Lembre-se

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As mensagens de autoajuda estão por toda a parte. Algumas vezes se misturam a uma pseudociência, outras se integram ao discurso religioso, sempre se vendendo com a alcunha de verdade. Uma que tem se repetido é que o mundo é atemporal e o futuro e o passado são algum tipo de criação de nossas mentes. Esqueça o passado, só existe o presente!

Eu concordava com esta afirmação até ver um filme que me alertou para algo essencial: o ser humano é fundamentalmente seu passado. Imagine-se acordar repentinamente sem o seu inventário de lembranças? Onde estou? Onde fica o banheiro? Aliás, o que é banheiro? Quem é você? Não existe humanidade sem referências. É lindo no discurso abdicar do passado para viver o presente. Mas um Homem sem lembranças é uma animalidade, simplesmente não é.

Isto ficou claro depois de ter visto um filme bem interessante que aborda a vida de uma linguista extremamente bem sucedida. Ela tinha tudo o que desejava, porém, repentinamente, começa a ter falhas esporádicas de memória. Após algumas consultas médicas descobre que tem Alzheimer. O seu choque inicial é óbvio, afinal sua vida é pautada no estudo da comunicação. E, agora, corre o perigo constante de estar apartada do mundo tal como o conhecemos.

O processo de aceitação da realidade é penoso. Primeiro, ela tenta se munir de todas as ferramentas para as falhas de memória, cada vez mais frequentes. As soluções são bem criativas, ponto alto do plot,  mas mesmo assim vai sendo  pouco a pouco desmascarada. Em certo trecho, genial, a protagonista alega: “preferia estar com câncer” E não é que é verdade? Por mais desafiador que qualquer doença possa ser, nada parece ser mais assustador que continuar vivo sem alma. Aliás, acabo de me dar conta, a alma nada mais é que uma manifestação das lembranças.

Enquanto Alice vai se perdendo, tenta ainda deixar suas marcas, tanto em sua vida profissional, quanto pessoal, procurando “arrumar” a bagunça. Mas gradativamente  vai aceitando a inexorabilidade da existência, processo que, no fundo, todos nós passamos, dia sim, dia também, de constatar que, bom, não estamos totalmente  no controle e, quiçá, as memórias não sejam tão importantes.  Daí nós lembramos mais um dado importante: as lembranças são a nossa alma, mas também nossa âncora. Deixa a vida me levar, vida leva eu.

O filme, de modo geral, apresenta oscilações entre momentos ótimos e medianos, mas ganha uma nova projeção pela escolha do tema. O drama absoluto de perder a principal posse. Afinal, lembrar é a única posse que temos. O resto: casa, família, mulher, filhos, carro, trabalho, laptop e até as drogas de contas que temos de pagar, são apenas acessórios da memória.

Moral da história? Lembre-se. E só.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

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Please Tarantino, no Heroes

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Estive revendo recentemente o primeiro filme da carreira meteórica de Quentin Tarantino. Se hoje o diretor é consagrado, nos idos anos 90 ainda era uma boa promessa e que esbanjava um filme (bem) divertido no currículo, Pulp Fiction. Mas ao contrário da maioria, que hoje alçou o diretor a outro patamar, minha opinião é que Tarantino perdeu um pouco do melhor das potencialidades que ele desenvolveu em seu primeiro filme.

Sem dúvida, esta linha que está seguindo, um estilo que talvez pudéssemos apelidar de  comédia sangrenta reparativa histórica, onde o diretor faz justiça com as próprias mãos, é divertidíssima. Eu mesmo costumo estar nas primeiras semanas nas filas do cinema assistindo qualquer novo bastardo lançamento seu. Mas o fato é que, excetuando algumas cenas e diálogos, seus filmes posteriores não costumam ser muito mais do que uma boa ideia com uma boa execução.

Por isso, até o momento, Cães de Aluguel é de fato sua obra prima. Veja bem, talvez Pulp Fiction seja mais divertido, e de, alguma forma, inesperado. Suas reviravoltas e personagens oferecem uma ótima experiência cinematográfica. Mas os excelentes diálogos do autor e diretor tornam-se ainda mais primorosos quando ocorrem em um ambiente absolutamente verossímil. E a fronteira entre o real e a referência foi cruzada justamente no seu filme seguinte, em Pulp Fiction, abandonando esta seara que talvez nunca tenha sido propriamente sua.

A cena em que o “rat” ensaia a sua piada para se sentir um “insider” é incrível. Particularmente, a forma em que ela é conduzida pelo diretor é genial, montando pouco a pouco o cenário que poderia ser real. Isto sem contar os confrontos entre eles para descobrir quem de fato é o delator. E, creio que é digno de nota, quando descoberto o dito cujo, não encerra o suspense, afinal ainda há que se descobrir quem de fato vai tirar a sorte grande.

De algum modo, os personagens, os “misters”, tem todos os ingredientes que os tornam instigantes para o público, inclusive a traição no esquema, de tal modo que desde o início, torcemos para que tudo dê certo para os simpáticos scumbags. A trama torna-se ainda mais divertida conforme vai se montando o cenário do crime e mostrando a história de cada personagem.

Mas o que mais se destaca é que trata-se de um filme de Tarantino, mas que poderia ser de qualquer grande diretor, ou simplesmente, um ótimo filme de ação, que transmite de verdade o estilo das ruas. E, creio que mais importante, onde não existem heróis ou vilões. Afinal, de alguma forma, seus filmes começaram a perder um pouco da “tarantinidade” quando os heróis começaram a ficar óbvios demais.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Uma Breve História do Carnaval

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Os foliões estavam concentrados na segunda de carnaval em São Paulo… na frente dos cinemas. Na Cinelândia Paulista, o quadrilátero que concentra o Belas Artes, o da Augusta, o Playarte e do Conjunto Nacional, estava abarrotado de colombinas e pierrôs aguardando adquirir um abadá para a próxima sessão. A missão parecia tranquila antes de sair de casa, com a revitalização dos blocos de ruas e os engarrafamentos quilométricos da Imigrantes e da Tamoios, tudo parecia indicar que uma tarde tranquila no cinema não seria problema. Paulistanos e imigrados, porém, há aos milhões, suficientes, portanto, para encher estradas, blocos e algumas milhares de cadeiras nas salas de cinema da Consolação.

Minha folia começou no Belas Artes. Como uma verdadeira festa pagã, as pessoas se aglomeravam na rua em uma fila interminável que estendia até o final da Consolação. Estavam todos sedentos para assistir a última sensação do cinema argentino. O título, aliás, combina perfeitamente com o período: Relatos Selvagens. Porém, um funcionário do cinema salvou-nos de uma decepção ainda maior. O maior sucesso argentino do carnaval  estava esgotado.

Rumamos então nas ruas cheias da Augusta buscando uma nova sessão que abrigasse quatro pessoas e contasse uma história bonita. O destino era o cinema que era do Waltinho e agora é da Neca. Caixa, Itaú, Banco do Brasil, puxa, parece que banco gosta de uma fila.Mesmo assim, com apenas essa pequena mudança de planos, após passar no caixa, conseguimos nosso lugar em outro camarote para uma sessão. Fomos assistir Teoria de Tudo.

O filme trata da vida de Stephen Hawkings, o físico que, dentre outros tantos feitos, conseguiu descrever como os buracos negros se comportam. Outro traço que o distingue é o seu empenho em tentar entender como o universo funciona em sua totalidade e traduzir isso em uma linguagem simples e inteligível para grande parte das pessoas. Foi com esse objetivo que escreveu alguns livros Best Sellers, como o Universo numa Casca de Noz e Uma Breve História do Tempo.

