Somos Todos Ridículos

Jorge era o nosso gaúcho preferido. Sua longa cabeleira contrastava com a entrada que revelava uma calvície em desenvolvimento. Como todo representante do sul, as pessoas diziam que o varão era macho, até mesmo debaixo de outro macho. Sim, os amigos de minha mãe faziam piadas, afinal ele era gaúcho. Frequentemente, na roda estava Isaías Isaac, um negro, homossexual e com um nome que poderia muito bem ser de um judeu. Ele costumava se designar frequentemente- me perdoem, ele é que dizia – pobre, preto, viado e judeu. O estereótipo perfeito para servir como assunto para os amigos de minha mãe que se reuniam para beber e falar besteiras. Enquanto ele, Isaías, ficava a caçoar o nosso bebedor de chimarrão de estimação. Eram os anos 90.

Por sua vez, Jorge adorava fazer piadas de argentinos. A rixa sulista com os vizinhos mais ao sul era coroada com diversas piadas que ridicularizavam os Hermanos por sua suposta, em alguns casos comprovada, arrogância e pedantismos. Minha quase prima argentina, filha da minha madrinha, Maria Eva, escutava e ria das anedotas. Mas Jorge não se restringia aos portenhos, também fazia piadas com homossexuais, ao lado do Isaías inclusive, e sua suposta vitima eram os Pelotenses.

A história tem uma explicação para o caso dos Pelotenses . Dizem que eles são chamados de viados porque eles dão o cu… Não, não, não, pelo amor de Deus, essa é apenas uma piada chula. A verdadeira é que, em outros tempos, os ricos fazendeiros de Pelotas enviavam seus filhos para estudar na Europa e, ao retornarem, traziam costumes refinados que frequentemente eram ridicularizados pelos locais. De alguma forma, a pecha pegou em todos os gaúchos que tinham essa fixação pela própria masculinidade. Caso semelhante ocorreu com os campineiros, que eram ricos fazendeiros de café. Mas isso é outra piada, digo, história.

A origem dos estereótipos ajudam a explicar a origem das chacotas e relativizá-las, mas apenas no seu aspecto mais superficial. O riso tem uma raiz mais profunda dentro da natureza humana. O hábito de rir de alguém por conta de seu pertencimento a um grupo social é algo próprio da essência do riso. Algo humano, demasiadamente humano.

Do que rimos? Essa foi a pergunta que intrigou muitos filósofos. Gaston Bachelard, o que parece ter melhor definido o trâmite, conceituou o risível como algo derivado da própria humanidade. Rimos de coisas, por assim dizer, humanas. Você, por exemplo, já riu de uma paisagem? Aposto que não. Mas se riu, algum dia, é porque identificou nela um olhar, um sorriso, algo humano. Assim como quando rimos de gatos e cachorros, estamos na verdade rindo de algo que nos lembra alguma humanidade qualquer.

Mas não é qualquer coisa humana que rimos. Mas de uma coisa em particular, algo que se ressalta, se projeta, se destaca, como em uma caricatura. E para descobrir o que é isso exatamente, temos que voltar ao instinto mais básico do riso e lembrar da cena cômica mais clichê mas que frequentemente sempre traz o escracho. Uma pessoa caindo, por exemplo. Porque rimos de sua desgraça? Simples, rimos do inadequado. O adequado seria essa mesma pessoa seguir seu rumo natural. Porém, ela caiu. Talvez estava bêbada, chateada, triste, mas isso não importa para o riso, a não ser, é claro, que seja uma razão ridícula para ele ter caído.

O que é inadequado? Tudo que dentro de uma comunidade, nosso de preferência, foi estabelecido que deveria ser de outra forma. Alguém, ou alguns, estabelecem que não deveríamos ser mãos de vaca, arrogantes, afeminados, chatos, burros por isso utilizamos esses estereótipos para denegrir as pessoas, ou grupos, que odiamos, e, muito provavelmente, tememos. Por isso, o riso ecoa tão bem em um grupo, é uma confirmação que você faz parte dele. O riso frequentemente representa uma afirmação para um e uma negação para outro.

