Os Cinco Sentidos do Samba

Eu tenho um quadro de Nelson Sargento no meu quarto. É uma pintura despretensiosa de casebres de diferentes cores inclinadas em um morro. No fundo de um céu azul claro e nuvens esparsas, algumas aves sobrevoando na direção do vento compõem a cena.

Pode ser a Mangueira, mas também pode ser as outras 700 favelas da Cidade Maravilhosa. Talvez seja uma representação daquele exato momento que João Nogueira descreveu em uma de suas composições: “numa vasta extensão, onde não há plantação… e quando o primeiro começa os outros depressa procuram marcar seu pedacinho de terra para morar”. Quem sabe seja uma pintura sem geografia? Uma vila tranquila, um éden, naquele inexato instante que nunca existiu.

Curioso um quadro desse cair sob meus cuidados. Talvez seja fruto dessa minha admiração do samba que cresceu conforme amadurecia o meu amor pelo Rio. Naqueles idos anos 90 e início dos anos 2000, quando eu percorria a Lapa, Santa Tereza e as ruas da minha cidade em busca de amores e narrativas que perdurassem. Mas também tem a história prática. De como o samba, tantas vezes decretado à morte, ressurge em sua espontaneidade na casa de alguém.

Enquanto na Sapucaí os grandes desfiles viravam uma indústria, os sambistas tradicionais caíam gradativamente no ostracismo. Com exceção de alguns cantores que circulavam nas gravadoras e nas casas noturnas, o gênero musical mais puro e sincopado ia pouco a pouco perdendo relevância nas elites. Já nas camadas populares, prevalecia o pagode, um ritmo mais acelerado e com novos expoentes.

Foi nesse período, lá pelos anos 80 que Luiz Carlos, um amigo da família, foi contratado pela Funarte. Um dos projetos que participou, a Caravana Funarte, possibilitou a circulação de sambistas pelo interior do Brasil. Então, figuras que permaneciam no ostracismo voltaram a habitar os palcos brasileiros. Para um punhado deles, significou uma sobrevida financeira. Foi a partir daí que alguns desses senhores, incluso Nelson Sargento, começaram a se encontrar com Luiz. Como forma de gratidão, o sambista presenteou-o com algumas de suas pinturas, cujo maiores méritos era reproduzir essa simplicidade do olhar de quem vive o samba – um olhar naif, como diria os críticos de arte.

Entre paixões arrebatadoras e desilusões, Luiz vivia intensamente. Não raro, os amores custavam-lhe todas suas economias e o deixava tão sem recursos quanto os sambistas que auxiliava tempos de Funarte. No fundo, era naif. Por isso, pelo menos duas vezes em sua vida mudou-se para a casa do meu pai. Em uma delas, acabou deixando essa lembrança como forma de agradecer a acolhida. Eu rapidamente adotei-o para meu quarto e foi dos poucos objetos que levei comigo quando sai de casa rumo a São Paulo.

Já na nova cidade, pude conhecer a admiração pelo samba dos paulistas. Ainda que esteja longe de ser uma unanimidade e mais afeito a apreciação silenciosa, o amor paulistano pelo gênero é sincero, como uma admiração de um menino apaixonado. Conheci tudo isso há dez anos atrás por intermédio de duas personalidades do mundo editorial, Leonel e Isildo. Ao retornar das rodas de samba, o quadro permanecia como uma relíquia de contemplação. Acessava aquelas emoções que as rodas de samba cariocas me proporcionaram em um tempo que talvez nunca tenha existido.

Hoje, em pleno mundo digital, observo a resiliência do mais africano dos ritmos brasileiros. Enquanto o rock nacional agoniza em praça pública e a MPB perde sua capacidade de renovação, a tradição do ritmo é justamente o que o mantém vivo. Essa conjunção entre dança, fantasia, desfile, enredo, coletividade e todo um imaginário que o sustenta, acabou tornando-o mais forte e preparado para os novos tempos.