O enredo inicia nos seus tempos de faculdade, onde mostra um aluno relapso, porém com bastante potencial. Divide as atenções entre a faculdade e as dispersões comum ao período, como festas, bebedeiras e uma garota a quem ele começa a desenvolver afeto.Tudo muda porém quando descobre sua condição de portador de ELA, a esclerose lateral amiotrófica, enfermidade que retira gradativamente os movimentos voluntários do corpo.  É realmente uma sacada interessante mostrar o drama de um jovem talentoso ao se deparar com praticamente uma sentença de morte. Segundo o médico, a expectativa era viver apenas mais dois anos.

Pois bem, mesmo ciente da situação de Hawkings, Jane Wilde se casou com ele, e provavelmente, como mostra o filme, encorajou-o a continuar os estudos e sua vida “normal” mesmo gradativamente se tornando cada vez mais incapaz de fazer os movimentos mais simples. A história de amor tem uma reviravolta após um motivo óbvio, Hawkings vive muito mais que os dois anos previstos inicialmente, e isso obviamente complica seu relacionamento com Jane.

O filme é interessante justamente por abordar a vida cheia de reviravoltas dessa grande personalidade da ciência. Porém, após a película, por conta da curiosidade despertada pela história, fui pesquisar sobre a vida do físico, e daí tive uma imensa decepção. O roteiro do filme altera bastante a vida do seu personagem. Certa liberdade poética é permissível, mas deve existir algum bom senso, ainda mais considerando que a plateia, ao escolher ver uma cinebiografia, deseja conhecer como de fato foi a vida do biografado. Uma rápida busca na internet confirmou que o roteiro é praticamente uma obra de ficção.

Agora, o autor, eu no caso, realiza uma licença poética ele próprio, e retoma ao enredo inicial. Talvez seja mais compreensível que uma escola de samba, lembrando os sábios Demônios da Garoa, faça “O Samba do Crioulo Doido” e trate de uma história desse jeito despretensioso. Afinal tudo está ali apenas para abordar do início ao fim um enredo que, no fundo, só serve de subterfúgio para fazer lindas alegorias, fantasias e um samba enredo empolgante na avenida. Talvez todas essas “lindas histórias” fantasiosas do “super físico” e sua mulher que larga tudo em busca do amor fossem mais apropriadas na avenida, ao invés de enganar esse público todo que fugiu do carnaval para se emocionar no escurinho do cinema. Fica a dica.

De resto, indico o livro, Uma breve História do Tempo, uma boa forma de entender que as coisas são bem mais complicadas que “Os Segredos” que todo mundo fica espalhando por aí.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

A Partida – o Valor do Ritual do Ofício

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Os ofícios costumam gradativamente acabar na exata medida que perdem o sentido. A simplicidade do enunciado talvez esconda sua extensão. Quando me refiro ao sentido, quero dizer seu pertencimento e importância na sociedade. Como essa função se insere no espectro social do cotidiano? Como é assimilada na compreensão individual de cada pessoa?

O desencantamento do mundo ocidental ajudou a sepultar inúmeras profissões. Para me fazer entender, analisemos algumas funções que ainda persistem: os cobradores de ônibus, por exemplo, poderiam ser substituídos por catracas inteligentes. Em muitos países isso já é uma realidade e no Brasil, até onde sei, não foi possível por conta dos sindicatos. Caixas de supermercado já estão sendo extintos e trocados por sensores em diversas partes do mundo. O funcionalismo público poderia ser diminuído e realocado em muitas áreas, se fosse possível otimizar recursos e privilegiar a produtividade.

Independente do valor moral do enunciado e dos perigos que isso traz para a sociedade, muitas profissões foram, estão sendo e serão extintas na medida que não fazem mais “sentido”. E quando falo sentido, repito a palavra deliberadamente, não estou dizendo apenas do seu significado racional. No fundo, quando um serviço se torna útil somente pelo seu valor material, ela deu o seu primeiro passo para a sua extinção. Na exata medida que ele deixa de ser um ritual e se torna um processo, seu valor fica comprometido e torna-se substituível.