Mas são apenas estereótipos e o poder, do estereótipo, é ser sem história. Quanto mais conhecemos a triste narrativa do porquê alguém fez algo ou sentimos como uma pessoa sofre simplesmente por ser o que ela é dentro de uma sociedade preconceituosa, o riso desaparece. A compaixão é inimiga do riso. O riso é social. É humano. É cruel. E por trás dele, ecoa o quão ridículo nós próprios somos, os autores.

E aí retornamos a piada. Será que ela tem lugar em uma sociedade plural e democrática? Talvez, dentro de uma maturidade de compreender os seus limites. E mais importante, o nosso lugar. Os tempos mudaram e nunca retornaremos àquele momento anterior. Muito bom que seja assim, mas o riso sempre existirá. Como utilizá-lo? A solução do palhaço é incrível. Rir de si mesmo é sempre uma forma de superação e aprendizado. Mas será a única?

Porque ríamos tanto da pessoa que amamos? Porque, no fundo, podíamos. Os estereótipos de nossos amigos são queridos, só os tornam ainda mais interessantes, amáveis e, por que não? Engraçados. No fundo, rir pode ser um desprendimento da seriedade da vida. Afinal, somos todos ridículos. E talvez reconhecer isso é que pode nos tornar ainda maiores.

Agradeço aos meus amigos por serem tão ridículos e me lembrarem, sempre, o quanto eu sou também.

Anúncios

Seja P um Pai

“Seja L um lobo, F uma floresta e P1, P2 e P3 três porquinhos arbitrários…” Dizem que assim que um matemático conta histórias infantis. Porém, essa é apenas uma afirmação falsa. Acredite, tenho conhecimento de causa. Ocorre que meu matemático preferido calha de ser meu pai. Nos poucos momentos clássicos de paternidade, tenho a vaga lembrança de ir com o último exemplar da Turma da Mônica e pedir para que ele lesse.

Tão logo me adentrei no universo da leitura, deixei a prática de lado. E meu pai pode ser o que ele é de melhor para mim: um matemático. Veja bem, continuei meus aprendizados com o patriarca. O hábito das caminhadas nos fins de semana foram cultivados com longas conversas sobre história, política, geografia e, claro, matemática.

Matemáticos pensam diferente de outros pais. Na verdade, pensam diferentes de outros seres humanos. Pensam? Não exatamente, raciocinam. Concatenam operações elevadas que tomam espaço no seu cotidiano, tanto que certas práticas corriqueiras tornam-se mais difíceis, tipo se vestir para o trabalho, por exemplo. Meu pai certa vez colocou um pijama para ir trabalhar e não percebeu. Detalhe: da minha mãe. Em algum momento foi alertado da excentricidade, o que ajudou a tornar o deslize uma lenda. Caso contrário, teria simplesmente caído no ostracismo da própria desatenção.

Uma das vantagens de ter pai matemático era ter aulas da matéria quando a água batia. Os conflitos, porém, eram eminentes. Imagina uma mente na fronteira do pensamento ensinando equação de segundo grau? “Para que eu vou usar equação de segundo grau?” e ele respondia: “Ora, para tudo! Para construir pontes, calcular o voo de aviões e até operações financeiras complexas.” Fiquei quieto. Mentira, eu esperneei e argumentei que para mim não serviria para nada. Uma das desvantagens de ter pai matemático era ter aulas da matéria quando a água batia.

Mas o que ficará para história de verdade? As continhas, essas que de um x e um y chegam num w, ou qualquer uma dessas letrinhas da sopa que formam grandes descobertas aparentemente inúteis para mentes simplórias como a minha, que sequer entendia o princípio de uma equação de segundo grau.

Certa vez ele estava empenhado em um de seus problemas, como se chama as grandes descobertas, mas não conseguia sair do lugar. Ficava indo e vindo numa equação eterna. Então, num sono repentino, deitou o lápis e o papel, e teve um sonho curioso. Estava em um rio navegando e de repente apareceu um jacaré vermelho. Olhou ressabiado para o bichano, enorme, então seguiu o seu curso. Caiu no sono do sono, que invariavelmente é acordar. No dia seguinte ficou pensando sobre o que o sonho poderia representar. Subitamente, eureca! Jacarés vermelhos não existem, logo o caminho do problema estava errado. Retornou a estaca zero e refez o caminho até chegar na solução viável.

O resultado? A vida não é exata como na matemática. Mas um pai vai ser sempre estar contido no conjunto dos pais. No caso do meu, estará sempre ao lado das aulas da matemática e do jacaré vermelho.

Feliz dia dos matemáticos… quero dizer, dos pais.

 

Pérola Negra

Lá no Morro de São Carlos, em plena Estácio, berço do samba, nasceu e viveu Luiz Carlos dos Santos. Seu pai, Oswaldo Melodia, Queria que ele fosse doutor. Por sorte, desobedeceu seu velho. A desobediência sem dúvida é um dos maiores motores da humanidade. Forte feito cobra coral.

Talvez fosse mais fácil se optasse pelos estudos, ou talvez não, mas o fato é que antes de ser conhecido pela melodia, foi tipografo, vendedor, caixeiro e, enfim, aqueles músicos que tocam em bares noturnos que mendigam um minuto de sua atenção. Somava as dificuldades de ser músico a de ser favelado e negro. Tente passar o que ele passou, usar as roupas que usou… uma pérola negra.

Luiz Carlos dos Santos viveu naquele tempo da emancipação da negritude. Veja bem, o samba foi uma das primeiras fronteiras culturais do orgulho negro no Brasil, mas os anos 60 trouxe um mundo inteiro de possibilidades, literalmente. Influenciado pelo movimento negro americano, nossos subúrbios e periferias ganharam muito mais que uma musicalidade, ganharam uma nova atitude. O negro poderia ser do samba sim, mas ele poderia ser mais que isso. No caso , poderia ser swing, melodia, rock, funk. Poderia ser gato.

Se fomos influenciados, também influenciamos, com o movimento Black Rio, mas sobretudo com essa tropicalidade que não se cansava em antropofagiar as influências externas e as recriar da forma que fossem. A música negra brasileira era, é, sempre foi, mundial. Mesmo, ou principalmente, aquela do Estácio.

Companheiro de alguns dos nomes mais proeminentes da música, na época popular, como Wally Salomão e Torquato Neto, lançou-se para o sucesso definitivamente nos anos 70. Seu estilo não era samba, não era rock, não era swing, mais uma mistura que não se circunscrevia a brasilidade, era mais que isso. Luiz não era um catalisador, era uma matriz de uma força descomunal. Transcendeu qualquer movimento, rótulo, gênero. Foi melodia. Sua obra vale quanto pesa. E se alcançou a perfeição logo de primeira, o resto foi sequencia, continuação, prolongamento.

Mais importante do que ele era, talvez seja o que causou. Quem me apresentou ao Melodia foi ela, minha mãe. Sempre ela. Dentre os sambas,  chorinhos e canções, lá estava Melodia a cantarolar na caixa de som. Mas o momento que Luiz Melodia despertou de vez em mim foi um pouco depois, na trilha do filme Como Nascem os Anjos. Em um final bruto e sem significado, a dramaticidade de Magrelinha nunca fez tanto sentido. Sim, o sonho continua, vem sempre de um dos lugares mais distantes terra dos gigantes Super Homens.

E eu, apenas mais um super carioca,assim que cheguei em São Paulo, lembro de um relato de uma conhecida que admirava o Ébano. Tanto que na sua primeira viagem ao Rio queria conhecer o Estácio. Qual foi sua surpresa quando chegou no local e deparou-se com… Estácio de Sá. Não conseguiu enxergar a tal beleza mortal que o bairro adquiria na sua música. Não tiro sua razão, o artista as vezes enxerga camadas da realidade que as demais pessoa não alcançam. Daí sua extrema importância.

Ano após anos, os artistas que marcaram nossa vida vão indo. Outros chegam. Mas os tempos são outros. Será que o pôr do sol vai renovar de novo o seu sorriso?

Bogado Lins é escritor, roteirista e admirador da melodia. 

