Um Passo da Morte

A vida é absolutamente frágil. Algum tempo atrás – não sei precisar ao certo, porque até o tempo fica relativo – senti a morte por perto. Difícil explicar a sensação.

De repente, cada momento passa a valer a pena. Você observa toda a sua vida em um flash: parentes, amigos, amores se sucedem em camadas de existência e tudo parece pequeno. Lembranças da tenra infância, como eu na praia com meu avô, meu pai lendo uma revistinha da Turma da Mônica, minha mãe em uma roda de chorinho com amigos, eu pegando o ônibus para escola, o primeiro dia de aula no Pedro II, o primeiro baseado, o primeiro beijo, a primeira vez. As memórias aplacavam as dores da enfermidade.

Não avisei familiares, desejava manter distância de lamentos. Não queria choro, nem vela, caso realmente viesse a deixar esse mundo para um melhor. Talvez, quem sabe, uma fita amarela. Foram longos dias de sofrimento e estava pronto a deixar tudo para trás.

Por sorte, deixo meus registros nos livros, nos filhos e nos jardins que enriqueceram com sementes da minha mão. Minha raízes se espalharam pela existência. Deixo um legado para quem fica, principalmente pelo potencial dos meus filhos, já que o tempo não permitiu-me mudar o mundo.

Você acredita em milagres? Eu acredito, afinal aconteceu comigo e faço um breve relato. Mesmo com todas as chances contra, a sorte sorriu para mim. Sim, o furúnculo finalmente após longas semanas estourou, drenou, diminuiu, cicatrizou e pouco a pouco voltei a ter uma vida normal. Obrigado Deus, Alá, Jeová, Shiva, Buda e demais crenças que adquiri ao longo da enfermidade. A vida vale a pena se a alma não é pequena.

OBS: perdoe as leitoras mulheres, geralmente insensíveis as dores. Elas nunca entenderão. Só sentem dor semelhante a uma gripe de um homem quando dão a luz.

Bogado Lins é escritor, roteirista e a sorte lhe sorri

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Impressões da Liberdade

Toulose Latrec é considerado impressionista, mas isso é apenas uma denominação simplista. Ainda que o termo tenha sido de fato utilizado entre eles, trata-se mais de características em comum que levaram a certos pintores serem considerados, ou não, como tais.

Tudo tem a ver com o advento da fotografia. Agora não fazia mais sentido retratar as cenas padrões. As famílias abastadas agora recorreriam as reproduções fiéis dos fotógrafos. Por isso, os pintores tiveram um novo desafio, precisavam retratar algo a mais, um sentimento, uma emoção, um olhar. Quem sabe uma cena nova? Além do traço, uma das características marcantes do movimento foi sair do lugar comum. Como? Ao invés de retratar as coisas como elas eram, procurou-se novas perspectivas, pessoas, paisagens.

Foi então que os bordeis de Paris, pela primeira vez, viraram temas de arte. Na obra de Toulose-Latrec foram particularmente um tema recorrente, ainda que não tenha sido o único. Ocorre que o pintor era frequentador do submundo de Paris. Talvez pelo fato de ter adquirido uma doença que o tornou praticamente um anão. Quiçá porque Montmatre reunia esses dois universos harmoniosamente.

Mas essa audácia inicialmente chocou a alta sociedade. Feria os cânones da arte expor prostitutas – ohhh inclusive nuas – pessoas comuns ou mesmo paisagens sem propósitos. E por isso mesmo um dos maiores “consumidores” dessa nova expressão artística foram americanos. Talvez por uma liberdade absoluta, por uma visão além do tempo ou ainda por uma “ignorância” abençoada, os galeristas americanos admiravam àquelas pinturas. E por isso, boa parte das obras impressionistas se encontram por lá em museus espalhados de leste a oeste, inclusive algumas da própria exposição do Toulose-Latrec exibida no MASP até o dia primeiro de outubro.

É bom lembrar, algo que o francês Tocqueville explorou em sua obra, os Estados Unidos eram sem dúvida no Século XIX o lugar mais livre do mundo. Essa liberdade é que foi a principal inspiração alguns anos antes para a independência dos 13 estados e, em última instância, do liberalismo americano. Nele, a liberdade do indivíduo é levada a sério, tanto que o termo liberal lá designa uma pessoa que, em última instância, apoia a liberdade. Uma pessoa de esquerda, enfim, no espectro político americano.