O Japão, em alguma medida, talvez seja uma das gratas exceções.  A dimensão ritualística de sua sociedade consegue manter o sentido de inúmeros serviços que, em outras partes do mundo, caem no marasmo da repetição automatizada. Um sushiman seria em qualquer país ocidental um mero auxiliar de cozinha. Um praticante de Ikebana, talvez, um bom florista. As prostitutas, normalmente depreciadas em qualquer cultura, no Japão tinham,  talvez ainda tenham, uma outra projeção, são gueishas. A própria indústria ganhou um outro significado após o famoso 5S, provando que este hábito tem também sua relevância produtiva.

Pois foi ao assistir o filme A Partida que cheguei a tal conclusão. É fascinante o retrato que a película dá a um serviço que parece persistir no Japão: a preparação do corpo para o velório. A tarefa parece trivial,  no entanto há um complicador que é digno de nota –  os corpos são embelezados na frente dos convidados , fazendo da prática uma espécie de liturgia. As sequências de cena que mostram o passo a passo do serviço são sensíveis e tocantes e por si só já valeriam a audiência.

Porém, a dramaturgia do filme não se resume a isso. Trata-se da história de um jovem que, por força do destino, torna-se “nonkashi”, ou seja, um preparador de corpos, após assimilar que não tem talento suficiente para o violoncelo. Assim, abandona Tóquio e retorna para sua cidade natal em Yamagata. Isso por si só proporciona uma perspectiva inteligente à trama. Afinal, principalmente para nós ocidentais, a arte talvez seja uma das únicas profissões que mantêm incontestavelmente seu aspecto simbólico. Há aí um dilema que muitas vezes nos deparamos em nossas escolhas pessoais, sobretudo para quem se devota ou se devotou a qualquer ofício artístico, seja ele qual for.

Após finalmente compreender o significado do que faz, Daigo tem um outro desafio ainda maior: se confrontar com o preconceito da comunidade e de seus familiares com sua profissão. Há um contraste nítido entre a aversão de seus amigos e parentes e o reconhecimento daqueles que utilizam o serviço,  de certa maneira justificando a escolha do protagonista, mesmo com todas as dificuldades.

O enredo proporciona diversas surpresas agradáveis, algumas sutis e outras parte do contexto geral da história. Inclusive em relação ao protagonista, que gradativamente vai tendo que se defrontar com questões do seu passado, que são reveladas ao longo da trama. Assim, apesar do ritmo sereno e delicado, a película não perde o fôlego em nenhum momento.

Para os atores, diretores e gente do ofício cinematográfico, aconselho a prestar muita atenção na interpretação dos atores. Uma verdadeira aula. Conseguem dialogar com sucesso apenas através da expressão do olhar, economizando em diálogos desnecessários e elevando a qualidade da atuação e do filme como um todo. Talvez por isso, o filme é premiadíssimo no Japão e internacionalmente, inclusive com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009.

Creio que o filme vale por uma razão especial: trata-se de um verdadeiro aprendizado de como tornar nossas vidas mais significativas. É necessário valorizar cada ofício e perceber sua relevância, conferir humanidade. Só assim, compreenderemos a real extensão de nossas vidas.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

A Arte de Viver pela Arte

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A arte tem o poder de influenciar estilos de vidas. Determinados avanços tecnológicos possibilitaram a popularização de tendências, comportamentos e até revoluções. A fotografia, por exemplo, mudou radicalmente a maneira de registrar a vida e a política. Primeiro disseminou as fotos de família, depois, com a simplificação do processo, suavizou o semblante familiar em sorrisos e fotos casuais, um pouco mais tarde, tornou a vida colorida. Ajudou a disseminar modas e estilos, dando um novo impulso a propaganda.  Facilitaram também a distribuição das notícias ao redor do mundo, e tornaram as revoluções mais próximas. Hoje, disponível nas câmeras de celulares, em tempos egóicos, criaram as selfies.

Sua sucessora natural, o cinema, foi ainda além. Foi responsável pela disseminação de narrativas que passaram a fazer parte do homem (e da mulher) comum. Subitamente, a paixão, a aventura, o heroísmo era acessível a todos. A televisão levou esse estilo de vida diretamente para dentro de casa, rearranjando a decoração interna e virando um vendedor de porta em porta. Em outras palavras, a maneira de contar sua própria história é profundamente influenciada pelos meios artísticos disponíveis ao seu redor.

Portanto, nada mais justo que a maneira de contar a história seja o grande trunfo, a melhor sacada de “O Artista”.  Eu não tenho dúvidas que as meninas das cidades, ao menos aquelas que tinham seu cineminha, sonhavam acordadas com os galãs fazendo caretas e gestos bruscos, com a legenda na tela dizendo “eu te amo”. As palavras eram desnecessárias. Aliás, só posso supor que nossos sonhos são em P&B( preto e branco) desde aquela época.

O que é mais incrível, porém, é o drama do herói. Após toda uma carreira de sucesso como protagonista de filmes,  a chegada da nova tecnologia em áudio repentinamente o tira de cena. Talvez por tê-la ignorado tão logo tenha chego, talvez pela total inabilidade em “falar”, o artista se vê preso em sua própria história muda. O drama torna-se ainda mais insuportável pela incapacidade de gritar aos quatro cantos seu desespero.

Porém, o que torna o filme incrível, trágico e épico é justamente esta total conexão com a história de cada um de nós, artistas, em um tempo onde acompanhamos o crescimento exponencial das tecnologias e pensamos de que forma fazer arte em meio a elas. De alguma maneira, todos nós, artistas, estamos ultrapassados. Ficamos aqui nos reinventando cotidianamente, criando uma função transitória que nos pague o aluguel, enquanto em outros momentos nos isolamos num mítico lugar inexistente da arte pela arte. Uma existência persistente e problemática, ainda mais considerando a carência natural a todo o artista.

Mesmo assim, com um pouco de sorte, amor e criatividade, talvez no final do filme cada um de nós tenha algo a dizer ao mundo.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

10 Filmes para chamar de meus

O Guilherme Tolomei, amigo dos tempos do colégio, me fez um desafio, daqueles de Facebook: fazer uma lista dos dez filmes mais influentes na minha vida. No desafio estava expressamente proibido pensar muito, era mais uma elaboração sem grandes elocubrações. Mas como sempre estou em busca de algo para escrever, e listas costumam fazer sucesso, resolvi fazer a primeira do blog, vai que dá certo?

Antes de começar a minha, obviamente li a do cara, o que acabou me influenciando. Dentre tantos filmes de extrema qualidade, no item 10 estava lá sem rodeios, O Super Xuxa Contra o Baixo Astral. Soltei uma risada, daquelas solitárias que se tem ao encontrar algo engraçado na internet e sem ninguém para compartilhar o humor. Primeiramente fui levado a crer que se tratava de uma ironia, porém, ao analisar o desafio, estava lá escrito, com todas as letras: influenciaram. Pois bem, influenciar não necessariamente demanda uma escolha racional. São os filmes que marcaram, muitos sem dúvida numa infância, adolescência e juventude conduzida pela adrenalina e sem o devido senso crítico.

Inspirado nisto, inicio a minha tentando fazer um recorte histórico dos meus primórdios até hoje, e realizando um breve relato do porque o filme foi escolhido:

Alladin.

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Os anos 90 marcaram o ressurgimento da mágica da Disney e sem dúvida o desenho que mais marcou a molecada da minha geração foi Alladin. Primeiro, um herói pobre que se torna rei, cenários e efeitos especiais inéditos que se tornavam incríveis na tela do cinema, depois o gênio engraçado que só um Robin Williams poderia fazer. Ainda por cima, um trilha divertidíssima que depois a gente comprava em CD.