Privilégio do Esquecimento

Eu sinto pena dos jovens hoje em dia. Pena? Compaixão, vamos ser mais brandos. Veja bem, são mais bem informados, mais livres, mais ricos, ou pelo menos tem mais brinquedos e, certamente,  mais conectados do que jamais fomos. Qualquer celular hoje tem uma câmera mais potente que a nossa analógica. E ligar virou tão trivial que todos preferem enviar mensagens. Enfim, se não aproveitarem ao menos essas módicas vantagens, perderão ainda mais.

Mas o que falta a eles é o que sobrava para nós. Nada de saudosismos bestas ou tradicionalismos ultrapassados. Estou falando de algo bem prático. Eles não tem mais privacidade. Ora, para que isso? Simples, na juventude temos que ter direito a errar, a cair, a se atrapalhar, a se apaixonar, a enlouquecer. Isso mesmo, quem foi adolescente e jovem entre os anos 90 e meados de 2000 sabe que teve a última oportunidade de fazer besteira da humanidade. Amém!

Quem erra é errante. Bebedeiras homéricas, caídas, subidas, aquela mulher que não era exatamente o que você queria e até, por que não? Pequenos vandalismos e atos ilícitos que já prescreveram por uma razão ou por outra. São essas aprendizagem por tentativa e erro que trazem alguns ensinamentos e um certo olhar que desvenda o mundo em camadas. É o que tem de mais próximo de uma verdadeira maturidade, aquela que combina a bagagem da experiência com a observação.

Tudo isso agora é passado. Bola para frente. Como diria Nietsche, o esquecimento é uma benção muito maior que a lembrança. Eu mesmo não canso de lembrar de me esquecer as burradas que fiz, algumas por causa de mulheres, outras por demais excessos. Como diria George Best, “metade do meu dinheiro gastei com mulheres e cervejas, e o resto eu desperdicei”. Lembro, por exemplo de ter ficado com uma mulher que me contou tantas mentiras, mentiras assim tão espetaculares, que logo, logo, depois de uns dez dias, percebi que mais que uma mentirosa, era uma alucinada. Mesmo assim, ainda fiquei com ela mais uns vinte dias. Pensar com as duas cabeças é o mesmo que não pensar com nenhuma.Eu era um típico jovem da geração 00.

Esse é apenas um exemplo, bem tímido na verdade. São tantas e tantas coisas para se contar que eu até esqueci, mas veja bem, porque tenho esse salvo conduto. Nasci em 82, faço parte dessa última geração que nasceu desconectada. Hoje, qualquer deslize é transmitido em tempo real para o mundo todo. Obviamente as bebedeiras, trepadas e alucinógenos são os primeiros perigos a virem à tona. Mas quem pensa que as besteiras se limitam a isso, tem muito mais. As vezes uma frase mal, ou pessimamente, colocada numa conversa ganharia uma repreensão momentânea e o autor seguiria em frente. Porém, estamos numa era onde não há espaço para erro. Um post pode rodar o mundo e te fazer famoso, só que ao contrário, em questão de segundos. Enquanto aquele que você queria que todo mundo visse, passou batido, não é mesmo? As piadas, então, famosas antigamente, procuram algum lugar onde não incomodem ninguém, ali entre o riso inteligente e o bocejo, enquanto o humor perde um pouco da sua essência, a maldade humana.

Os jovens continuam loucos, e sempre serão esse motor de transformação que irá transformar o mundo. Mas agora, eles transmitem sua própria loucura em tempo real e, o mais louco, na maior parte das vezes por vontade própria. Talvez sejam mais comedidos do que fomos, provavelmente aliás. E o que chega até nós é apenas aquilo que sobressaiu do trivial, como sempre. Sinto pena por eles não fazerem tudo que fazem, da forma que fazem, mas em particular. Mas quem sou eu para pensar alguma coisa? É a vez deles. E, ao que parece, simplesmente não conseguem ficar sozinhos.

No fundo nunca saberão o que perderam, porque nunca tiveram. A sensação que o mundo é apenas o que está a sua volta e que você, talvez, esteja apenas sozinho mesmo. Em resumo, privacidade.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Funk Universitário?