Foi exatamente nesse ambiente que surgiu grandes revoluções dos costumes, até mesmo, veja você, inspirando as revoluções europeias, como a própria Revolução Francesa que foi amplamente inspirada pela independência e os pais fundadores daquele país. Coincidência ou não, a França e Estados Unidos são co-irmãos na criação dos valores mais caros do liberalismo.

Ainda que hoje em dia o espectro político europeu pareça mais alinhado à liberdade, todas essas inovações do espaço urbano e comunitário foram muitas vezes inspiradas em teorias e práticas surgidas nos Estados Unidos. Grande parte dos movimentos sociais de trabalhadores, feminismo, gay, negro, foram iniciados nos Estados Unidos e pela razão mais óbvia de todas: liberdade. Por outro lado, os Estados Unidos é um lugar bipolar. Ao mesmo tempo que esbanja liberdade, antagonicamente contam com um conservadorismo quase arcaico. Justamente ele que, de tempos em tempos, traz das profundezas da dialética do mundo figuras como Trump.

Porém, não é o conservadorismo americano que inspira admiração ao mundo e construiu o soft power americano. É essa liberdade, liberalismo enfim, é o que inspira gente no mundo inteiro. E também, supostamente, inspira o grupo que protestou contra a exposição do Santander Cultural Queermuseu. De alguma forma, porém, esse monstro metamorfoseado tupiniquim esquizofrênico consegue reunir as duas faces sem qualquer remorso.

Engraçado que um movimento que busca um Brasil “livre” boicote uma exposição de arte. Ainda mais quando ele se advoga como representante do liberalismo. A maior liberdade está no campo da arte, a mesma que possibilitou a divulgação e a ascensão da liberdade de comércio. Muitas vezes explorando contradições, conflitos e adversidades, como os impressionistas, por exemplo, admirados pelos americanos do século XIX. Sabemos, porém, que a razão do escandâlo não é moral, mas política. É bom lembrar que a maior parte da moral na política, senão toda, é utilizada por razões políticas e não morais. Estão sempre em busca de um assunto para aparecer e detratar os seus adversários.

Creio que devemos sempre defender o direito de um movimento de boicotar o que ele quiser. Faz parte do jogo, e o argumento nem é novo, foi amplamente explorado nos últimos dias por outras pessoas. Mas talvez seja igualmente importante denunciar que essa liberdade que o dito movimento busca é pobre, rasa e insuficiente e cada vez mais fica claro que não é por ignorância o desvio, mas por má-fé.

Liberdade só para o dinheiro, e muito possivelmente só para quem o tenha, não vale de nada. Afinal, a liberdade americana é co-irmã da igualdade e da fraternidade francesas.

Bogado Lins é escritor, roteirista e amante da liberdade

Somos Todos Ridículos

Jorge era o nosso gaúcho preferido. Sua longa cabeleira contrastava com a entrada que revelava uma calvície em desenvolvimento. Como todo representante do sul, as pessoas diziam que o varão era macho, até mesmo debaixo de outro macho. Sim, os amigos de minha mãe faziam piadas, afinal ele era gaúcho. Frequentemente, na roda estava Isaías Isaac, um negro, homossexual e com um nome que poderia muito bem ser de um judeu. Ele costumava se designar frequentemente- me perdoem, ele é que dizia – pobre, preto, viado e judeu. O estereótipo perfeito para servir como assunto para os amigos de minha mãe que se reuniam para beber e falar besteiras. Enquanto ele, Isaías, ficava a caçoar o nosso bebedor de chimarrão de estimação. Eram os anos 90.

Por sua vez, Jorge adorava fazer piadas de argentinos. A rixa sulista com os vizinhos mais ao sul era coroada com diversas piadas que ridicularizavam os Hermanos por sua suposta, em alguns casos comprovada, arrogância e pedantismos. Minha quase prima argentina, filha da minha madrinha, Maria Eva, escutava e ria das anedotas. Mas Jorge não se restringia aos portenhos, também fazia piadas com homossexuais, ao lado do Isaías inclusive, e sua suposta vitima eram os Pelotenses.

A história tem uma explicação para o caso dos Pelotenses . Dizem que eles são chamados de viados porque eles dão o cu… Não, não, não, pelo amor de Deus, essa é apenas uma piada chula. A verdadeira é que, em outros tempos, os ricos fazendeiros de Pelotas enviavam seus filhos para estudar na Europa e, ao retornarem, traziam costumes refinados que frequentemente eram ridicularizados pelos locais. De alguma forma, a pecha pegou em todos os gaúchos que tinham essa fixação pela própria masculinidade. Caso semelhante ocorreu com os campineiros, que eram ricos fazendeiros de café. Mas isso é outra piada, digo, história.