2- Batman: O primeiro filme

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Foi uma verdadeira revolução na época. Uma atmosfera ao mesmo tempo dark e colorida. Jack Nicholson como um coringa engraçado e realmente psicótico. Um Batman suficientemente dramático.  Tim Burton como sempre sendo ele mesmo e inaugurando toda uma geração de filmes de super herói, inclusive do próprio Batman, com ainda uma sequência bastante competente, apesar das críticas na época.

3- Família Addams

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O grande amigo Nando Motta, hoje consagrado no The Voice e companhia, ficava puto comigo, estalando os dedos no meio do filme. Acho que era a segunda, ou terceira vez, que estava vendo a película no cinema. Aquele estalar de dedos ficou. Também a mão, “the thing” andando de um lado para o outro, num efeito extraordinário para a época. E a própria Família, que de certa forma, representava um pouco o estereótipo da minha, com suas próprias esquisitices. Mas na verdade, a carapuça não deve ser exclusiva. Quem não tem uma família “Adams” que atire a primeira pedra.

4 – Um Sonho de Liberdade

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Hoje sou grande fã de Forrest Gump e incluo no hall dos grandes filmes dos anos 90. Mas para mim, na época, esta foi a maior injustiça do Oscar.  Um filme com a dose certa de ação, drama, trama policial e ainda excelentes atuações de atores diversos, incluso claro, o trio principal: Tim Robbins, Bob Gunton e Morgan Freeman. E se não bastasse a abordagem fantástica do cotidiano da prisão corrupta e cruel de  Shawshank, o filme apresenta uma virada final fantástica.

5 – Trainspotting

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A partir dos meus 14, iniciei minha vida nos psicotrópicos, lícitos e ilícitos. Tive uma boa experimentação no assunto no período e, quando vi esse filme, bem depois que saiu do cinema, contextualizei um pouco do que minha vida nunca seria, mas de alguma forma se inspirava.

É bom inserir um parêntese, mais pela contextualização do que pela moralidade: nunca cheguei nem perto da classe de drogas que Mark (meu homônimo,veja só) Renton chegou. As agulhas sempre me davam um asco terrível, ainda que os efeitos poderiam ser fantásticos, e o Rio da minha época não tinha uma variedade de opções facilmente disponíveis. Mas o filme em si simbolizava a rebeldia de uma geração sem grandes ideologias como a que eu vivi e, simultaneamente, o ideal de uma vida de uma turma de drogaditos que vivia na Europa, grande Eldorado da minha geração Cult.

6 – Como Nascem os Anjos

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Outro filme que vi com o grande amigo Nando Motta. Desta vez, bem mais tarde, já na adolescência.  Trata-se do primeiro “ Favela Movie”  de fato, e com um roteiro bem bacana. A primeira que narrava uma história que de alguma forma eu poderia me identificar, retratando o impacto da proximidade e distância das classes sociais no Rio de Janeiro nos anos 90. Lembro de ter visto, revisto e visto novamente umas tantas vezes na época.

Este filme é da classe dos sobreviventes. Em uma época que o cinema nacional  era um deserto ermo, mesmo assim ele conseguiu ser exibido e distribuído de forma suficiente para chegar até a mim.Recentemente vi um trecho novamente e me assustou a precariedade do som, gravação e os recursos normais que um filme demanda. Tal impressão apenas reforçou o quanto ele foi importante, afinal, com todas as dificuldades, ele conseguiu ser o primeiro filme nacional a realmente me emocionar.

7 – Clube da Luta

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Se Trainspotting foi uma inspiração no estilo de vida, tão distante e tão próximo, o filme Clube da Luta foi uma inspiração filosófica. O roteiro conseguiu condensar as críticas que tínhamos a respeito do consumismo, da nossa falta de propósito e da rebeldia, que até então não tinha sido formulada competentemente.