Outro dia um amigo convidou outro para ir a um show no Circo Voador: “Eu Amo Baile Funk Original”. Na lista de artistas incluía “Velha Guarda do Funk”, Mc Cacau, Ritmo da Favela, entre outros MCs. De repente, cerca de 30 anos depois do surgimento do ritmo, eis que decreta-se a nostalgia do funk original.

Nada de novo, ainda prosseguem as festas dos anos 80, Chitãozinho e Chororó viraram referências do sertanejo raiz e o pagode e axé daqueles idos tempos são lembrados com saudosismo. A única coisa que prossegue é que os ritmos universitários nunca se formam. Paciência.

Alguns vão relembrar que o samba já sofreu estigma e o tempo lhe tornou um ícone de nobreza, o jazz e o blues tomaram caminhos semelhantes lá fora. O rock nem se fala, hoje vive uma crise de identidade de paradoxalmente ser uma tradição em rebeldia.

Então será que vivemos este looping eterno entre a música dos cânones e do povo? Sim e não. O relativismo não pode permitir que não observemos a queda de qualidade da música popular. Se ela antes era o oxigênio que alimentava as inovações na música, hoje ela está mais para uma âncora que separa ainda mais o erudito do popular.

Mas o que será que mudou de lá para cá? Arrisco apontar alguns fenômenos que permitiram esse distanciamento. O primeiro foi o xeque mate que a música eletrônica deu na música. Algo muito semelhante que Duchamp fez quando expôs o sanitário em um museu. Após a música sair do ambiente do instrumento e chegar no eletrônico, ao mesmo tempo que ela expandiu ao infinito, ela se enclausurou no próprio redemoinho. O que poderia ter de novo depois?

Porém, isso é apenas parte do fenômeno, ou, mais precisamente, uma de suas causas, Afinal, junto com a popularização do fazer artístico, ocorreu a expansão do consumo digital da música. Além de acabar com a indústria fonográfica como a conhecemos, o consumo digital teve outro papel importante: acabou com a figura do curador. Hoje, não existe ninguém para nivelar a música, as artes, o jornalismo, a literatura. Mede-se a qualidade do conteúdo pelos cliques e o mecanismo para alcançá-los é tornar tudo o mais simples possível. Para cair no gosto popular, o produtor Max Martin criou até uma fórmula que, ao que tudo indica, deu certo. Criou inúmeros hits de sucesso da última década.

Como a liberdade acabou gerando ainda mais padronização? A resposta é simples: a quantidade imensa de músicas disponíveis a qualquer momento gerou uma necessidade ainda maior de consolidação. E, para isso, em um mundo com inúmeros canais, a compreensão deve ser facilitada ao máximo. Resumindo: quanto mais fácil, melhor. Melodias simplórias, batidas repetitivas e letras mais chicletes possível. Não precisam necessariamente passar nenhuma mensagem, mas se o fizerem, que seja a mais compreensível possível.

O Funk carioca foi o ritmo embrionário desse processo no Brasil. Foi lá, junto com o surgimento do sertanejo como o conhecíamos, que a popularização da música eletrônica e que a ausência de curadoria começou a tomar a forma que hoje se consolidou. E a tendência só cresceu de lá para cá, a ponto daquelas músicas, de gosto duvidoso, hoje parecerem verdadeiros clássicos.

Mas fiquem tranquilos, daqui a vinte anos, essas músicas de hoje serão os clássicos de amanhã.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Terra de Souza Paiol

Se você é forte, aconselho que venha para o Brasil. Aqui é o lugar dos fortes. Você vai se destacar, crescer e ser cada vez mais. É a sua natureza, correto?

Você é forte daqueles que bate de verdade? Aqui, no mano a mano, vence aquele que bate mais. Nada de Marlboro, estamos falando da terra do Souza Paiol. Quebra na porrada na rua e mata. Só cuidado para não ser preso. E para não ser preso, você precisa seguir a regra do jogo.

