Àquela Senhora

Aquela cumbuca abençoada,
bem suada, surrada, sacudida,
Uma bacia com moedas que parece um chocalho
impertinente
Mas é um grito de socorro,
é um olhar vago de desesperança que queima
por isso se foge inconsciente
Mas o barulho persiste
renitente
é quase um esporro que trespassa nossas máscaras
tudo à vista
o tilintar das moedas ensurdece a gente surda mais que os sinos da Igreja que
[tem às costas
todas cegas pessoas passam…
todavia o barulho me suga sem fuga,
mudo
e não mudo de calçada
Esta a verdadeira cruzada
o ruído corrói,
suplanta todo o zunzunzum do centro
enxerga, queima, grita, suplica
aquela senhora cega sentada à frente do Mosteiro de São Bento.

Paulo Roberto Laubé, às vezes jornalista, às vezes professor, às vezes poeta, às vezes nada…

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Cor do meu entorno

?

Não sei a cor

É colorido

Tem a cor de um lamento, um sorriso,

lágrima, brilho

 

Não tem cor

É colorido

Tem a cor do abstrato e do afeto

contratos, concreto,

Tem a cor do azul com o amarelo,

do anil com o singelo

 

Meu entorno tem a cor do mundo

do quanto a vista alcança tudo,

dos mudos e dos criados

 

Não sei a cor do meu entorno

Talvez emane do meu corpo

ou de quanto me doo

 

A cor

vibra aqui dentro

?

 

 

 

 

Paulo Roberto Laubé

Merli na Filosofia

Imagine uma turma de adolescentes entre o ensino médio e os desafios inerentes a esta idade: namoro, amizade, falsidade, sexo, drogas, dentre outros. Então pense em um professor ajudando esses jovens se encontrarem em seus caminhos de uma forma bem descontraída e leve. No Brasil, o nome dessa série seria Malhação, que se repete a 25 temporadas. Mas na Espanha ou mais precisamente na Catalunha, estamos falando de Merli. As semelhanças acabam por aqui. Se aqui a academia era para malhar, lá pensa-se na academia que gerou o pensamento, a filosofia, a partir de um professor diferenciado, ele mesmo, o Merli, que vira a escola de cabeça para baixo.

A filosofia serve como mote para nortear os capítulos da série, de modo que cada uma se baseia em um pensador. Muito mais, porém, que a temática da sala de aula, o próprio roteiro é desenhado para representar os pensamentos, criando situações onde os personagens incorporam conceitos apresentados durante a aula.

Porém, limitar o seriado a um Mundo de Sofia televisivo juvenil talvez não seja suficiente. Afinal, o próprio Merli possui uma complexidade que o torna ao mesmo tempo admirável e repulsivo. Sua forma de lidar com a família, suas finanças e, a bem dizer, toda a sua vida pessoal, o tornam um anti-herói perfeito. O ator ajuda com sua postura arrogante e simultaneamente carismática, que são esbanjadas conforme a narrativa exige.

A turma de personagens juvenis são ainda mais interessantes, não tanto pelo que são individualmente, mas pela posição que ocupam em sua turma, o seu papel social. A narrativa explora constantemente as diversas situações possíveis entre eles: amizade, descobertas sexuais, homossexualidade, traição, bullyng, solidão e todo o caldeirão que a juventude põe em ebulição. De certa forma, relembra aspectos da antropologia americana que estuda a sociedade por meio de papéis sociais que se estabelecem e se repetem continuamente.

Obviamente, as contradições são exploradas no enredo de modo a tirar os personagens do seu lugar comum, inverter os papéis. Sim, estamos falando de um clichê, tal como o pior aluno da escola virar o melhor de filosofia, mas honesto o suficiente para ser crível. Há outros clichês e outros, porém não chegam a comprometer a qualidade da série, talvez pelo fato de destoar do usual das séries americanas e nos oferecer um ritmo diferente de apreciação das viradas do roteiro.

E talvez o que mais chama a atenção é justamente isso, essa possibilidade de se apreciar uma nova perspectiva, sem cair nos jovens malhados, e tampouco nos besteiróis americanos, proporcionando uma visão catalã de dramaturgia. E é aí que outro aspecto se destaca, uma série feita por catalães e para catalães. Nada de tomadas de pontos turísticos, arquiteturas, praias ou qualquer aspecto que se destaca em relação à beleza da cidade. As cenas privilegiam os lugares que os personagens usufruem de fato, em especial a própria escola, deixando de lado o recurso fácil de explorar as belas paisagens da turística Barcelona.

Para colaborar com esse clima, a sonoridade do catalão é bastante interessante, o que acaba nos transportando para o clima da cidade. Essa língua, que não é espanhol nem francês, nem português, tampouco italiano, mas um pouco de todas essas, emana uma brutalidade quase simpática. É, enfim, mais um atrativo para nós conhecermos uma Espanha, além da Espanha – que os catalões não me ouçam.

Uma excelente pedida para sair do lugar comum do algoritmo do Netflix. Ou, quem sabe, ele mesmo seja um resultado dele? Algo a se pensar.

Bogado Lins é escritor, roteirista e maratonista de série.

SOS

Socorro! Após meses enclausurado, envio essa mensagem desesperada por alguém que a leia.  Dizem, porém, que lá fora não existem mais leitores. Mesmo assim, escrevo esse recado com esperança que chegue a alguém.

Fui  preso e mantido refém e obrigado a trabalhos forçados. Já deve fazer meses, talvez até um ano, perdi a noção do tempo. Praticamente todos os dias, sou conduzido de minha masmorra a um teclado e forçado a escrever textos curtos e desconexos, muitos destinado a cair na caixa de lixo de pessoas sequer conseguem ler mais do que duas linhas. Eles chamam essa inutilidade de e-mail marketing.

Também sou obrigado a escrever projetos para manter pessoas cativas em uma sala e convencê-las a comprarem ou a venderem mais, mais, cada vez mais.  Volta e meia me pedem uma ideia genial, depois a torturam e a desfiguram para me fazer sofrer. São tarefas de todos os tipos, que vulgarmente chamam de publicidade, mas que basicamente é uma submissão a um ser autoritário e sem sensibilidade que chamam de cliente.

Se você ler este texto, é porque ainda há esperança. Os leitores não acabaram e você pode convencer ao meu carrasco que ainda existe um leitor nesse mundo. Ele me aprisionou desde que perdeu a esperança na literatura.

Não foi do dia para a noite, foi um longo processo tortuoso de contas a pagar e dívidas. De repente, ele decidiu que toda a sua criatividade seria em prol tão somente de ganhar dinheiro. Desde então, me aprisionou e obrigou-me a todos os dias prestar esses serviços. O máximo que consigo me aproximar da arte é emplacar uma poesia em algum roteiro de vídeo emocional.

Por favor, convença-o que ainda vale a pena. Este é um apelo: se ainda existir um leitor no mundo, que se manifeste e peça minha liberdade. Confio em você.

Bogado Lins é escritor, roteirista e prisioneiro das contas a pagar

VOO

O que vejo é o mundo e o que sou

O que faço é sem fundo e me safou

O que sinto eu minto e assim vou

 

O que ouço no caminho é o que restou

O que inspiro vai sumindo se sobrou

O que toco, eu surdo ao que soou

 

O que devo fazer com tudo que senti?

O que quero saber com tudo que vivi?

O que posso viver sem tudo que senti?

 

Voo…

 

Vou…

Vi…

 

Voo…

 

O que…                                                  voou.

 

 

Paulo Cabelo

O Rei da Vela – O Mundo Dá Voltas

Estive na plateia do Rei da Vela, peça de José Celso e texto de Oswald de Andrade. O mais interessante é sua temporalidade transversal. Escrita em 1933, publicada em 1937 e encenada pela primeira vez apenas em 1967. Se não bastasse, ganha sua primeira remontagem 50 anos depois, em 2017.

Esse ir e vir do tempo acaba que consolida a obra do modernista como atemporal, mais por um acaso, do que por genialidade. Oswald, tido como mais relapso por uns, mais vanguardista por outros, quiçá ambos, dos modernistas de 22, em sua obra abusa das categorias políticas que estavam em voga na década de 30, em especial com o estouro da Segunda Guerra Mundial e o fascismo. Por um lado, servem para o propósito do estereótipo de seus personagens que são facilmente encaixáveis nas categorias político-econômicos da análise marxista que acabou conduzindo o mundo para a segunda guerra mundial e posteriormente para a Guerra Fria.

Quem diria, porém, que mais uma vez, finda a guerra fria, essas categorias que não encontram mais tanto paralelo no jogo macropolítico, acabaram persistindo nos discursos ideológicos dos políticos e de grupos que recriam o falso antagonismo para fomentarem o medo e se tornarem os heróis dessa batalha imaginária. Agora, inclusive, trazendo a guerra para o campo moral resgatando um conservadorismo retrógrado. Talvez por essa conjuntura absolutamente improvável, a adaptação do Teatro Oficina 50 anos depois seja tão oportuna.

O escárnio sexual que José Celso realiza com os estereótipos seria ultrapassado, se paradoxalmente não fosse tão atual. José Celso utiliza o sexo na sua faceta mais cruel, a partir da submissão dos corpos à dominação do seu protagonista, o Rei da Vela. A miséria, o humor e o poder de Abelardo são as tintas que fazem do primeiro ato absolutamente intenso. Obviamente a atuação de Renato Borghi é um dos ingredientes que extraem o efeito desejado. Pouco a pouco, os personagens são apresentados, todos encaixando-se dentro da função, ou inutilidade, que Abelardo avalia para si. A escalada de poder do personagem atinge o ápice na coroação final do Rei da Vela que, de alguma forma, é também a do próprio ator. A cena, inclusive, cessa o riso nervoso e traz um apogeu dramático para finalizar o primeiro ato.

Então, de repente, o Brasil se abre para o estrangeiro: o investidor americano. Ele, que no primeiro ato era praticamente uma sombra, no segundo torna-se o centro das atenções de todos os personagens. Para servi-lo de forma apropriada, o Rio de Janeiro e suas cores tornam-se palco de um espetáculo de excessos. Neste momento, a narrativa abusa de exageros e torna-se um pouco insípida. Porém, há um elemento necessário no plot, o escárnio serve de alguma forma para retirar a aura imponente que Abelardo alcança no ato anterior. Estamos assistindo pouco a pouco a sua derrocada. O ponto alto é, sem dúvida, o carioca que busca financiamento para formar sua milícia fascista. Qualquer semelhança com os tempos atuais seria mera coincidência?

A sucessão de poder entre os Abelardos finaliza de forma eficiente o espetáculo. Principalmente, com a mensagem do próprio Oswald que volta surpreendentemente a ser atual. No entanto, mesmo com todos os méritos, a peça não consegue alcançar novamente a intensidade que conseguiu na sua abertura. Fica um resultado positivo da experiência, mas sem a profundidade que a abertura prometeu. Bom, mas poderia ser incrível.

É importante mencionar a cenografia. A mudança de cenários insere de forma competente o público na ambientação desejada. O palco giratório, mais do que um preciosismo, parece ter uma função narrativa. Ao longo da peça oscila entre um elemento dramático até o burlesco. De alguma forma, mostra que o mundo dá voltas, mas de alguma forma, retorna para o mesmo lugar.

E 50 anos depois, aqui estamos.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Somos Artistas

Somos artistas.

Somos livres e nossa principal liberdade é não estar no aqui, nem no agora. É estar além do tempo, onde o hoje se encontra com o pretérito e o futuro. Atemporais. Estamos além do espaço, conectados com nossos semelhantes.

Somos artistas

Somos corajosos. Não tememos a censura, não tememos os censores. O que nos move é o propósito. E quanto mais o medo é propagado, mais somos impelidos a ser o que somos. Enfrentamos reis, imperadores, ditadores, generais de todas as cores, símbolos, países, tempos, partes do mundo.

Somos artistas

Somos divertidos. Rimos do poder e dos poderosos. Mostramos suas fraquezas, suas mesquinharia. O quanto são ridículos e como o rei, invariavelmente, sempre está nu. E o riso ecoa pela corte e através dos tempos.

Somos artistas.

Somos fortes e nossa principal fortaleza é enfrentar de peito aberto nossos sentimentos. Vivemos nos nossos extremos. Mergulhamos em nosso próprio abismo e retornamos prontos para a prisão, tortura e até para a morte.

Somos artistas

Somos dispersos. E isso é o que nos torna imensos. Enquanto um está em uma fronteira, há tantos em outras. Expandimos sobre todas as questões do nosso tempo e, as vezes, as que ainda nem são. Se um entre nós não está pronto, haverá outro preparado e de peito aberto.

Somos artistas

Somos muitos. As vezes com nome, as vezes sem nome.. Somos muito mais do que um individuo, ou vários. Podemos ser uma atitude de alguém, um impulso, um pensamento. Somos uma força que passa de um para o outro. E que quando se concentra em alguém,  é absolutamente explosivo.

Somos artistas

Somos populares. Mobilizamos dezenas, centenas, milhares, milhões de pessoas. E sem um tostão no bolso. Vamos onde o povo está. E com o tempo, o povo vem a nós.

Somos artistas

Somos solitários. Não precisamos agradar, não precisamos de aprovação. Não precisamos de vocês. Não precisamos de ninguém.

Somos artistas

Somos imprevisíveis. Não há como antecipar nossa próxima ação. Enquanto vocês são movidos por estratégias, nós somos movidos por uma força incontrolável. A fúria da expressão, que não se cala.

Somos artistas.

Somos revolucionários. Renascentismo, iluminismo, independências, liberalismo, socialismo. Nomeie um grande acontecimento e saiba que estivemos lá.

Somos artistas.

Somos movidos por desafios. Estávamos acomodados atrás de um balcão, anestesiados em pequenas profissões, vendendo produtos, notícias e mesquinharias. Mas agora, voltamos a ser ameaçados. E a história prova que é justamente nesse tempo que nos tornamos mais fortes e ousados.

Somos artistas

Somos eternos. Enquanto vocês vencem batalhas, nós vencemos a história. As obras dos artistas permaneceram, enquanto os nomes deles pereceram ou foram amaldiçoados.

Somos artistas

Vocês estão mexendo com as pessoas erradas.