Tyler Durden personificava um anti-herói que simbolizava muito bem o Além-Homem de Nietzsche e se ajustava perfeitamente no mundo sem propósito do início do século XXI. Hoje os smartphones conseguiram dopar e bovinizar novamente a humanidade, mas naquela época a disseminação da internet prometia uma rebeldia sem equivalente… e este filme foi o melhor resumo dela.

8 – O Anjo Exterminador

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Durante um longo período buscava referências de filmes antigos famosos, principalmente por meio da (ótima) influência de amigos mais cults, particularmente a Ana Paula, uma gaúcha carioca que, pelo que sei, hoje está à frente de grandes projetos culturais.

Ainda que possa eventualmente citar um ou outro, principalmente Fellini, O Anjo Exterminador foi um dos únicos que gostei independente de contextualizações, sem parênteses ao fato dele ter sido feito na década de 60. Fiquei preso do início ao fim na história, e pouco importou o fato de ser um filme feito a mais de 30 anos atrás.  Isso claro, sem contar toda a inovação que ele representou na história do cinema.

9 – O Fabuloso Destino de Amelie Poulain

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Nunca fui muito fã de filmes franceses. Truffaut, por exemplo, não me encantou, tampouco Godard. Independente da inovação que trouxe e da importância, sempre importou-me mais o impacto que a película trazia instantaneamente, sem ter que ler as “legendas”.

Sendo assim, quando vi O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, pude finalmente me apaixonar pela França, Paris e particularmente por aquela parisiense que condensava em si um jeito único, diferente e epifânico. Os pequenos hábitos cotidianos de Amelie e os outros personagens trazem o fantástico para os afazeres mais básicos e isto é o que torna o filme encantador. A fotografia fantástica, obviamente, ajuda.By the way, graças ao filme hoje minha filha chama-se Amelie.

10 – Batman –  Cavaleiro das Trevas

Daniel Pereira

O filme é mais do que uma boa sequência da série Batman iniciada com o Begins. Ele conseguiu, talvez pela primeira vez, transcender o gênero Super Herói, e finalmente oferecer aos telespectadores uma trama suficientemente boa apesar de ser um Batman,

O coringa deste filme tem um duplo trunfo. Primeiro por conseguir superar o de Jack Nicholson, justamente por não se basear nele. Depois porque dá uma outra dimensão ao personagem, psicopata a um nível nunca antes visto. O fato dele não ter história, acaba por torná-lo ainda mais sinistro e pertubador. Traz questões e discussões que tornam o filme extremamente interessante e complexo. Uma obra-prima.

FIM

#Só que não, inspirado em um festival que roteirizei recentemente, resolvi criar um tópico Estrela Preta para poder trapacear e trazer dois novos itens na lista. Vamos lá.

Estrela Preta 1: Woody Allen, especialmente Rosa Púrpura do Cairo, Tiros na Broadway, Descontruindo Harry, Zelig e… aff, tantos outros! Vou inserir logo a filmografia inteira do cara.

Estrela Preta 2: como roteirista em eterna formação, admiro profundamente Charlie Kaufmann. Fiquei em dúvida qual filme  dele colocaria, mas a verdade é que todos são extraordinários e a necessidade de 10 filmes limita o ditame. O cara é foda.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana

Noé o fim do mundo

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O tema do fim do mundo é um tanto recorrente no cotidiano. Quando descobrem alguma fonte misteriosa, de um povo desaparecido, ou de um profeta maluco, decretando o fim dos tempos, ele retorna com mais força. 2012 foi o maior exemplo da euforia coletiva, mas não o único.  Quem não lembra da virada do milênio? Houve até uma justificativa para o mundo entrar em parafuso, o tal bug do milênio. No final, tudo continuou sendo como sempre fora e, pasmem, já estamos em 2014.