Por incrível que pareça, mesmo com todas as críticas, a Sapucaí fez mais bem do que mal ao gênero, no que diz respeito à sustentação do ritmo no coração do grande público. Mas certamente foram essas pequenas relíquias e penduricalhos que tornaram tão simbólico e emocional. Afinal, o que faz perdurar é justamente o que atinge simultaneamente esse universo individual na maior quantidade de pessoas possível. E o samba tem essa riqueza de elementos que se combinam em uma experiência completa. Desde o tato na dança, o paladar e o olfato da feijoada, e obviamente a audição desse ritmo que remonta às orações. 

Ou ainda, essa visão idílica de um amontoado de casebres numa comunidade fictícia em um dia de céu azul com pássaros voando ao fundo na direção do vento.Um sentido que se expande em emoções simples, que fazem sentido e são sobretudo inocentes, ou naif, como preferirem. Uma emoção autêntica.

Bogado Lins é escritor, roteirista e admirador de samba

Um Estado Mínimo que Seja

O Brasil está na beira do abismo e está prestes a dar um passo à frente. Talvez algumas pessoas discordem dos motivos, mas é um consenso que vivemos uma catástrofe. E a razão é uma só, o Estado. Se alguns acham que tem Estado demais, outros acham que tem de menos. O ponto que é pouco explorado, porém, é básico: o que ele entrega?

É necessário refletir sobre essa questão. Para que o Estado deveria servir? Bom, é consenso que ele deve prover condições para as pessoas viverem em sociedade. Alguns acham que ele tem que fazer mais que isso, mas todos concordam que ele deve entregar algumas condições mínimas. E quais são elas? Basicamente educação, saúde e segurança. Enquanto a educação permite em tese as pessoas terem igualdade de condições para buscarem sua vida, a saúde e a segurança permitiria a manutenção da vida e a validade dos contratos entre as pessoas.

Alguns podem achar que o Estado não precise ,ou não deva, entregar saúde e educação diretamente e até mesmo, vá lá a segurança, mas por meio de parcerias com a iniciativa privada. Ou mesmo garantir que elas entreguem isso, por meio de agências reguladoras, que estabelecem os critérios mínimos. Mas é fato que quando os liberais pensam o Estado, não citam países africanos, mas sim países como os Estados Unidos, onde a educação básica é garantida e a maior parte da população tem condições de manter planos de saúde. Isso quando não citam Suécia, Canadá e Austrália, que outros consideram ser exemplos de sociais democracias, e que sim, entregam diretamente para sua população saúde, educação e segurança, dentre outras coisas mais.

E o que o estado brasileiro entrega: nada. Dentro do escopo do Estado brasileiro está tudo lá, lindamente previsto e cobrado, porém os serviços que entregam são tão ruins que ninguém em sã consciência quer utilizá-los, a não ser que realmente não tenha opção. Vejamos, saúde? Quem pode contrata um plano de saúde particular. Educação? Quem pode coloca numa escola privada, mesmo ruim. Segurança? Hoje qualquer condomínio de classe média tem um aparato de proteção similar a uma base militar.

O que mais ou menos se mantinha era a previdência, o único serviço que o governo entregava para a população de forma mais ou menos satisfatória, ainda que com as distorções de sempre(aposentadoria militar, pensões, aposentadorias do serviço público, etc). Isso deve acabar em breve.

No entanto, assim como todos os serviços que são mal entregues, a previdência mantém todos os custos atuais para o contribuinte. Ou seja, nós contribuintes pagamos todos os serviços: saúde, educação, segurança, previdência e outros ainda. O que recebemos? O direito de pagar por tudo isso da iniciativa privada novamente, ou utilizar os subserviços que nos oferecem em troca, caso sejamos subcidadãos.

Mas o Estado tem gastos, sim tem. No entanto, nenhum deles é voltado para nós. Tem privilégios, desonerações, perdões, juros de títulos bilionários e uma infinidade de gastos que invariavelmente servem para aqueles que mais tem. Um capitalismo de mãe para quem está na parte de cima, afinal você tem os lucros e sem os riscos. Fácil, extremamente fácil.

Vamos a alguns exemplos: se você for uma grande empresa, você pode simplesmente deixar de pagar impostos trabalhistas, tanto que há 426 bilhões de reais em dívidas de empresas e, pasmem, até órgão público entra nessa conta. A situação é meio surreal, no sentido que a empresa recolhe do trabalhador na fonte, mas não repassa para o pagamento.

Quer outro? O Governo do Estado do Rio que hoje não paga seus funcionários públicos, ofereceu isenções fiscais no valor de quase R$ 200 bilhões de reais. Mais uma vez, grande parte delas grandes empresas, com exceção de uma termas no sofisticado bairro da Lagoas e outra em Copacabana. Ou ainda a HStern, onde o governador comprava joias com certa regularidade. Por que será?

Outro ainda? Há atualmente 4,9 bilhões de reais em multas ambientais já constituídas, ou seja, não cabem recurso. Multas como a aplicada à Samarco pelo desastre que afetará gerações de ribeirinhos e o ecossistema brasileiro pelo menos por algumas décadas. Mas apenas 8,7% deste valor foram efetivamente pagos.

Isso sem falar das benesses do poder legislativo, judiciário, foro privilegiado, auxílios moradias, educação, caixa 1, 2, 3, anistias e uma infinidade de benesses com o nosso dinheiro. Mas em vez de continuar a redundância de comprovar que o Estado Brasileiro é um Robin Hood as avessas, lembrando ainda dos impostos, que atingem a classe média diretamente e os pobres de maneira indireta, via impostos nos produtos, e são benevolentes com os ricos, vamos retornar à pauta inicial, esta sim fundamental.

Afinal, para que serve o Estado Brasileiro?

O Estado brasileiro é tão ilegítimo que ele quer continuar cobrando todos os impostos de antes para um povo empobrecido, mas entregando para nós a mesma coisa: nada. Mesmo assim, aqueles que estão lá em cima no congresso, no judiciário e nas grandes empresas continuam querendo garantir o que restou para eles, e manter a conta para o resto. Se antes tinha um teatrinho institucional, agora nem mais isso.

Portanto, antes de termos um Estado mínimo, seria necessário, pasmem, ter um Estado. Quando teremos?

Bogado Lins é cientista social, escritor e roteirista

Barrosinho

José Carlos Barroso, o Barrosinho, foi um dos maiores expoentes do jazz brasileiro. Não aquele certinho, comportado, que muitas vezes vemos nas jam sessions supostamente sofisticadas, mas o arretado que vai do freestyle ao baião.

O primeiro contato que tive com ele foi no Mayo, hoje luthier e enteado do Tomaz Improta, tecladista que tocou com alguns dos maiores expoentes da MPB. Estava dormindo em sua casa, na Rua Monte Alegre, se não estou enganado, em um dos cômodos improvisados de estúdio que tinha umas almofadas confortáveis espalhadas no chão. Os músicos entraram e não se incomodaram com minha presença. Estavam em seu território, simples assim. Eu tampouco me incomodei com a deles. Inclui o seu repertório feito ao vivo no estado semi-desperto e assim permaneci até o final do ensaio. E foi lá que lembro de ter visto Barrosinho pela primeira vez.

Bem mais tarde, voltei a vê-lo na Lagoa acompanhando uma banda de jazz. A partir de então, não tive dúvidas, pegava minha bicicleta e pedalava até o local para poder acompanhar o Miles Brazuca periodicamente com seus solos divertidos de temas variados, que iam da música brasuca ao jazz americano. Ao frequentar as tímidas jam sessions da cidade, volta e meia encontrava com o expoente.

Barrosinho foi a primeira lembrança que tive quando ganhei do Alexandre Palma o livro Movimento Black Rio. Qual foi minha surpresa desvendar que o dito cujo movimento abrangia um universo muito maior do que a banda em si, que conhecia por meio da história do trompetistas e que pelas conjunturas e forças do universo, foi justamente o movimento que foi responsável por reuniu um naipe de músicos de primeira linha- a Banda Black Rio. Veja você, por uma verdadeira necessidade de um pungente mercado que se revelava sedento por novidades.

O livro em si apenas citava o músico, mas não desenvolveu sua trajetória, como fez por exemplo com Jamil e Oberdan, talvez por ambos terem tido papéis de liderança maior na big band dançante. E também pelo foco do relato, que buscava a experiência de massa que lotava clubes e casas de show para colocar as pessoas, muitas delas, para dançar. Inclusive, em pesquisa na internet, li que Barrosinho não gostava de se lembrar da experiência na época. Talvez seja algo próprio de sua personalidade, visto que não gostava de acompanhar outros músicos famosos e, pelo que é relatado, preferia projetos pessoais por ter maior liberdade de criação.

Talvez por essa veia autoral jazzística, foi convidado para realizar um show na famosa Montreux em 1988, meca do jazz internacional onde se apresentaram alguns dos maiores expoentes do gênero. Mais tarde, foi responsável pela criação da experiência musical Maracatamba. Muito mais que uma mistura do samba com o maracatu, o gênero se pretendia um terreno livre para experiências musicais, que 20 anos mais tarde derivou no seu último álbum, O Praça dos Músicos.

Engraçado que a leitura do livro tenha acendido a memória deste personagem, mesmo que mal tenha dedicado linhas para esse ícone do jazz carioca. Utilizo a lacuna do livro para meu próprio preenchimento. Se a música pop foi diretamente influenciada pelo movimento, o jazz brasileiro, ou ao menos o carioca, também teve sua gratidão ao movimento. E um desses expoentes, certamente, foi Barrosinho.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

 

16 tons de Black

O meu amigo Alexandre Palma me presenteou com um livro. Isso mesmo, aqueles de papel que deveriam ter desaparecido faz uns quinze anos. O mais engraçado é que não nos víamos fazia alguns meses, e antes do encontro derradeiro, datava ainda mais tempo. A ocasião e o regalo fez tirar a poeira do meu cérebro e começar uma leitura maior do que os usuais quatro, cinco parágrafos que nos chegam pela internet, carinhosamente apelidados de textão.

Sendo assim, debrucei-me por entre as cerca de 250 páginas para adentrar o universo do Black Rio, movimento que iniciou nos anos 60 e que deixou frutos até hoje para a cultura brasileira. Avancei um pouco mais da metade e já encontrei fôlego novamente para voltar a rascunhar minhas linhas depois de alguns meses em banho maria. Incrível!

O livro é um relato deste movimento que tive contato apenas de maneira residual, o Black Rio, que se iniciou nos subúrbios do Rio e com insistência ganhou o Brasil e a Zona Sul. Mas veja bem, essa perseverança não visava desfilar por Ipanema ou lotar os clubes aristocráticos da elite. Sua maior pretensão era encher casas de shows e colocar os blacks para dançar uma música, mais que isso, um estilo, que eles se reconheciam.

Não havia nada político no movimento, mas havia um orgulho que assustava. Os blacks – negros, pardos, mulatos, morenos e até brancos que por um motivo ou outro estavam no lugar certo, na hora certa – queriam celebrar o orgulho de ser negro, de ser suburbano, de ser o que eram.

Rapidamente o movimento ganhou a antipatia da classe média. Coincidentemente, tanto a direita, quanto a esquerda, se assustaram com o fenômeno e por motivos muito próximos, o rejeitaram. Ambos queriam que os negros se distanciassem da postura altiva e combativa dos negros norte americanos. Enquanto uma queria a unidade do Brasil, outra monopolizava o direito da revolução. Ainda estavam encantados com o discurso de Gylberto Freire a respeito da suposta miscigenação paz e amor brasileira.

Pouco a pouco, aquela sonoridade ganhou a todos. Conquistou os morenos, mulatos, mamelucos e até brancos das multicoloridas periferias e favelas, como meu amigo César, amigo branquelo cinquentenário de olho azul que cresceu no Morro do São Carlos e vivia lembrando de seus tempos de baile black. Expandiu-se a ponto de chegar nas elites, tanto por meio das pistas de dança, quanto das novelas e gravadoras, que disseminaram este estilo de vida. E mais uma vez, a Zona Sul teve que reconhecer que quem mandava naqueles palcos eram os negros.

A leitura rapidamente me fez relembrar o debate, agora adormecido, do turbante. Será que o Black Rio sofreu uma apropriação cultural? Quando o movimento ganhou as gravadoras e a admiração geral, coincidentemente, alguns dos maiores artistas do gênero se projetaram para o Brasil: Luiz Melodia, Jorge Ben e o hoje querido Tim Maia. Sem contar a banda Black Rio que teve até projeção internacional, que só não foi maior por conta de um boicote da gravadora, pressionada pela ditadura.

Muito mais que expoentes, creio que o mais importante é observar o quanto o orgulho de ser negro foi assimilado culturalmente. De tal forma que houveram avanços importantes em relação ao combate ao racismo. O que não significa obviamente que não seja necessário muito mais. A questão é que este orgulho não foi ampliado e inspirou ainda mais pessoas, foi porque não foi disseminado o suficiente. E é exatamente esse o ponto.

Quando James Brown cantava Say it out loud, era para ser ouvido. Quanto mais samba, jazz, hip hop, soul, funk e turbantes houver na sociedade, menos racismo haverá. Se uma criança dança hip hop, usa turbante e compra um boneco do Ray do Star Wars, muito provavelmente ela não seja racista.

O afastamento que se advoga em relação a alguns símbolos e discursos assemelha-se a um certo purismo que durante muito tempo buscou isolar manifestações culturais étnicas de influências externas. O esforço em conservar as coisas exatamente como elas são, ou supostamente deveriam ser, é o primeiro passo para o envelhecimento de uma arte. A vivacidade de uma cultura está justamente no seu compartilhamento e transformação. E a tão medonha indústria cultural é apenas um reflexo disso, justamente por visar o lucro, afinal se ela não chegar nas pessoas, não volta o dinheiro, simples assim.

Admiro que o movimento negro seja combativo. Certos privilégios não são concedidos sem lutas, afinal o privilegiado não costuma abrir mão facilmente dos mesmos. Mas certamente não é se fechando que se vai ganhar essa luta, mas se abrindo, para que cada vez mais inspire pessoas.

E a cultura, neste sentido, tem um papel fundamental de mais de 16 toneladas.

Get Up!

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Heróis Possíveis

Vivemos em tempos difíceis, uma afirmação que seguramente é compartilhada por todos. São em momentos como esse que se inicia uma demanda por narrativas que façam as coisas valer a pena. Por isso mesmo, de uns tempos para cá, assistimos uma proliferação de heróis, principalmente a partir da piora vertiginosa do cenário recessivo.

Tivemos alguns destes personagens nos últimos anos, porém a divisão e anomia social não permitiram unanimidades. Isto sem contar as próprias contradições de alguns destes pseudo ídolos que, com o tempo, ficaram ainda mais evidentes. Sem dúvida, o melhor exemplo é o próprio Eduardo Cunha. Em um dia, o paladino do impeachment, no outro, preso por delitos muito superiores ao alegado no pleito. Hoje, é praticamente unânime que trata-se de um crápula.

Dentro desta realidade distópica que piora a cada dia, chama a atenção a comoção nacional a respeito do desastre do avião da Chapecoense. Obviamente, estamos diante da maior tragédia que já acometeu nosso futebol. E ponto. Os jogadores não morreram por uma causa, uma guerra, ou qualquer outro fator que possa sugerir tamanha comoção e reconhecimento por parte da mídia e da própria população.

Neste ponto, talvez já haja leitores furiosos. Que heresia! Não se trata(apenas) de elencar que há inúmeros outros fatos, ocorrendo aqui ou em outras partes do mundo, que merecem nossa comoção, assim como o desastre do time. Mas sobretudo entender o por quê do ocorrido. Por que nos emocionamos tanto? Por que eles se tornaram nossos heróis? A reflexão surgiu após questionar o meu choque referente a situação. Outro dia mesmo chorei ao ver uma homenagem ao time em um evento particular.

A primeira conclusão foi a própria natureza da notícia. Lembrando um recente artigo do André Forastieiri, trata-se de uma “notícia boa ”. E quando estamos falando de uma notícia boa, nos referimos de algo que move as redações e trend topics das redes sociais. E nem sempre, é bom lembrar, é uma boa notícia. Muitas vezes é o oposto disso. Uma notícia boa é necessariamente inesperada. Sua imprevisibilidade destoa das cerca de 60.000 mortes por violência no país, o que representaria mais de um avião destes por dia. Todo ano 60.000 pessoas são assassinadas, já morrer um time inteiro de futebol, isto é inédito e, portanto, inesperado.

Mas veja bem, esta reflexão visa negar racionalmente a comoção, a mesma que me impeliu a derramar rios de lágrimas mais de uma vez. De forma alguma explica o que ela causou. O intuito aqui é outro, compreender o por quê o fenômeno causou tamanho choque em todos nós. Qual seria o motivo?

Creio que o fenômeno nos aproximou de forma arrebatadora por uma questão de identidade. A Chapecoense, principalmente após o acidente, representou em nosso inconsciente o esforço diário que todos nós realizamos para viver em um mundo difícil. Vivia, e sobrevivia, em meio a gigantes numa competição que times como ele servem, de forma geral, como ativo de troca das divisões inferiores.

Algo porém foi preponderante, o seu sucesso. Sua ascensão em seis anos da Série D para a Série A, incluso a presença numa final de Sul Americana, é sem dúvida algo que trouxe um componente fundamental: o heroísmo. Com um orçamento muitas vezes menor das equipes de elite, conseguiu feitos que os elevaram no cenário do futebol atual. A final na segunda competição mais importante do continente foi a coroa desta trajetória surpreendente.

Mas o sucesso é apenas parte deste escopo. A tragédia e a outra. A inevitabilidade da vida, e da morte, trouxe para o episódio um componente dramático ainda mais relevante. O mesmo que serviu como matéria para os mitos fundadores. O herói que vence desafios mas, à revelia de suas conquistas, cai por vontade divina.

O paralelo ao nosso atual momento é inevitável. O desemprego, a queda de renda, a inflação e todas as dificuldades que, senão você, as pessoas ao seu redor, estão vivendo, trazem esta identificação ainda mais dolorosa e intensa. Aquele time que conseguiu vencer, mesmo neste cenário, perdeu para um inimigo muito maior: a inevitabilidade da vida.

Portanto, a Chapecoense tornou-se um símbolo poderoso. Este time de futebol não é nosso herói desejado. Sem dúvida o ideal seria alguém que nos salvasse e protegesse. Mas cada vez mais a desilusão tirou a legitimidade destes perfil. Cada vez mais, pelas frequentes desilusões, não acreditamos mais em heróis.

Este time simplesmente é nosso herói porque enfrentou as diversidades e perdeu para o inimigo maior, a inevitabilidade da vida. De alguma forma nos recorda simultaneamente a vitória e a derrota e, sobretudo, o nosso desejo de imortalidade.

Se eles não são nossos heróis desejados, são nossos heróis possíveis. Descansem em paz.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Paidecendo no Paraíso, esquina com a Topázio – O Pianista

Meu filho toca piano. O rebento hoje frequentemente faz apresentações e, entre um vídeo e outro, todos se emocionam ao vê-lo com esmero indo de uma nota para outra. Faz todo o ritual de subir ao palco, agradecer, tocar e agradecer de novo. Sem contar a camisa social que destaca-se no seu guarda roupa de camisetas comuns e peças rasgadas, mantidas sobretudo por um capricho pessoal. Sim, ele já tem os dele.

O esforço em garantir que faça aulas de música em parte foi meu, a outra da minha mulher que garante a frequência do moleque. Ao lembrar disso , considero a minha cota de egoísmo na ação. Não me entenda mal, é super bonito vê-lo tocar e acertar as notas no piano, oposto ao seu velho pai. Porém, o anseio de que aprendesse música desde cedo veio justamente de uma certa frustração minha de não conseguir fazer o mesmo.

Túnel do tempo: em idade anterior ao meu filho iniciar seu aprendizado, minha tia proibiu-me de tocar o seu piano de cauda. E desde então, os pianos viraram uma relíquia nobre e impalpável. Pouco mais tarde, na adolescência,  fiz uma tímida tentativa de aprender violão. O motivo não poderia ser mais banal, queria me destacar nas rodas e fazer sucesso com as meninas, a exemplo de alguns amigos. Mas a falta de disciplina me impediu de realmente avançar.  E, pouco tempo depois, lamentei minha displicência. Hoje, somo esta a minhas demais decepções: não ter um instrumento para chamar de meu. Mas a verdade é que, desde a proibição, nunca consegui contemplar um piano e entender-me como alguém capaz de dominá-lo. A imagem do instrumento acabou tornando-se algo superior a minha humilde pessoa. Mas por que não ele, por que não meu filho?

Sim, de alguma forma, projetamos nossas frustrações em nossos filhos. Não fui um pianista? Meu filho poderia muito bem sê-lo. Não era bom de luta quando criança? Coloca o menino no judô, kung fu, quem sabe no Jiu Jitsu também? Não fui muito afeito a computadores? Que tal pesquisar um curso de robótica? Não fui milionário e nem tive pai rico? Bom, isso eu realmente não posso ajudar muito, ainda.

Está certo que ele não é obrigado a tocar piano.  Calma gente, não sou um pai como o de Beethoven ou coisa parecida. Nossa tática foi suave, tentamos fazê-lo começar bem cedo com as aulas, antes de um eventual senso crítico despontar, ou  mesmo aquela preguiça que vai crescendo conforme vamos ficando mais velho. Até o momento, está dando certo. O moleque curte! Tanto que chorou copiosamente outro dia quando colocado sob a escolha entre o judô e o piano pelo orçamento em tempos de adaptação a crise.  Apesar de ter induzido a escolha no piano, acabei mantendo nos dois, afinal o seu choro me comoveu. Uma pena enorme que seu choro não fez o mesmo com o cheque especial, paciência. Como dizia minha falecida mãe; “$#%%$%?  $#%%$% e meio”.

De alguma forma, a continuidade da vida se desdobra de diferentes formas. Ele vai pouco a pouco tornando-se meu ídolo, chegando onde seu pai não esteve, por outro lado, vai imitando seu ancião, fazendo suas micro revoluções por onde passa.  Pois veja você, estava lá ele prestes a apresentar Asa Branca quando uma educadora percebe que o pequeno não porta a partitura. Sua professora tinha-lhe advertido a trazê-la, mas pelo tamanho da peça e pelo domínio do trecho, seria irrelevante. Mais que isso, talvez o atrapalhasse. De fato, comparando com outros colegas seus, percebia um certo nervosismo dos pequenos ao mirar o pergaminho defronte a eles, indagando-lhes a próxima nota.

Tenho que admitir, porém,  tremi em meu interior, será que o filhote iria me decepcionar? Sem dúvida, os alemães o culpariam caso não executasse a obra com maestria – by the way, eu contei que o colégio dele é alemão? Será que estava próximo dele pegar algum trauma irreversível como o meu de tornar o piano um item nobre, superior, absolutamente intocável? Foi então que a mágica aconteceu. Santiago subiu ao palco e tocou a música com destreza, com uma naturalidade como quem sempre o fizera. Palmas. E nada de partitura.

O ato talvez tivesse caído no esquecimento, caso não notasse que em sua última apresentação um fato curioso.  Não com ele exatamente, mas com seus colegas. Entre uma e outra apresentação, percebi que muitos não portavam a partitura desta vez. O fato havia provocado  uma mudança no colégio! Agora seus colegas poderiam optar, ou não, em tocar com as cifras. De fato, todos pareceram mais à vontade, sem a obrigação de mirar os próximos passos. Mais que isso, permitiu uma certa confiança na maior parte dos pianistas mirins.

E foi assim que dei-me conta que meu coração dispara quando olho para ele e me vejo, ainda mais do que quando choro vendo ele sendo aquilo que nunca fui .A infância é um pouco disso, uma projeção da criança que nunca fomos junto a um espelho do adulto que nos tornamos.

Bogado Lins é um músico frustrado, pai de filhos lindos e articulador do Literatura Cotidiana