Cult Zombies

Tenho este hábito infeliz de chegar a algumas modas atrasado. Recentemente, por exemplo, assinei um streaming de vídeos bem famoso e comecei a adentrar o universo maravilhoso da TV on demand. Devo ter levado a falência a nobre locadora que resistia e tentava sobreviver ao lado da minha casa. Mas em tempos de austeridade fiz uma economia de 70% nos meus gastos de vídeo e, em breve, o número será ainda maior, tão logo cancele minha tv por assinatura. Levy na veia.

Dentre as inúmeras opções que estavam disponíveis a alguns cliques, anytime, anywhere, além dos inúmeros filmes das mais diferentes produtoras, tive acesso a inúmeras séries que, faz algum tempo, tem se destacado pelos roteiros inventivos e pela possibilidade de trabalhar cenários e personagens por mais tempo que um filme de cerca de 2h. Melhor: pode oferecer inúmeros plots sequenciais de modo que você não precise assistir tudo de uma vez só (ainda que dá uma vontade de simplesmente não parar).

Pois bem, dentre as inúmeras opções, tais como um super herói da Marvel, um notório serial killer, um paciente de câncer traficante, a versão Eduardo Cunha norte-americana e tantas outras, todas com seu mérito, acabei mergulhando num caminho sem volta em uma das séries mais pueris da tv americana: Walking Dead.

Em menos de um mês, assisti as cinco temporadas, um episódio depois do outro, numa média de cerca de dois episódios por dia. Por sorte, com todas as brigas em casa e os prazos no trabalho, mantive o casamento e o trabalho mesmo depois desta experiência imersiva. Hoje estou aqui, tentando explicar para mim mesmo e para o mundo porque uma série tão trivial, cheia de sangue e figurantes zumbis que se repetem indefinidamente conseguiram me cativar durante cerca de 77h de conteúdo. A resposta óbvia é: sou um babaca!  Mas um babaca cult,  que pode tentar justificar aqui as razões de assistir a algo tão pueril.

Antes de Tudo, o Óbvio Ululante

É claro que se trata de uma série B, na melhor das hipóteses, sem grandes reflexões. Traz todos os clichês dos zumbis que estamos habituados, porém explorando-os indefinidamente over and over again por horas e horas de episódios, trazendo a tona sem dúvida o pior desse universo.

O que mais me irrita é como este número de zumbis interminável consegue sobreviver sem se alimentar por dias e dias. Ora, no primeiro sinal de qualquer comida, eles saltam e vão em direção ao alimento com uma energia sem igual. Pois bem, conseguem manter um estado meio catatônico até o momento de identificarem a presa, e automaticamente “despertam” ao sentir a presença do rango. Ok, é ficção, mas daí outro “problema”: após capturarem a presa, comem desesperadamente fazendo das tripas coração em cenas sempre cheias de kisuco e groselha. Mesmo assim, sempre sobra o principal para que depois o sujeito possa voltar e fazer companhia à trupe.

Aliás, a própria carnificina é um exercício de efeitos ridículos, que às vezes beiram a comédia. Zumbis sendo decapitados por espadas samurais, pessoas arrancando vísceras dos zumbis e vice-versa, pernas e braços arrancados, cérebros estourados e um eterno exercício criativo que poderia inspirar um milhão de “dumb ways to die”.

A agilidade dos zumbis e sua periculosidade também variam conforme a necessidade do enredo de sacrificar personagens. Em alguns momentos, eles estão em grande número, mas não desafiam os protagonistas. Em outras, são um punhado, mas conseguem sacrificar um personagem secundário para poder apresentar algum tipo de virada no roteiro ou mesmo satisfazer a ânsia de sangue da plateia, incluso eu, claro. Tudo ao bel prazer da necessidade do plot.

Mas o pior fica para o fim, afinal, em filmes B, o melhor sempre está reservado para o final. A única forma de matar os moribundos é acertar o cérebro. Sendo assim, o sujeito pode ficar sem braço, sem perna e até sem corpo que a cabeça continua ativa se movendo. Mas como? Como sem coração o sujeito consegue bombear sangue para o cérebro continuar ativo? O conceito gera as cenas mais grotescas

Mas por que, por que, por que?????

Dito isto tudo, alguém perguntaria, mesmo assim você assiste a série? E terei que responder que não vejo a hora de sair os próximos episódios. Por que? Bom, sendo uma pessoa que se considera séria, vou tentar formular aqui alguns argumentos que talvez sirvam para justificar o gosto ou no mínimo, servem para um exercício intelectual.

Enfim, nada mais é do que uma tentativa pueril de justificar o injustificável: eu assisto uma série ridícula mas quero te convencer que ela realmente me faz pensar em algo profundo, quiçá filosófico e isso, bem, perdoa a minha mediocridade. Assim exposto, vamos aos argumentos.

O Novo

Walking Dead não é novo, de maneira alguma, inúmeros filmes trataram de zumbis cada um em sua forma grotesca de ser. O que Walking Dead traz de novidade, inovador seria uma palavra forte demais, é a possibilidade de abordar todos os assuntos que o tema traz de maneira mais imersiva e profunda.

Sim, porque uma coisa é o que aconteceria logo depois do “apocalipse zumbi” e outra é o que ocorreria 1 mês, 3 meses, 6 meses, quiçá anos depois. Como a humanidade ficaria após tanto tempo tendo que conviver com a ameaça zumbi? Quais os transtornos psicológicos que seriam desenvolvidos? Como as crianças lidariam? Como se tratariam os bebês?  A humanidade de fato sobreviveria? E se sobreviver, como ela se tornaria?

O formato em diversos episódios e temporadas dá a oportunidade de se aprofundar em temas e subtemas que em alguns casos acrescentam o soturno e o imponderável ao enredo.

Pobres Crianças

Creio que um dos diferenciais da série é o foco em especial nas crianças, algo que não lembro de ter visto nos filmes sobre o assunto com tanta profundidade, já que, quando elas eram mencionadas, geralmente são apartadas de alguma forma da ameaça.

Em Walking Dead, as crianças vivem toda a perversidade do ambiente que são obrigadas a conviver. Crescem, literalmente, com os zumbis. Em determinado momento, quando o questionamento do desenvolvimento delas é colocado em pauta, um dos personagens responde: “antes achava que era pior para elas, mas agora acho melhor. Vão crescer mais preparadas para esse mundo do que nós”

Porém, a questão não é posta de forma simples. Durante o enredo somos confrontados com algumas crianças e torcemos por elas, invariavelmente. Os roteiristas, porém, nos reservam destinos dos piores para muitas delas, e em alguns casos, de maneiras inesperadas. Mas isso não é tudo, creio que o que mais me surpreendeu foi uma questão: e se as crianças brincassem com zumbis? Se em alguns casos se afeiçoassem a eles? Sim, o mote é utilizado para alguns dos episódios mais interessantes da série.

Zumbis podem se recuperar?

A questão obviamente nunca é respondida de forma clara, ainda que a resposta subliminar seja que não. Porém, o interessante é justamente a exploração de quantas pessoas simplesmente não conseguem se desapegar de próximos que se tornaram zumbis. Assim, são criadas as situações mais inusitadas. E o enredo é plausível, e se sua mulher se tornasse zumbi? Ou seu filho? Você não gostaria de tentar recuperá-lo até o fim? Mesmo que isso seja uma tentativa inglória? Melhor não entrar em detalhes para não estragar as surpresas.

E os humanos?

A questão principal é que, em determinado tempo depois da catástrofe, vários acampamentos e comunidades são formados, porém, o mais provável é que você não queira encontrá-los. Se eles sobreviveram tanto tempo, a probabilidade maior é que sejam pessoas da pior estirpe.

Aliás, o assunto obviamente gera inúmeros plots para qualquer roteirista. Quantos mundos doentes podem ser criados simplesmente pela sobrevivência pura e simples. Mesmo as comunidades “boas”, vivem uma eterna possibilidade de serem destruídas por quem vem de fora.

E mais, as autoridades vivem uma eterna necessidade de se justificarem já que não existem mais bases legais para sua autoridade.

Mas será que sempre fomos assim?

Os sobreviventes se digladiam por poder, espaço, mantimentos, armas e qualquer coisa que possa ter valor. Mas será que isso é novidade?

Não. Vivemos em uma sociedade em eterna competição entre nós e a maior prova disso é o mundo corporativo. As empresas querem vender mais que os concorrentes.  E mesmo quando são líderes, querem vender mais ainda, nunca estão satisfeitas. E as empresas são feitas por nós, os profissionais que estão por trás delas. Os profissionais competem entre si, fora e dentro de suas empresas, por melhores cargos. A ética nem sempre é a regra no mundo corporativo, antes pelo contrário. O colega ao lado pode ser sua próxima vitima. Aliás, costuma-se elogiar aquele que tem “sangue frio” para demitir pessoas, cortar benefícios e, enfim, tomar a decisão “necessária”. Muitas vezes não se questiona como o dito cujo vai se segurar “lá fora”.

Sendo assim, surge a pergunta: será que o mundo após apocalipse zumbi é tão diferente do mundo real? Talvez apenas em escala. Enquanto que no mundo corporativo, o dinheiro e a hierarquia costumam ser os principais ativos pelo qual todos se matam, no universo de Walking Dead o território, mantimentos e armamentos são os valores almejados. Mas no fundo, tudo isso significa a mesma coisa: poder.

Mas poder é tão importante assim? Será que tem alguma razão de realmente almejarmos ele? Com exceção do mocinho, os líderes de outros grupos até o momento invariavelmente morreram. Afinal, a história é contada pelos vencedores…

E os zumbis?

Porém, a pergunta que permanece é: será que estamos tão longe dos zumbis? Bom, a maior parte das pessoas, incluso o próprio cronista, vive uma rotina diária: Levantamos, nos amontoamos no trânsito, vamos trabalhar, obedecemos  ordens e pagamos contas.  Os zumbis também cumprem sua rotina de procurar incessantemente pelos personagens, principalmente os secundários.

Mesmo os vivos da série vivem no limiar da sobrevivência, trazendo o questionamento final: será que somos todos zumbis?

Bogado Lins é escritor, roteirista e assistiu toda a série Walking Dead até virar um zumbi

Metalinguagem Televisiva – A TV na TV

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Ano passado tive o privilégio de participar de um evento cujo objetivo era pensar o digital. Uma das palestras que mais gostei foi a do guru Avinash. O início de seu discurso foi destinado para mostrar que a internet finalmente havia ultrapassado a “stupid TV” nos Estados Unidos e estava perto de fazê-lo no Brasil, estúpida porque afinal não oferece os recursos e as milhares de possibilidades que a internet atualmente oferece. O fenômeno era previsto por praticamente todos que atuavam no mercado digital, porém o feito demorou um pouco mais que o setor gostaria e a razão foi uma surpresa para todos: o desenvolvimento dos smartphones.

Basta observar que hoje qualquer plataforma pode ser acessada não apenas para trocar e-mails ou chats, mas sobretudo consumir mídia, incluso vídeos e filmes. Isto já havia abalado indústrias anteriormente, e continua abalando, porém a televisão até então conseguia se manter alheia à crise. A Rede Globo prosseguia com seus feudos a produzir e reproduzir os mesmos programas e formatos de sempre com doses homeopáticas de mudança, sem preocupar-se com a ânsia de novidade de um público cada vez maior.

As repentinas quedas de audiência de programas tradicionais, porém, acenderam o alerta e, pasmem, produziram o primeiro excelente resultado que pude apreciar. Tá no Ar, a TV na TV, se destaca justamente por criticar a instituição TV. Veja bem, a Globo já parodiava a TV, dentro do formato de vender e revender a si mesma que sempre utiliza, inclusive na grade convencional. A emissora frequentemente utilizava os enredos de novelas e da programação em geral para fazer um humor limpinho de si mesma. Metade do Casseta e Planeta era baseado nesta fórmula, o que acabou desgastando ainda mais o programa, que deveria ter acabado pelo menos dez anos antes do que o fizera. Porém criticar, satirizar, ironizar  o formato televisivo na extensão que fez o programa, é algo realmente inovador.

Antes de tudo, ao se projetar no telespectador e sua relação atual com a TV, onde os pacotes a cabo tornaram-se populares, o TV na TV parece ser uma antítese do formato televisivo, como uma unidade. Afinal, a produção audiovisual busca criar uma coerência entre uma atração e outra, mesmo com os inúmeros comerciais entre elas, de modo a suavizar o telespectador e tentar capturar ao máximo a audiência para si. O zapear de um canal a outro, até “encontrar” algo para assistir, serve como crítica à própria plataforma, seja ela intencional ou não. De certa maneira,uma comprovação da máxima “A TV a cabo serve para demorar mais tempo para você se dar conta que não há nada para assistir”. Muito provável que seja algo devidamente planejado, vide as interrupções súbitas que o Adnet realiza para seus protestos humorísticos de cunho teológico-marxista-trotkistas-uspianos. Quadro, aliás, brilhante, que instaura a dúvida de até onde o humorista acha ridículo ou verdadeiro tudo o que ele está dizendo.

O formato alucinante de idas e vindas entre canais concilia cenas absolutamente surreais de cerca de um ou dois segundos, engraçadas ou não, a quadros onde supostamente o telespectador, você, atentou-se e resolveu prolongar a vida útil na tela. As referências televisivas estão por todo lado, a exemplo das chamadas para a faixa etária do programa, ou avisos hilários, como por exemplo “Este programa é recomendado para praticantes de Tai-Chi-Chuan”ou “interrompemos nossa programação para apresentar a propaganda eleitoral gratuita de jingles que só falem a verdade”. E, pela primeira vez neste país, vemos a Globo olhando fora de si, parodiando programas que não estão em sua grade, seja de emissoras abertas ou fechadas. É simplesmente brilhante o quadro Jardim Urgente que, ao mesmo tempo em que critica o formato, também ridiculariza uma tendência de culpabilizar a maioridade penal de 18 anos, mostrando pequenos deliquentes e seus delitos à luz inquisidora de um apresentador à La Datena.

As músicas que já caracterizavam o Adnet também são formidáveis, como a versão que fez do Corcovado para “Tretas do Coração”, ou ainda o espetacular jingle para o suposto candidato que, a bem da verdade, poderia servir para todos. Além dele, o Marcius Melhem está completamente à vontade, exibindo todo seu talento de interpretação humorística. Seguramente, alcançaram um grau de liberdade bastante satisfatório, que permitiu manter o programa engraçado na maior parte do tempo.

As comparações são inevitáveis, TV Pirata sem dúvida seria a maior referência, igualmente inovador e caótico para a época. Porém, o TV na TV tem duas características que o fazem perfeitos para o atual momento… da TV. Afinal, a TV não está mais só na TV. Hoje, o maior desafio de qualquer emissora é conseguir prolongar a durabilidade dos seus programas na internet. E ainda há uma questão crucial para toda emissora. Onde e como compartilhar este conteúdo? Utilizar as plataformas mais acessadas (Youtube, Facebook, Twitter) ou manter dentro do seu “território” para tentar aumentar a rentabilidade?  O fato é que o programa exibe o formato perfeito para ser segmentado, disponibilizado e compartilhado na web, algo que pode contribuir para fortalecer o conteúdo da emissora na plataforma.

Mas isto não é tudo, e também não é o que faz do programa digno de nota, e é aí que retornamos ao argumento inicial. A metalinguagem humorística, de alguma forma, sempre existiu na TV, porém, sobretudo por razões comerciais, nunca pode avançar a ponto de questionar formatos, patrocinadores e até mesmo a televisão como um todo. Sempre pegou o atalho mais fácil, que na época era mais que o suficiente. Entretanto, a atual dispersão do público e a facilidade de consumo de conteúdos, gerou uma nova necessidade: é necessário sobressair-se a todo momento, não em relação a outros canais de TV como antes, mas a absolutamente todos os canais e plataformas que existem no mundo inteiro. E, para isto, é preciso criar conteúdo novo, e constantemente.

Como dizem, a necessidade faz o ladrão. E, sem dúvida, os melhores do Brasil estão na Globo. Este programa, e outras iniciativas que emergem pontualmente, me fazem crer que mais coisa boa vem por aí.

Bogado Lins é escritor, roteirista e articulador do Literatura Cotidiana