Respingos

Todo respingo é fruto de um amor intenso, daqueles que fazem o coração pulsar, a respiração arfar, o colo esfriar. Cada gotícula de suor somada a cada gesto de entrega faz do ato do amor um continuo, repetido, e até banal, descarga de fluídos. Foi assim com você e com as outras também, pra falar a verdade, é assim com todas. Amar é como uma apresentação musical, uma ópera talvez, temos a longa introdução, nela encenamos uma conquista, conflitamos aí vem o ápice, terminado por dois pedaços de carne recaídos cada qual a seu canto. O silêncio é sinônimo de realização. Você pode estar pensando do porque de eu estar falando tudo isso certo? Na verdade nem eu sei, simplesmente resolvi expor tudo.

Eu ainda me lembro, daquela tarde de sábado em que o sol estava lindo e nós, sim, nós dois preferimos ficar as escuras no apartamento. A janela nos iluminava. Sempre ela, dá brilho aos nossos corpos. Na nossa primeira noite choveu, e não foi aquela chuva torrencial prevista pela meteorologista sem graça da tevê. A chuva foi forte, bem chovida, bíblica.

Quanto a nossa primeira noite.

Ela foi profana.

Sabe, me inflama só de lembrar.

Eu estava cabisbaixo olhando o teto.

Estava a pensar.

Quando observei ao meu redor, vim a te encontrar, dançante, lascívia, o tesão tem dessas coisas. Uma hora você não se dá conta, só segue os instintos, quando vê, está ali. Aquilo acontece e deixa marcas. Naquela noite eu só queria te foder, com violência, com força, intensidade. Você se mostrou receptiva desde a primeira dança, desde o primeiro olhar, desde o primeiro toque.

A balada ficando vazia. Os dois a dançar. Eu, você e a lascívia. Todos entregues, prestes a gozar. E o gozo, assim como a chuva da primeira noite, respinga, corta, voa. Deu luz aos nossos desejos, todos eles antes enfermos. Agora, jaz ali, escuro e subterrâneo. Se encontrando entre nossos panos. O gozo é assim, um sopro de vida seguido de um torpor de morte.

A primeira noite foi um lance fugidio. Foi uma atitude impensada, lembro você me dizer ‘eu não transo com estranhos’; eu escutei, mas não dei atenção. De resto, só precisava correr o risco e lhe domar. Domar como se doma uma pantera ou uma abelha rainha. Talvez essa seja a minha sina, sentir prazer e morrer na agonia. Você sabe bem disso, soube quando conversamos e fizemos o nosso Último Tango em Paris tupiniquim. O apartamento vazio, vazio como as nossas vidas, o apartamento sem luz, eu sentado e encostado no guarda-roupa e você deitada, no emaranhado de lençóis, tocava seu sexo levemente enquanto fumava, arquejava na cama, sentia seus ossos chocando com os meus em imaginação. Fetiche.

Você me perguntou quando eu senti vontade de beijá-la. Respondi desde que te vi na noite. Você esboçou um sorriso languido, continuei em silêncio, talvez nesse momento não fosse à hora para palavras. Eu tenho dificuldade com elas, se expressar é uma coisa tensa/intensa e nem sempre se faz com decência. Continuo a fumar, meu nome é Maria, bonito nome, nome de santa.

Não disse seu nome, é Francisco, nome sem graça, sertanejo ou santo, há quem rotule e faça troça da minha desgraça; desculpe, não entendi muito bem. Seu nome é lindo assim como você. Obrigado.

Chove forte lá fora.

É fato, a chuva pode ter seu ar redentor.

De limpar, com seus respingos.

Toda a desforra.

O que te fez transar comigo? Sinceramente, não sei. É estranho, talvez seu jeito delicado, talvez a sensação de já nos conhecermos. Outra encarnação? Corta essa! –respondi brincando – eu creio, mas, não se preocupe. Não misturo as coisas, o que posso te dizer adiantado é que eu quis, e o querer me fez ir. Na verdade sempre foi assim em minha vida, ser mulher tem lá suas vantagens, você quer você faz. Foda-se! Diferente de homem, nós conseguimos. E isso você vê como vantagem? Por quê? Não se incomoda com pensamento alheio? Foi-se o tempo, passei por um processo de autoconhecimento, livramento, daqueles que são dolorosos todavia ao serem superados você se sente um pássaro, um albatroz! Uma águia talvez. Estar acima de tudo e de todos, fitando a terra e os seres, caçando-os e mostrando que o céu pode sim ser o limite.

O céu ou a morte. Fico com a segunda opção.

Não entendi.

Certa vez estava no trem voltando pra zona sul e por acaso, um cara a me ver puxou assunto, como sou tranquilo, continuei. Ele começou a me dizer sobre como as pessoas devem se preparar, que todo contato deve ser cuidadoso, calculado, ele dizia que somos fontes de energia, imensas, profundas, e, dependendo do grau de cuidado inesgotáveis. Ele desenvolvia teorias. Eu as escutava. Me falou ainda que todo o excesso é gasto de energia, ele não transava há alguns anos, a mulher o traia e ele comentou que não ligava para isso, pois a preservação estava acima de qualquer coisa. Sua sobrevivência dependia disso. Eu escutava, dizia que o sexo era gasto excessivo de energia. Que a bebida, o cigarro e a conversa excessiva com pessoas de atração ruim também. Na época achei que isso era pura babaquice, escrotice de gente louca que anda por aí solitária. Hoje eu olho e penso, no fundo ele está certo.

Encontro-me assim, toda a noite.

Morrendo aos poucos.

Noites silenciosas e maçantes.

Com um maço de cigarros do Paraguai.

Acho que te entendo – disse ela um tanto lentamente. Por muitos momentos me sinto assim, essa sensação de viver/morrer é foda. Você não percebe logo de cara seja porque não a entende, ou ainda, não a aceita. Demorei demais para entender que o mundo gira, correto pra alguns e contrário pra outros. Minha vida sempre foi ao contrário, a menina diferente, de gostos estranhos, de amigos igualmente estranhos e esquisitos. A toda tatuada, de voz anasalada. Só que sai de casa. Fugi. Até hoje não se deram conta, alguns contatos diziam que eles me procuravam, eu duvido. Na real, pouco importa. Não troco minha liberdade por uma morte lenta e instantânea que é a familiar.

Eu prefiro, ficar aqui.

Neste inferno não como Dante.

Mas sim Ferlinguetti.

Onde eu possa reinar, controversa.

E com as pernas abertas.

A chuva continua, Eu e Ela, parados. Talvez seja a hora de dormir. Ela concordou, falou que se sentia cansada e que o sono era um mal necessário. Fui obrigado a concordar, disse que ficar sentado aquele tempo todo conversando com ela ao som da chuva foi bom e ruim, estava aliviado, não me sentia tão só como antes, no entanto, estava com leves dores nas cotas e falta de ar. Ela ainda perguntou se eu não queria ir ao médico, disse que não era necessário. Que tudo passava. Disse ainda que a única coisa importante naquele momento era a chuva, ela sim, reinava imponente e sublime frente as nossas escassas existências, ela, que olhava do lado de fora da janela nossas carcaças disformes. Ouvindo nossos informes, tentando nos atingir, exibindo nossas impotências, Ela ainda é um albatroz, eu, sou alguém perdido. Frente a chuva e seus respingos nada nos resta. Apenas saber claramente, que somos o que somos, comida de vermes.

Luciano Portela é escritor e lançará em breve seu livro Carolina Foi para o Bar Exibir seus Lindos Pés

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