Para as religiões, o fim do mundo costuma representar uma oportunidade. Antes de tudo, a confirmação do poder divino. Além disto, a chance de demonstrar que aqueles que fizeram as escolhas certas serão escolhidos. Praticamente um higienismo onde os eleitos sobreviverão, ou ascenderão ao reino dos céus, que seja. Não surpreende, portanto, a ânsia eterna de que o céu caia sobre nossas cabeças, “viu, eu estava certo!”.

Creio que a questão introduz bem o filme Noé. Obviamente o filme  não narra o próximo fim do mundo, mas aquele que supostamente ocorreu antes de nós, e que exigiu de Noé a construção de uma arca em proporções gigantescas para abrigar os animais e, claro, os escolhidos de Deus.

Porém, o filme tem uma qualidade, ele se preocupa mais em ser um filme mítico, do que propriamente bíblico.  Ao narrar a criação do mundo e a expulsão do paraíso de Adão e Eva, contextualizando o nascimento de Noé e da linhagem de Caim, ele consegue sedimentar bem a narrativa  de modo a instaurar o clima de mistério necessário para a película. Neste sentido, o roteirista foi feliz ao utilizar a dose certa de referencias bíblicas, afinal o interessante de um roteiro desta natureza é justamente sua fonte, por mais que se relativize ou mesmo não se creia. Por outro lado, há o desafio de trazer para a realidade das pessoas de modo palpável para que o enredo se estabeleça entre o mito e a realidade. Este é outro ponto positivo na minha opinião do filme, contextualizar debates em voga a respeito de sustentabilidade e livre arbítrio.

Talvez o único exagero, ainda que em parte justificado, são os guardiões, que complementam a natureza fantástica da história. Eu mesmo não me incomodei com eles, de alguma forma conseguem se integrar no ambiente misterioso mítico,em oposição ao puramente bíblico, lembrando o Deus do antigo testamento, mas sujeito à opiniões controversas, de modo a extinguir povos a seu bel prazer e mesmo com seus escolhidos, pregar uma peça a outra, como fez com Jó, exigindo-lhe paciência eterna. Além disto, lembra os milagres mais comuns naquele período, como as pragas do Egito ou mesmo o dilúvio propriamente dito.

Convenhamos que este Deus é muito mais cinematográfico do que aquele que veio depois, ainda que mais simpático e fotogênico, com barba e tudo. Até costurar uma história para dar a devida coerência a um fato e outro chega a ser interessante, provando mais uma vez porque a bíblia, mesmo com todas as deturpações de traduções e simplificações,algumas que reduzem o palavreado de modo suficiente para que um telespectador do Jornal Nacional possa lê-lo sem grandes desafios, ainda assim prossegue sendo o livro mais lido.

Óbvio que o fato de ser um filme bíblico suscita as mais diferentes críticas. De um lado, de outro, e do oposto, se é que isto é possível. Ninguém pareceu tão satisfeito. Ateus, ou simpatizantes, pelo fato de ter sido fantasioso ou talvez bíblico demais. De todo o modo, não criticariam com tanta veemência um filme sobre mitologia grega. Cristãos porque o diretor não seguiu o pé da letra da palavra, ainda que as lacunas devessem ser preenchidas e, sobretudo, roteirizadas. E os muçulmanos, bem, os muçulmanos nunca gostaram muito que mexam com seus profetas.

Sendo assim, aconselho a quem assistir a película que abandone o rigor do pé da letra. O bacana do mito é funcionar entre uma metáfora e um mundo fantasioso de seres incríveis, como por exemplo gigantes ou seres de pedra, e um enredo rico em distúrbios humanos. E, afinal, o desejo de purificação, o debate sobre até onde você serve a Deus ou aos seus próprios desígnios e  natureza humana, tão díspare, serve como um bom pano de fundo para o plot e para a discussão após o filme.

E daí depois você se decide, ao depender da sua crença ou não, se trata-se de uma obra ficção ou inspirada em fatos reais.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana