Terra de Souza Paiol

Se você é forte, aconselho que venha para o Brasil. Aqui é o lugar dos fortes. Você vai se destacar, crescer e ser cada vez mais. É a sua natureza, correto?

Você é forte daqueles que bate de verdade? Aqui, no mano a mano, vence aquele que bate mais. Nada de Marlboro, estamos falando da terra do Souza Paiol. Quebra na porrada na rua e mata. Só cuidado para não ser preso. E para não ser preso, você precisa seguir a regra do jogo.

É importante jogar a regra do jogo, a do mais forte, no caso. Uma pessoa sozinha com toda a força do mundo aqui não vai triunfar. Porque alguns fracos aprenderam algo básico: tem que se associar para serem mais fortes. Daí nasceram alguns fracos bem fortes, muito. Porque estão cercados de gente forte para bater, se preciso.

O tempo fez tudo mais sofisticada. Na verdade, só a ameaça é suficiente. Por isso foram criados leis para não precisar nem chegar as vias de fato. Mas isso, claro, para quem é fraco. As leis são para os fracos. Os fortes de verdade não precisam seguir a lei. Os fortes conseguem tardar a lei, ou mesmo ignorá-la. Então, aqui no Brasil, você vai ter que aprender a estar do lado da lei, ou seja, do mais forte, para não sofrer suas consequências.

Há apenas um porém, quem chegou antes tem bastante vantagem sobre você. Tem gente que está há mais de 400 anos e criaram escrituras para se apropriar de terras, muros para separá-las e leis para protegê-las. Além disso, são muito simpáticos com seus conterrâneos. Como dizem, aos amigos tudo, aos inimigos à lei. Por isso, é importante ter aliados, e os certos. Aqueles que tem os atalhos para a lei e para a ordem. Os demais, são seus inimigos, sejam temporários, os fortes que disputam a chave do cofre, ou os permanentes, os que estão fora dos muros e das leis, os fracos.

Porém, à margem da lei, quem é mais forte sobrevive. Pelo menos quem está mais armado. Então, é importante estar armado para os lugares onde não existem leis. E, aqui, são muitos. As armas são para fazer valer as leis ou criá-las se você não estiver do lado delas. No fundo, se você estiver do lado de um, está do lado oposto do outro.

Dizem que os opostos se atraem, por isso as fronteiras as vezes são nebulosas. Quanto mais alto se chega na hierarquia mas os pontos de contatos se entrelaçam e se confundem. Quem está em cima, por vezes dialoga, circula e convive nos pontos de contato e por meio da linguagem que todo mundo entende: dinheiro.

A bem da verdade, a força que você precisa para chegar em cima não é apenas da sua. É necessário muitos ombros que aguentam para poder enxergar tudo. E o mais forte, seja de onde for, nem sempre é o mais forte, mas que reúne mais braços e ombros. Sim, os fortes daqui são bem ridículos de perto, velhos, flácidos, gordos, esqueléticos, esquisitos, mas tem a força das leis, dos muros e de gente forte que garante tudo como está.

Os fortes de verdade vencem apesar de tudo. São capas de revistas, heróis das olímpiadas, especialistas em informática, doutores da medicina ou do direito, gênios das ciências. Porém, numa terra onde os fortes daqui são na verdade fracos que tem pessoas fortes por trás delas, quem é forte de verdade não está entre iguais. Frequentemente procuram outros lugares onde estão entre os seus.

Aqui é a terra dos fortes, mas quem é forte de verdade, para que estar entre tantos fracos, não é mesmo?

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

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Histórias de forma a reformar formas

Hoje não vou tratar das reformas propostas pelo atual governo federal brasileiro, acho melhor discutir outras coisas talvez mais interessantes. Idade, velhice, atualização, que tal?

Aliás atualizando temas mais globais que a nossa politicalha tupiniquim (coitados dos tupiniquins, serem associados a cada coisa…), EUA é um país desenvolvido, obviamente, mas houve um preço a sua população. Além de ser talvez o exemplo mais consistente de liberalismo econômico em prática, seus trabalhadores vivem em condições que assustam boa parte os empregados daqui. Entre outras coisas, “os Estados Unidos são o único país desenvolvido que trata férias como um “presente” ao empregado, não como um direito. […] Isso significa que decisões sobre férias, ausências por doença ou feriados nacionais são negociados caso a caso entre empregador e empregado. O padrão de várias empresas americanas é dar de 5 a 15 dias de férias pagas por ano a seus trabalhadores, mas um estudo recente do instituto americano Center for Economic and Policy Research mostrou que um em cada quatro trabalhadores da iniciativa privada não recebem nenhum dia de férias pagas.” (Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/11/141112_vert_cap_ferias_dg Acesso em: 21/04/2017)

25% dos trabalhadores americanos sequer tiram férias. Desse modo é fácil imaginar porque vê-se em tantos filmes o medo em qualquer funcionário de tirar férias ou de faltar por motivo de doença. A insegurança sobre a manutenção de cargo ou função é tanta que as pessoas simplesmente evitam ausentar-se. Dessa forma, a manutenção do emprego passa a ser prioridade frente à saúde do indivíduo. (Deixo uma indicação, assista aos documentários de Michael Moore Where to invade next e SOS sicko.) Mas claro, eles são desenvolvidos e a saúde lá é para todos…

Por outro lado, há quem diga – inclusive o deputado Rogério Marinho do PSDB – que o problema da CLT brasileira é a data de nascimento antiga, ela estaria idosa e precisaria de uma reciclagem, afinal ela está desatualizada. Porém olha que coisa, EUA tem a sua lei que estabelece entre outras coisas o que se relatou acima, também chamada Ato de Padrões Justos de Trabalho, datada de 1938. Pois é, ela devia estar bem à frente de seu tempo! Ou servir muito bem aos mandatários daquele país. Aliás, a antiquada CLT tupiniquim é de 1943, sancionada em 1O de Maio por Getúlio Vargas. Ah nada como ter um “pai dos pobres”… É, só que Getúlio foi “mãe dos ricos” deixando os sindicatos sob controle, evitando greves e concedendo inúmeras facilidades a industriais.

Bom, já que se falou sobre o problema da antiguidade da CLT, que tal lembrarmos que acima da CLT existe a Constituição para preservar mínimas condições de vida em sociedade, muito além das relações de trabalho apenas. Ora, veja que coisa, a Constituição brasileira é de 1988, novíssima, e sempre afeita a mais uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional), entretanto, o código máximo daquele país – putz! vou falar de novo de EUA – é de 1787, um absurdo! Está pra lá de caduca de tão velha! Deve precisar urgentemente de uma modernização, “de um salto para o século XXI”! Como pode ser desenvolvido?!

Falando em caducar, e se falarmos dos códigos de conduta estabelecidos pelas mais populares religiões do planeta? Muita coisa, né? Ok, vamos pegar as principais dos EUA – ai, de novo! Pois é, lá mais de 70% da população (Fonte: https://estadosunidosbrasil.com.br/perguntas-frequentes/religiao-nos-estados-unidos/ Acesso em 25/04/2017) é formada por cristãos em sua maioria protestantes. E mais uma vez temos nesse país regras para lá de antigas ainda em vigor e seguidas por uma parcela considerável do povo, visto que qualquer religião baliza de algum modo a vida de seus fiéis. Sim, Calvino, Lutero, Henrique VIII, viveram há pouco tempo, uns 500 anos!

Sem contar que ainda temos um outro, de quem protestantes reformularam as ideias, regras, e tudo mais, um tal de Jesus. E este tem só uns 2 mil anos. É isso, os protestantes viram que precisavam reformar os preceitos de Jesus provavelmente para dar uma atualizada na coisa, afinal o Novo Testamento já fazia mais de milênio. Se levarmos em consideração, por exemplo, os dez mandamentos, deveremos considera-los “leis fósseis”. É, faz sentido, “não matarás” não cabe muito bem aos EUA… No entanto, os tais mandamentos ainda encontram seguidores – talvez não dos dez – em corpulento contingente aqui e lá “na terra das oportunidades”. Se bem que “não matarás” também não cabe muito bem aqui…

Estou começando a achar a CLT não muito antiga…

Estou começando a achar que coisas velhas e atuais são relativas…

Por essas razões, certamente não é mal copiando o modelo dos EUA que o Brasil se tornará desenvolvido. Fazer isso seguindo aquele país é desconsiderar algumas relações de trabalho como as expostas aqui e muito mais, é ignorar suas guerras, seus desastres ambientais, sua história.

Ninguém pode viver a vida do outro, então o que serve para uns não necessariamente serve a outros. Simples assim!

Paulo Roberto Laubé

Artista de Verdade

Já reparou que muitas das nossas amizades duradouras surgem no período da adolescência? Minha hipótese é que nosso senso crítico não é muito desenvolvido, daí aquelas características chatas dos amigos do peito passam batido e, vinte anos mais tarde a gente acaba se acostumando. “Ele é assim mesmo mas é meu amigo”. Já o pessoal que você conhece depois cai no senso crítico implacável logo de cara. Nada passa. E verdade seja dita, somos chatos por natureza.

Solano é um desses caras chatos que eu conheci nesse nebuloso período da adolescência. Ele deveria ter uns 17, talvez 18 anos, dois a mais que eu. A recíproca era completamente verdadeira, eu também era chato à beça o que, nesse caso, tornou a amizade benéfica mutuamente. Somos amigos desde então, e desconfio que, mesmo com a distância, cada vez mais.

Em toda a amizade há sempre um fio condutor que une as pontas em torno de um interesse em comum. No nosso caso foi as artes, inclusive nos conhecemos por uma de suas ideias, um coletivo chamado Factotum que iria revolucionar o Parque dos Patins na Lagoa e ainda nos descolar uns trocados vendendo nossas obras juvenis. Parecia possível para a gente, mesmo que fossemos encher o saco dos frequentadores do parque para comprarem poemas e rabiscos, entre o revolucionário e o chato. Mas, talvez por sorte, o projeto ficou apenas em duas reuniões, uma delas em minha casa, que teve de mérito me aproximar de Solano.

Sempre fui muito exigente, meus amigos sabem disso, e por isso tenho segurança para afirmar que Solano é um gênio, e desde aquela época. Gênios porém tem “geniosidades”, essas idiossincrasias que tornam as pessoas simultaneamente incríveis e insuportáveis, num limite difícil de separar. Sua produção artística surge sem muito direcionamento e organização. Quase que por sorte mesmo. Algumas são maravilhosas, outras boas, muitas são apenas chatas. Porém isso não importa para um artista, afinal se tem uma coisa boa em sê-lo é que eles sempre são lembrados pelo seu melhor. E eu sempre o admiro pelo que ele oferece de melhor para mim e para o mundo.

O que porém me fez ser amigo de Solano e não apenas um admirador de sua arte, foi sua benevolência comigo. Mesmo com seu talento proeminente, sempre teve paciência para prestigiar meus textos ainda em processo de apuramento estético, devaneios das minhas verdades diletantes da adolescência e da juventude. Mas isso talvez tenha sido o mais fácil, afinal foi Solano quem me ajudou a segurar a barra das minhas aventuras amorosas intensas que oscilavam entre a completa paixão e desilusão. Agradeço a ele demais por isso, mais que isso, o amo.

Aos gênios, muitas vezes o cotidiano não combina com suas trivialidades, então acredito que o mundo ainda esteja a procura do lugar para sua arte. Ocorre que vivemos um tempo estranho onde torcedor discute contabilidade do clube, empresários são os novos ídolos e artista bom é aquele que escreve projeto para Lei Rouanet. O mundo está chato, acho que porque tem gente normal demais.

Por isso, Solano é meu amigo. Dentre as genialidades e insuportabilidades cotidianas, ele ainda é uma pessoa que posso compartilhar minhas chatices, piadas babacas e uma cervejinha despretensiosa no lugar que for, agora em família. Mas sobretudo porque, além do amor da amizade, o admiro demais. Ele me lembra que o mundo é muito mais do que ídolos de balanços financeiros e artistas estatais. Ele é um artista de verdade.

Bogado Lins é escritor, roteirista e amigo do Solano.

Os Cinco Sentidos do Samba

Eu tenho um quadro de Nelson Sargento no meu quarto. É uma pintura despretensiosa de casebres de diferentes cores inclinadas em um morro. No fundo de um céu azul claro e nuvens esparsas, algumas aves sobrevoando na direção do vento compõem a cena.

Pode ser a Mangueira, mas também pode ser as outras 700 favelas da Cidade Maravilhosa. Talvez seja uma representação daquele exato momento que João Nogueira descreveu em uma de suas composições: “numa vasta extensão, onde não há plantação… e quando o primeiro começa os outros depressa procuram marcar seu pedacinho de terra para morar”. Quem sabe seja uma pintura sem geografia? Uma vila tranquila, um éden, naquele inexato instante que nunca existiu.

Curioso um quadro desse cair sob meus cuidados. Talvez seja fruto dessa minha admiração do samba que cresceu conforme amadurecia o meu amor pelo Rio. Naqueles idos anos 90 e início dos anos 2000, quando eu percorria a Lapa, Santa Tereza e as ruas da minha cidade em busca de amores e narrativas que perdurassem. Mas também tem a história prática. De como o samba, tantas vezes decretado à morte, ressurge em sua espontaneidade na casa de alguém.

Enquanto na Sapucaí os grandes desfiles viravam uma indústria, os sambistas tradicionais caíam gradativamente no ostracismo. Com exceção de alguns cantores que circulavam nas gravadoras e nas casas noturnas, o gênero musical mais puro e sincopado ia pouco a pouco perdendo relevância nas elites. Já nas camadas populares, prevalecia o pagode, um ritmo mais acelerado e com novos expoentes.

Foi nesse período, lá pelos anos 80 que Luiz Carlos, um amigo da família, foi contratado pela Funarte. Um dos projetos que participou, a Caravana Funarte, possibilitou a circulação de sambistas pelo interior do Brasil. Então, figuras que permaneciam no ostracismo voltaram a habitar os palcos brasileiros. Para um punhado deles, significou uma sobrevida financeira. Foi a partir daí que alguns desses senhores, incluso Nelson Sargento, começaram a se encontrar com Luiz. Como forma de gratidão, o sambista presenteou-o com algumas de suas pinturas, cujo maiores méritos era reproduzir essa simplicidade do olhar de quem vive o samba – um olhar naif, como diria os críticos de arte.

Entre paixões arrebatadoras e desilusões, Luiz vivia intensamente. Não raro, os amores custavam-lhe todas suas economias e o deixava tão sem recursos quanto os sambistas que auxiliava tempos de Funarte. No fundo, era naif. Por isso, pelo menos duas vezes em sua vida mudou-se para a casa do meu pai. Em uma delas, acabou deixando essa lembrança como forma de agradecer a acolhida. Eu rapidamente adotei-o para meu quarto e foi dos poucos objetos que levei comigo quando sai de casa rumo a São Paulo.

Já na nova cidade, pude conhecer a admiração pelo samba dos paulistas. Ainda que esteja longe de ser uma unanimidade e mais afeito a apreciação silenciosa, o amor paulistano pelo gênero é sincero, como uma admiração de um menino apaixonado. Conheci tudo isso há dez anos atrás por intermédio de duas personalidades do mundo editorial, Leonel e Isildo. Ao retornar das rodas de samba, o quadro permanecia como uma relíquia de contemplação. Acessava aquelas emoções que as rodas de samba cariocas me proporcionaram em um tempo que talvez nunca tenha existido.

Hoje, em pleno mundo digital, observo a resiliência do mais africano dos ritmos brasileiros. Enquanto o rock nacional agoniza em praça pública e a MPB perde sua capacidade de renovação, a tradição do ritmo é justamente o que o mantém vivo. Essa conjunção entre dança, fantasia, desfile, enredo, coletividade e todo um imaginário que o sustenta, acabou tornando-o mais forte e preparado para os novos tempos.

Por incrível que pareça, mesmo com todas as críticas, a Sapucaí fez mais bem do que mal ao gênero, no que diz respeito à sustentação do ritmo no coração do grande público. Mas certamente foram essas pequenas relíquias e penduricalhos que tornaram tão simbólico e emocional. Afinal, o que faz perdurar é justamente o que atinge simultaneamente esse universo individual na maior quantidade de pessoas possível. E o samba tem essa riqueza de elementos que se combinam em uma experiência completa. Desde o tato na dança, o paladar e o olfato da feijoada, e obviamente a audição desse ritmo que remonta às orações. 

Ou ainda, essa visão idílica de um amontoado de casebres numa comunidade fictícia em um dia de céu azul com pássaros voando ao fundo na direção do vento.Um sentido que se expande em emoções simples, que fazem sentido e são sobretudo inocentes, ou naif, como preferirem. Uma emoção autêntica.

Bogado Lins é escritor, roteirista e admirador de samba

Um Estado Mínimo que Seja

O Brasil está na beira do abismo e está prestes a dar um passo à frente. Talvez algumas pessoas discordem dos motivos, mas é um consenso que vivemos uma catástrofe. E a razão é uma só, o Estado. Se alguns acham que tem Estado demais, outros acham que tem de menos. O ponto que é pouco explorado, porém, é básico: o que ele entrega?

É necessário refletir sobre essa questão. Para que o Estado deveria servir? Bom, é consenso que ele deve prover condições para as pessoas viverem em sociedade. Alguns acham que ele tem que fazer mais que isso, mas todos concordam que ele deve entregar algumas condições mínimas. E quais são elas? Basicamente educação, saúde e segurança. Enquanto a educação permite em tese as pessoas terem igualdade de condições para buscarem sua vida, a saúde e a segurança permitiria a manutenção da vida e a validade dos contratos entre as pessoas.

Alguns podem achar que o Estado não precise ,ou não deva, entregar saúde e educação diretamente e até mesmo, vá lá a segurança, mas por meio de parcerias com a iniciativa privada. Ou mesmo garantir que elas entreguem isso, por meio de agências reguladoras, que estabelecem os critérios mínimos. Mas é fato que quando os liberais pensam o Estado, não citam países africanos, mas sim países como os Estados Unidos, onde a educação básica é garantida e a maior parte da população tem condições de manter planos de saúde. Isso quando não citam Suécia, Canadá e Austrália, que outros consideram ser exemplos de sociais democracias, e que sim, entregam diretamente para sua população saúde, educação e segurança, dentre outras coisas mais.

E o que o estado brasileiro entrega: nada. Dentro do escopo do Estado brasileiro está tudo lá, lindamente previsto e cobrado, porém os serviços que entregam são tão ruins que ninguém em sã consciência quer utilizá-los, a não ser que realmente não tenha opção. Vejamos, saúde? Quem pode contrata um plano de saúde particular. Educação? Quem pode coloca numa escola privada, mesmo ruim. Segurança? Hoje qualquer condomínio de classe média tem um aparato de proteção similar a uma base militar.

O que mais ou menos se mantinha era a previdência, o único serviço que o governo entregava para a população de forma mais ou menos satisfatória, ainda que com as distorções de sempre(aposentadoria militar, pensões, aposentadorias do serviço público, etc). Isso deve acabar em breve.

No entanto, assim como todos os serviços que são mal entregues, a previdência mantém todos os custos atuais para o contribuinte. Ou seja, nós contribuintes pagamos todos os serviços: saúde, educação, segurança, previdência e outros ainda. O que recebemos? O direito de pagar por tudo isso da iniciativa privada novamente, ou utilizar os subserviços que nos oferecem em troca, caso sejamos subcidadãos.

Mas o Estado tem gastos, sim tem. No entanto, nenhum deles é voltado para nós. Tem privilégios, desonerações, perdões, juros de títulos bilionários e uma infinidade de gastos que invariavelmente servem para aqueles que mais tem. Um capitalismo de mãe para quem está na parte de cima, afinal você tem os lucros e sem os riscos. Fácil, extremamente fácil.

Vamos a alguns exemplos: se você for uma grande empresa, você pode simplesmente deixar de pagar impostos trabalhistas, tanto que há 426 bilhões de reais em dívidas de empresas e, pasmem, até órgão público entra nessa conta. A situação é meio surreal, no sentido que a empresa recolhe do trabalhador na fonte, mas não repassa para o pagamento.

Quer outro? O Governo do Estado do Rio que hoje não paga seus funcionários públicos, ofereceu isenções fiscais no valor de quase R$ 200 bilhões de reais. Mais uma vez, grande parte delas grandes empresas, com exceção de uma termas no sofisticado bairro da Lagoas e outra em Copacabana. Ou ainda a HStern, onde o governador comprava joias com certa regularidade. Por que será?

Outro ainda? Há atualmente 4,9 bilhões de reais em multas ambientais já constituídas, ou seja, não cabem recurso. Multas como a aplicada à Samarco pelo desastre que afetará gerações de ribeirinhos e o ecossistema brasileiro pelo menos por algumas décadas. Mas apenas 8,7% deste valor foram efetivamente pagos.

Isso sem falar das benesses do poder legislativo, judiciário, foro privilegiado, auxílios moradias, educação, caixa 1, 2, 3, anistias e uma infinidade de benesses com o nosso dinheiro. Mas em vez de continuar a redundância de comprovar que o Estado Brasileiro é um Robin Hood as avessas, lembrando ainda dos impostos, que atingem a classe média diretamente e os pobres de maneira indireta, via impostos nos produtos, e são benevolentes com os ricos, vamos retornar à pauta inicial, esta sim fundamental.

Afinal, para que serve o Estado Brasileiro?

O Estado brasileiro é tão ilegítimo que ele quer continuar cobrando todos os impostos de antes para um povo empobrecido, mas entregando para nós a mesma coisa: nada. Mesmo assim, aqueles que estão lá em cima no congresso, no judiciário e nas grandes empresas continuam querendo garantir o que restou para eles, e manter a conta para o resto. Se antes tinha um teatrinho institucional, agora nem mais isso.

Portanto, antes de termos um Estado mínimo, seria necessário, pasmem, ter um Estado. Quando teremos?

Bogado Lins é cientista social, escritor e roteirista

Barrosinho

José Carlos Barroso, o Barrosinho, foi um dos maiores expoentes do jazz brasileiro. Não aquele certinho, comportado, que muitas vezes vemos nas jam sessions supostamente sofisticadas, mas o arretado que vai do freestyle ao baião.

O primeiro contato que tive com ele foi no Mayo, hoje luthier e enteado do Tomaz Improta, tecladista que tocou com alguns dos maiores expoentes da MPB. Estava dormindo em sua casa, na Rua Monte Alegre, se não estou enganado, em um dos cômodos improvisados de estúdio que tinha umas almofadas confortáveis espalhadas no chão. Os músicos entraram e não se incomodaram com minha presença. Estavam em seu território, simples assim. Eu tampouco me incomodei com a deles. Inclui o seu repertório feito ao vivo no estado semi-desperto e assim permaneci até o final do ensaio. E foi lá que lembro de ter visto Barrosinho pela primeira vez.

Bem mais tarde, voltei a vê-lo na Lagoa acompanhando uma banda de jazz. A partir de então, não tive dúvidas, pegava minha bicicleta e pedalava até o local para poder acompanhar o Miles Brazuca periodicamente com seus solos divertidos de temas variados, que iam da música brasuca ao jazz americano. Ao frequentar as tímidas jam sessions da cidade, volta e meia encontrava com o expoente.

Barrosinho foi a primeira lembrança que tive quando ganhei do Alexandre Palma o livro Movimento Black Rio. Qual foi minha surpresa desvendar que o dito cujo movimento abrangia um universo muito maior do que a banda em si, que conhecia por meio da história do trompetistas e que pelas conjunturas e forças do universo, foi justamente o movimento que foi responsável por reuniu um naipe de músicos de primeira linha- a Banda Black Rio. Veja você, por uma verdadeira necessidade de um pungente mercado que se revelava sedento por novidades.

O livro em si apenas citava o músico, mas não desenvolveu sua trajetória, como fez por exemplo com Jamil e Oberdan, talvez por ambos terem tido papéis de liderança maior na big band dançante. E também pelo foco do relato, que buscava a experiência de massa que lotava clubes e casas de show para colocar as pessoas, muitas delas, para dançar. Inclusive, em pesquisa na internet, li que Barrosinho não gostava de se lembrar da experiência na época. Talvez seja algo próprio de sua personalidade, visto que não gostava de acompanhar outros músicos famosos e, pelo que é relatado, preferia projetos pessoais por ter maior liberdade de criação.

Talvez por essa veia autoral jazzística, foi convidado para realizar um show na famosa Montreux em 1988, meca do jazz internacional onde se apresentaram alguns dos maiores expoentes do gênero. Mais tarde, foi responsável pela criação da experiência musical Maracatamba. Muito mais que uma mistura do samba com o maracatu, o gênero se pretendia um terreno livre para experiências musicais, que 20 anos mais tarde derivou no seu último álbum, O Praça dos Músicos.

Engraçado que a leitura do livro tenha acendido a memória deste personagem, mesmo que mal tenha dedicado linhas para esse ícone do jazz carioca. Utilizo a lacuna do livro para meu próprio preenchimento. Se a música pop foi diretamente influenciada pelo movimento, o jazz brasileiro, ou ao menos o carioca, também teve sua gratidão ao movimento. E um desses expoentes, certamente, foi Barrosinho.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

 

16 tons de Black

O meu amigo Alexandre Palma me presenteou com um livro. Isso mesmo, aqueles de papel que deveriam ter desaparecido faz uns quinze anos. O mais engraçado é que não nos víamos fazia alguns meses, e antes do encontro derradeiro, datava ainda mais tempo. A ocasião e o regalo fez tirar a poeira do meu cérebro e começar uma leitura maior do que os usuais quatro, cinco parágrafos que nos chegam pela internet, carinhosamente apelidados de textão.

