
Estava bem no momento em que Rocky Balboa visita o ginásio em que se dará a luta e paquera um banner enorme de Apollo Creed – que é o atual campeão dos pesos pesados – e outro dele próprio. Nesse instante tive um estalo! Quase como Tarantino ao avaliar Top Gun. Pô! Essa série do Rocky é uma tremenda história homossexual! Sim, eu sei que ele casa com Adrian, que vez ou outra ele grita por ela, mas pode ser só a força da imposição social, sabe como é, estamos falando de quarenta anos atrás…
O que surgiu na minha cabeça é o seguinte: começa que Rocky Balboa tem o apelido de Garanhão Italiano, o que para um boxeador soa um pouco estranho, afinal seria ele um “reprodutor”? Ok, ele sobe no ringue para bater, mas… (O fato de Stallone ter feito um filme pornô para sobreviver cinco anos antes nada tem a ver.) Além disso ele passa o filme inteiro admirando Apollo Creed, o atual campeão, famoso, bem sucedido no boxe, conhecido por sua agilidade com as pernas, negro de vida confortável nos Estados Unidos dos anos 1970, e num instante fui lembrando do pouco que me vinha à cabeça dos outros filmes e nossa! fez sentido.
Cara, o nome dele é Apollo! Apolo era um deus! O mais belo deles! Deliciava os deuses tocando… a lira, também ficou famoso como arqueiro e atleta veloz e foi o primeiro vencedor dos Jogos Olímpicos. Deus belo, agilidade nas pernas… aí tem coisa! No fim das contas, ou melhor, da luta, eles vão até o último assalto e Apollo mantém o cinturão de campeão, mas fica admirado com a bravura, a força, a resistência de Rocky, o Garanhão!, como se este tivesse provado seu valor, ou conquistado a “empatia” de seu “adversário”. Em outras palavras, o italiano bateu tanto em Apollo, chegou a fazê-lo “beijar a lona”, que ele gamou!
Bom, o segundo filme é exatamente a continuação do enlace. A revanche é ainda mais reveladora… sobretudo porque Rocky se afasta dos ringues após a luta do primeiro filme e começa sua vida com Adrian. No entanto, é mais forte que ele, a vontade de reencontrar Apollo faz com que ele invista na revanche. Ambos se respeitam como lutadores e se admiram. O final dessa luta é ainda mais especial. Depois de sei lá quantos rounds os dois parecem dois joão-bobos até que com uma sequência de socos de Balboa ambos vão à lona. A contagem de dez segundos do árbitro dura minutos em câmera lenta enquanto os lutadores tentam se reerguer e trocam olhares. Ao final do “nono segundo” somente Rocky está de pé, como um joão-bobo, mas de pé e vence.
Rocky III começa com Apollo fora dos ringues após a perda do cinturão e Rocky no auge de sua carreira. Inclusive fazendo lutas beneficentes bizarras, em especial há uma contra um lutador de luta livre. Enquanto isso, Clubber Lang um lutador desconhecido e com sangue nos olhos quer seu lugar ao sol. Na verdade tem é invejinha dos protagonistas. Logo, Rocky, o atual dono do cinturão, é seu alvo. Durante a luta, Mickey, o treinador do Garanhão já velhinho, está nas últimas e, vendo seu pupilo levar uma surra de Lang, morre assim que acaba a luta. Aí outra faceta se revela: a adoração, quase um amor filial de Balboa por seu treinador, agora morto, e a derrota fazem-no sentir medo.
Desamparado e tomando esporro até da mulher, “surpreendentemente” Apollo reaparece para salvar Rocky, sugerindo ao Garanhão que o deixe treiná-lo. Os treinos são duros e inicialmente improdutivos, até que Apollo mais ou menos fala: “Acabou! Para mim chega! Não dá mais, não brinco mais!” Balboa leva outro esporro da mulher, indignada que o marido está com medinho. Então, começa uma aproximação com Apollo durante os treinamentos e ele ensina o Garanhão o seu swing de pernas. É bonitinho! Eles se abraçam saltitantes, suados e rumam unidos para vencer Clubber Lang. Detalhe: Apollo ressalta os olhos de tigre de Rocky que o conquistaram e Apollo o chama várias vezes de Garanhão…
Rocky ganha, ok, ele e Apollo se tornam melhores amigos e chegamos ao quarto filme. Agora é outro querendo atrapalhar o casal: um russo anabolizado vivido por um ator sueco: loirão, alto, forte, de olhos claros, de nome Ivan Drago, que quer enfrentar o melhor boxeador americano, Balboa. Mas Apollo enciumado resolve lutar pelo seu amigo. O engraçado é que Apollo procura seu “amado amigo” para conversar e tomar tal resolução, sua esposa nem sabe e Adrian é contra. Outra coisa, Drago significa dragão, outro ser mitológico para tirar o sossego do Garanhão e do Apollo, mas dragão é uma figura reptiliana, um lagartão, uma cobra com patas e asas cuspindo fogo! É pouco?
O russo não está para brincadeira e enche Apollo de porrada que morre no ringue nos braços de Rocky. Drago ainda diz quase dando beijinho no ombro “se morrer, morreu”. Aliás é a segunda morte masculina nos braços de Rocky, com Mickey fôra igual. Assim, o Garanhão Italiano sente o fogo e é impelido a lutar pela honra do finado Apollo na União Soviética. A luta é ridícula, há momentos que parece mais briga de mulher traída com a amante. E o gelado russo revela ter sentimentos…
Vitorioso, é claro, mas estropiado, o garanhão retorna aos States no Rocky V. Uma fraude faz perder toda sua riqueza e os anos de pancadas o aposentam com uma lesão cerebral. Viúvo de Apollo, ele volta ao lugar de origem e as lembranças do passado o atormentam. Jr., seu filho adolescente, passa a dar sinais de querer a atenção paterna e um novo triângulo começa quando um novo boxeador, Tommy Gunn, aparece querendo Rocky. De treinador. Rocky esquece o filho e gama no seu pupilo. Tenta repetir com Tommy o que Mickey e Apollo foram para ele, diz que deveriam ser mais unidos, dá presentes… Mas o jovem o trai e eles acabam resolvendo seu caso numa briga de rua na porta do boteco – bem barraco!
O sexto filme é de um Rocky, agora viúvo de sua mulher Adrian, já entrando na terceira idade e que vive das memórias. Porém agora é ele que corre atrás do filho querendo atenção, já o Jr. vive com invejinha pelo sucesso e popularidade do pai. Detalhe: a necessidade de afirmar e reafirmar sua masculinidade fica evidente uma vez que ele batiza seu restaurante de Adrian’s, em homenagem a falecida. No entanto, passa o tempo inteiro contando sobre suas lutas, seus homens adversários…
Como não sabe fazer outra coisa, Rocky resolve voltar a lutar e o campeão do momento, Mason Dixon, sofre de falta de popularidade, que sobra ao italiano. Sopa no mel. O velho contra o novo, algo como: vamos medir quem tem o instrumento maior… Igual no filme anterior. O absurdo é que o velho Garanhão vai até o último round e, ao final da luta, sem vencedor, é bonitinho também, ele diz ao Mason “você tem coração!”. E todos ficam felizes!
Mas não acabou. Seu caso mais antigo deixou um fruto, outro “deus grego”: Adonis Johnson, filho que não conheceu o pai Apollo Creed. Peraí, Adônis na mitologia grega era um jovem de grande beleza que nasceu das relações incestuosas que o rei Cíniras de Chipre manteve com a sua filha Mirra. Vou falar uma coisa, hein, quem escolhe esses nomes para as personagens… Bom, é um novo pupilo para um Rocky velho e sozinho, como um lampejo de furor, um lampejo de Apollo Creed…
Acho que Stallone não fará outro filme, mas o duro é que nada disso teria acontecido se a saga de Rocky e Apollo começasse hoje. Atualmente não teria qualquer problema entre os dois para assumirem, não precisaria das esposas, não precisaria de todo esse cenário. E talvez Balboa tivesse uma vida mais realizada.

Descasos da Aclimação

 Há 7 anos…

 “Pouco mais de uma hora e meia no dia 23 de fevereiro foi o suficiente para tragar 75 mil metros cúbicos de água do lago da Aclimação, mais peixes e vários patos, gansos e outras aves migratórias que viviam no lago. Hoje, sábado 28 de fevereiro, foi marcada uma manifestação pelos freqüentadores do parque junto com a Associação Amigos do Parque da Aclimação cuja intenção era dar um abraço em torno do lago. No entanto, mesmo com o grande número de manifestantes não foi suficiente completar o abraço e, o mais chocante, ainda havia inúmeras pessoas que praticavam seus exercícios e caminhadas como se nada estivesse acontecendo. Não sei o que foi mais mórbido: se a imagem do parque no dia seguinte ao acidente ou se a indiferença de alguns freqüentadores.

 Pelo que foi divulgado em folheto distribuído pela Prefeitura hoje no próprio parque, a causa do acidente foi o “rompimento do extravasor do vertedouro, que drenou toda a água do lago” devido ao grande volume de chuva e o conseqüente aumento da pressão no sistema de águas pluviais e nos córregos da região. Mas, ainda segundo o informativo, o “extravasor” já foi consertado e hoje já começariam a fornecer água para reencher o lago e dar início ao processo de licitação para remoção do lodo e restabelecimento do lago.

 O grande problema é que todo esse processo é muito custoso e lento, com prazo de até 120 dias apenas para a licitação, caso realmente seja feita. Afinal, com o lago já cheio não se vê nem o lodo, nem todo o lixo que existe lá. Ou seja, seria como varrer a poeira para debaixo do tapete. Por outro lado, se o caso for tratado como acidente ecológico – como de fato foi, uma vez que morreu uma série de animais e toda a fauna do parque e região está inter-relacionada ao lago – as medidas cabíveis do ponto de vista ambiental precisariam ser efetuadas em caráter de urgência.

 O acidente mostra o descaso e falta de manutenção por parte do poder público mesmo com a atuação dos Amigos do Parque. Somente no bairro da Aclimação é possível dar mais dois “belos’ exemplos desse abandono e não é de hoje. Desde que nasci moro no bairro e poucas foram as vezes em que vi o chafariz da praça General Polidoro funcionando, sem falar no jardim em torno do chafariz que cresce sem qualquer cuidado. E, apesar da praça ser cercada, não há qualquer tipo de vistoria ou policiamento, servindo constantemente de estadia para a mendicância.

 Outro exemplo do completo abandono é o mirante da praça Jorge Cury que tem vista para o Parque da Aclimação: todo pichado, com o mato alto, e com um insuportável odor de fezes e urina nas escadarias que levam a uma das entradas do parque. Além disso, o local e constantemente freqüentado por usuários de drogas durante o dia e a noite. Isso sem falar nas várias construções de edifícios do bairro que simplesmente arrancam árvores com mais de 50 anos das calçadas sem qualquer fiscalização, tornando a Aclimação cada vez menos arborizada.

 Mas se o lago da aclimação estiver lá, em pouco tempo ninguém dirá mais nada…”

 E lá se foram 7 anos e o que mudou? Apenas o lago. Afinal, com as obras do novo vertedouro a vazão de água aumentou, consequentemente, o lago passou a ter um nível mais baixo que antes do acidente.

 Dessa forma, mudou bastante a cara do lago e de seu entorno. Os frequentadores mais antigos facilmente reparam o quanto aumentou a porção de terra que margeia o lago. O pessoal que frequenta até passou a fazer mais piqueniques e jogos de vôlei e futebol em trechos que antes eram cobertos pela água. Ok, não serei um purista conservador, ainda é o lago, ainda é o parque.

 Porém o descaso continua. O Parque da Aclimação é cortado pela Rua Pedra Azul e, em sua menor porção ao lado do Instituto Helen Keller, ele é fechado ao público. Nunca soube o porquê. Mesmo sem saber é fácil notar nos últimos dez anos como esse pedaço do parque vem sofrendo. É comum ver pessoas entrando e saindo por partes da grade quebradas, ou pelos portões quando abertos. Não sei se são funcionários, jardineiros, ou gaiatos. Sei que quando eu era criança olhar para esse pedaço do parque era como olhar para uma floresta fechada, tamanha a quantidade árvores. Já hoje, é fácil ver o céu através das árvores restantes.

 Além disso, a minha vida inteira vi as construtoras erguendo edifícios em locais que não eram permitidos. Assim, como a demolição de casas sempre foi uma constante, até mesmo nas imediações do parque e na Avenida da Aclimação.

 E as praças Jorge Cury e General Polidoro permanecem exatamente como há sete anos. Para não dizer que estou exagerando, o jardim da Praça General Polidoro vez ou outra é aparado.

De todo jeito, quem está preocupado com praças e parques se agora podemos abrir largas avenidas para o lazer aos domingos, não é mesmo?

Paulo Roberto Laubé professor das redes particular e pública de São Paulo, às vezes jornalista