A origem dos estereótipos ajudam a explicar a origem das chacotas e relativizá-las, mas apenas no seu aspecto mais superficial. O riso tem uma raiz mais profunda dentro da natureza humana. O hábito de rir de alguém por conta de seu pertencimento a um grupo social é algo próprio da essência do riso. Algo humano, demasiadamente humano.

Do que rimos? Essa foi a pergunta que intrigou muitos filósofos. Gaston Bachelard, o que parece ter melhor definido o trâmite, conceituou o risível como algo derivado da própria humanidade. Rimos de coisas, por assim dizer, humanas. Você, por exemplo, já riu de uma paisagem? Aposto que não. Mas se riu, algum dia, é porque identificou nela um olhar, um sorriso, algo humano. Assim como quando rimos de gatos e cachorros, estamos na verdade rindo de algo que nos lembra alguma humanidade qualquer.

Mas não é qualquer coisa humana que rimos. Mas de uma coisa em particular, algo que se ressalta, se projeta, se destaca, como em uma caricatura. E para descobrir o que é isso exatamente, temos que voltar ao instinto mais básico do riso e lembrar da cena cômica mais clichê mas que frequentemente sempre traz o escracho. Uma pessoa caindo, por exemplo. Porque rimos de sua desgraça? Simples, rimos do inadequado. O adequado seria essa mesma pessoa seguir seu rumo natural. Porém, ela caiu. Talvez estava bêbada, chateada, triste, mas isso não importa para o riso, a não ser, é claro, que seja uma razão ridícula para ele ter caído.

O que é inadequado? Tudo que dentro de uma comunidade, nosso de preferência, foi estabelecido que deveria ser de outra forma. Alguém, ou alguns, estabelecem que não deveríamos ser mãos de vaca, arrogantes, afeminados, chatos, burros por isso utilizamos esses estereótipos para denegrir as pessoas, ou grupos, que odiamos, e, muito provavelmente, tememos. Por isso, o riso ecoa tão bem em um grupo, é uma confirmação que você faz parte dele. O riso frequentemente representa uma afirmação para um e uma negação para outro.

Mas são apenas estereótipos e o poder, do estereótipo, é ser sem história. Quanto mais conhecemos a triste narrativa do porquê alguém fez algo ou sentimos como uma pessoa sofre simplesmente por ser o que ela é dentro de uma sociedade preconceituosa, o riso desaparece. A compaixão é inimiga do riso. O riso é social. É humano. É cruel. E por trás dele, ecoa o quão ridículo nós próprios somos, os autores.

E aí retornamos a piada. Será que ela tem lugar em uma sociedade plural e democrática? Talvez, dentro de uma maturidade de compreender os seus limites. E mais importante, o nosso lugar. Os tempos mudaram e nunca retornaremos àquele momento anterior. Muito bom que seja assim, mas o riso sempre existirá. Como utilizá-lo? A solução do palhaço é incrível. Rir de si mesmo é sempre uma forma de superação e aprendizado. Mas será a única?

Porque ríamos tanto da pessoa que amamos? Porque, no fundo, podíamos. Os estereótipos de nossos amigos são queridos, só os tornam ainda mais interessantes, amáveis e, por que não? Engraçados. No fundo, rir pode ser um desprendimento da seriedade da vida. Afinal, somos todos ridículos. E talvez reconhecer isso é que pode nos tornar ainda maiores.

Agradeço aos meus amigos por serem tão ridículos e me lembrarem, sempre, o quanto eu sou também.

Seja P um Pai

“Seja L um lobo, F uma floresta e P1, P2 e P3 três porquinhos arbitrários…” Dizem que assim que um matemático conta histórias infantis. Porém, essa é apenas uma afirmação falsa. Acredite, tenho conhecimento de causa. Ocorre que meu matemático preferido calha de ser meu pai. Nos poucos momentos clássicos de paternidade, tenho a vaga lembrança de ir com o último exemplar da Turma da Mônica e pedir para que ele lesse.

Tão logo me adentrei no universo da leitura, deixei a prática de lado. E meu pai pode ser o que ele é de melhor para mim: um matemático. Veja bem, continuei meus aprendizados com o patriarca. O hábito das caminhadas nos fins de semana foram cultivados com longas conversas sobre história, política, geografia e, claro, matemática.

Matemáticos pensam diferente de outros pais. Na verdade, pensam diferentes de outros seres humanos. Pensam? Não exatamente, raciocinam. Concatenam operações elevadas que tomam espaço no seu cotidiano, tanto que certas práticas corriqueiras tornam-se mais difíceis, tipo se vestir para o trabalho, por exemplo. Meu pai certa vez colocou um pijama para ir trabalhar e não percebeu. Detalhe: da minha mãe. Em algum momento foi alertado da excentricidade, o que ajudou a tornar o deslize uma lenda. Caso contrário, teria simplesmente caído no ostracismo da própria desatenção.

Uma das vantagens de ter pai matemático era ter aulas da matéria quando a água batia. Os conflitos, porém, eram eminentes. Imagina uma mente na fronteira do pensamento ensinando equação de segundo grau? “Para que eu vou usar equação de segundo grau?” e ele respondia: “Ora, para tudo! Para construir pontes, calcular o voo de aviões e até operações financeiras complexas.” Fiquei quieto. Mentira, eu esperneei e argumentei que para mim não serviria para nada. Uma das desvantagens de ter pai matemático era ter aulas da matéria quando a água batia.

Mas o que ficará para história de verdade? As continhas, essas que de um x e um y chegam num w, ou qualquer uma dessas letrinhas da sopa que formam grandes descobertas aparentemente inúteis para mentes simplórias como a minha, que sequer entendia o princípio de uma equação de segundo grau.

Certa vez ele estava empenhado em um de seus problemas, como se chama as grandes descobertas, mas não conseguia sair do lugar. Ficava indo e vindo numa equação eterna. Então, num sono repentino, deitou o lápis e o papel, e teve um sonho curioso. Estava em um rio navegando e de repente apareceu um jacaré vermelho. Olhou ressabiado para o bichano, enorme, então seguiu o seu curso. Caiu no sono do sono, que invariavelmente é acordar. No dia seguinte ficou pensando sobre o que o sonho poderia representar. Subitamente, eureca! Jacarés vermelhos não existem, logo o caminho do problema estava errado. Retornou a estaca zero e refez o caminho até chegar na solução viável.

O resultado? A vida não é exata como na matemática. Mas um pai vai ser sempre estar contido no conjunto dos pais. No caso do meu, estará sempre ao lado das aulas da matemática e do jacaré vermelho.

Feliz dia dos matemáticos… quero dizer, dos pais.

 

Pérola Negra

Lá no Morro de São Carlos, em plena Estácio, berço do samba, nasceu e viveu Luiz Carlos dos Santos. Seu pai, Oswaldo Melodia, Queria que ele fosse doutor. Por sorte, desobedeceu seu velho. A desobediência sem dúvida é um dos maiores motores da humanidade. Forte feito cobra coral.

Talvez fosse mais fácil se optasse pelos estudos, ou talvez não, mas o fato é que antes de ser conhecido pela melodia, foi tipografo, vendedor, caixeiro e, enfim, aqueles músicos que tocam em bares noturnos que mendigam um minuto de sua atenção. Somava as dificuldades de ser músico a de ser favelado e negro. Tente passar o que ele passou, usar as roupas que usou… uma pérola negra.

Luiz Carlos dos Santos viveu naquele tempo da emancipação da negritude. Veja bem, o samba foi uma das primeiras fronteiras culturais do orgulho negro no Brasil, mas os anos 60 trouxe um mundo inteiro de possibilidades, literalmente. Influenciado pelo movimento negro americano, nossos subúrbios e periferias ganharam muito mais que uma musicalidade, ganharam uma nova atitude. O negro poderia ser do samba sim, mas ele poderia ser mais que isso. No caso , poderia ser swing, melodia, rock, funk. Poderia ser gato.

Se fomos influenciados, também influenciamos, com o movimento Black Rio, mas sobretudo com essa tropicalidade que não se cansava em antropofagiar as influências externas e as recriar da forma que fossem. A música negra brasileira era, é, sempre foi, mundial. Mesmo, ou principalmente, aquela do Estácio.

Companheiro de alguns dos nomes mais proeminentes da música, na época popular, como Wally Salomão e Torquato Neto, lançou-se para o sucesso definitivamente nos anos 70. Seu estilo não era samba, não era rock, não era swing, mais uma mistura que não se circunscrevia a brasilidade, era mais que isso. Luiz não era um catalisador, era uma matriz de uma força descomunal. Transcendeu qualquer movimento, rótulo, gênero. Foi melodia. Sua obra vale quanto pesa. E se alcançou a perfeição logo de primeira, o resto foi sequencia, continuação, prolongamento.

Mais importante do que ele era, talvez seja o que causou. Quem me apresentou ao Melodia foi ela, minha mãe. Sempre ela. Dentre os sambas,  chorinhos e canções, lá estava Melodia a cantarolar na caixa de som. Mas o momento que Luiz Melodia despertou de vez em mim foi um pouco depois, na trilha do filme Como Nascem os Anjos. Em um final bruto e sem significado, a dramaticidade de Magrelinha nunca fez tanto sentido. Sim, o sonho continua, vem sempre de um dos lugares mais distantes terra dos gigantes Super Homens.

E eu, apenas mais um super carioca,assim que cheguei em São Paulo, lembro de um relato de uma conhecida que admirava o Ébano. Tanto que na sua primeira viagem ao Rio queria conhecer o Estácio. Qual foi sua surpresa quando chegou no local e deparou-se com… Estácio de Sá. Não conseguiu enxergar a tal beleza mortal que o bairro adquiria na sua música. Não tiro sua razão, o artista as vezes enxerga camadas da realidade que as demais pessoa não alcançam. Daí sua extrema importância.

Ano após anos, os artistas que marcaram nossa vida vão indo. Outros chegam. Mas os tempos são outros. Será que o pôr do sol vai renovar de novo o seu sorriso?

Bogado Lins é escritor, roteirista e admirador da melodia. 

Privilégio do Esquecimento

Eu sinto pena dos jovens hoje em dia. Pena? Compaixão, vamos ser mais brandos. Veja bem, são mais bem informados, mais livres, mais ricos, ou pelo menos tem mais brinquedos e, certamente,  mais conectados do que jamais fomos. Qualquer celular hoje tem uma câmera mais potente que a nossa analógica. E ligar virou tão trivial que todos preferem enviar mensagens. Enfim, se não aproveitarem ao menos essas módicas vantagens, perderão ainda mais.

Mas o que falta a eles é o que sobrava para nós. Nada de saudosismos bestas ou tradicionalismos ultrapassados. Estou falando de algo bem prático. Eles não tem mais privacidade. Ora, para que isso? Simples, na juventude temos que ter direito a errar, a cair, a se atrapalhar, a se apaixonar, a enlouquecer. Isso mesmo, quem foi adolescente e jovem entre os anos 90 e meados de 2000 sabe que teve a última oportunidade de fazer besteira da humanidade. Amém!

Quem erra é errante. Bebedeiras homéricas, caídas, subidas, aquela mulher que não era exatamente o que você queria e até, por que não? Pequenos vandalismos e atos ilícitos que já prescreveram por uma razão ou por outra. São essas aprendizagem por tentativa e erro que trazem alguns ensinamentos e um certo olhar que desvenda o mundo em camadas. É o que tem de mais próximo de uma verdadeira maturidade, aquela que combina a bagagem da experiência com a observação.

Tudo isso agora é passado. Bola para frente. Como diria Nietsche, o esquecimento é uma benção muito maior que a lembrança. Eu mesmo não canso de lembrar de me esquecer as burradas que fiz, algumas por causa de mulheres, outras por demais excessos. Como diria George Best, “metade do meu dinheiro gastei com mulheres e cervejas, e o resto eu desperdicei”. Lembro, por exemplo de ter ficado com uma mulher que me contou tantas mentiras, mentiras assim tão espetaculares, que logo, logo, depois de uns dez dias, percebi que mais que uma mentirosa, era uma alucinada. Mesmo assim, ainda fiquei com ela mais uns vinte dias. Pensar com as duas cabeças é o mesmo que não pensar com nenhuma.Eu era um típico jovem da geração 00.

Esse é apenas um exemplo, bem tímido na verdade. São tantas e tantas coisas para se contar que eu até esqueci, mas veja bem, porque tenho esse salvo conduto. Nasci em 82, faço parte dessa última geração que nasceu desconectada. Hoje, qualquer deslize é transmitido em tempo real para o mundo todo. Obviamente as bebedeiras, trepadas e alucinógenos são os primeiros perigos a virem à tona. Mas quem pensa que as besteiras se limitam a isso, tem muito mais. As vezes uma frase mal, ou pessimamente, colocada numa conversa ganharia uma repreensão momentânea e o autor seguiria em frente. Porém, estamos numa era onde não há espaço para erro. Um post pode rodar o mundo e te fazer famoso, só que ao contrário, em questão de segundos. Enquanto aquele que você queria que todo mundo visse, passou batido, não é mesmo? As piadas, então, famosas antigamente, procuram algum lugar onde não incomodem ninguém, ali entre o riso inteligente e o bocejo, enquanto o humor perde um pouco da sua essência, a maldade humana.

Os jovens continuam loucos, e sempre serão esse motor de transformação que irá transformar o mundo. Mas agora, eles transmitem sua própria loucura em tempo real e, o mais louco, na maior parte das vezes por vontade própria. Talvez sejam mais comedidos do que fomos, provavelmente aliás. E o que chega até nós é apenas aquilo que sobressaiu do trivial, como sempre. Sinto pena por eles não fazerem tudo que fazem, da forma que fazem, mas em particular. Mas quem sou eu para pensar alguma coisa? É a vez deles. E, ao que parece, simplesmente não conseguem ficar sozinhos.

No fundo nunca saberão o que perderam, porque nunca tiveram. A sensação que o mundo é apenas o que está a sua volta e que você, talvez, esteja apenas sozinho mesmo. Em resumo, privacidade.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Funk Universitário?

Outro dia um amigo convidou outro para ir a um show no Circo Voador: “Eu Amo Baile Funk Original”. Na lista de artistas incluía “Velha Guarda do Funk”, Mc Cacau, Ritmo da Favela, entre outros MCs. De repente, cerca de 30 anos depois do surgimento do ritmo, eis que decreta-se a nostalgia do funk original.

Nada de novo, ainda prosseguem as festas dos anos 80, Chitãozinho e Chororó viraram referências do sertanejo raiz e o pagode e axé daqueles idos tempos são lembrados com saudosismo. A única coisa que prossegue é que os ritmos universitários nunca se formam. Paciência.

Alguns vão relembrar que o samba já sofreu estigma e o tempo lhe tornou um ícone de nobreza, o jazz e o blues tomaram caminhos semelhantes lá fora. O rock nem se fala, hoje vive uma crise de identidade de paradoxalmente ser uma tradição em rebeldia.

Então será que vivemos este looping eterno entre a música dos cânones e do povo? Sim e não. O relativismo não pode permitir que não observemos a queda de qualidade da música popular. Se ela antes era o oxigênio que alimentava as inovações na música, hoje ela está mais para uma âncora que separa ainda mais o erudito do popular.

Mas o que será que mudou de lá para cá? Arrisco apontar alguns fenômenos que permitiram esse distanciamento. O primeiro foi o xeque mate que a música eletrônica deu na música. Algo muito semelhante que Duchamp fez quando expôs o sanitário em um museu. Após a música sair do ambiente do instrumento e chegar no eletrônico, ao mesmo tempo que ela expandiu ao infinito, ela se enclausurou no próprio redemoinho. O que poderia ter de novo depois?

Porém, isso é apenas parte do fenômeno, ou, mais precisamente, uma de suas causas, Afinal, junto com a popularização do fazer artístico, ocorreu a expansão do consumo digital da música. Além de acabar com a indústria fonográfica como a conhecemos, o consumo digital teve outro papel importante: acabou com a figura do curador. Hoje, não existe ninguém para nivelar a música, as artes, o jornalismo, a literatura. Mede-se a qualidade do conteúdo pelos cliques e o mecanismo para alcançá-los é tornar tudo o mais simples possível. Para cair no gosto popular, o produtor Max Martin criou até uma fórmula que, ao que tudo indica, deu certo. Criou inúmeros hits de sucesso da última década.

Como a liberdade acabou gerando ainda mais padronização? A resposta é simples: a quantidade imensa de músicas disponíveis a qualquer momento gerou uma necessidade ainda maior de consolidação. E, para isso, em um mundo com inúmeros canais, a compreensão deve ser facilitada ao máximo. Resumindo: quanto mais fácil, melhor. Melodias simplórias, batidas repetitivas e letras mais chicletes possível. Não precisam necessariamente passar nenhuma mensagem, mas se o fizerem, que seja a mais compreensível possível.

O Funk carioca foi o ritmo embrionário desse processo no Brasil. Foi lá, junto com o surgimento do sertanejo como o conhecíamos, que a popularização da música eletrônica e que a ausência de curadoria começou a tomar a forma que hoje se consolidou. E a tendência só cresceu de lá para cá, a ponto daquelas músicas, de gosto duvidoso, hoje parecerem verdadeiros clássicos.

Mas fiquem tranquilos, daqui a vinte anos, essas músicas de hoje serão os clássicos de amanhã.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana