nefelibata

bata

no bote de nuvem

da felina nua

feminina névoa

em verde volúvel

néfila

 

não bata

na nuvem do lado

nefelibatismo

na fina fuligem

sinta

a elétrica fagulha

o fogo em traço

que desfaz a linha da nuvem na mente da imagem do bote da

nefelibata

 

 

 

CABELO

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Sem despoética

Montanhas, rios, céu,

Sociedade doente

As pessoas são ruins umas com as outras

O sistema

Hipocrisia

Política

Corrupção

E não sou mais um cara novo

Nem feliz

A revolta sucumbiu ao natural

Processo de envelhecimento burguês

O pequeno consumidor

Não passa de mais um mercatário no mercado

Da mercadoria da vida

.

As montanhas não vêm

Nem Maomé, nem Messias,

E não dá para ser zen

Do mestre Caeiro não sou seguidor, embora o almejasse,

As pedras rugosas bradaram no caminho e nem o João Cabral me petrifica,

Como se minha infância fosse uma ilusão,

Não basta ser eu ou qualquer outro,

.

Caindo no abismo como um rio desce a montanha.

Não sou mais paulistano, nem maluco,

Não sou mais natural que um urbano,

Não sou mais humano,

Sou um nada no universo

Num verso

único,

Na natureza selvagem não sobrevivo,

Atravesso uns versos, perverso,

Contra todos, controverso,

.

Sou frente sem verso.

Liberdade?

Amor?

Felicidade?

Por que agir? Por que esperar?

Não sou versado,

Até o céu se foi,

Sou o inverso,

.

Sem verso

Sem…

 

.

Paulo CABELO

Flores de Aço*

Oh! Ser supremo

De tão doce, delicado

Dizem-no frágil

Que besteira!

 

Como inferiorizar algo tão maior?

Que pode ser tão sensível

E ao mesmo tempo firme como rocha

Sempre pronta para a luta

Que chora, ri, sofre, sem medo

Muitas vezes subordinadas à emoção

Que traz à luz a vida

E se entrega a quem ama

 

Oh! Flores de aço

Tão belas e adoráveis

Gestos suaves escondem sua força

Como admiro as mulheres!

 

Paulo Cabelo 

 

*Inspirado no filme Flores de aço

A cidade cinza

O céu cinzento se funde à cidade

A garoa lava

Lava

E não cura

Não sara

Nada

Só suja

Suja a cidade cinza nuda

E não muda nada

 

A garoa tinge a cidade

Antes cinza de prata

De brilho

Mas não brilha

Não para

Humilha

Humilha a gente cinza suja

E não muda nada

 

O céu se tinge de preto

O céu chora

Concreto

E não cora

Sem teto

Medo

Só pedra

Pedra o concreto sujo

E nua a cidade nada…

Em cinzas

 

A natureza agredida é cinza

O céu garoa

Chora

E não chuva

Só nódoa

Povoa

Seu povo

Povo de natureza cinza

E não muda nada

 

A casa amarela

As poucas árvores

O prédio vermelho

Os telhados telha,

Amianto

É tudo cinza

Ou prata se lágrimas

(O branco nuvem escurece,

cega)

Sem brilho

 

A cidade cinza

Cinza o céu

Os homens

Cegos

 

 

Paulo Roberto Laubé

Cabelo

Claríssima

Agradeço a gratidão,

Não mereço a devoção,

Ciclar isso,

.

Professo o pouco que sei,

Processo que pouco passei,

De classe eriçar,

.

Palavrear o enredo da vida,

Saborear o relevo da língua,

De claro içar,

.

Se colho gratidão –

Palavras nunca inocentes –

Porto para dentro de mim

Poética superação,

Incontáveis sentidos

Entrelinhas abismos,

Sons significativos,

Como cartas no escuro,

Serei porto seguro.

.

Cla-

       ro enigma

Bri-

       lhante estima

Sá-

      dica língua

Char-

         mosa menina

C  l  a  r  í  s

                   s  i  m  a  !

Paulo Cabelo

Porto metafísico

(poema “desentranhado” de A viagem vertical de Enrique Vila-Matas e O observador no escritório de Carlos Drummond de Andrade)

 

 

Navegar nas nuvens,

Voar em alto mar,

Enveredar pelos nervos

da alma,

Aspirar céu,

Sorver o chão,

Cavar o ar,

mais puro e ígneo,

Porto seguro,

Buscar e fugir,

Seguir e voltar,

Vertiginosamente.

E após este rio luminoso,

tortuoso

inavegável e inexorável,

vida!

Almejo nem que por um lampejo

atracar em um porto metafísico

e transverberar

 

 

Paulo Cabelo