Àquela Senhora

Aquela cumbuca abençoada,
bem suada, surrada, sacudida,
Uma bacia com moedas que parece um chocalho
impertinente
Mas é um grito de socorro,
é um olhar vago de desesperança que queima
por isso se foge inconsciente
Mas o barulho persiste
renitente
é quase um esporro que trespassa nossas máscaras
tudo à vista
o tilintar das moedas ensurdece a gente surda mais que os sinos da Igreja que
[tem às costas
todas cegas pessoas passam…
todavia o barulho me suga sem fuga,
mudo
e não mudo de calçada
Esta a verdadeira cruzada
o ruído corrói,
suplanta todo o zunzunzum do centro
enxerga, queima, grita, suplica
aquela senhora cega sentada à frente do Mosteiro de São Bento.

Paulo Roberto Laubé, às vezes jornalista, às vezes professor, às vezes poeta, às vezes nada…

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Cor do meu entorno

?

Não sei a cor

É colorido

Tem a cor de um lamento, um sorriso,

lágrima, brilho

 

Não tem cor

É colorido

Tem a cor do abstrato e do afeto

contratos, concreto,

Tem a cor do azul com o amarelo,

do anil com o singelo

 

Meu entorno tem a cor do mundo

do quanto a vista alcança tudo,

dos mudos e dos criados

 

Não sei a cor do meu entorno

Talvez emane do meu corpo

ou de quanto me doo

 

A cor

vibra aqui dentro

?

 

 

 

 

Paulo Roberto Laubé

VOO

O que vejo é o mundo e o que sou

O que faço é sem fundo e me safou

O que sinto eu minto e assim vou

 

O que ouço no caminho é o que restou

O que inspiro vai sumindo se sobrou

O que toco, eu surdo ao que soou

 

O que devo fazer com tudo que senti?

O que quero saber com tudo que vivi?

O que posso viver sem tudo que senti?

 

Voo…

 

Vou…

Vi…

 

Voo…

 

O que…                                                  voou.

 

 

Paulo Cabelo

Sem despoética

Montanhas, rios, céu,

Sociedade doente

As pessoas são ruins umas com as outras

O sistema

Hipocrisia

Política

Corrupção

E não sou mais um cara novo

Nem feliz

A revolta sucumbiu ao natural

Processo de envelhecimento burguês

O pequeno consumidor

Não passa de mais um mercatário no mercado

Da mercadoria da vida

.

As montanhas não vêm

Nem Maomé, nem Messias,

E não dá para ser zen

Do mestre Caeiro não sou seguidor, embora o almejasse,

As pedras rugosas bradaram no caminho e nem o João Cabral me petrifica,

Como se minha infância fosse uma ilusão,

Não basta ser eu ou qualquer outro,

.

Caindo no abismo como um rio desce a montanha.

Não sou mais paulistano, nem maluco,

Não sou mais natural que um urbano,

Não sou mais humano,

Sou um nada no universo

Num verso

único,

Na natureza selvagem não sobrevivo,

Atravesso uns versos, perverso,

Contra todos, controverso,

.

Sou frente sem verso.

Liberdade?

Amor?

Felicidade?

Por que agir? Por que esperar?

Não sou versado,

Até o céu se foi,

Sou o inverso,

.

Sem verso

Sem…

 

.

Paulo CABELO

Flores de Aço*

Oh! Ser supremo

De tão doce, delicado

Dizem-no frágil

Que besteira!

 

Como inferiorizar algo tão maior?

Que pode ser tão sensível

E ao mesmo tempo firme como rocha

Sempre pronta para a luta

Que chora, ri, sofre, sem medo

Muitas vezes subordinadas à emoção

Que traz à luz a vida

E se entrega a quem ama

 

Oh! Flores de aço

Tão belas e adoráveis

Gestos suaves escondem sua força

Como admiro as mulheres!

 

Paulo Cabelo 

 

*Inspirado no filme Flores de aço