É importante jogar a regra do jogo, a do mais forte, no caso. Uma pessoa sozinha com toda a força do mundo aqui não vai triunfar. Porque alguns fracos aprenderam algo básico: tem que se associar para serem mais fortes. Daí nasceram alguns fracos bem fortes, muito. Porque estão cercados de gente forte para bater, se preciso.

O tempo fez tudo mais sofisticada. Na verdade, só a ameaça é suficiente. Por isso foram criados leis para não precisar nem chegar as vias de fato. Mas isso, claro, para quem é fraco. As leis são para os fracos. Os fortes de verdade não precisam seguir a lei. Os fortes conseguem tardar a lei, ou mesmo ignorá-la. Então, aqui no Brasil, você vai ter que aprender a estar do lado da lei, ou seja, do mais forte, para não sofrer suas consequências.

Há apenas um porém, quem chegou antes tem bastante vantagem sobre você. Tem gente que está há mais de 400 anos e criaram escrituras para se apropriar de terras, muros para separá-las e leis para protegê-las. Além disso, são muito simpáticos com seus conterrâneos. Como dizem, aos amigos tudo, aos inimigos à lei. Por isso, é importante ter aliados, e os certos. Aqueles que tem os atalhos para a lei e para a ordem. Os demais, são seus inimigos, sejam temporários, os fortes que disputam a chave do cofre, ou os permanentes, os que estão fora dos muros e das leis, os fracos.

Porém, à margem da lei, quem é mais forte sobrevive. Pelo menos quem está mais armado. Então, é importante estar armado para os lugares onde não existem leis. E, aqui, são muitos. As armas são para fazer valer as leis ou criá-las se você não estiver do lado delas. No fundo, se você estiver do lado de um, está do lado oposto do outro.

Dizem que os opostos se atraem, por isso as fronteiras as vezes são nebulosas. Quanto mais alto se chega na hierarquia mas os pontos de contatos se entrelaçam e se confundem. Quem está em cima, por vezes dialoga, circula e convive nos pontos de contato e por meio da linguagem que todo mundo entende: dinheiro.

A bem da verdade, a força que você precisa para chegar em cima não é apenas da sua. É necessário muitos ombros que aguentam para poder enxergar tudo. E o mais forte, seja de onde for, nem sempre é o mais forte, mas que reúne mais braços e ombros. Sim, os fortes daqui são bem ridículos de perto, velhos, flácidos, gordos, esqueléticos, esquisitos, mas tem a força das leis, dos muros e de gente forte que garante tudo como está.

Os fortes de verdade vencem apesar de tudo. São capas de revistas, heróis das olímpiadas, especialistas em informática, doutores da medicina ou do direito, gênios das ciências. Porém, numa terra onde os fortes daqui são na verdade fracos que tem pessoas fortes por trás delas, quem é forte de verdade não está entre iguais. Frequentemente procuram outros lugares onde estão entre os seus.

Aqui é a terra dos fortes, mas quem é forte de verdade, para que estar entre tantos fracos, não é mesmo?

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Histórias de forma a reformar formas

Hoje não vou tratar das reformas propostas pelo atual governo federal brasileiro, acho melhor discutir outras coisas talvez mais interessantes. Idade, velhice, atualização, que tal?

Aliás atualizando temas mais globais que a nossa politicalha tupiniquim (coitados dos tupiniquins, serem associados a cada coisa…), EUA é um país desenvolvido, obviamente, mas houve um preço a sua população. Além de ser talvez o exemplo mais consistente de liberalismo econômico em prática, seus trabalhadores vivem em condições que assustam boa parte os empregados daqui. Entre outras coisas, “os Estados Unidos são o único país desenvolvido que trata férias como um “presente” ao empregado, não como um direito. […] Isso significa que decisões sobre férias, ausências por doença ou feriados nacionais são negociados caso a caso entre empregador e empregado. O padrão de várias empresas americanas é dar de 5 a 15 dias de férias pagas por ano a seus trabalhadores, mas um estudo recente do instituto americano Center for Economic and Policy Research mostrou que um em cada quatro trabalhadores da iniciativa privada não recebem nenhum dia de férias pagas.” (Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/11/141112_vert_cap_ferias_dg Acesso em: 21/04/2017)

25% dos trabalhadores americanos sequer tiram férias. Desse modo é fácil imaginar porque vê-se em tantos filmes o medo em qualquer funcionário de tirar férias ou de faltar por motivo de doença. A insegurança sobre a manutenção de cargo ou função é tanta que as pessoas simplesmente evitam ausentar-se. Dessa forma, a manutenção do emprego passa a ser prioridade frente à saúde do indivíduo. (Deixo uma indicação, assista aos documentários de Michael Moore Where to invade next e SOS sicko.) Mas claro, eles são desenvolvidos e a saúde lá é para todos…

Por outro lado, há quem diga – inclusive o deputado Rogério Marinho do PSDB – que o problema da CLT brasileira é a data de nascimento antiga, ela estaria idosa e precisaria de uma reciclagem, afinal ela está desatualizada. Porém olha que coisa, EUA tem a sua lei que estabelece entre outras coisas o que se relatou acima, também chamada Ato de Padrões Justos de Trabalho, datada de 1938. Pois é, ela devia estar bem à frente de seu tempo! Ou servir muito bem aos mandatários daquele país. Aliás, a antiquada CLT tupiniquim é de 1943, sancionada em 1O de Maio por Getúlio Vargas. Ah nada como ter um “pai dos pobres”… É, só que Getúlio foi “mãe dos ricos” deixando os sindicatos sob controle, evitando greves e concedendo inúmeras facilidades a industriais.

Bom, já que se falou sobre o problema da antiguidade da CLT, que tal lembrarmos que acima da CLT existe a Constituição para preservar mínimas condições de vida em sociedade, muito além das relações de trabalho apenas. Ora, veja que coisa, a Constituição brasileira é de 1988, novíssima, e sempre afeita a mais uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional), entretanto, o código máximo daquele país – putz! vou falar de novo de EUA – é de 1787, um absurdo! Está pra lá de caduca de tão velha! Deve precisar urgentemente de uma modernização, “de um salto para o século XXI”! Como pode ser desenvolvido?!

Falando em caducar, e se falarmos dos códigos de conduta estabelecidos pelas mais populares religiões do planeta? Muita coisa, né? Ok, vamos pegar as principais dos EUA – ai, de novo! Pois é, lá mais de 70% da população (Fonte: https://estadosunidosbrasil.com.br/perguntas-frequentes/religiao-nos-estados-unidos/ Acesso em 25/04/2017) é formada por cristãos em sua maioria protestantes. E mais uma vez temos nesse país regras para lá de antigas ainda em vigor e seguidas por uma parcela considerável do povo, visto que qualquer religião baliza de algum modo a vida de seus fiéis. Sim, Calvino, Lutero, Henrique VIII, viveram há pouco tempo, uns 500 anos!

Sem contar que ainda temos um outro, de quem protestantes reformularam as ideias, regras, e tudo mais, um tal de Jesus. E este tem só uns 2 mil anos. É isso, os protestantes viram que precisavam reformar os preceitos de Jesus provavelmente para dar uma atualizada na coisa, afinal o Novo Testamento já fazia mais de milênio. Se levarmos em consideração, por exemplo, os dez mandamentos, deveremos considera-los “leis fósseis”. É, faz sentido, “não matarás” não cabe muito bem aos EUA… No entanto, os tais mandamentos ainda encontram seguidores – talvez não dos dez – em corpulento contingente aqui e lá “na terra das oportunidades”. Se bem que “não matarás” também não cabe muito bem aqui…

Estou começando a achar a CLT não muito antiga…

Estou começando a achar que coisas velhas e atuais são relativas…

Por essas razões, certamente não é mal copiando o modelo dos EUA que o Brasil se tornará desenvolvido. Fazer isso seguindo aquele país é desconsiderar algumas relações de trabalho como as expostas aqui e muito mais, é ignorar suas guerras, seus desastres ambientais, sua história.

Ninguém pode viver a vida do outro, então o que serve para uns não necessariamente serve a outros. Simples assim!

Paulo Roberto Laubé