Sendo assim, debrucei-me por entre as cerca de 250 páginas para adentrar o universo do Black Rio, movimento que iniciou nos anos 60 e que deixou frutos até hoje para a cultura brasileira. Avancei um pouco mais da metade e já encontrei fôlego novamente para voltar a rascunhar minhas linhas depois de alguns meses em banho maria. Incrível!

O livro é um relato deste movimento que tive contato apenas de maneira residual, o Black Rio, que se iniciou nos subúrbios do Rio e com insistência ganhou o Brasil e a Zona Sul. Mas veja bem, essa perseverança não visava desfilar por Ipanema ou lotar os clubes aristocráticos da elite. Sua maior pretensão era encher casas de shows e colocar os blacks para dançar uma música, mais que isso, um estilo, que eles se reconheciam.

Não havia nada político no movimento, mas havia um orgulho que assustava. Os blacks – negros, pardos, mulatos, morenos e até brancos que por um motivo ou outro estavam no lugar certo, na hora certa – queriam celebrar o orgulho de ser negro, de ser suburbano, de ser o que eram.

Rapidamente o movimento ganhou a antipatia da classe média. Coincidentemente, tanto a direita, quanto a esquerda, se assustaram com o fenômeno e por motivos muito próximos, o rejeitaram. Ambos queriam que os negros se distanciassem da postura altiva e combativa dos negros norte americanos. Enquanto uma queria a unidade do Brasil, outra monopolizava o direito da revolução. Ainda estavam encantados com o discurso de Gylberto Freire a respeito da suposta miscigenação paz e amor brasileira.

Pouco a pouco, aquela sonoridade ganhou a todos. Conquistou os morenos, mulatos, mamelucos e até brancos das multicoloridas periferias e favelas, como meu amigo César, amigo branquelo cinquentenário de olho azul que cresceu no Morro do São Carlos e vivia lembrando de seus tempos de baile black. Expandiu-se a ponto de chegar nas elites, tanto por meio das pistas de dança, quanto das novelas e gravadoras, que disseminaram este estilo de vida. E mais uma vez, a Zona Sul teve que reconhecer que quem mandava naqueles palcos eram os negros.

A leitura rapidamente me fez relembrar o debate, agora adormecido, do turbante. Será que o Black Rio sofreu uma apropriação cultural? Quando o movimento ganhou as gravadoras e a admiração geral, coincidentemente, alguns dos maiores artistas do gênero se projetaram para o Brasil: Luiz Melodia, Jorge Ben e o hoje querido Tim Maia. Sem contar a banda Black Rio que teve até projeção internacional, que só não foi maior por conta de um boicote da gravadora, pressionada pela ditadura.

Muito mais que expoentes, creio que o mais importante é observar o quanto o orgulho de ser negro foi assimilado culturalmente. De tal forma que houveram avanços importantes em relação ao combate ao racismo. O que não significa obviamente que não seja necessário muito mais. A questão é que este orgulho não foi ampliado e inspirou ainda mais pessoas, foi porque não foi disseminado o suficiente. E é exatamente esse o ponto.

Quando James Brown cantava Say it out loud, era para ser ouvido. Quanto mais samba, jazz, hip hop, soul, funk e turbantes houver na sociedade, menos racismo haverá. Se uma criança dança hip hop, usa turbante e compra um boneco do Ray do Star Wars, muito provavelmente ela não seja racista.

O afastamento que se advoga em relação a alguns símbolos e discursos assemelha-se a um certo purismo que durante muito tempo buscou isolar manifestações culturais étnicas de influências externas. O esforço em conservar as coisas exatamente como elas são, ou supostamente deveriam ser, é o primeiro passo para o envelhecimento de uma arte. A vivacidade de uma cultura está justamente no seu compartilhamento e transformação. E a tão medonha indústria cultural é apenas um reflexo disso, justamente por visar o lucro, afinal se ela não chegar nas pessoas, não volta o dinheiro, simples assim.

Admiro que o movimento negro seja combativo. Certos privilégios não são concedidos sem lutas, afinal o privilegiado não costuma abrir mão facilmente dos mesmos. Mas certamente não é se fechando que se vai ganhar essa luta, mas se abrindo, para que cada vez mais inspire pessoas.

E a cultura, neste sentido, tem um papel fundamental de mais de 16 toneladas.

Get Up!

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana